Rádio Freamunde

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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Milagre PAF faz puf:

O país está muito melhor. E não é de agora: já em fevereiro de 2014 o líder da bancada do PSD, Luís Montenegro, garantia que "a vida das pessoas não está melhor, mas a vida do país está muito melhor." Modéstia, já se vê. Sabemos agora que não é só "a vida do país" que melhorou, mas a das pessoas também - dizem-no em coro Passos e Portas. E melhorou em relação a quê? A 2011, que, como é sabido, é o princípio do mundo e medida de todas as coisas no que a PSD e CDS diz respeito.
Veja-se por exemplo o desemprego, segundo o porta-voz do PSD, Marco António Costa: "Face aos 661 mil desempregados existentes em junho de 2011, temos em junho de 2015 636 mil. Isto é, uma redução superior a 20 mil desempregados." E o centrista Nuno Magalhães coadjuva: "A taxa de desemprego de 12,4% em junho, divulgada pelo INE, está pela primeira vez abaixo da deixada pelo governo socialista que era de 12,7%."
Não é que suspeitemos da veracidade destas afirmações - por amor de deus, temos lá motivos - mas visitar os relatórios do INE é sempre interessante (embora enlouquecedoramente difícil, o que talvez explique o motivo pelo qual é tão fácil jogar com números sem contraditório). Ora se a estimativa do INE para o desemprego de junho de 2011 (até 2014 só eram apurados valores trimestrais) é a apresentada pela coligação, o problema é aquilo de que ela não fala, compreensivelmente: o número de empregados. Em junho de 2011 eram 4,703 milhões; em junho de 2015 são 4,494 milhões. Ou seja, 209 mil empregos a menos. Uma diferença que faz empalidecer um pouquinho a tal vantagem de "menos 20 mil desempregados" cantada por PSD e CDS.
Ou seja: para um nível de desemprego registado (fixem esta expressão, é importante) um pouco inferior temos muito menos empregados em junho de 2015 do que em junho de 2011. Portanto, não tendo morrido 200 mil pessoas em idade ativa nestes quatro anos, deveríamos ter muito mais desemprego registado. Por que não temos? Uma das respostas tem que ver com os desempregados que já não estão nas estatísticas de procura de emprego porque desistiram de o procurar. No primeiro trimestre de 2015 (estes dados não estão ainda disponíveis para o segundo trimestre), o INE calcula em 256,8 mil o número de inativos "disponíveis" - ou seja, não são estudantes, reformados ou "domésticos" - que não procuram emprego; no segundo trimestre de 2011 seriam 146,8 mil. Concluindo: em junho de 2015 há mais 110 mil de-sempregados "desencorajados". E há ainda, claro, a emigração. Entre 2011 e 2014, a população em idade ativa (dos 15 aos 64) passou de 6 961 852 para 6 879 414. 82 438 pessoas, sobretudo na faixa etária entre os 20 e os 35, desapareceram das estatísticas. "O PSD fez contas", titulava ontem o DN online. Fez: à nossa distração e cansaço. A ver se a malabarice pega - outra vez.
FERNANDA CÂNCIO
Hoje no DN

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Frango caseiro e frango do aviário:

Quem gosta de um bom arroz de cabidela de certeza que o prefere com frango caseiro. É que a sua carne e sangue tem um paladar diferente do frango do aviário. Sabe-se, que por várias razões, a sua alimentação é diferenciada. Um é criado ao lar livre e assim pode saborear os vários alimentos que a mãe natureza lhe dá. O outro - frango do aviário - é criado à base de produtos de engorda e à luz de lâmpadas de iodo.
Peguei nesta comparação e quis servi-la de intróito a uma notícia veiculada pelo semanário TVS (Jornal Terras do Vale do Sousa) semanário, que do Vale do Sousa só dá relevo a Lousada, de um texto de Joaquim Gonçalves, Presidente da LADEC (Lousada Associação de Eventos Culturais), que foi a organizadora das Festas do Concelho de Lousada em honra do Senhor dos Aflitos.
Diz o senhor a páginas tantas e, sem que ninguém lhe pedisse comparações, que as festas do Senhor dos Aflitos são as melhores que se realizam no Vale do Sousa, indo ao ponto de as classificar superiores às Sebastianas de Freamunde. Gostos não se discutem. Já se discute o que se leva a esses gostos.
Como se sabe em Freamunde a Comissão de Festas é eleita pela Comissão cessante e dada a conhecer na missa em Honra do Mártir S. Sebastião. Na terça-feira a seguir às festas é-lhes oferecido um jantar e a a passagem de testemunho para trezentos e sessenta e cinco dias de trabalho. É um ano de intenso trabalho onde se tem de adquirir força de vontade e muitas ideias para se pôr em prática.
Não é antes uns dias arranjar uma associação, dar-lhe uma “pipa de massa”, o que acontece com várias câmaras municipais, e essas associações tratarem de todo o programa da festa. Não! Tem de haver sentimento. Desse sentimento nasce o que muita gente apelida de bairrismo. E a freguesia de Freamunde tem carradas dele.
O senhor Joaquim Gonçalves faz comparações do incomparável. Freamunde não precisa do apoio - não é concelho - das muitas freguesias como é o caso de Lousada. A Comissão das Sebastianas através de si e dos habitantes de Freamunde faz das tripas coração para durante dez ou mais dias a sua gente sentir orgulho neste torrão que tais filhos gerou. É nisto que está o bairrismo.
As suas colectividades e associações dão as mãos para que as Sebastianas sejam um sucesso. É o que faz com o concurso nacional de quadras ao Mártir S. Sebastião que todos os anos a Associação Cultural e Recreativa Pedaços de Nós organiza. “Ai se eu pudesse faria / De Freamunde, um altar, / Na toalha bordaria / Festa e bombos a rufar”.
Durante mais de seis meses vários artesões de Freamunde oferecem o seu préstimo, após a hora laboral, para confeccionar os carros alegóricos que vão abrilhantar as Grandiosas Marchas. Sobre um tema da autoria da Comissão de Festas e o material a expensas desta, lá vão construindo o que na passagem da marcha deixa muitos Freamundenses e forasteiros de boca aberta.
São coisas assim que deixam no pensamento de quem nos visita o tal bairrismo. E em quem tem a responsabilidade de tal empreendimento, muitas vezes com sangue, suor e lágrimas, aquando seu término ficar com um sentimento de dever cumprido. É um ano em que as Sebastianas se sobrepuseram à família dos elementos que compõem a Comissão de Festas. E quem lho diz senhor Joaquim Gonçalves já passou por isso. Não somos como o senhor um agente de festas que da maneira como compara as Festas Sebastianas parece que está a pretender também vir a ser um agente das Sebastianas. Para seu conhecimento advirto-o que isso é impossível. Se porventura, um dia não houvesse quem não tomasse conta das Festas Sebastianas, não faltava nas Comissões cessantes a ombrear com tal tarefa. Mais uma vez refiro: isto é que é bairrismo. Freamunde à nascença dos seus filhos unge-os com esse sentimento.
Depois não temos complexos de inferioridade. Sabemos o que valemos. E nunca nos comparamos com outras festas que se realizam no Vale do Sousa e seus arredores. Para prova disso até somos os primeiros a celebrá-las. Por isso não as copiamos como fazem muitos.
No que toca ao cartaz musical já passou por aqui de tudo que de melhor há no País: Pedro Barroso, Rui Veloso, Jorge Palma, Ana Moura, Carminho, Emanuel, Quim Barreiros, Trovantes, Xutos e Pontapés, Azeitonas, Diabo na Cruz e tantos outros que não nomeio mais com receio de me esquecer deles. Mesmo no aspecto do cartaz musical há imensos anos que somos obreiros destes eventos.
Muita coisa havia para dizer. Mas vou referir somente os eventos que as Comissões das Festas levam a efeito durante o ano: sorteios, festa do festeiro, torneios de futebol de salão, sueca, abertura diariamente do café das Sebastianas, leilões, peditórios por todas as casas de Freamunde, etc., etc.
Perante isto gostava que me dissesse senhor Joaquim Gonçalves se as “Grandiosas Festas de Lousada” têm estes condimentos. É claro que não. Antes uns quinze dias, a Câmara Municipal, arranja uma verba assim como um agente e dá início às “Grandes Festas de Lousada”. E como no futebol há agentes dos jogadores, estes, também estão a chegar às festas.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bombeiros Voluntários de Freamunde:


ENQUADRAMENTO HISTÓRICO
Freamunde fins do século XIX e início do século XX
Os cidadãos de Freamunde viveram de perto os principais acontecimentos da viragem do sec. XIX para o séc XX. Depois das lutas populares - cabralistas e miguelistas - de meados do sec. XIX, também assistiu às disputas monárquicas e repubicanas, tendo entre o seu povo figuras que tiveram assento na administração concelhia, antes (Dr. Alberto Cruz, 1910, Leão de Moura 1882) e depois do Estado Novo (Serafim Pacheco Vieira 1926 e António José de Brito, entre outros).
Mas Freamunde também haveria de ser a "freguesia mais retintamente reaccionária, apesar de haver na mesma alguns repubicanos exaltados". Dois nomes apontados como suspeitos de terem participado na rebelião de 19 de Setembro de 1911 estão também ligados à ulterior fundação da ABVF: António José de Brito e Armando Nunes de Oliveira.
No dealbar do séc. XX, Freamunde já colhe os frutos do seu desenvolvimento. Em 1911 o Concelho de Paços de Ferreira tem no seu todo 3 198 fogos e uma população de 13 844 habitantes, sendo que 449 fogos são de Freamunde, para uma população de 1962 habitantes. Em 1920 o Concelho tem 3 135 fogos e uma população de 13 787 habitantes. A povoação de Freamunde tem 463 fogos e 2029 habitantes. Em 1930 a população tinha atingido os 15 823 habitantes no Concelho e Freamunde chegara aos 2349.
A paisagem humana de Freamunde nas primeiras décadas do séc. XX, embora denunciando uma certa centralidade comercial e urbana, não perdera as características de ruralidade, mas estava à porta o processo de industrialização.
São várias as instituições em funcionamento. Daí resulta uma actvidade social constante, são peças de teatro, espectáculos de música, de cinema, etc . Verifica-se que a sua população participa nas várias actividades.

No início do séc. XX a força motriz do Rio Ferreira é que permitiu a instalação da pouca indústria existente (moagem, serração, azeite, além destas teve expressão a indústria de lacticínios - manteiga), de modo que na generalidade o Concelho era caracterizado em 1881 como um centro de produção fabril rural.
É na segunda década do séc. XX que se desenvolvem importantes pólos industriais na freguesia de Freamunde e que, de certo modo, impulsionam a indústria do mobiliário, que é hoje a principal fonte de riqueza do Concelho de Paços de Ferreira.
Comercialmente as feiras do Cô (que se realizavam a 5 e 21) e as de Freamunde (a 13 e 27), embora vinculadas à actividade agrícola, eram os principais mercados do Concelho. Mas não era apenas nos momentos da feira, e nesses locais, os lugares de compra e venda. Embora existissem estabelecimentos espalhados pelas freguesias, era no Cô e em Freamunde onde se concentravam e aos quais ocorriam pessoas dos Concelhos de Sto. Tirso, Paredes, Lousada, Felgueiras, Guimarães, Fafe, Valongo, Maia, Gondomar, etc .
Freamunde e Penamaior, durante todo o séc. XIX, concentravam o maior e mais diversificado número de estabelecimentos comerciais do Concelho. Quase até aos nossos dias, o centro urbano da então Vila de Freamunde carcterizava-se pela presença viva da "Praça", um local de comércio bem definido.
As décadas de 20 e 30 do séc. XX marcaram positivamente aquela que é hoje uma cidade e, em termos demográficos, a maior freguesia do Concelho de Paços de Ferreira. Neste período nasceram diversas instituições que ainda hoje são simbolos da Freguesia. O Clube Recreativo Freamundense, a Associação dos Bombeiros Voluntários, o Sport Clube de Freamunde e a própria freguesia consegue e elevação à categoria de Vila.
A importância atingida pela povoação de Freamunde e o seu movimento industrial e comercial da época justificou a elevação a Vila num decreto promovido pelo Governo de Oliveira Salazar, promulgado por Óscar Carmona e publicado a 13 de Junho de 1933 no Diário da República.
(CONTINUA)
JOÃO VASCONCELOS - "BOMBEIORS VOLUNTÁRIOS DE FREAMUNDE - 75 ANOS"

domingo, 19 de julho de 2015

Por acaso foi ideia nossa fazê-lo primeiro-ministro:

Em junho de 2009, na ressaca de uma derrota retumbante nas eleições europeias e a caminho das legislativas, José Sócrates deu uma entrevista à SIC em que se manifestou "muito contente" consigo próprio. Quando são chamados a fazer balanços, os primeiros-ministros perdem todos, uns mais do que outros, é certo, o sentido do ridículo. E Pedro Passos Coelho também não é imune ao vírus da soberba e da falta de vergonha.
Finda a cimeira do euro que adiou (?) a tragédia grega, o primeiro-ministro gabou-se de ter sido ele a desbloquear o acordo com Tsipras. "Por acaso foi uma ideia minha", declarou, muito contente consigo próprio, referindo-se ao fundo de privatizações. Mas menos de uma semana depois ficámos a saber, pela voz do presidente do Conselho Europeu, que o agreekment terá sido afinal alcançado por causa de um sms do primeiro-ministro holandês. Está por esclarecer qual a versão verdadeira desta narrativa. Mas de duas, uma: ou Passos Coelho mentiu, o que não é notícia, ou de nada lhe serve a subserviência e proteção à bem-intencionada Alemanha - Schäuble nunca desejou o grexit, quis apenas "discutir todas as possibilidades" -, já que lá fora ninguém lhe passa cartão.
A semana prosseguiu com a entrevista à SIC, em que Passos Coelho expôs aquela que será a sua estratégia para as próximas eleições legislativas. Que o memorando que herdou da governação de José Sócrates estava mal desenhado, que "as contas estavam mal feitas e não fui eu que as fiz", enfatizou. Esqueceu-se, por acaso deve ter sido ideia sua, das palavras do Dr. Catroga em maio de 2011, quando afirmava que "o PSD deu um grande contributo" para que o programa da troika fosse aquele que veio a ser assinado. E portanto, se por acaso "as contas estavam mal feitas", foi certamente por ideia do atual primeiro-ministro.
A mentira política como programa e narrativa é o modo de vida escolhido por Pedro Passos Coelho. É o mesmo que na entrevista televisiva apelou à "prudência", para não dizer hoje uma coisa e "a seguir ter de fazer o contrário"; que em 2011, mal se apanhou em São Bento, impôs, por acaso foi uma ideia sua, um desvio colossal às promessas feitas em campanha eleitoral com o único objetivo de ir além da troika. O primeiro-ministro, roubo a expressão ao Nicolau Santos, tortura os números do desemprego e da criação de emprego, falsifica a verdade sobre a evolução do défice, é intelectualmente desonesto no que à redução da precariedade laboral diz respeito. Basta sair à rua para responder a anúncios de emprego para verificar que a esmagadora maioria das ofertas de trabalho são a tempo parcial. Mas enfim, por acaso tudo isto resulta seguramente de ideias do primeiro-ministro. Também deve ter sido ele que, por mero acaso, se lembrou de mandar Jorge Jesus para o Sporting, de sugerir a contratação de Iker Casillas pelo FC Porto, ou quiçá de que haja chuva em novembro e Natal em dezembro.
A verdade verdadinha é que, por acaso, foi ideia nossa fazer de Pedro Passos Coelho primeiro-ministro. O povo, nas próximas eleições, até pode vir a revelar-se relapso e insistir nesta ideia brilhante. Mas, nessa altura, já não será preciso fazer como com as melancias.
Nota: Não conheço Laura Ferreira, a mulher do primeiro-ministro, de parte alguma. Aprecio-lhe a coragem, igual à de tantas mulheres, de não esconder e enfrentar o cancro de que desgraçadamente padece. Já tudo se disse - e a Ana Sá Lopes no i melhor do que todos - sobre a polémica infame do momento em que foi fotografada ao lado de Passos Coelho em Cabo Verde. Resta-me recusar vigorosamente a tese de tentativa de aproveitamento eleitoral da doença da mulher por parte do chefe do governo. É que, se por aberração isto lhe passasse pela cabeça, seria tão canalha como aqueles que agora usam a imagem de Laura Ferreira sem cabelo para o atacar.
NUNO SARAIVA
Hoje no DN

sábado, 18 de julho de 2015

Volta ao Mundo:

A Marcha alegórica das Festas Sebastianas de Freamunde dois mil e quinze foi sobre o tema "A volta ao Mundo". Assim como quisemos dar ao conhecimento a quem nos visitou neste dia e hora, também queremos dar a conhecer ao Mundo o nosso lema. Desfrutam.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Putrica:

Todos os anos durante as festas Sebastianas, Freamunde é obsequiado com a vinda do (Putrica),Propostas Urbanas Temporárias de Reabilitação e Intervenção Cultural e Artística, para a pintura artística mural, este ano na EB 2,3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos. Tem sido uma mais-valia porque estas pinturas são feitas em fachadas de casas abandonadas, excepto este ano, que como foi dito mais acima no muro da escola EB 2,3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos. Podem ver a obra artística nas fotos abaixo. 


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sobre as Festas Sebastianas 2015:

Não tenho pejo em classificá-las como uma das melhores que se celebraram em Freamunde. Sou dos que digo que as melhores são as que vem sempre a seguir. Por isso já espero pelas de dois mil e dezasseis. Mas voltemos às de dois mil e quinze que é esse propósito que me traz aqui.
Se digo que não tenho pejo em classificá-las como uma das melhores, também digo, que há uns pequenos senãos para que isso não volte a aconteça. Vou-me debruçar sobre eles e estou receptivo às críticas venham elas de onde vierem. Não compreendo e, já o referi num comentário que fiz e que fui criticado, ao ponto de me adjectivarem com impropérios menos próprios, sobre os placardes expostos nas entradas de Freamunde a publicitar os dias em que são comemoradas as Sebastianas.
Nesses placardes está a imagem de duas vacas de fogo, dando a entender a quem por aqui passa e não sabe a origem das comemorações das festas Sebastianas que se trata de uma feira de gado. Os Freamundenses sabem que a publicidade é às festas Sebastianas e não às vacas de fogo. Por isso entendo que nesses cartazes devia haver lugar para a imagem do Mártir S. Sebastião. Não sou contra a festa profana: pelo contrário. Mas é a religiosa e é nela que está a razão de ser das festas.
 Assim como na década de cinquenta do século passado, elas estiveram proibidas pelo Bispo do Porto da altura, porque só queria a celebração da parte religiosa, era contra a profana, entendo que agora também é tempo de pôr nos ditos placardes a imagem do Mártir S. Sebastião para mostrar a parte religiosa das festas. Já basta ouvirmos muitos a referirem-se que as Sebastianas se estão a tornar num festival de rock. Assim, a acontecer também concordo com esse dizer.
Depois as Sebastianas não são só um mar de gente. Há que providenciar para certas coisas que estão a acontecer. Sei que é um ano de muito trabalho mas há que tomar resoluções. E… mais vale tarde que nunca.
Assim passo a descrever o que acho na minha óptica que está mal. Devia de haver uma melhor selecção de lugares de exposição dos negociantes. Não é no coração da cidade e festas que se deve pôr a venda de marroquinaria, de sapatos e outras coisas mais. O que eles pagam de aluguer do espaço não dá para limpar o lixo e a triste utilização do espaço.
Em frente à farmácia Barros deviam de proibir o estacionamento a viaturas, todas velhas, dos negociantes. Ano passado ainda houve a preocupação de no sábado retirarem dali todos os veículos para dar uma melhor imagem e espaço a quem gosta de ouvir as bandas filarmónicas.
 Temos de pensar que nestes dias somos visitados por milhares de forasteiros e de certeza a imagem que levam de Freamunde não é a melhor. Custa-me dizer isto. Mas quando vou a qualquer lugar a primeira coisa em que reparo é no asseio dessa terra. Por isso julgo que é o mesmo que fazem a Freamunde.
Sabe-se que quem ganha com as Festas Sebastianas monetariamente é o comércio local. Por isso entendo que deviam primar pela limpeza do seu espaço. Sei que vão argumentar que pagam bem de taxa de limpeza e do aluguer da barraca da cerveja Sagres. Não discuto. Mas mesmo assim deviam primar para que a limpeza desse espaço fosse uma realidade.
Também a Comissão de Festas devia de providenciar uma verba do seu orçamento para que todos os dias o espaço onde se realizam as Sebastianas fosse limpo. É que assim havia menos lixo exposto e a limpar.
No dia em que escrevo este texto, dezasseis de Julho, passei pelo de centro Freamunde e ainda existe carradas de lixo. Três ou quatro funcionários da Suma para tanto lixo. Aqui também segue uma crítica à Junta de Freguesia de Freamunde e Câmara Municipal por tanto desleixo. Não me digam que não há funcionários da Câmara para valer nestas situações.
Não é só fazer o acompanhamento na Procissão do Mártir S. Sebastião, para dar nas vistas, ou vir ao quadro principal da luz eléctrica dar o seu arranque. Não… é preciso mais que isso. Assim como é uma necessidade um WC público, além dos improvisados, para valer das necessidades dos foliões. Não é como vi os donos das casas andarem a varrer e deitar lixivia para tirar o cheiro nauseabundo.
Outra coisa era impor aos proprietários das barracas a tonalidade do som. Não é por tudo e nada debitar barulhos. A discoteca à beira do coreto da música e a do espaço Sagres deviam ser chamados à atenção para o horário das mesmas. Não se admite que às nove horas da manhã ainda estejam em funcionamento. É ver que o que pagaram pelo espaço não dá para a incómodo e limpeza do lixo. Muito mais coisas havia a dizer. Fico-me por aqui.
Só espero que estes meus lamentos não caiam em saco roto. Que a Comissão de Festas Sebastianas de dois mil e dezasseis estejam mais atentos com a organização e limpeza do espaço circundante da festa. Se melhorarem alguma coisa já valeu a pena esta minha solicitação.         

terça-feira, 14 de julho de 2015

Cortejo alegórico. A volta ao Mundo:

Foi com esta denominação que a Marcha Alegórica, das Festas Sebastianas dois mil e quinze quis abrilhantar os Freamundenses, e forasteiros, que são aos milhares, para tomarem conhecimento, se é que já o tem, dos cinco continentes: Europa, Ásia, África, América e Oceania. E não haja dúvidas que os voluntários Freamundenses que deram o seu préstimo à elaboração dos carros alegóricos estão de parabéns.
Abdicaram desde Janeiro do seu tempo de ócio além do horário laboral. Todas as noites se dirigiam para os pavilhões da Comissão de Festas Sebastianas para mostrarem os seus dotes artísticos. Não sei quantos carros, não os contei, fizeram parte do cortejo. Mas julgo para cima de dez. E não haja dúvidas que cada um representava com imagens e personagens os tais ditos cinco continentes, que aprendi na escola, mas que hoje são seis, porque a Antárctida também chamada de “Polo Sul”, é o quarto maior continente do mundo, com aproximadamente 14 milhões de km². Sua área é dividida entre vários países do mundo, que realizam pesquisas e estudos científicos.

No lugar onde me encontrava eu e minha esposa, ali esperei umas boas três horas, para admirar essa beleza que os ditos voluntários nos presentearam, assim como os festeiros com a organização da dita marcha.
À medida que cortejo prosseguia a juventude vibrava de tal ordem que era impossível o cortejo prosseguir. Logo no início do cortejo vinha o rancho folclórico e de seguida o grupo de Delães onde ambos vinham a tocar e a cantar Ó Freamunde ó Festas Sebastianas.

Se já há um bom par de horas, que à beira do Café Malheiro, essa música era cantada por uma boa parte de Freamundenses, assim como o hino de Freamunde e Freamunde Allez. Não se pode dizer que era bem cantado porque se tratava de jovens amadores, no que toca à música. Mas era do agrado da maioria das pessoas ali presentes.

Seguiam-se os carros alegóricos os grupos de samba e eram novamente interrompidos pelo cantar, rir e dançar da juventude ali presente cada vez eram em maior número. Os agentes da autoridade que acompanhavam os grupos de samba para que estes não fossem interrompidos nada podiam fazer.

O que dava mais jeito era colaborar com a juventude. É que nesses momentos não convém ser severo para que as coisas corram com normalidade. E… todos saíram a ganhar. Quem ali estava já sabia que era mais hora menos hora. A noite já estava perdida.

Passaram todos os carros alegóricos e perguntei à minha esposa. Gostaste? - Eu gostei. Respondi-lhe logo porque sabia que ela também ia dizer o mesmo. E… agora pergunto. Quem não gostou? Julgo que a resposta será: obviamente gostamos. Nem valia a pena fazer a pergunta. Bastava olhar para os rostos da assistência.

De uma coisa estou certo. Todos os Freamundenses já estão a pedir para que cheguem depressa as de dois mil e dezasseis. Porque estas já fazem parte da história como as outras antecedentes.
Mas fica bem um obrigado à Comissão de Festas de dois mil e quinze. Pela minha parte aqui vai o meu muito obrigado.

Sessão de fogo:

Acabadinha há pouco tempo. Que grande sessão de fogo-de-artifício. Freamunde é assim. Esquece as suas preocupações durante as festas Sebastianas e tudo faz para mostrar a quem nos visita do que somos capazes. Vou agora sair de casa para ver a monumental marcha alegórica. Nesta noite Freamunde não dorme. Novos e velhos dão cor e alegria às suas Sebastianas. Somos assim: alegria na festa e festa na alegria.




sábado, 11 de julho de 2015

Os Indícios do indício do indício:

(Estátua de Sal, 10/07/2015)

Eu olhei para ti e o teu nariz indiciava que estavas constipado. Estava meio para o vermelhusco. Mas, isso sou eu que não percebo nada de indícios. O Juiz Alexandre e o Procurador Rosário, não. Esses são especialistas em indícios.

Tiveste azar. O Rosário cruzou contigo, quando foste à farmácia comprar Nasonex, olhou-te para o nariz e viu logo que a constipação era uma grande tanga. Tu eras, sim, um cocainómano inveterado, via-se logo pelo nariz, e lá foste engavetado, por fortes indícios de consumo de drogas. Recorreste da pena, claro, mas como podias continuar a snifar, mantiveram-te em preventiva para o Rosário poder discernir a proveniência do pó.

Foram-te ver as contas bancárias. Azar o teu. Tinhas comprado no Ebay, uma mala Louis Vuitton, daquelas caras mas chiquérrimas, que estava ao preço da chuva, e tinhas pago com a conta do Paypal. Quando o Rosário viu a transação compreendeu tudo. Era um forte indício de que além de snifares ainda eras traficante. Sim, porque ninguém compra malas que venham vazias. O pó vinha lá dentro, de certeza. Conclusão: passaste a ser acusado de tráfico de droga, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

A partir daqui, o Rosário entrou em ebulição. Mandou a Judite lá a casa. Tragam a mala. Mais uma vez, azar o teu. Tinhas querido preservar o seleto cabedal, das traças e de outra bicharada, pelo que tinhas espalhado naftalina em profusão por dentro e por fora. Quando o Rosário viu os tons esbranquiçados, não teve dúvidas: não eram fortes indícios, era a prova acabada do crime e, por consequência, da sua sageza.

Mas o Rosário não ficou por aí. Continuou a ver-te os extratos bancários. E, azar o teu. Há quatro anos, antes da crise, tinhas tido uns quinze dias maravilhosos de férias na Colômbia, acompanhado por uma namorada que tinhas conhecido num chat da Internet. Estava tudo claro. Já não eram só fortes indícios. Era óbvio que só podias pertencer à rede de tráfico do Pablo Escobar ou de outro traficante qualquer. O Rosário era brilhante.

E lá foste apodrecendo os ossos na pildra.

Achaste que tudo isto era uma grande ignomínia, até porque, O Correio da Manhã, sem tu perceberes como, fazia grandes manchetes noticiando que estava em vias de ser desmantelada uma importante rede de tráfico de droga da qual tu serias o cabecilha. E mais, a tal namorada, que já não vias há dois anos, e que tos tinha posto com o teu melhor amigo, era apresentada como tua cúmplice e também cabecilha da rede. Azar o teu. Um mal nunca vem só.

Os advogados lá iam metendo recursos. Queriam que o Rosário te acusasse ou que o Alexandre te mandasse para casa. Que não, que não podia ser. Que o processo era de “especial complexidade”. Havia que contactar o FBI, a Interpol, a CIA, a Mossad e esperar a resposta. Logo, toma lá mais três meses de chilindró.

Entretanto o Rosário afadigava-se. Parecia um perdigueiro. Sentia que tinha em mãos um caso graúdo, e que tal exigia especial perícia investigatória.

Mandou pedir, à agência de viagens, a lista de todas as viagens que tinhas feito nos últimos dez anos, na expetativa que alguma delas te tivesse sido “oferecida”, o que indiciaria eventual corrupção. Azar o teu. Há dois anos tinhas feito férias no Algarve e ficado alojado em Vale do Lobo. Quando soube, o Rosário entrou em delírio. Era a prova que faltava. A prova das provas.

No dia seguinte, o Correio da Manhã, trazia em grande caixa, como sendo os últimos desenvolvimentos da Operação Marquês: DINHEIRO PARA SÓCRATES TAMBÉM PROVINHA DA COLÔMBIA. E desenvolvia o tema. Traficante de droga, transportava dinheiro para Sócrates em malas Louis Vuitton. A investigação suspeita que as entregas seriam feitas no empreendimento de Vale do Lobo, pelo traficante, a quem Sócrates pagava as férias para poder receber as verbas.

Eu sei que tu achas que tudo isto é uma grande injustiça. Uma conspiração. Que nunca snifaste, que a namorada te traiu, que não conheces o Sócrates de lado nenhum, que não fizeste nada, e que só apanhaste uma constipação. Eu sei tudo isso, pois sei. Mas não te vale de nada o que sabemos ambos.

Mas olha, deixo-te um conselho. Se conseguires sair vivo desta, não te cruzes mais com o Rosário e evita ires à farmácia onde ele compra o Libidum Fast que o Futre anuncia, em dupla e libidinosa companhia. E, de preferência, não te constipes outra vez. Fica mais barato pagar a vacina da gripe do que pagar aos advogados.

E, enquanto estiveres preso, vai lendo livros policiais, mas dos melhores: Conan Doyle, Agatha Christie, Dashiell Hammett e outros que tais.

É que, há gente que errou na profissão, como parece ser o caso do Procurador Rosário. Devia sonhar ser escritor de romances policiais e carrega o fardo de uma vocação reprimida. E a frustração dá nisto, como vês: consegue fazer de uma constipação um caso de polícia. Na verdade, é um grande autor de literatura policial. Mas da má. Da que cheira a cordel por todo o lado.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Não há almoços grátis:

Há muito que não escrevo um texto. Não é por falta de temas, mas sim, por falta de vontade. Ando um pouco aborrecido com o que ouço e vejo. Ainda ontem assisti ao debate do Estado da Nação no Parlamento, através do Canal com o mesmo nome. E a minha admiração foi total com o que Passos Coelho nos tentou vender. O País que ele proclamou de certeza não é Portugal.
Portugal está imenso pobre e este governo só sabe produzir pobreza. Basta estar atento aos textos e comentários que são escritos nas redes sociais. Depois de contrariado pelos partidos da oposição não deixou de os contrariar levando os seus correligionários, PSD E CDS, a levantarem-se das cadeiras para lhe bater palmas. Fez-me lembrar as claques de futebol. Triste espectáculo. Até parece que com isto fazem mudar a opinião dos portugueses. De tantas que disse que foi apelidado de mentiroso. E não há dúvida que é isso que ele é.
Está a governar Portugal na base da mentira. Também tem em Cavaco Silva um aliado. Se assim não fosse já há muito que não era primeiro-ministro. Mais a mais que este governo está a governar fora de prazo. Fez quatro anos no dia um de Julho deste ano que começou a governar mas Cavaco Silva deu-lhe mais tempo de vida para lavar a sua face. Mesmo assim não vejo lura de onde saia coelho.
E a prova provada é que tanto Cavaco Silva como toda a comunicação social tenta segurar este governo. Senão vejamos: ontem depois do debate do “Estado da Nação” é que a TVI, Público e TSF deram a conhecer os resultados dessa sondagem. É impossível que esses resultados não fossem do conhecimento antes do dito debate. É o que faz ter no governo assessores que são jornalistas.
Rui Baptista editor de Política da Lusa e agora assessor do actual primeiro-ministro foi dos jornalistas que mais criticou o governo de José Sócrates. Hoje é um lambe botas que só anda atrás de Passos Coelho. Desconfio que até para o Wc o acompanha.
Mas voltemos às sondagens. Sei que a verdadeira sondagem é aquela que se faz depois das urnas fecharem. Mas é mais gratificante ir à frente do que atrás. Refiro-me ao que toca à classificação. Não levem para segundo sentido.
Depois é aterrador a diferença entre António Costa e Passos Coelho. Assim como é aterrador o estado do País. Agora não me venham dizer que se estes resultados saíssem antes do debate o peito que fez Passos Coelho não era o mesmo. Também não era apelidado de mentiroso. Embora saibamos que não passa de um aldrabão.
Assim só deve agradecer a estes órgãos de informação os favores que lhe fizeram. Mas em tudo não há almoços grátis. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Maria Barroso, uma árvore rija e acolhedora:

E ela voltou a fazê-lo. Levantou o dedo, tinha de dizer o que pensava. Estava a falar o representante dos Estados Unidos, a justificar a não assinatura do tratado contra as minas antipessoais, Otava, 1997. Quando o general se calou, Maria Barroso exclamou que aquela atitude era injustificável e arrancou uma enorme salva de palmas. Sem os votos dos Estados Unidos, da China e da Rússia, a convenção foi assinada por 162 países e proibiu o uso, o armazenamento, a produção e o transporte de minas antipessoais, determinou a sua destruição.
Nunca calava a indignação. Construiu-se no equilíbrio entre o que tinha de ser feito e o que ela achava que tinha de fazer. Cresceu nas dificuldades de uma família na qual recusar a ditadura causou estragos brutais, situações inimagináveis hoje, porque o regime do Estado Novo não tinha meias-tintas e prendia, deportava, tirava a possibilidade de trabalho e de uma vida normal aos que a combatiam.
Havia nela uma firmeza de princípios que não lhe dava espaço para hesitar, estava na sua natureza. Escolheu o teatro, um caminho difícil quando esse mundo era malvisto. Estudava na Faculdade de Letras de dia, à noite ia para a Companhia de Amélia Rey Colaço. Na única noite em que a mãe não a acompanhou, adormeceu no camarim e falhou uma deixa. Primeiro ficou aflita, depois avançou para o palco, no 3.º ato de Antígona, formosa e segura. Quando dizia poemas, ali estavam a voz da atriz e a convicção herdada da família. Quando discutia política, tinha opiniões fortes e não se coibia de defendê-las.
Amou um homem e não se escondeu à sombra dele. O regresso à fé católica não a afastou de nada do que lhe era essencial, pelo contrário. Com Mário, o filhos, os sobrinhos, os netos, o colégio criado pelo sogro, o partido que ajudou a fundar, ela era uma árvore rija e acolhedora. Duríssima se preciso fosse. Não era uma ex no que quer que fizesse, estava sempre lá. Citava uma frase que ouvira ao padre Feytor Pinto: se queres que alguma coisa seja feita, pede a quem tem muito que fazer. Criou a Fundação Pro Dignitate, porque se preocupava com os outros e era atenta e solidária.
Foi feliz no último dia em que esteve consciente, na festa de fim de ano do Colégio Moderno. Jantou em família, o clã que lhe era uma das razões de existir. Caiu, não deu importância a isso, e só porque insistiram foi ao hospital, elegante como sempre. Ficou internada por precaução, para fazer exames no dia seguinte. Serena, porque não tinha desperdiçado o tempo que viveu. Entrou de repente na noite escura e o corpo frágil demorou até perceber que estava na hora de fazer o que era preciso.
ANA SOUSA DIAS
Hoje no DN

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A democracia e a Europa voltaram a nascer na Grécia:

Os conceitos de democracia e de Europa herdámo-los da Grécia da antiguidade clássica. No dia 5 de Julho de 2015 – que privilégio, por entre a asfixia da crise e dos seus discursos, assistir em directo a um tal evento histórico! – a possibilidade de um projecto democrático europeu voltou a ressurgir, a possibilidade sublinhe-se, pela votação do povo grego.

Afirmar isto de modo nenhum significa um apoio à política do Syriza. Politicamente, estes cinco meses foram de jogos de esconde, promete e adia, de um radicalismo verbal - de que o expoente é Yannis Varoufakis, o “desengravatado” que afinal é um distinto exemplo de “esquerda caviar”, como se viu na reportagem fotográfica na “Paris Match” - afinal simétrico desta terrível rarefacção de pensamento e discurso característica da casta oligárquica das instituições europeias.

Mais: a germanofobia e o jogo chantagista com a aproximação a Putin foram não só perigosos como abjectos. Mais ainda, ponto fundamental que os apoiantes do partido e de Tsipras cuidadosamente rasuram: até pela sua aliança com um partido de direita nacionalista, os Gregos Independentes, o governo do Syriza nada, mas nada fez no sentido da reforma do sistema clientelar que durante décadas sustentou o duopólio Nova Democracia/Pasok ou da situação simbólica mas também fundiária e tributária de privilégio da Igreja Ortodoxa, inclusive contrária aos princípios de laicidade que são suposto reger os Estados democráticos, e desde logo os que integram a União Europeia.

A história das responsabilidades da crise na Grécia é longa, e não se reduz a situações de “privilégio” e muito menos a uma ausência de capacidade e disposição produtiva, como foi repetido à saciedade num vergonhoso discurso de ostracização daquele país, inclusive repetido até à véspera da votação por Passos Coelho e Paulo Portas, sempre “mais troikistas que a troika”. Essa crise é inseparável do regime de duopólio e de desordenadas contas públicas, mas também do apoio activo a essa política por parte da banca internacional, que, com os juros dos empréstimos, acabou por ser a grande e única beneficiária da crise.

Toda essa história existe, não pode ser denegada, e tem profundas consequências na situação actual do país. Todavia o desafio que representou o referendo tem implicações de outra ordem para toda a Europa: aprecie-se ou não o resultado - com a vitória surpreendentemente expressiva do Não – e o modo como foi desencadeado o processo, o certo é que houve uma decisão inequívoca e democrática. E legitimação democrática é justamente o que mais tem faltado numa arquitectura política que vem sendo o de uma eurocracia, ao arrepio do projecto europeu de Jean Monnet e Robert Schuman, de François Mitterrand, Helmut Kohl e Jacques Delors.

Na tão esquecida Declaração de Leiken, que deu origem ao abortado processo de Constituição Europeia, estava expressamente inscrito como um dos objectivos “a aproximação dos cidadãos às instituições europeias” – o caminho dos governos e da casta eurocrática tem sido exactamente o inverso.

A convocação do referendo pode também ter sido a derradeira cartada na lógica da “teoria dos jogos” que é a especialidade de Yannis Varoufakis. Isso pouco importa agora. O que sobremaneira há a assinalar é que na Grécia houve uma decisão de voto popular, e que em concreto isso enuncia um Não às condições impostas pelas ora designadas “instituições”, de resto em tudo coincidentes, não pode deixar de ser dito, com as exigências do capital financeiro internacional.

Há, é inegável, uma margem de ambiguidade característica do discurso de Tsipras e do Syriza, mas isso não autoriza que expoentes da eurocracia comecem a dizer, como já sucedeu, que a Grécia recusou a Europa e a Zona Euro. O que concretamente se votou foram as condições impostas pelas “instituições” e reforçadas na inacreditável chantagem a que se assistiu nestas semanas. Independentemente de quaisquer simpatias políticas ou antes pelo contrário, é elementar reconhecer que o governo do Syriza, se não está mandatado para fazer a Grécia sair da zona euro ou da União Europeia, também não estava mandatado para ceder às condições das “instituições”.

Não se comecem pois desde já a agitar fantasmas, mesmo que tendo bases reais: as vagas populistas, xenófobas, eurocépticas e eurofóbicas que ocorrem na Europa, de resto num larguíssimo espectro político, da Frente Nacional francesa ao Podemos espanhol, passando pelos movimentos de Beppe Grillo na Itália, de Nigel Farage no Reino Unido, pelo Fidesz de Viktor Orban no poder na Hungria, pelos Verdadeiros Finlandeses ou pelo Partido do Povo Dinamarquês (estes que, na sequência das recentes eleições, integram o governo, no caso dos finlandeses, virão a integrar directa ou indirectamente a coligação governativa, no caso dos dinamarqueses), etc., essa assustadora e heteróclita vaga não é, sublinhe-se bem, não é, “A” beneficiária do resultado do referendo grego, por efeitos colaterais que possa recolher. Isto porque a decisão referendada lança um outro e tremendamente mais importante desafio: a partir de hoje aceitam ou não os dirigentes europeus e internacionais que há uma negociação tendo como premissa uma irrefutável decisão democrática?

AUGUSTO M. SEABRA 06/07/2015
No Público