Rádio Freamunde

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domingo, 9 de agosto de 2020

Ovos fritos dão pintos?

Há muitos! Muitos anos, o João, homem humilde, trabalhador e a quem a vida era madrasta, foi lanchar à tasca do Tio Manel. Como os recursos eram parcos ficou-se por uns ovos fritos. Acabado o pequeno lanche pediu a conta e qual não foi o seu espanto tanto dinheiro por apenas dois ovos fritos.
Pedida uma explicação foi-lhe dito: - Não vê que os ovos dão pintos dos pintos passam a frangas de frangas passam a galinhas e de galinhas voltam a dar ovos e assim sucessivamente! – Disse que não pagava.
– O Tio Manel disse que sendo assim ia para tribunal e lá ia ser obrigado a pagar e ainda ia pagar as custas do processo. Como não tinha dinheiro para pagar deixou o caso ir para tribunal.
Na ida para casa ia triste e cabisbaixo o que era raro em si. Ao passar pelo Bocage este ficou admirado de tal tristeza e perguntou-lhe?
– Então João a que se deve tal tristeza!
– Oh Bocage não sabe o que me aconteceu. E contou-lhe toda a peripécia.
Diz-lhe o Bocage. – Quando fores intimado para o julgamento avisa-me.
Assim passados uns dias o João avisou o Bocage que o julgamento estava marcado para as dez horas do dia oito de Julho. O Bocage disse-lhe para ele estar descansado que o ia defender.
Chegaram as dez horas do oito de Julho e a Sala de Audiências estava repleta porque uma parte da clientela do Tio Manel queria saber o que ia ser decidido.
Só que o Bocage não aparecia o que levou o Dr. Juiz a virar-se para o João e dizer que só dava meia hora de tolerância. Entre a assistência já se vaticinava apostas. Uns a favor do Tio Manel, mas a maioria a favor do João. Não achavam as contas que ali pagavam condizentes com o que comiam.
Chegaram as dez horas e trinta minutos e o Bocage não fazia a aparição. Já o Dr. Juiz ia dar a sentença quando o Bocage entra na Sala de Audiências.
Pergunta o Dr. Juiz qual o motivo de tal atraso? Sabe Vossa Excelência – diz o Bocage. É que tenho uns agricultores nos meus terrenos a semear castanhas assadas para dar Castanheiros! Incrédulo pergunta o Dr. Juiz? – Castanhas assadas para dar Castanheiros! Sim Sr. Juiz! Da mesma forma que ovos fritos dão pintos!
Escusado será dizer qual o veredicto.

domingo, 8 de junho de 2014

Numa boa página de prosa ouve-se a chuva:

Apetece-me sair voando como os morcegos, a soltar gritos inaudíveis.

Da janela vejo uma mulher tirar a roupa da corda, guardando as molas no bolso do avental. Empurra com o antebraço a madeixa de cabelo sempre a escorregar-lhe para os olhos. Adivinha-se uma criança por trás dela ou então sou eu que quero adivinhar uma criança por trás dela, me apetece oferecer-lhe um marido, uma cama de casal para reboliços ao domingo à tarde, alguma alegria, alguma paz, embora marido, cama e reboliços ao domingo à tarde não sejam propriamente os ingredientes da paz. Quais são? Olha, o meu avô sentado numa cadeira de lona no jardim, ao fim da tarde, por exemplo. Foi há muitos anos e ainda me lembro do sorriso e dos olhos que fitavam os canteiros, não vendo nada, satisfeito, tranquilo, de casaco de linho branco. Gostávamos muito um do outro. Às vezes punha-me a mão no ombro. A mulher acabou de tirar a roupa e sumiu-se com ela num alguidar de plástico vermelho. Não é bonita nem nova e, no entanto, a ideia de não tornar a vê-la, sei lá porquê, desagrada-me. Estou sempre a perder as pessoas. E, nisto, dou por mim a pensar no mar. Às vezes no verão, à noite, o som das ondas chegava ao meu quarto, ritmado, triste, juntamente com o menear dos pinheiros. Na cama sentia-me uma sementinha minúscula, perdida na imensidão da terra. Uma sementinha minúscula, uma partícula de nada. Estou quase em condições de começar um livro, preciso apenas de me esvaziar um pouco mais de mim mesmo, e que a voz que começo a escutar principie a ditar-mo. A primeira frase não me larga a cabeça, há outras que surgem e desaparecem, não se fixaram ainda: tremem ao longe, indecisas. Mas pode ser uma falsa partida. Cesso de escutar o mar.

Parece-me que escrevo esta crónica a fim de habituar a mão ao papel. "Numa boa página de prosa ouve-se a chuva."

Agora escureceu e os candeeiros acesos da rua empalidecem as folhas das árvores. Desde a infância a noite continua a ser um mistério para mim, e a chegada da manhã um lento milagre cor de rosa pálido. Quando estava internado no hospital, sem conseguir mexer-me, esperava por ela numa ansiedade inquieta, implorando, sem palavras

- Salva-me, salva-me.

Sofri bastante na enfermaria mas ninguém, creio, me escutou uma queixa. Estava a meio de um livro, custava-me imenso a ideia de não poder acabá-lo. Que eu consiga terminá-lo, era o que repetia para dentro, que ao menos consiga terminá-lo, cheio de tubos no corpo. Era O Meu Nome É Legião, salvo erro. Ao voltar para casa demorei séculos até ser capaz de pegar na caneta. Exausto. Cheguei ao fim daquilo feito em papas, no meio de quimioterapias e radiações. Numa boa página de prosa ouve-se a chuva. Eu ouvia apenas os gritos mudos da minha aflição. Consegui escondê-la mais ou menos.

A mulher da roupa na corda não voltou. Fico eu aqui, com este papel, este textinho. Que horas são? A luz do candeeiro aumenta a sombra das minhas mãos, a esferográfica ameaça falhar. Apetecia-me ter a minha tia Madalena perto de mim com o seu olhar terno

- Filho

que sempre me fez sentir amado e, portanto, indestrutível. Na rua uma discussão qualquer, passos que correm. As árvores imóveis nesta rua de prostitutas, travestis patéticos, minúsculos comércios, restaurantezitos modestos. O quiosque lá em cima, a estrangeira sem abrigo a pedir esmola num idioma incompreensível. A quantos invernos já sobreviveu, a pobre? Onde dormirá? Sozinha sempre, embrulhada em trapos miríficos. Onde come, o que come? Onde dorme? Passeia sem descanso de semáforo em semáforo, de palma estendida. Não insiste, vai-se embora. Um homem toda a tarde, em frente de um café vazio, naquela esplanada pequenina. Nunca o vi acompanhado.

O travesti de barriga ao léu, em roupa interior debaixo do casaco, que nenhum cliente procura. Aqui há semanas dois deles à pancada

- Vou fazer queixa ao meu marido, vou fazer queixa ao meu marido

e três ou quatro automóveis, com sujeitos dentro, a desfrutarem a cena. Depois de todos se irem embora a impressão, no meio do silêncio, de que a briga continua. Numa boa página de prosa, etc. A janela da corda de roupa fechada. Talvez para a semana comece o livro. Talvez nunca o comece. Apetece-me sair voando como os morcegos, a soltar gritos inaudíveis. Hoje almocei com a minha filha mais velha que, para mim, nunca cresceu. Sempre que me chama

- Pai

continuo a comover-me. Claro que não lhe menciono isso mas continuo a comover-me. Nunca crescem, os filhos. Digo

- Canhica

como, em Kimbundo, se mencionam as crianças

- Canhica

enquanto o senhor, por trás do balcão, fala da guerra em África. Sempre que o vejo apenas fala da guerra em África. Já me informou dúzias de vezes

- O meu irmão embarcou a seis de janeiro, no mesmo barco que o doutor

como se esse facto criasse um laço especial entre nós. O irmão cozinheiro, ele apontador de metralhadora, evacuado para Lisboa a seguir a uma desgraça qualquer. Até hoje permanece lá. Numa boa página de prosa ouve-se chover. Aperto-lhe a mão, venho-me embora. Uns metros adiante demoro-me um pedaço a olhar os caixotes de legumes de uma mercearia. Sozinho. Se a sem abrigo aparecesse inventava uma língua especial para conversar com ela.
António Lobo Antunes
Na revista Visão

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A Lenda Dos Três Rios:

Há dias num concurso na televisão foi perguntado onde nasce o rio Douro. A resposta foi em Portugal. A pessoa a quem foi perguntado devia ter mais de cinquenta anos. Por isso fiquei perplexo por não saber pois num livro da terceira ou quarta classe vinha a lenda dos “Três Rios”. Por isso e, pelas condições climatéricas que tem assolado o país, fez com que levasse à memória dos da minha idade e aos mais novos a bela lenda do Douro, Tejo e Guadiana.
O facebook não serve só para mexericos. Também serve para umas aulas de português.  
“Diz a lenda que três ribeirinhos alegres e saltitantes queriam ver o mar e um dia resolveram meter-se a caminho.
- Partimos logo de manhã muito cedo - disse um deles.
- Partimos antes do nascer do Sol - disse o outro.
- E vamos ver qual de nós chega primeiro ao mar - disse o último.
O luar brilhava nas águas adormecidas dos três ribeirinhos.
No outro dia, o primeiro a acordar bocejou, agitou as águas e pensou:
- Partirei já e assim serem o primeiro a chegar!
O ribeirinho que sempre ouvira chamarem-lhe Tajo deixou-se escorregar pela montanha. Como era um ribeirinho muito alegre saudava os povoados e as gentes;  a todos dizia adeus e informava:
- Vou a caminho do mar; tudo é muito lindo, mas eu quero ver o mar. Adeus, adeus.
Brincava com as raparigas que lavavam a roupa nas suas águas claras, escolhia os caminhos mais belos entre pinheiros, oliveiras e pomares. Aos ribeirinhos que encontrava dizia sempre:
- Vou para o mar! Venham comigo! Vamos para o mar!
E muitos abraçavam aquele ribeirinho aventureiro. Cada vez mais forte, o Tajo seguia feliz e encantado com as terras que banhava.
Um dia, uma menina que brincava com as ondas pequeninas chamou-lhe Tejo e ele gostou do novo nome.
- Tejo serei para quem me veja.
E para os pescadores, ele ficou a ser o Tejo que lhes dava o sustento de cada dia. Para os lavradores, ele é o Tejo que lhes rega as terras.
Calmo e divertido, o Tejo chegou ao mar entrou nele de braços abertos. Ali estava, azul e refrescante, o mar que procura por tão longo caminho.
Entretanto, tinha acordado outro ribeirinho, aquele que se habituara a que lhe chamassem Ana e sabia que outros que davam o nome de Uadi-Ana, ou seja, Rio Ana.
Ainda ensonado, não sabia bem qual o melhor caminho para chegar ao mar. Ora corria para um lado, ora mudava para outro. mas sabia que o desejo mar se encontrava para sul.
E lá seguia, entre terras baixas e secas; mais tarde entre rochedos queimados pelo sol.
Apercebeu-se então de que o povo o chamava por um novo nome. Agora, para todos, ele era o Guadiana.
Fez amizade com o Caia e Degebe, uns ribeirinhos tímidos que também queriam ver o mar e se juntaram a este novo amigo.
Um dia, assim em boa união, encontraram o mar, um mar bem azul e águas tépidas e límpidas. O bom do rio Guadiana mergulhou no Oceano Atlântico feliz como uma criança que brinca na areia.
Mas não era ele o primeiro a encontrar o Oceano pois o Tejo, que saíra mais cedo, mais cedo encontrara o mar.
Enfriorado e dorminhoco, o terceiro ribeirinho só acordou quando o sol já tinha acordado há muito tempo.
- Estou atrasado! Já é muito tarde! - pensava o ribeirinho ensonado.
Lembra-se de que lhe tinham chamado Durius, mas agora as gentes que o olhavam e lhe chamavam Duero. Corria por terras baixas e secas onde se demorava a observar os campos cultivados.
Mas não deixa de pensar
- Vou ser o último! É preciso correr!
E partiu de abalada esgueirando-se por corredores pedregosos saltando rochedos, correndo apressado, cada vez mais apressado.
Nas suas margens subiam encostas cobertas de vinhedos com folhas verdes na Primavera e folhas douradas no Outono, escondendo pesados cachos de uvas maduras.
- Quero chegar ao mar, mas vou ser o último, já sei, vou ser o último! –
Por isso, o Douro que também é Duero e já foi Durius, acabou por seguir o caminho mais agitado.”

quinta-feira, 23 de maio de 2013

As surpresas que nos esperam:

Na Blogosfera ou na Internet de vez em quando somos levados a contactos com alguém que não conhecemos mas que à partida nos leva a ganhar consideração e respeito. Seja pelo modo como somos tratados, seja pelo tipo de comentários que fazem sobre nós, seja pelo ser humano ser um tipo influenciável e de simpatias. 
À mínima coisa sem se conhecer quem está do outro lado ganha-se uma afeição que julgávamos impossível. Umas vezes com prejuízo pelo motivo da ilusão criada. 
É sabido quantas ilusões criadas e como acaba em desilusões. Nem em tudo devemos acreditar e criar uma ideia do que ouvimos porque a realidade depois é diferente. Para exemplo:
Um dia um ouvinte depois de ouvir um programa radiofónico começou a simpatizar com a voz melodiosa da locutora. A partir daí não perdia um programa dessa emissora em que intervinha essa locutora. A simpatia era tal que o levou a apaixonar-se por essa mesma voz. Passado uns tempos conseguiu o contacto pessoal dessa locutora e marcou um encontro sem antes lhe dizer o quanto estava afeiçoado à voz dela.
A locutora em princípio não se mostrou receptiva a esse encontro porque sabia a desilusão que ia criar. Já com outros tinha acontecido o mesmo. Mas como desempenhava serviço público na rádio e não gostava de criar ilusões resolveu aparecer ao encontro para pôr as cartas na mesa, não fosse esse o título do seu programa. 
O ouvinte quando soube da cedência por parte da locutora – já sua apaixonada – deu gritos de alegria, como os apaixonados costumam dar.
Nesse dia aperaltou-se com a sua melhor indumentária e usou os melhores perfumes para criar boa impressão. Até o ramo de flores, que nestes momentos são indispensáveis, foi dos mais caros que a florista tinha em exposição no seu ateliê. 
Estava tudo nos conformes. Faltava a chegada da hora do encontro. Os nervos cada vez eram maiores mas não havia necessidade dado que esse ouvinte não era caloiro nenhum em matéria de paixões.
Anos atrás, quando cumpria o serviço militar em Angola, para onde foi mobilizado, na troca de correspondência com uma “madrinha de guerra”, ganhou tal afeição por ela, derivado à sua caligrafia e aos temas abordados, que semana que não recebesse uma carta punha-o logo a cismar: de certeza encheu-se de mim e da maneira como escrevo e dos erros que dou. 
Esteve tentado em pedir a um colega – que escrevia cartas para vários colegas seus - para corrigir as cartas mas entendia que assim passava a ser um namoro a três.
Quando regressou de cumprir o serviço militar e no encontro que tiveram sentiu tal desilusão pela sua fisionomia, parecia sua mãe – agora compreendia a recusa de fotografias. 
Logo ali lhe disse que sempre lhe pediu sinceridade e os seus vinte anos afinal eram mais do dobro. Que assim não podia confiar em alguém que durante ano e meio o andou a enganar. 
E, assim terminou uma ilusão de vários meses mas que ficaram gravados na memória para todo o sempre.
Não! Desta vez não ia acontecer o mesmo. A mesma água não passa duas vezes por debaixo da mesma ponte como bem diz o povo. 
Por isso todo o aperaltamento que resolveu dar à sua pessoa. 
Chegou ao sítio combinado antes uns minutos com o intuito de presenciar como era a rainha do seu coração. Tinham combinado como iam vestidos para assim saberem a quem dirigir-se.
Chegou a hora e nesse momento saiu um condutor de um carro que de imediato dirigiu-se à mala de onde tirou um carrinho de rodas. De seguida foi ao outro lado do condutor e de lá ajudou a sair uma senhora que lhe faltava uma perna. 
Até aí tudo bem. O encontro tinha sido marcado próximo de uma clinica e talvez fosse uma doente que ali se dirigia. Mas não. A senhora continuava à espera junto do motorista.
Até que algo lhe chamou a atenção. A roupa que a senhora envergava tinha a mesma cor que tinha sido combinado com a sua imaginada amada. 
Pensou logo no que há anos lhe tinha acontecido com a “madrinha de guerra”. Naquela vez foi apanhado de surpresa e inexperiência. Por isso o ter chegado antes uns minutos. Não suportava outra desilusão.
Pensou! Queres ver que afinal a mesma água passa duas vezes por baixo da mesma ponte! 
Até o ramo de flores que lhe ficou bem caro as flores murcharam. Não… não ia a esse encontro. Não suportava nova desilusão. 
Assim fez o trajecto de regresso e num caixote de lixo depositou o ramo de flores.    
Não ouvia mais o programa da rádio. E nunca mais acreditava no que não via. Ia usar o lema de S. Tomé: ver para crer. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O que faz pôr raposas a guardar galinheiros:

Não te venhas lamentar! Dizia o João Lamelas para a esposa. Cortaste-lhes as penas para elas não fugirem do galinheiro e agora com a raposa a guardá-lo isto está lindo! João Lamelas era um pequeno agricultor e a forma de aumentar o pecúlio mensal era a criação de galináceos. 
Sua esposa era um pouco feita à boa lei e de pensamento único. Ideia que lhe entrasse na cabeça tinha de ser posta em prática. Custasse o que custasse! 
E… assim, depois de ter cortado as penas às galinhas - fazia-o amiúde - resolveu pôr uma raposa a guardar o galinheiro. Por isso a chamada de atenção de João Lamelas à Ermelinda, sua esposa.
Sabia de antemão que não passava de desabafo, porque como disse, ideia que lhe entrasse na cabeça raramente saía sem lhe dar execução. Era o que acontecia nas várias reprimendas dadas por João Lamelas. Às vezes dizia para os seus botões: - entra por um ouvido a dez e sai a cem pelo outro!
Muita gente julga que é fácil a vida das raposas. Coitadas! O que tem de penar para levar vida. O misero sustento que aufere não dá para as arrelias. E ganhar a confiança de quem aposta nela não é nada fácil. Depois de estar a guardar o galinheiro as coisas são outras. Aí, pode pôr e dispor à sua vontade. Trair a confiança de quem lha deu. As galinhas coitadas, depois de depenadas, ainda tem de estar dependentes de quem jurou olhar por elas.
Por falar em depenadas veio-me à memória uma história antiga sobre um pilha galinhas. Depois de ter roubado uma, estava-a a depenar, na margem de um rio para a cozinhar para o jantar. Entretanto chegou junto dele um agente da autoridade que andava em cima do caso derivado a uma queixa pelo roubo de galinhas. Ao ver o agente dirigir-se na sua direcção atirou a galinha ao rio.
Como as penas estavam espalhadas pelo chão levou o agente da autoridade a perguntar qual o motivo. Sabe senhor agente - exclamou o pilha galinhas - a galinha estava com calor e para se refrescar resolveu tomar banho e pediu-me para lhe guardar a roupa. Vê como se encontra prazenteira dentro da água! Se quiser aguardar mais um pouco vai ver ela a agradecer-me.
Com isto o pilha galinhas convenceu o agente da autoridade que assim deu o caso por encerrado. Quem não o deu foi o pilha galinhas que retirou a galinha do rio e preparou-a para um belo jantar.
É o mesmo que está a acontecer ao nosso galinheiro. Tudo decorria normalmente. A revolução entre as galinhas gerou a que o galo que as comandava foi posto fora sem apelo nem agravo. 
Diziam que com esta saída tudo se modificada para melhor. Até se gabavam que com a ida à gamela acabava a austeridade dentro do galinheiro. O certo é que tudo que prometeu - o novo galo - tudo faltou. 
As dificuldades a cada dia eram maiores. A maioria das galinhas começaram a protestar. O galinheiro estava em fervorosa. A raposa que administrava o galinheiro não tinha mão nos protestos. Precisava de arranjar alguém da sua confiança no galinheiro.
Nada mais fácil que dar um voto de confiança ao galo, rei do galinheiro. E, assim aproveitou o aniversário do galinheiro para lhe fazer um discurso em que lhe reconhecia vários méritos. Não queria mais revolta dentro do galinheiro. 
Sabia que ia ser censurado por esta tomada de posição. Mas que se lixe. E assim fez. É que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. 
Mas... para seu espanto foi aplaudido por várias galinhas que andavam a ser montadas pelo galo, rei do galinheiro, que com ar garboso era só sorrisos pela confiança da raposa guardiã do galinheiro. 

terça-feira, 26 de março de 2013

O copo de Água, a Natureza e a Ilusão:


Através deste texto, gostaria de contemplar um pouco mais sobre o propósito dessa vida. Entender porque viemos à Terra, o que viemos buscar e fazer aqui.
A Filosofia do Yoga ensina através de sábios contos, e quero contemplar um conto muito profundo com vocês:
Narada, um grande sábio, que vivia ao lado do Senhor do Universo, disse uma vez para Ele:
“Senhor, mostra-me Maya, a ilusão do mundo, que torna possível o impossível”.
O Senhor lhe disse: “Mas, Narada, porque você quer conhecer Maya, a ilusão do mundo?”
Narada insistiu: “Senhor, estou feliz aqui, mas quero conhecer as ilusões do mundo material”.
O Senhor concordou e, alguns dias depois, saiu em viagem na companhia de Narada. Andaram bastante e depois de algum tempo Ele disse: “Narada, tenho sede; por favor, consegue-me um copo d’água em alguma parte”.
E assim, Narada saiu em busca de água. Não a encontrando perto, andou até encontrar uma casa. Bateu na porta e uma encantadora jovem, cuja beleza o cativou, abriu a porta.
Ela começou a lhe falar com doces palavras e lhe encantou. Eles se apaixonaram e se casaram. Com o passar do tempo, tiveram filhos e foram felizes.
Algum tempo depois, com a morte do sogro, Narada assumiu os negócios da família. Tornou-se muito próspero, com muitas posses e usufruiu uma boa vida com sua esposa e filhos.
Um dia, porém, manifestou-se uma epidemia na região e Narada decidiu abandonar o lugar e ir viver em outra parte. Assim, com a esposa e seus filhos saíram da casa.
Mas uma grande tempestade aconteceu e ao atravessarem a ponte sobre um rio, uma forte correnteza arrastou os filhos, um após o outro, e depois também a esposa se afogou.
Lutando para sobreviver, ele também foi arrastado e bateu com a cabeça em uma pedra e desmaiou. Quando voltou a si, Narada sentou-se à margem do rio e começou a chorar desconsoladamente.
Ele não se conformava e lamentava muito, pois antes ele tinha tudo, amor, filhos, dinheiro, posição, prosperidade e de repente, perdeu tudo.
Justamente nesse momento, ele ouviu uma voz: “Narada onde está meu copo de água? Há meia hora você saiu para trazê-lo e não voltou”.
Ao ouvir a voz do Senhor e ao vê-Lo, Narada se lembrou do Senhor, de seu pedido de compreender Maya, a ilusão do mundo. Lembrou que tinha vindo na Terra apenas para pegar um copo de água para o Senhor e que, iludido pelas ilusões do mundo, se esqueceu do que tinha vindo fazer aqui.
E, exclamou: “Senhor, agora compreendo tudo e me inclino diante de Ti e diante a Tua maravilhosa Maya”.
Vamos, agora, contemplar juntos esse conto:
Você entendeu qual é esse copo d’água que Narada veio buscar?
Você percebeu, que mesmo sendo um sábio, ele se esqueceu do propósito de sua vinda na Terra, iludido pelas ilusões do mundo?
Esse conto nos mostra como somos iludidos pelos prazeres dos sentidos, pelo poder de posse, pelo apego, pela ilusão de achar que só viemos ao mundo para desfrutar, para simplesmente comer, dormir, viajar, casar, ter filhos e uma vida de abundância e riqueza.
Tudo isso faz parte da vida, e é importante sermos bem-sucedidos e felizes no amor, na família, na vida profissional, viajar e apreciar a beleza do mundo.
Porém, não viemos ao planeta Terra, essa escola abençoada e, muitas vezes de difícil aprendizado, apenas para nascer e morrer, para passear e passar o tempo.
Nossa vinda aqui tem um propósito muito maior: viemos buscar evolução espiritual, desenvolvimento de virtudes como paciência, bondade, compaixão, amor incondicional, altruísmo, força interna, coragem e alegria interior.
Muitas pessoas são envolvidas pela vida mundana, pela futilidade, pelos afazeres do dia-a-dia, pelo conforto, pelo trabalho, pelo poder, pelas competições, e perdem o foco, perdem o sentido da vida. Elas se esquecem porque vieram nesse planeta.
O mundo moderno, com o consumismo exagerado, aumenta os desejos e sentido de posse. Acham que só serão felizes possuindo tudo o que desejam, e não compreendem que a verdadeira felicidade é interna.
Todos nós buscamos a felicidade e merecemos ser felizes, prósperos e felizes no amor. Precisamos, porém, entender que a verdadeira felicidade vem de um coração agradecido, de estarmos felizes com o que temos agora, com uma mente em paz.
Cada um de nós veio nesse mundo para cumprir seu Dharma (dever), -
Esse Dharma, o dever que está à nossa frente, que apenas nós podemos realizar, é o copo d’água que viemos buscar na Terra. É como uma nota musical que somente nós podemos ressoar nessa maravilhosa orquestra universal.
Descubra você também qual o é o copo d’água que deve levar desse mundo. Qual é seu dever com o marido ou com a mulher, com os filhos, com os pais, parentes e amigos? Qual é sua função na sociedade, no trabalho? Como deve ser sua atitude de ser útil e ajudar ao meio ambiente? Como pode ajudar os mais necessitados, tanto materialmente como espiritualmente, com compreensão e paciência? Fique em paz! Namastê! Deus em mim saúda Deus em você!
Emilce Shrividya Starling

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A roda:


Gosto de ler as crónicas diárias de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias. Aqui é-lhe dado um pequeno espaço onde em tão pouco diz muito. Sobre a política portuguesa e mundial, economia, saúde e o dia-a-dia dos portugueses. Não faço comentários no DN porque se o fizesse era a condenar a forma soez como alguns o fazem. Há formas de discordar mas discorde-se com elegância.
Na de hoje, sobre os burros de Miranda do Douro, fez-me lembrar as histórias (reais) que meu pai me contava, quando era menino, sobre os antepassados quando se tornavam velhos.
Como os filhos não tinham tempo e condições para velar pela velhice dos seus progenitores era usual levá-los ao cimo do monte e ali deixá-los ao deus dará com uma manta e uma broa de pão. 
A moda pegou e não havia casa nenhuma que assim não procedesse. A velhice era uma espécie de lepra. Para não contaminar os demais há que levá-los a um lugar próprio e aí abandoná-los.
A invenção da roda levou os povos a ter outro conhecimento da vida. Aqui deparou-se que o mundo é redondo e que de vez em quando volta-se ao mesmo lugar. Com isto quero dizer que todos estamos sujeitos a vermo-nos envolvidos nessa roda.
Continuava meu pai. - Um dia aconteceu a um velho ser levado pelo filho ao cimo do monte. Ali chegados, o filho entregou ao pai a dádiva: uma broa de pão e uma manta. Acto contínuo o pai pegou numa navalha e cortou a manta a meio assim como a broa.
O filho admirado com tal acção perguntou. - Porque faz isso? Tendo recebido como resposta. - Aceita estas metades. A vida conforme decorre, quando te tocar a ti esta situação, presumo que os teus filhos não te possam oferecer o que me estás agora a dar. 
Bastaram estas palavras para fazer ver ao filho como a invenção da roda foi a maior da humanidade. 
Levou novamente o pai para sua casa e a partir daí mais nenhum velho foi levado para o monte.         

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A água da vida (4):


"Pouco tempo depois o rei viu chegar uma embaixada faustosa do rei vizinho incumbida de entregar ao bom príncipe os mais ricos presentes em agradecimento por ter ele salvo o reino da fome e da invasão do inimigo. Diante disso o rei se pôs a reflectir: "Meu filho seria inocente?" e comunicou aos que o serviam: "Como me arrependo de o ter mandado matar! Ah, se ainda estivesse vivo..." Encorajado por estas palavras o caçador revelou a verdade. Disse ao rei que o bom príncipe estava vivo mas em lugar ignorado. Imediatamente o rei mandou um arauto a proclamar por todo o país que considerava o filho inocente e que desejava imensamente sua volta. Mas a notícia não chegou ao príncipe; encontrara seu amigo anão, que lhe dera ouro suficiente para poder viver como um filho de rei.
Nesse ínterim a princesa do castelo encantado que ele livrara do sortilégio mandara construir uma avenida toda calçada com chapas de ouro maciço e pedras preciosas que conduzia directamente ao castelo, explicando aos seus vassalos: "O filho do rei que será meu esposo não tardará a chegar; virá a galope bem pelo meio da avenida. Mas se outros pretendentes vierem, cavalgando à beira da estrada, expulsem-nos a chicotadas." Com efeito, dia por dia, um ano depois do jovem príncipe ter penetrado no castelo, o irmão mais velho achou que podia se apresentar como sendo o salvador e receber a princesa por esposa. Vendo aquela avenida calçada no meio de ouro e pedrarias não quis que o cavalo estragasse com as patas tanta riqueza que já considerava sua e fez o animal passar pelo lado direito. Quando chegou diante do portão e disse ser o noivo da princesa todos riram e depois o correram de lá a chicote.
Pouco tempo depois veio o segundo príncipe, e vendo todo aquele ouro e jóias pensou que seria um pecado arruiná-los; fez o cavalo galopar pelo lado esquerdo e se apresentou como sendo o noivo da princesa. Teve a mesma sorte do irmão mais velho: foi corrido a chicote. Findava o ano estabelecido e o terceiro príncipe resolveu deixar a floresta para ir ter com sua amada e a seu lado esquecer as mágoas. Pôs-se a caminho pensando só na felicidade de tornar a ver a linda princesa; ia tão embebido que nem sequer viu que a estrada estava toda coberta de pedras preciosas. Deixou o cavalo galopar pelo meio da avenida, e quando chegou diante do portão do castelo este lhe foi aberto de par em par. Soaram alegres fanfarras e uma multidão de fidalgos saiu para recebê-lo.
Dentro em pouco apareceu a princesa, deslumbrante de beleza, que o acolheu cheia de felicidade e declarou a todos que ele era seu salvador e senhor daquele reino. As núpcias foram realizadas imediatamente em meio as esplêndidas festas.
Terminadas as festas, que duraram muitos dias, ela lhe contou que seu pai o havia proclamado inocente e desejava vê-lo de novo. Acompanhado da rainha sua esposa ele foi ter com o pai e contou-lhe tudo que se passara: como fora traído pelos irmãos e como estes o obrigaram a se calar. O rei, extremamente irritado contra eles, mandou que seus arqueiros os trouxessem à sua presença a fim de receberem o castigo merecido, mas vendo suas maldades descobertas eles tinham tomado um barco tentando fugir para terras longínquas para aí esconderem sua vergonha. Não o conseguiram. Sobreveio uma tremenda tempestade que tragou o navio e eles pereceram miseravelmente."
Um conto de fadas dos Irmãos Grimm







Fim

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sócrates e Passos Coelho. "A Ponte da Esperança":

"Certo dia, nos confins do Universo, mergulhado no interior do ser humano, o Sr. Pensamento encontrou a Sra. Sentimento...Um e outro viviam separados...
Mas... um dia, conheceram-se... E depois de se conhecerem, sentiram-se parte integrante um do outro, sentiram mesmo que um não conseguiria viver sem o outro. Sentiram-se uno indissociável...
Um dia, os dois, decidiram procurar a felicidade... E nessa procura...casaram...
Do relacionamento entre os dois nasceram dois gémeos: o Amor e a Dor... Nasceram juntos... Cresceram juntos... Mas, depressa se aperceberam que eram diferentes... muito diferentes!... Tinham atitudes diferentes.... Tinham objectivos diferentes... Tinham maneiras de ser diferentes...
Um dia...decidiram partir...à procura da felicidade...
E afastaram-se um do outro...
Decidiram percorrer caminhos diferentes...
O Amor criou o seu próprio caminho, de modo simples, humilde e sereno. Não, sem que encontrasse obstáculos... Mas, sempre a acreditar que era possível ser feliz... que sentia alegria de viver... Percebeu que era um caminho partilhado...
Um caminho do amor... concentrado  nas coisas positivas da vida... um caminho de entrega aos outros e entrecruzamento com os outros... Um caminho em que o Eu interior... foi pouco a pouco perdendo importância em relação inversa à capacidade de dar aos outros...
A Dor, por seu lado, centrou-se mais nela própria...Refugiou-se na ilha da solidão, concentrada sobretudo nas coisas e acontecimentos negativos...Vivia unicamente para dentro e navegava, sem o saber, no mar do egoísmo... Concentrava-se apenas na veneração do seu Ego no Templo do orgulho e do Desânimo... Deixou de olhar para o lado e para os outros...
O Amor caminhou para fora do Templo do EGO e espalhou uma luz aos que o rodeavam....
Mas... um dia, o Amor achou que podia fazer algo pela sua irmã gémea... e construiu uma ponte da esperança para a sua irmã...
Inicialmente, a Dor sentiu-se intimidada... resistiu à tentação... mas acabou por explorar a ponte da esperança... e resolveu criar a esperança também... Aprendeu a criar a esperança...
O irmão Amor ficou radiante por voltar a ver a irmã... e, sobretudo, por vê-la novamente a sorrir...
Desde essa altura... o ser humano aprendeu que... era essencial no caminho para a felicidade... criar pontes de esperança para os outros seres humanos..."
Um conto de "António Ramalho"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A água da vida (3):


“No auge da felicidade por ter conseguido a água que salvaria seu pai e ansioso por se ver no palácio pulou sobre a sela e partiu a galope. Na floresta encontrou o anão no mesmo lugar, o qual vendo a espada e o saquinho de trigo disse: "Fizeste bem em guardar este precioso tesouro. Com essa espada vencerás sozinho o mais numeroso exército, e com o trigo desse saquinho terás todo o pão que quiseres e nunca se lhe verá o fundo." O príncipe estava porém apoquentado com a desgraça dos irmãos, e perguntou se o anão poderia fazer algo por eles. "Posso, ambos estão pouco distante daqui entalados em barrancos muito apertados; amaldiçoei-os por causa de seu orgulho." O príncipe rogou encarecidamente que os perdoasse e libertasse, e o anão cedeu às suas súplicas.
"Mas te advirto que te arrependerás. Não te fies neles, são de mau coração; liberto-os apenas para te ser agradável." Assim dizendo fez os barrancos se afastarem libertando os entalados, pouco depois reunidos ao irmão que os esperava. Muito feliz por tornar a vê-los o príncipe lhes narrou suas aventuras e disse que daí a um ano voltaria para desposar a maravilhosa princesa e reinar com ela sobre um grande país. Puseram-se os três de regresso para casa. Atravessaram um reino assolado pela guerra, estando o rei desesperado de poder salvar-se e a seu povo. O príncipe confiou-lhe então o saco de trigo e a espada mágica, com os quais o rei derrotou os exércitos invasores e encheu os celeiros até o forro. O príncipe tornou a receber a espada e o saquinho de trigo e os três irmãos seguiram viagem, tomando um navio para encurtar o caminho.
Durante a travessia os dois irmãos mais velhos, devorados de ciúmes, começaram a conspirar contra o mais novo. "Nosso irmão conseguiu a Água da Vida e nós não; com isso nosso pai o promoverá a herdeiro do trono que deveria ser nosso e nada nos restará." Então juraram perdê-lo. De noite quando ele dormia furtaram-lhe o frasco e substituíram a Água da Vida por água salgada. Tentaram também roubar-lhe a espada e o saquinho de trigo mas os objectos desapareceram de repente.
Chegando em casa o jovem correu para o pai e lhe apresentou o frasco para que logo sarasse. Mal engoliu alguns goles daquela água salgada o rei piorou sensivelmente. Estava se lastimando quando chegaram os mais velhos e acusaram o irmão de ter querido envenenar o pai. Eles porém traziam a verdadeira Água da Vida e lha ofereceram. Apenas bebeu alguns goles pôde se levantar do leito cheio de vida e saúde como nos tempos da juventude. O pobre príncipe, expulso da presença do pai, se entregou ao maior pesar. Os dois mais velhos vieram ter com ele rindo e mofando: "Pobre tolo! Tu tiveste todo o trabalho e conseguiste encontrar a Água da Vida mas nós tivemos o proveito; devias ser mais esperto e manter os olhos abertos, enquanto dormias a bordo trocamos o frasco por outro de água salgada. E poderíamos se quiséssemos ter-te atirado ao mar para nos livrarmos de ti, mas tivemos dó. Livra-te contudo de reclamar e contar a verdade ao nosso pai, que não te acreditaria; se disseres uma só palavra não nos escaparás, perderás a vida. Também não penses em ir desposar a princesa daqui a um ano, ela pertencerá a um de nós dois."
O rei estava muito zangado com o filho mais moço, julgando que o quisera envenenar. Convocou seus ministros e conselheiros e lhes submeteu o caso. Foram todos de opinião que o príncipe merecia a morte e o rei decidiu que fosse morto secretamente por um tiro. Partindo o moço para a caça sem suspeitar de nada um dos criados do rei foi encarregado de o acompanhar e matar na floresta. Chegando ao lugar destinado o criado, que era o primeiro caçador do rei, estava com um ar tão triste que o príncipe lhe indagou a razão: "Que tens, caro caçador?" - "Proibiram-me de falar, mas devo dizer tudo." - "Diz então o que há, nada temas." - "Estou aqui por ordem do rei e devo matar-vos." O príncipe se sobressaltou mas disse: "Meu amigo, deixa-me viver. Dar-te-ei meus belos trajes em recompensa e tu me darás os teus, que são mais pobres." - "Da melhor boa vontade" disse o caçador. "É preciso que o rei julgue que executaste suas ordens senão sua cólera recairá sobre ti. Vestirei estas roupas feias e tu levarás as minhas como prova de que me mataste. Em seguida abandonarei para sempre este reino." Assim fizeram.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A água da vida (2):


“Passados muitos dias sem que os irmãos voltassem, o mais moço foi pedir licença ao pai para ir buscar a Água da Vida. O rei não queria consentir, mas foi obrigado a ceder ante suas insistências. O jovem príncipe montou em seu cavalo e partiu; quando encontrou o anão na floresta ele, que era delicado e amável, deteve o cavalo dizendo: "Vou em busca da Água da Vida, o único remédio que pode salvar meu pobre pai, que está à morte." - "Sabes onde se encontra?" perguntou o anão. "Não." - "Pois já que me respondeste com tanta amabilidade vou te indicar o caminho. Ao sair da floresta não te metas pelo desfiladeiro que está à frente, vira à esquerda e segue até uma encruzilhada; aí segue ainda à esquerda. Depois de dois dias encontrarás um castelo encantado: é no pátio dele que se encontra a fonte da Água da Vida. O castelo está fechado com um grande portão de ferro maciço, mas basta tocá-lo três vezes com esta varinha que te dou para que se abra de par em par. Assim que entrares verás dois leões enormes prestes a se lançarem sobre ti para te devorar; atira-lhes estes dois bolos para apaziguá-los. Aí corre ao parque do castelo e vai buscar a Água de Vida antes que soem as doze badaladas, senão o portão se fecha e tu ficarás lá preso."
O príncipe agradeceu gentilmente, pegou a varinha e os dois bolos e se pôs a caminho, e conforme as indicações chegou ao castelo. Com a varinha mágica bateu três vezes e o imenso portão se abriu; ao entrar os dois leões se arremessaram contra ele de bocas escancaradas, mas atirou-lhes os dois bolos e não sofreu mal algum. Porém antes de se dirigir à fonte da Água da Vida não resistiu à tentação de ver o que havia no interior do castelo, cujas portas estavam abertas: galgou as escadas e entrou. Viu uma série de salões grandes e luxuosos. No primeiro, imersos em sono letárgico, viu uma multidão de fidalgos e criados. Sobre uma mesa estava uma espada e um saquinho de trigo; pressentiu que lhe poderiam ser úteis e levou-os consigo. Indo de um salão a outro, no último deu com uma princesa de rara beleza, que se levantou e disse que, tendo conseguido penetrar no castelo, destruíra o encanto que pesava sobre ela e todos os súbditos do seu reino; mas o efeito do encantamento só cessaria mais tarde. "Dentro de um ano, dia por dia, se voltares aqui serás meu esposo." Depois lhe indicou onde estava a fonte da Água da Vida e se despediu, recomendando-lhe que se apressasse para poder sair do castelo antes do relógio da torre bater as doze badaladas do meio-dia, porque nesse exacto momento os portões se fechariam. O príncipe percorreu em sentido inverso todos os salões por onde passara, até que viu uma belíssima cama com roupas muito alvas e resplendentes  cansado que estava da longa caminhada deitou-se para descansar um pouco e adormeceu. Felizmente mexeu-se e fez cair no chão a espada que colocara a seu lado, despertando com o barulho. Levantou-se depressa: faltava um minuto para o meio-dia e mal teve tempo de correr ao parque, encher um frasco com a água preciosa e fugir. Ao transpor os batentes da entrada soou o relógio dando meio-dia; o portão se fechou com estrondo e tão rápido que ainda lhe arrancou uma espora.
Continua

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A água da vida (1):


"Era uma vez um rei muito poderoso que vivia feliz e tranquilo em seu reino. Um dia adoeceu gravemente e ninguém esperava mais que escapasse. Seus três filhos estavam consternados vendo o estado do pai piorar dia a dia. Choravam no jardim quando surgiu à sua frente um velho de aspecto venerável que indagou a causa de tamanha tristeza. Disseram-lhe estar aflitos por causa da enfermidade do pai, já que os médicos não tinham mais esperanças de o salvar. O velho lhes disse: "Conheço um remédio muito eficaz que poderá curá lo; é a famosa Água da Vida. Mas é muito difícil obtê-la."O filho mais velho disse:"Vou encontrá-la, custe o que custar." Foi imediatamente aos aposentos do rei, expôs-lhe o caso e pediu permissão para ir em busca dessa água. "Não. Sei bem que essa água maravilhosa existe, mas há tantos perigos a vencer antes de chegar à fonte que prefiro morrer a ver um filho meu correndo esses riscos" disse o rei. O príncipe porém insistiu tanto que o pai acabou por consentir. Em seu íntimo o príncipe pensava: "Se conseguir a água me tornarei o filho predilecto e herdarei o trono." Partiu pois montado em rápido corcel na direcção indicada pelo velho. Após alguns dias de viagem, ao atravessar uma floresta viu um anão mal vestido que o chamou e perguntou: "Aonde vais com tanta pressa?" - "Que tens com isso, homúnculo ridículo? Não é da tua conta" respondeu altivamente sem deter o cavalo. O anão se enfureceu e lhe rogou uma praga. Pouco adiante o príncipe se viu entalado entre dois barrancos; quanto mais andava mais se estreitava o caminho, até que não pôde mais avançar nem recuar, nem voltar o cavalo nem descer. Ficou ali aprisionado sofrendo fome e sede mas sem morrer.
O rei esperou em vão sua volta. O segundo filho, julgando que o irmão tivesse morrido, ficou contentíssimo pois assim seria o herdeiro do trono. Foi ter com o pai e lhe pediu para ir em busca da Água da Vida. O rei respondeu o mesmo que ao primeiro; por fim cedeu ante a insistência do rapaz. O segundo príncipe montou a cavalo e seguiu pelo mesmo caminho. Quando atravessava a floresta surgiu-lhe o anão mal vestido e lhe dirigiu a mesma pergunta: "Para onde vais com tanta pressa?" - "Pedaço de gente nojento! Sai da minha frente se não queres que te espezinhe com meu cavalo." O anão lhe rogou a mesma praga, assim o príncipe acabou entalado nos barrancos como o irmão.
Continua

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O Sorriso:


"Era uma vez uma velhinha, que tinha um única filho. Viviam sozinhos, isolados de tudo, na floresta.
Um dia, a velhinha sentiu-se muito doente. Chamou o filho e entregou-lhe três pedras.
Disse-lhe para ir correr o Mundo, tentar encontrar três senhoras: uma vestida toda de negro, outra vestida toda de branco e outra que vestia um sorriso. A todas elas entregaria uma das pedras.
Assim foi. No dia a seguir, de manhã, pôs-se à estrada e aí vai ele. Na mochila, levava apenas alguma comida e as três pedras.
Procurou, procurou..... e, por fim, decidiu perguntar a uma velhinha que encontrou na estrada.
Ela olhou para ele e disse-lhe:
- Procura o silêncio. Lá encontrarás uma senhora toda vestida de preto.
E assim foi. No dia seguinte, encontrou o silêncio. Perguntou-lhe pela senhora  vestida toda de negro e ele levou-o até ela.
Quando o menino entregou uma das pedras à senhora vestida toda de negro, a cara da senhora mudou, subitamente. Num só gesto, apareceu um castelo de prata e disse ao menino:
- É teu. Será todo teu, se vestires sempre o preto.
O menino olhou para ela, viu-a tão triste e pensou:
- Não. Não é isto que eu quero. Não quero a prata, se tiver que ser triste.
E, assim, pôs-se à estrada novamente.
No dia seguinte, encontrou outra velhinha na estrada e perguntou-lhe por uma senhora vestida toda de branco.
A velhinha disse-lhe então para procurar a ganância.
E assim foi. No dia seguinte, encontrou a ganância, que o levou junto duma senhora toda vestida de branco.
Quando o menino lhe entregou uma das pedras, a cara da senhora mudou radicalmente e, num só gesto, ofereceu-lhe um castelo de ouro.
O menino olhou para o castelo e ficou deslumbrado. Estava quase a aceitar, mas, de repente, viu que as pessoas que lá viviam não tinham amigos e disse:
- Não. Não é isto que eu quero! Muito ouro, mas sem amigos, não me satisfaz!
E assim partiu novamente a correr mundo.
Faltava-lhe encontrar uma senhora. Começava a desesperar. Não sabia o que lhe iria acontecer. Como iria viver?
No dia seguinte, encontrou outra velhinha no caminho e perguntou-lhe pela senhora que vestia um sorriso simplesmente.
A velhinha olhou para ele e disse-lhe:
- Oh! Essa senhora é muito difícil de encontrar. Poucas pessoas a encontram. Mas, para a encontrar, tens que procurar a felicidade.
E assim foi. Foi ter com a felicidade, que o levou até à senhora toda vestida com um sorriso.
Quando o menino lhe entregou a última das pedras, olhou para ele e disse-lhe:
- Ofereço-te apenas um sorriso. Para viveres na felicidade precisas apenas dum sorriso.
Ele olhou para ela, estupefacto. Pensou, pensou ...... e disse:
- É isso que eu quero. Quero viver o resto da vida na felicidade. E assim foi. É onde ele ainda vive hoje. Muito feliz e apenas com um sorriso."

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Tartaruga em Cima do Poste:


Há histórias que nos levam a pensar que somos nós as suas personagens. Pretendemos ser o actor que pratica o bem e relegamos para os nossos inimigos o papel de mau. Acontece com tudo e em tudo. Ainda me lembro de em pequeno ler a “Bela adormecida”, “ “Ali Babá e os quarenta ladrões” e outras mais que embelezavam o meu subconsciente. Em cada me revia o personagem principal.
Na “Bela Adormecida” tornei-me em Príncipe encantado, em “Ali Babá e os quarenta ladrões“ de Pobre lenhador, em que me torno rico, quando descubro, a fórmula de abrir e fechar a caverna com as célebres frases: “Abre-te Sésamo e fecha-te Sésamo“. Quando a história acabava o meu subconsciente dava por bem empregue esse tempo de meditação.
Depois via o quanto a realidade era diferente. A vida tornava-se agreste e dura para quem era filho da pobreza e humildade. Pretensões havia mas oportunidades eram exíguas. Sabíamos o que nos esperava. Fim do ensino primário e a espera de ser operário ou agricultor. Tanto valia as nossas competências escolares como não. Se eras filho das profissões referidas em cima tinhas que ter essas. Mesmo com dez ou onze anos tinhas que te adaptar a esses ofícios. A idade mínima para trabalhar eram os catorze. Quantas corridas e escondidas tive de fazer para não ser apanhado pelos fiscais do trabalho.
Mas tanto ontem como hoje ainda revejo as histórias. Comparo-as com algumas que estão na actualidade e vejo o papel que é dado a quem nada fez na vida. Não têm vida ou história a não ser a que algum contador lhe dedique. Por isso e para voltar a pôr o meu subconsciente, embora mais gasto pelo peso da vida, gosto de ler certas histórias mas nesta não quero ser o protagonista.
“Enquanto suturava um ferimento na mão do velho Sábio, cortada por um caco de vidro indevidamente jogado no lixo, o médico e o paciente começaram a conversar sobre o país, o governo e, fatalmente, sobre Passos Coelho.
O velho Sábio disse: "Bom, o senhor sabe... o Passos Coelho é como uma tartaruga em cima de um poste...".
Sem saber o que o Sábio quis dizer, o médico perguntou o que significava uma tartaruga num poste.
E o Sábio respondeu:
É quando o senhor vai indo por uma estradinha, vê um poste e lá em cima tem uma tartaruga tentando equilibrar-se. Ora, isso é uma tartaruga num poste.
Diante da cara de interrogação do médico, o Sábio acrescentou:
Você não entende como ela chegou lá;
Você não acredita que ela esteja lá;
Você sabe que ela não subiu para lá sozinha;
Você sabe que ela não deveria nem poderia estar lá;
Você não entende porque a colocaram lá;
Você sabe que ela não vai fazer absolutamente nada enquanto estiver lá;
Então tudo o que temos a fazer é ajudá-la a descer de lá, e providenciar para que nunca mais suba, pois lá em cima definitivamente não é o seu lugar."     

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Desejos que não se recusam:


Os portugueses são férteis para arranjar histórias e gozarem com a sua desdita. Podem-lhe roubar tudo mas há sempre uma sátira para desbloquear a situação. Uma pessoa pode sofrer um acidente terrível, perder um braço ou uma perna, que lá vem a frase de consolo: coitado! Podia ser pior. Olha se fossem os dois braços e as duas pernas! Um colega meu dizia a quem se queixava que lhe doía uma perna. - Doí-te a outra? - Não. - Tens sorte! Se fossem as duas não estavas aqui no café a queixar-te. Estavas em casa na cama. Só de portugueses para arranjarem soluções para tudo.
Vem tudo isto a propósito do texto escrito em baixo. Um velho padre de uma paróquia, muito estimado, pelos paroquianos e pessoas da redondeza, não faltavam a uma homilia sua, porque cada palavra parecia uma escritura. Desejou a presença de duas pessoas importantes no desígnio da Nação.
Essas tais pessoas andavam na mó de baixo por decisões erradas para o seu povo. Como precisavam de projecção e o padre era a pessoa indicada não hesitaram na visita que o padre lhes tinha formulado. Assim compareceram e segue-se o diálogo havido entre eles:
“O velho Padre, durante anos, tinha trabalhado fielmente com o povo africano, mas agora estava de volta a Portugal, doente e moribundo, no Hospital de S. José. De repente ele faz um sinal à enfermeira, que se aproxima.
- Sim, Padre? Diz a enfermeira.- Eu queria ver o Primeiro-ministro, Passos Coelho e o Ministro das finanças Victor Gaspar antes de morrer, sussurrou o Padre.   
- Acalme-se, verei o que posso fazer, respondeu a enfermeira.
De imediato, ela entra em contacto com o Palácio de S. Bento e com Passos Coelho. E logo recebe a notícia: ambos gostariam muito de visitar o Padre moribundo.
A caminho do Hospital, Passos Coelho diz a Victor Gaspar:
- Eu não sei porque é que o velho padre nos quer ver, mas certamente que isso vai ajudar a melhorar a nossa imagem perante a Igreja, o que é sempre bom.
Victor Gaspar concordou. Era uma grande oportunidade para eles e até foi enviado um comunicado oficial à imprensa sobre a visita.
Quando chegaram ao quarto, o velho Padre, pegou na mão de Passos Coelho, com a sua mão direita, e na mão de Victor Gaspar, com a sua esquerda. Houve um grande silêncio e notou-se um ar de pureza e serenidade no semblante do Padre.
Passos Coelho então disse:
- Padre, porque é que fomos nós os escolhidos, entre tantas pessoas, para estar ao seu lado no seu fim?
O velho Padre, lentamente, disse:
-Sempre, em toda a minha vida, procurei ter como modelo o Nosso Senhor Jesus Cristo.
-Amém: disse Passos Coelho.
-Amém: disse Victor Gaspar.
E o Padre continuou:
-Então... como Ele morreu entre dois ladrões, eu queria fazer o mesmo...!!!”