Apetece-me sair voando como os morcegos, a soltar gritos inaudíveis.
Da janela vejo uma mulher tirar a roupa da corda, guardando as molas no
bolso do avental. Empurra com o antebraço a madeixa de cabelo sempre a
escorregar-lhe para os olhos. Adivinha-se uma criança por trás dela ou então
sou eu que quero adivinhar uma criança por trás dela, me apetece oferecer-lhe
um marido, uma cama de casal para reboliços ao domingo à tarde, alguma alegria,
alguma paz, embora marido, cama e reboliços ao domingo à tarde não sejam
propriamente os ingredientes da paz. Quais são? Olha, o meu avô sentado numa
cadeira de lona no jardim, ao fim da tarde, por exemplo. Foi há muitos anos e
ainda me lembro do sorriso e dos olhos que fitavam os canteiros, não vendo
nada, satisfeito, tranquilo, de casaco de linho branco. Gostávamos muito um do
outro. Às vezes punha-me a mão no ombro. A mulher acabou de tirar a roupa e
sumiu-se com ela num alguidar de plástico vermelho. Não é bonita nem nova e, no
entanto, a ideia de não tornar a vê-la, sei lá porquê, desagrada-me. Estou
sempre a perder as pessoas. E, nisto, dou por mim a pensar no mar. Às vezes no
verão, à noite, o som das ondas chegava ao meu quarto, ritmado, triste,
juntamente com o menear dos pinheiros. Na cama sentia-me uma sementinha
minúscula, perdida na imensidão da terra. Uma sementinha minúscula, uma
partícula de nada. Estou quase em condições de começar um livro, preciso apenas
de me esvaziar um pouco mais de mim mesmo, e que a voz que começo a escutar
principie a ditar-mo. A primeira frase não me larga a cabeça, há outras que
surgem e desaparecem, não se fixaram ainda: tremem ao longe, indecisas. Mas
pode ser uma falsa partida. Cesso de escutar o mar.
Parece-me que escrevo esta crónica a fim de habituar a mão ao papel.
"Numa boa página de prosa ouve-se a chuva."
Agora escureceu e os candeeiros acesos da rua empalidecem as folhas das
árvores. Desde a infância a noite continua a ser um mistério para mim, e a
chegada da manhã um lento milagre cor de rosa pálido. Quando estava internado
no hospital, sem conseguir mexer-me, esperava por ela numa ansiedade inquieta,
implorando, sem palavras
- Salva-me, salva-me.
Sofri bastante na enfermaria mas ninguém, creio, me escutou uma queixa.
Estava a meio de um livro, custava-me imenso a ideia de não poder acabá-lo. Que
eu consiga terminá-lo, era o que repetia para dentro, que ao menos consiga
terminá-lo, cheio de tubos no corpo. Era O Meu Nome É Legião, salvo erro. Ao
voltar para casa demorei séculos até ser capaz de pegar na caneta. Exausto.
Cheguei ao fim daquilo feito em papas, no meio de quimioterapias e radiações.
Numa boa página de prosa ouve-se a chuva. Eu ouvia apenas os gritos mudos da
minha aflição. Consegui escondê-la mais ou menos.
A mulher da roupa na corda não voltou. Fico eu aqui, com este papel,
este textinho. Que horas são? A luz do candeeiro aumenta a sombra das minhas
mãos, a esferográfica ameaça falhar. Apetecia-me ter a minha tia Madalena perto
de mim com o seu olhar terno
- Filho
que sempre me fez sentir amado e, portanto, indestrutível. Na rua uma
discussão qualquer, passos que correm. As árvores imóveis nesta rua de
prostitutas, travestis patéticos, minúsculos comércios, restaurantezitos
modestos. O quiosque lá em cima, a estrangeira sem abrigo a pedir esmola num
idioma incompreensível. A quantos invernos já sobreviveu, a pobre? Onde
dormirá? Sozinha sempre, embrulhada em trapos miríficos. Onde come, o que come?
Onde dorme? Passeia sem descanso de semáforo em semáforo, de palma estendida.
Não insiste, vai-se embora. Um homem toda a tarde, em frente de um café vazio,
naquela esplanada pequenina. Nunca o vi acompanhado.
O travesti de barriga ao léu, em roupa interior debaixo do casaco, que
nenhum cliente procura. Aqui há semanas dois deles à pancada
- Vou fazer queixa ao meu marido, vou fazer queixa ao meu marido
e três ou quatro automóveis, com sujeitos dentro, a desfrutarem a cena.
Depois de todos se irem embora a impressão, no meio do silêncio, de que a briga
continua. Numa boa página de prosa, etc. A janela da corda de roupa fechada.
Talvez para a semana comece o livro. Talvez nunca o comece. Apetece-me sair
voando como os morcegos, a soltar gritos inaudíveis. Hoje almocei com a minha
filha mais velha que, para mim, nunca cresceu. Sempre que me chama
- Pai
continuo a comover-me. Claro que não lhe menciono isso mas continuo a
comover-me. Nunca crescem, os filhos. Digo
- Canhica
como, em Kimbundo, se mencionam as crianças
- Canhica
enquanto o senhor, por trás do balcão, fala da guerra em África. Sempre
que o vejo apenas fala da guerra em África. Já me informou dúzias de vezes
- O meu irmão embarcou a seis de janeiro, no mesmo barco que o doutor
como se esse facto criasse um laço especial entre nós. O irmão
cozinheiro, ele apontador de metralhadora, evacuado para Lisboa a seguir a uma
desgraça qualquer. Até hoje permanece lá. Numa boa página de prosa ouve-se
chover. Aperto-lhe a mão, venho-me embora. Uns metros adiante demoro-me um
pedaço a olhar os caixotes de legumes de uma mercearia. Sozinho. Se a sem
abrigo aparecesse inventava uma língua especial para conversar com ela.
António Lobo Antunes
Na revista Visão
Na revista Visão
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