quinta-feira, 20 de junho de 2019

Quem não sabe estar – Um canalha não sabe:

(Carlos Matos Gomes, 16/06/2019)
Acabei de ver os primeiros minutos do programa “Quem não sabe estar”, ou coisa do género, uma imitação dos talk shows das televisões dos EUA. Este de hoje, na TVI, convenceu-me: o personagem que apresenta aquilo é um canalha. Chama-se Ricardo Araújo Pereira – com graça ou sem graça, com guinchinhos ou trejeitos a questão moral: ele é um canalha. 
O que distingue um canalha de um tipo decente é a atitude perante os indefesos. O canalha humilha os indefesos. Os pides eram canalhas, não pela ideologia, mas por torturarem, violentarem pessoas indefesas. Eram canalhas porque podiam ofender sem correrem riscos. Foi o que o pretenso cómico Ricardo Araújo Pereira fez com Armando Vara, hoje, há pouco. 
Armando Vara está preso e foi exposto, por gente de baixo carácter, numa comissão da Assembleia da República. Mandava a decência que a dita comissão de deputados não promovesse o espectáculo do aviltamento de um cidadão preso, trazido algemado à Assembleia da República. 
Ao aviltamento promovido pelos deputados, correspondeu o dito cómico com uma canalhice guinchada e histérica. O homem, neste caso, o Vara não se pode defender: vá de o utilizar para ganhar a vida. Presumo que se Vara fosse um criminoso de sangue, um assassino com um gangue atrás, o Ricardo não se atreveria a humilha-lo e a utilizá-lo para pagar o seu cachet. Podia sempre receber de troca um tiro, uma tareia. Mas, perante o Vara, o Ricardo sente-se imune. É um cobarde, além de canalha.
Conheço, de o viver e de ter de decidir a vida e a morte de prisioneiros, a situação de olhar nos olhos aqueles de quem somos os senhores da vida e da morte. Sei a canalhice que é fazer humor com essa situação, mesmo que seja necessário matá-los.
Advertisements
REPORT THIS AD
A rábula de Ricardo Araújo Pereira sobre um preso é reveladora de um carácter, de um canalha que não tem a noção da dignidade. Vara pode ser o que quisermos e o que um tribunal disse que era, mas nenhuma pessoa de caráter tem o direito a humilhar quem foi julgado, quem a sociedade tem à mercê.Ricardo Araújo, na sua rábula sobre Vara, emparelhou-se (de parelha de bestas) com o chamado juiz Moro no processo contra Lula. 
Havia risos e gargalhadas na assistência da rábula do Ricardo Araújo Pereira. Também os há no Brasil de Bolsonaro e Moro, também os havia nos autos de fé da Inquisição. Também os houve nas execuções pela guilhotina na Revolução Francesa. 
Ricardo Araújo Pereira merece-me um vómito com esta rábula. Alguns riram alarvemente. Gente que vive em pocilgas. Ricardo Araújo Pereira revelou que podia ser ele a arrastar prisioneiros presos pela trela, ou por se colocar atrás de um mastim para os humilhar, depois de os prender e os deixar indefesos. 
Os cobardes têm rosto.
Do blogue Estátua de sal

domingo, 16 de junho de 2019

Entrevista do Lula na TVT:

É uma entrevista longa mas vale a pena ouvir.

A vitória moral de Lula da Silva:

Carlos Esperança, 15/06/2019)
Quando um homem é mordido por uma víbora, não há quem apoie o réptil, mas se esse homem caiu num ninho de víboras e ninguém procura salvá-lo, é o género humano que se humilha pela cobardia e o torna indigno.
Lula da Silva até podia ser corrupto, e mereceria o desprezo que a indignidade provoca, mas estar preso por uma associação de malfeitores emboscados nas togas e becas, é um crime que produz o vómito de quem ainda preza a liberdade e a dignidade humanas.
Conspirar contra a democracia e derrubar o homem que os malfeitores escolheram para subverter a legalidade e exercer uma vingança partidária, é a baixeza ética da cáfila que nunca procurou combater a corrupção, apenas queria ter o monopólio dela.
Lula da Silva, cuja inocência é hoje irrelevante face aos estragos que o justiceiro Sérgio Moro causou à Justiça, à democracia e ao Brasil, tem hoje contra o ardiloso conspirador a superioridade ética de quem foi preso por vingança, cálculo eleitoral e ódio de classe.
A vergonha dos convites que juristas portugueses fizeram ao biltre que os envergonhou, com a defesa dos truques tropicais para prender adversários, teve o mérito de permitir à atual ministra da Justiça, a honrada procuradora que afirmou, sem o referir, que Portugal era uma democracia e se regia por normas de um Estado de Direito.
O julgador que negociou um lugar de ministro a troco da vitória eleitoral do mais burro e ignaro PR que o Brasil teve, talvez sonhe ainda com a indigitação para o Supremo Tribunal que o indigno capitão lhe terá prometido, mas a nódoa que lançou sobre o sistema de Justiça brasileiro não encontrará benzina que a remova.
A minha solidariedade com Dilma e Lula da Silva é um grito de revolta contra a ordália que foi urdida contra eles, tal como na Idade média, pelos que se julgaram deuses e não passavam de meros patifes infiltrados na Justiça.
Do blogue Estátua de Sal

Consciência:

E dizia Moro que não falava com criminosos! Triste personagem que veio da sargeta e para ela vai voltar. Lula preso é mais livre que este triste. Por que mesmo preso há quem tenha a consciência livre para todo o sempre.

sábado, 15 de junho de 2019

Conversa de café:

Há dias estava sentado a uma mesa de um café e na mesa mais próxima estavam dois amigos de escola e tropa a cavaquear assiduamente sofre os vários problemas que afectam Freamunde.
De muitas coisas um dizia: já não há homens em Freamunde como antigamente. Aquilo sim! É que eram laboriosos. Viviam e faziam sentir aos concidadãos as necessidades prementes. Ouvia e, nesse ouvir, lembrava-me do que era e é Freamunde. 

Mas o mais interessante é que o que mais criticava, ainda há pouco tempo os da sua cor política, deixaram de ter os desígnios do concelho e de Freamunde. Da boca dele só saía fel em relação a tudo que acontece desde Setembro de dois mil e treze em Freamunde. Seja no S. C. Freamunde ou na Autarquia.

Mas ainda se admitia se tal personagem lutasse afincadamente por Freamunde. Mas não! Viveu em Freamunde até casar. Vem a Freamunde esporadicamente. Quer dizer neste momento tem mais anos a viver fora de Freamunde do que em Freamunde. Não é eleitor nesta terra. Como referi está sempre a dizer mal.

Acontece que há muitos não Freamundenses – a viver fora de Freamunde – mas fazem de Freamunde a sua segunda terra – para não dizer a primeira porque só vão para a sua para dormir – e defendem Freamunde, seja na critica construtiva ou desconstrutiva. A estes, não sendo eleitores cá, por cá vivem e sofrem o seu Freamundismo.

Em tempo, um dia também, em conversa com um tipo nascido e criado em Freamunde mas que abalou por casamento dizia: se cada um fosse viver para a sua terra Freamunde estava bem melhor. Esta frase teve a intenção de ferir uma pessoa que optou por Freamunde por casamento.
Não gostei da forma, do conteúdo e da maneira que foi proferida, embora soubesse que foi em jeito de crítica. O que me levou a perguntar: há quantos anos vive fora de Freamunde? Respondeu-me há cinquenta anos. Quantos anos tem? Disse-me setenta e cinco. Perguntei ao outro indivíduo. Há quantos anos mora em Freamunde? Disse-me há quarenta e oito. Que idade tem? Setenta. Fazendo a conta vemos quem é mais Freamundense.
O mesmo acontece com o que chamo à liça. Tem mais anos a viver fora de Freamunde. Mas se por acaso fosse um cidadão que volta e meia aqui fazia o seu poiso vá que não vá. Mas Só aparece por cá para desdizer de Freamunde.
Freamunde não fica grato a gente deste quilate. Gosta de todos e ainda mais de quem anda por este Portugal e Mundo fora a laborar e a tornar o nome de Freamunde em boas causas. Uma ou mais vezes por ano vem cá passar férias e “beber” dos bons e maus momentos porque passa Freamunde.
Não vêm destilar o fel acumulado na vesícula aderente ao glóbulo do fígado como a personagem em causa. Vêm com o coração cheio de saudades. E angustiado pela vida ainda não lhes proporcionar o seu regresso à terra. Saudades imensas por durante trezentos e trinta e cinco dias viverem longe do seu torrão.
Não como outros que vivendo a poucos quilómetros de Freamunde raras vezes cá vem e quando vem é para depreciar a terra. Freamunde remedeia bem sem eles. Já basta alguns velhos do “Restelo” que cá habitam.

Sérgio Moro ou a caricatura de um juiz:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 15/06/2019)
Miguel Sousa Tavares
1 Não é lícito afirmar que a revelação de que Sérgio Moro andou a combinar com a acusação a melhor forma de condenar o ex-Presidente Lula da Silva serve, por si só, para arrasar toda a acusação e pôr em causa a condenação. É preciso não esquecer que esta foi confirmada em recursos por dois tribunais superiores, embora com o ambiente político devidamente montado para tal e com alguns pormenores que dão que pensar (um juiz pronunciou-se a favor da culpabilidade de Lula antes de ter lido o processo, a assistente de outro celebrou previamente nas redes sociais o desfecho do recurso que ainda não fora julgado). Mas também não é possível sustentar que nada de essencial muda depois de conhecidas as indecentes conversas mantidas entre Moro e dois procuradores, as suas tentativas para impedir, com sucesso, que Lula desse uma entrevista que poderia, segundo eles, pôr em causa a vitória eleitoral de Bolsonaro ou os indícios de que Moro terá manobrado de forma a que o processo Lava Jato fosse parar a Curitiba e às suas mãos. Haja ou não matéria legal para exigir uma revisão de todo o processo de Lula — sobretudo, após conhecido o mais que o “Interceptor Brasil” irá revelar — uma coisa tornou-se evidente e não pode ser negada de boa-fé: Sérgio Moro tinha uma motivação política pessoal contra Lula da Silva. Estava pessoalmente empenhado em que Lula fosse afastado das presidenciais, para as quais partia como favorito, e que Bolsonaro fosse eleito Presidente.
O mínimo de decoro teria recomendado que o juiz se remetesse ao seu trabalho em Curitiba, coberto de glória para metade dos brasileiros, após ter conseguido enfiar na prisão por 13 anos o homem que foi o mais popular Presidente do Brasil. Mas a agenda política de Moro não se esgotava aí e ele nem hesitou em dar o passo fatal, com o qual arrancou a máscara: aceitar ser ministro da Justiça no Governo do Presidente que ajudara a eleger a partir da sua posição como juiz. Nem mesmo na equipa de Trump se desceu tão baixo, em termos de confusão entre a Justiça e a política.
Mas só se admirou quem quis: Sérgio Moro já tinha mostrado a sua verdadeira face quando, igualmente por motivação política, resolver “vazar” uma escuta telefónica ilegal entre a Presidente Dilma Rousseff e Lula. Quando um banal juiz de 1ª instância não só ordena ilegalmente uma escuta ao próprio Presidente da República, como depois ainda se permite divulgá-la na imprensa, é óbvio que estamos perante um homem perigoso demais para exercer a magistratura. Moro mostrou que se achava acima da lei, pior ainda: que podia usar os poderes que a lei lhe dava como muito bem entendesse, inclusive para o combate político, em que não devia participar, por estatuto. E muito embora depois se tenha declarado arrependido do seu acto, só realmente uma grande envolvência política de suporte ao “herói” Sérgio Moro justifica que a magistratura brasileira não lhe tivesse imediatamente indicado a porta da rua.
Sérgio Moro, que é vedeta convidada e reconvidada em Portugal, tem escrito na cara aquilo que é: um justiceiro e não um juiz. E pior do que um mau juiz é um juiz-justiceiro, aquele que acredita na sua superioridade moral sobre o comum dos homens e que julga que o direito está ao serviço da sua moral, nem que para isso tenha que fazer tábua-rasa dos direitos alheios. É eloquente que até um dos procuradores escutados a conspirar com ele, Delton Dellagnol, tenha manifestado dúvidas sobre o êxito de uma acusação que não assentava em nenhuma prova directa, mas só nessa figura tropical do “delator premiado”. Moro condenou um homem de setenta anos a 13 de cadeia, condenou um ex-Presidente da República pelo pior dos crimes que lhe poderiam ser imputados — o de corrupção — sem ter contra ele uma só prova directa da acusação feita: uma escuta, uma escritura, um contrato, um papel, um testemunho independente que confirmassem que Lula era, de facto, o dono ou, pelo menos, o usufrutuário do célebre triplex na praia que parece ter recebido como corrupção. Eu, pessoalmente, gostaria muito de perguntar ao ex-juiz Sérgio Moro como é que ele sabe, quando está perante um delator premiado, que este está a dizer a verdade ou apenas a verdade que interessa à acusação e ao próprio delator, que assim será “premiado”. Porque a tal delação premiada — que muitos dos nossos magistrados do Ministério Público bem gostariam de ver introduzida no nosso Código de Processo Penal — não é outra coisa que não um testemunho comprado. E se é crime a defesa comprar testemunhas, por que razão poderá a acusação fazê-lo ao abrigo da lei?
Ciao, Sérgio Moro. Começou como juiz impoluto, idolatrado por muitos; desacreditou-se como juiz independente e imparcial quando saltou para a política nos braços do homem que ajudara a eleger contra aquele que mandara prender; e agora jaz soterrado sob um mar de lama que nenhum Lava Jato poderá limpar. Mesmo na prisão, culpado ou inocente, Lula da Silva é muito mais livre do que ele.
2 Mais três autarcas constituídos arguidos sob suspeita de corrupção — mais os inevitáveis crimes associados de branqueamento de capitais e evasão fiscal. Sem pôr de forma alguma em causa a presunção de inocência, direi, em abstracto, que não me espanta que metade dos casos de corrupção investigados ou julgados diga respeito a autarcas. Porque, ao contrário, do que é politicamente correcto dizer, o governo de proximidade é uma forma de tentação acrescida e não de transparência acrescida. É aquilo a que chamo “o poder fatal” — o lugar onde, longe dos olhos de quase todos, o poder aí existente é o maior empregador, o maior contratador, o maior distribuidor de dinheiros públicos. Contra as malfeitorias de um ministro, temos um Parlamento, um Tribunal de Contas, uma imprensa nacional para nos defender: contra as de um presidente de Câmara de pequena ou média dimensão, temos o silêncio dos dependentes. E todos sabemos que, infelizmente, desde que haja ladrão, a ocasião vai sempre ter com ele. É uma das razões pelas quais a regionalização, tão ansiada por alguns, me deixa logo de cabelos em pé.
Advertisements
REPORT THIS AD
Não obstante, estas mega-operações de justiça mediática deixam-me sempre um sentimento ambíguo. Às vezes até parece que é pela anunciada grandiosidade da operação — dezenas de magistrados, centenas de investigadores, dúzias de buscas, milhares de páginas de documentos apreendidos, tudo devidamente publicitado aos quatro ventos — que se pretende fazer prova prévia da culpabilidade dos suspeitos. Suspeitos que as autoridades logo transformam em arguidos e a opinião pública em corruptos, sem mais. E por vezes sucede que, desencadeada a mega-operação, nada mais acontece durante meses ou anos. Demasiados processos ficam parados ou jamais chegam a julgamento e demasiadas pessoas, que tanto podem ser culpadas como inocentes, carregam sobre os seus ombros uma sentença popular de corrupção inapagável. Que ela existe e é também demasiada, não tenho dúvidas. Que ela precisa de todos os meios para ser investigada, também não. Mas não haverá forma melhor de o fazer mais depressa e com menos danos colaterais?
3 Eis outra coisa que se repete de ano para ano: a falta de parte dos meios aéreos previstos para o combate aos incêndios, porque o desfecho de concursos está suspenso em tribunal, após reclamação dos vencidos. Este ano são 17 os meios aéreos cuja entrada ao serviço está pendente de uma decisão da Justiça sobre o resultado de dois concursos. Mas os incêndios não esperam pela Justiça e por isso pergunto: não será possível que os concursos imponham a obrigatoriedade do vencido prescindir de reclamar o resultado do concurso? Ou, ao menos, prever uma tão grande penalização em caso de indeferimento judicial, que os concorrentes pensem duas vezes antes de reclamarem sistematicamente, de cada vez que perdem o concurso?
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Operação Plebeu:


A “Operação Plebeu” alcançou um sucesso ribombante. Nasceu de uma encomenda do tal Presidente da República que usou os mortos de uma catástrofe natural para jurar que só se candidataria ao segundo mandato se os incêndios de Verão não sei quê, o tal Presidente que depois apareceu a sugerir ir recandidatar-se por ser o único português maior de 35 anos com pinta para receber um papa na Portela e levá-lo a passeio até Fátima, e que recentemente garantiu apetecer-lhe continuar no cargo só para que a direita seja protegida e mimada a partir do Palácio de Belém dada a infestação de esquerdalhos. O artista convidado cumpriu na perfeição, superando as expectativas. O ar risonho do contratante em certos momentos do espectáculo não fica apenas como expressão de um fundo agrado. É uma validação admirativa, a laivos embevecida, a um colega de profissão vindo de um mestre na matéria. Como alguém bem informado disse, parecia o Fernando Santos a babar-se de felicidade com a exibição do seu Éderzito.

O discurso de João Miguel Tavares foi de altíssima eficácia para os públicos-alvo em causa: direita profissional, populistas inorgânicos e infelizes despolitizados. Não falou em Sócrates, nem tal era necessário para que tudo o que dissesse tivesse esse contexto, esse subtexto e esse pretexto. O colega do assessor da Casa Civil foi escolhido como estrela de um feriado nacionalista precisamente para que a condenação popular do aterrorizador inimigo da oligarquia fique com o alto patrocínio do Presidente da República, de caminho fazendo-se mais pressão sobre Ivo Rosa e o sistema de Justiça no sentido de obter a mais extensa e mais pesada condenação possível. Ignoro mas aposto que a sua pulsão inicial foi a de fazer explícita referência ao Diabo através da “Operação Marquês” e que rapidamente Marcelo lhe terá dito que desta vez não dava, havia mínimos de decoro e máximos de porqueira. Afinal, tratava-se de uma cerimónia institucional e soleníssima, ora foda-se. Essa limitação, imposta pelo próprio ou ao próprio, aumentou o poder retórico do texto. A repetição da cartilha direitola decadente desde 2008 – a dívida, a bancarrota, as leis do trabalho rígidas, as auto-estradas vazias, os velhos a ocupar o lugar dos novos, o politicamente correcto, a corrupção, as décadas perdidas – foi pontuando a progressão de um enredo embrulhado em sentenças vácuas e pedantes, incongruentes e até ilógicas, um lençol de chavões delico-doces que serviu primorosamente o objectivo de oferecer aos diferentes segmentos sociais na audiência, especialmente aos mais desqualificados por limitações cognitivas ou inexperiência de vida, um território de referências familiares e sectárias. O orador foi a voz dos derrotados do PSD e CDS, dos deprimidos, dos bisonhos, dos paranóides, dos que expelem ódio, dos saudosos de Passos Coelho. Visto daí, Portugal é um lugar inóspito e assustador, onde corre solto o desânimo. O truque sofístico consiste em deixar na sombra o positivo e apontar a luz para o negativo, apagar o que nos une e colorir o que nos separa, ser o profeta da guerra civil. É simples e resulta desde o Neolítico. “Eles” são mais fortes e são maus, são o “outro” corrompido e corruptor. “Nós”, os puros e vítimas, ficamos neste queixume resignado a lamber as feridas enquanto não regressa quem nos vai conduzir ao sonho prometido.

Se o discurso tem esses pés com que a dupla de celebérrimos comentadores deu bailarico e coices no 10 de Junho, tem igualmente cabeça. Do princípio ao fim, o que se está a vender explicitamente é o conceito de meritocracia. Dado o endosso de Marcelo, o aparato mediático da ocasião e a marca JMT, podemos considerar que foi a mais poderosa acção de propaganda que já se viu no rectângulo e ilhas na promoção de uma ideia estrategicamente fundamental para o controlo do poder e a anulação da revolta em sociedades moldadas pela desigualdade capitalista. Não sei se a vedeta caluniadora concordará comigo mas arrisco sugerir que o conceito não foi inventado por este Tavares ou qualquer outro. A meritocracia é defendida em todos os tempos e poisos por quem pretende manter os seus privilégios, daí se ter tornado uma bandeira ideológica da direita que está bem instalada no topo da cadeia alimentar. Aqueles que desfrutam de vantagens sobre os restantes sabem-se sempre ameaçados, temem perder as riquezas e o continuado e facilitado acesso a mais riqueza, daí a necessidade psicológica de blindarem numa crença esse usufruto das desigualdades sociais e económicas, quando não também políticas e judiciais. Essa crença é o “mérito”, a concepção de que vivemos num mundo onde cada um se basta a si próprio. Se eu agir, se ao agir tiver sucesso, decorre uma conclusão meritória: o sucesso da minha acção deve-se a mim, ao que em mim faz com que eu seja eu. Pode ser qualquer factor, como a intensidade do esforço, a persistência, a escolha acertada do caminho numa encruzilhada, o salto arriscado sobre o abismo. Se correr bem, essa é a prova de que eu tenho talento, de que o mundo é aquilo que se move à minha volta e que existe como prémio. A meritocracia é invariavelmente retrospectiva, é uma contemplação ensimesmada do resultado de termos obtido uma qualquer vantagem sobre os restantes – esses que não têm mérito, ou não o mérito suficiente, portanto. A partir deste culto a nós próprios como autores do nosso destino, dois monstrengos afligem o meritocrata. O primeiro, de acordo com o zeitgeist, é a “elite”, ou “elites” para dar melhor conta da grandiosidade do combate, um conjunto de rivais que dificultam ou impedem que o mérito seja reconhecido e recompensado. As elites usufruem de privilégios que já não são meritórios, assim corre a tese, posto que resultam das inércias, cumplicidades e defesas desses indivíduos que, malvados, não pretendem abandonar a sua superioridade social e posse de recursos para se verem substituídos pelos que verdadeiramente merecem estar no seu lugar. É que os recursos são sempre escassos para tanta procura, daí a luta sem quartel para os conservar e aumentar. O segundo monstrengo é o sentimento incómodo, embora profundamente consolador, gerado pela constatação de que a pobreza, as várias pobrezas, inclusive a mediania, a banalidade, são o inevitável resultado da ausência de mérito. Querem ter casa, carro e médicos finórios em consultórios modernos e a cheirar bem? Trabalhem, poupem, trabalhem mais, gastem menos, façam das tripas coração. Corolário: os pobres, na meritolândia, têm exactamente o que merecem.

Onde é que já ouvimos isso? Em 2011, no auge de uma crise económica mundial onde a Europa ainda não tinha mecanismos protectores contra a especulação das dívidas soberanas, o então presidente do PSD decidiu boicotar um plano de apoio financeiro internacional que teria evitado o resgate de emergência e o cataclismo que se seguiu. Abriu uma crise política que obrigou a eleições, e na campanha eleitoral prometeu “acabar com os sacrifícios” e “libertar a economia”. Jurou “não subir impostos, não cortar pensões, nem fazer despedimentos na Função Pública” se ganhasse. A solução indolor e instantânea para os problemas do País estava no “corte nas gorduras do Estado”. Ter afundado Portugal correu bem ao especialista em aeródromos na Região Centro. Assim que se viu como primeiro-ministro revelou o seu verdadeiro plano: ir além da Troika. Esta obsessão com uma reengenharia social que iria fazer dos portugueses as cobaias do fanatismo da austeridade salvífica veio acompanhada por uma moral meritocrática. Descobrimos com o Pedro que, embora pobretes desde o fim do ouro brasileiro, tínhamos andado a viver acima das nossas possibilidades. Se queríamos brincar à qualidade de vida, havia primeiro que sofrer o castigo. Expurgar a preguiça e a estroinice. Fazer como o Governo amante do FMI, que acabou com esses luxos asiáticos das viagens de avião em Executiva e do ar condicionado ligado; para que queríamos ter dinheiro se não o sabíamos gastar nem o conseguíamos manter debaixo do colchão? Mais valia que ele fosse para o Norte da Europa onde eles são de boas contas e gostam de trabalhar. Circunstâncias históricas, estruturais, conjunturais, ambientais, socais, mesmo antropológicas, deixavam de poder justificar medidas especiais de apoio e estímulo. O cumprimento do programa de assistência, desejado fervorosamente pela direita, implicava uma terraplanagem das diferenças e das carências na paisagem humana. O isolamento social, o desespero daqueles que já tendo pouco ficavam ainda com menos, a debandada para a emigração e as emergências nas famílias atingidas pelos despedimentos e pela redução drástica do mercado de trabalho, tudo isto era despejado sem um pingo de empatia. Os discursos dos governantes e sua legião de correligionários mediáticos espalhavam acusações, culpas, desprezo encardido pelos que sofriam o que poderia, e deveria, ter sido evitado em nome do interesse nacional, em nome do bem comum. Esta violência meritíssima encantou o João Miguel, passando a ter em Passos o seu ídolo.

O discurso do presidente das comemorações do 10 de Junho é um florilégio biográfico. Contou a sua história desde o nascimento, viajou até à feérica Albufeira, ilustrou o que os pais fizeram por si no campo das compras a prestações, citou o que diz à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita, recordou a casa de pasto de um dos seus avós, ficámos a saber que os seus sogros fugiram de Moçambique com seis filhos, abrimos a boca de espanto com as distâncias percorridas por uma certa mulher que criou outra mulher, e partilhou connosco o estado da sua relação consigo próprio: chegou lá (a Portalegre, completando o círculo heróico ao voltar ao ponto de partida). Esta atenção a si próprio foi essencial para a identificação de tantos, inclusive dos mais insuspeitos até à data de serem completos totós. Ao relatar o seu sucesso, explicando que o mesmo se deve exclusivamente ao seu mérito – “um simples estudante de uma cidade do interior, sem qualquer ligação à capital e às suas elites” – mérito oficialmente reconhecido pelo Estado numa festa para o efeito realizada no dia 10 de Junho de 2019, podemos observar como a propaganda da meritocracia em nada se distingue das técnicas de venda pela TV. Nestas precisamos de ver o produto em acção, e quão mais real, literal, for o registo mais adesão vai suscitar no espectador-consumidor. Ali aonde tinha chegado este craque da indústria da calúnia o produto mostrou ter um desempenho espectacular. A boa nova passou a ser a de que qualquer um poderia vir a estar no lugar dele:


"Quando o senhor Presidente da República me convidou para presidir a estas cerimónias houve muita gente que ficou espantada, incluindo eu próprio. Mas com o tempo fui-me afeiçoando à ideia de que talvez não seja absolutamente necessário ter méritos extraordinários para estar aqui, e que Portugal precisa cada vez mais de um 10 de Junho feito de pessoas comuns e para pessoas comuns."


João Miguel Tavares, de costas para os representantes da soberania, a dizer ao povo que um dia poderão ser eles a estar no seu lugar. Basta que tenham o mérito de não terem méritos extraordinários para serem convidados. A apologia da meritocracia à portuguesa a culminar num curto-circuito da racionalidade, uma explosão de contradições para epater le burgessos, o gozo supremo de uma hipocrisia deslumbrada a deixar algo em que acreditar: que cada um faça a sua parte, que fuja do convívio com as elites, que trate da sua vidinha, e, um dia, tal como aconteceu com ele, o telefone irá tocar… e é o Marcelo.

Estava completada a “Operação Plebeu"
”.