sexta-feira, 5 de junho de 2020

A vez daqueles a quem um joelho tem sido posto sobre o pescoço:

Não sei se é só a cor da pele. É também a pobreza intrínseca, a humildade indefesa. Os cobardes não gostam de sentir a coragem por perto. Tudo fazem para pôr a pata em cima, para atirar por terra e pôr o joelho dobrado em cima do pescoço de quem está na mó de baixo. Dos cobardes não são de esperar gestos de respeito quanto mais de nobreza. Os cobardes rapidamente passam de medíocres a maus, é só aparecer-lhes a oportunidade.

Não é só aos negros.

Já vi tratar assim um homem branco que estava com uma depressão, fragilizado. O chefe, que temia a competência do subordinado, tirou-lhe funções, marginalizou-o, fê-lo sentir-se ainda mais um merdas, alguém sem valor, sem futuro, alguém que se sentia envergonhado por ter que expor a sua humilhação quotidiana. Na prática, o chefe pôs-lhe a patorra em cima, esmagou-o.

Já vi um bronco, que se sentia desafiado pela franqueza e conhecimentos de uma jovem, esvaziá-la de funções, tentar dobrá-la, humilhá-la e, quando ela estava grávida, em termo de gravidez, tentar que fosse dispensada (leia-se: despedida), dizia ele que era porque ela não tinha funções e ele não tinha qualquer trabalho para lhe dar. Não era negra: era mulher, jovem, grávida, branca.

Mas, também, os negros simplesmente pr serem negros. Já estive numa sala de reuniões apinhada e, havendo necessidade de chamar um técnico e sendo ele negro, ouvi um grande executivo dizer no gozo: 'olha, conseguiu resolver, tem esperto na escabeça.'. Era um jovem, a prazo, negro. Fez um sorriso envergonhado e saíu da sala, de cabeça baixa. Nenhum de nós teve a coragem que ele teve pois, se a tivessemos tido, teríamos dito que apenas continuaríamos na sala se o cobarde saísse. Somos nós todos, com a nossa delicadeza, que deixamos que os cobardes vão ganhando terreno.

Em todo o lado em que houver um estúpido, ignorante, bronco e, sobretudo, cobarde, qualquer pessoa indefesa estará em risco. Somos nós, os civilizados, que temos que aprender a ser mais corajosos.

Gente assim deve ser tratada com desprezo, deve rir-se-lhe na cara, deve mostrar-se que não se tem medo, e, se se puder chegar perto, quando a besta menos esperar, deve chegar-se-lhe perto, agarrar-lhe os tomates e apertar até que a besta guinche de dor, espanto e vergonha. Ou dar-lhe uma valente joelhada, deixá-lo cair de joelhos a ganir. Se for uma mulher a fazer-lhe isso deve ter um copo de café na mão e, a seguir, despejar-lhe em cima. Digo café para ser coisa com cor que se veja, para que fique ainda mais ridículo, aspecto borrado. Mas, sendo um homem, o que deve fazer depois de o deixar a ganir agarrado aos tomates, é mijar-lhe em cima. À cara podre.

No caso de Trump, os guarda-costas deveriam unir-se e fazer um cordão em sua volta para que fique isolado e alguém possa penetrar nesse círculo de segurança e fazer-lhe isso. Com as câmaras a filmar. Para que no Face, no Insta, no Twitter, no YouTube e em todo o lugar possível passem as imagens da besta a ser humilhada. E em todo o lado por onde também passe a boneca-insuflada, Ivanka de seu nome, alguém deveria passar-lhe uma rasteira e fazê-la ir ao chão. De preferência, deveria ser alguém com um cão pela mão para que o cão lhe mije em cima.

O que se passou com George Floyd foi apenas mais um caso nuns Estados Unidos degradados, desunidos, aparvalhados, assaraapantados, embrutecidos. Um caso limite, chocante, em directo. Alguém que morreu à vista de todos, assassinado por quem deveria defendê-lo. Quem o assassinou foi alguém que se sentiu com poder para vergar um homem, para o asfixiar até à morte, alguém da raça do Trump, do Bolsonaro, alguém arraçado de besta quadrada, de cavalgadura, de tiranete de opereta bufa e mal ensaiada.

Não tenho querido falar nisto. Não gosto de falar a quente. Não gosto de falar quando acho que a situação é tão grave que não bastam palavras. Em situações assim penso que é necessário que a revolta seja forte, eficaz, que o troco seja dado na mesma moeda. Não desejo a morte de ninguém, nem sequer de Trump, de Bolsonaro ou do polícia que asfixiou George Floyd até à morte. Mas desejo que haja forma de os neutralizar politicamente e de os condenar, por todos os meios disponíveis em democracia, por todos os crimes que cometem.

E, enquanto andam à solta, que nenhuma voz se cale.

Do blogue Um jeito manso

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Recordações:


Ao ver esta fotografia, parte frontal do Café do Américo “Caixa”, fez-me recordar ali algumas passagens. Era lugar para concórdia e discórdia. Falava-se de tudo. Parecia o banco da má-língua ou um lavadouro público.




















Café do Américo "Caixa"
No fim da década de sessenta princípio da setenta do que se falava mais era de futebol e ciclismo. De futebol vinha à baila o S. C. Freamunde – como era de esperar – Benfica, Sporting e Porto. Conversas para todo gosto. Até da arbitragem.
No ciclismo não se falava nos clubes, mas sim nos corredores. Ribeiro da Silva, Alves Barbosa e Jorge Corvo o eterno segundo. 
Havia a claque do Ribeiro da Silva e Alves Barbosa. 
Da claque de Ribeiro da Silva não admirava a sua existência. Era de Lordelo, Paredes, mas fazia a sua vida em Freamunde. 
Um dos seus maiores amigos era Nelson Lopes.
Ainda me recordo, ano de mil novecentos e cinquenta e oito, mês de Abril, de ver Nelson Lopes a acompanhar o cortejo fúnebre que passou aqui em Freamunde, vindo de Lousada, salvo erro. 
Andava na terceira classe da Instrução Primária e houve um intervalo para nós crianças assistirmos ao dito cortejo fúnebre.

Ribeiro da Silva
Ribeiro da Silva tinha um irmão que também era todo dado a Freamunde. Era sócio do S. C. Freamunde e um dia na semana – terças- feira – era visita assídua do Café Malheiro.

















Irmão do Ribeiro da Silva
De política pouco se falava em frente ao Café do Américo “Caixa”.
Não era porque os Freamundenses não se interessassem por política. Interessavam-se sim.
Entre muitos destacava-se Júlio Graça.
Não conseguiu ver em vida a sua neta Cecília Meireles como deputada na Assembleia da República.
Como dizia, em frente ao Café não se falava de política porque a escassos metros ficava o edifício que fazia de Quartel da Legião Portuguesa e entre os opinadores havia um ou outro Legionário. Era o medo a funcionar.
O que me faz escrever ao ver uma foto da parte frontal do Café do Américo “Caixa”.
É que quando isso acontece, seja uma foto ou uma notícia sou transportado ao meu “baú” de recordações buscar notícias ou essas recordações.
E recordar é viver.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Marcha Alegórica das Sebastianas 2010:

Já que estamos impossibilitados de ir às Festas Sebastianas – não se realizam derivado ao Covid 19 – vou possibilitar a que as Sebastianas vão até às casas dos Freamundenses.
É a maneira de mostrar o que de melhor temos: invenção. Além da invenção o trabalho que acarreta. Depois há que ser dotado de habilidade. Ela não se fabrica. Nasce com o indivíduo. Depois disso é que é fabricada.
Freamunde é um exemplo de inventores, bairrismo e cultura.
Sendo seu “primogénito” Leopoldo Saraiva. As primeiras Marchas Alegóricas tiveram o cunho dele, secundarizado por voluntários, que abdicavam de horas de descanso para tornar os carros alegóricos num ex-libris das Marchas Alegóricas.
Pelos anos fora desapareceram uns, outros derivado à idade, deixaram de contribuir com o seu préstimo. Felizmente em Freamunde eles “brotam como bolota” e todos os anos lá aparecem os Mocas, os Fanecos, Paulo Campos, filho do Manel da “Vitória” e outros mais. Desculpem o adjectivo, mas é forma de os dar a conhecer.
Houve anos em que Comissões de Festas iam fora da terra encomendar os carros alegóricos. Caso da minha em mil novecentos e oitenta e oito. Mas em boa hora voltou-se à prata da casa.
Todos os anos é escolhido um tema e mediante ele os obreiros idealizam o que vão construir. E tenho a dizer que de ano para ano tem-se sentido essa melhoria.
Apresento um vídeo da Marcha Alegórica de dois mil e dez que foi uma das melhores realizadas até àquela data.
Este vídeo segue como forma de levar as Sebastianas a casa dos Freamundenses como refiro acima.

domingo, 31 de maio de 2020

Ricos, pobres e mal agradecidos:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/05/2020)
Miguel Sousa Tavares
Numa sociedade decente, os pobres têm direito a esperar que os impostos sobre os ricos não os deixem cair na miséria nem no abandono: não é por acaso que os dois países mais atingidos pela pandemia, Estados Unidos e Brasil, são dois dos países mais desiguais do mundo, apesar de também serem dois dos países a quem a providência contemplou com maiores riquezas naturais. Mas quando uma sociedade tolera sem problemas que o luxo viva paredes meias com a favela ou que se morra de doença na rua porque os hospitais só tratam quem tiver seguro de saúde, essa sociedade até pode constituir países capazes de mandar homens à Lua ou inventar vacinas contra os vírus, mas jamais conseguirá explicar as estatísticas internas que envergonham qualquer país decente.
Mas numa sociedade decente, o Estado Social — que nós, europeus, devemos a Bismarck —, se, por um lado, tem por obrigação proteger os pobres, os doentes, os desfavorecidos, os desempregados, os indefesos, os velhos, tem, por outro lado, a obrigação de não estimular nem contemporizar com os que se acomodam à situação de assistidos pelos impostos dos outros, sem nada fazer para saírem dessa situação podendo fazê-lo. Porque, aí, o Estado não estará a defender os pobres, mas a perpetuar a sua pobreza, nem a proteger os indefesos, mas os ociosos.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
Este princípio transportámo-lo para a fundação da União Europeia, desde os seus alvores, desde a CEE, já lá vão décadas. Com os sucessivos alargamentos da UE, em particular ao sul e a leste, o princípio da solidariedade foi constantemente posto à prova, com altos e baixos, momentos de tensão e momentos de distensão. Nós, que entrámos antes da revoada dos países do leste, pertencemos ao número dos altamente beneficiados com os dinheiros europeus, cujos evidentes benefícios — na parte que soubemos aproveitar e não desperdiçar — só gente de má-fé pode negar. A entrada no espaço europeu permitiu-nos recuperar em anos décadas de atraso, financiando o desenvolvimento económico com capitais a que, de outro modo, não teríamos acesso. E a entrada no espaço do euro, se nos retirou a possibilidade de jogar com o factor cambial a favor das exportações, permitiu-nos, por outro lado, livrar-nos do pesadelo da inflacção e dos juros mortais e dar às nossas empresas acesso a um mercado altamente competitivo. Nem tudo foram vantagens, claro, mas este não é um jogo de ganhar apostando no vermelho e ganhar apostando no preto. Os ingleses estão a descobri-lo à sua custa: quiseram sair da UE porque estavam fartos das regras do clube, mas querem a todo o custo manter uma: o acesso ao mercado comum de 600 milhões de consumidores sem terem de pagar taxas, como país outsider.
O mesmo que os ingleses, querem os quatro países actualmente classificados como “forretas” (adjectivo bem mais adequado do que “frugais”): Áustria, Suécia, Dinamarca e Holanda. Querem que aqueles que “gastam o dinheiro em copos e mulheres”, nas inesquecíveis palavras do ex-ministro das Finanças holandês, se mantenham na Europa e no euro — o que lhes dá muito jeito enquanto consumidores e pouco dano lhes causa enquanto competidores, enfrentando taxas de juro bem mais elevadas, quer para empresas, quer para os Estados. Mas não querem, de forma alguma, ter de gastar um euro a mais a financiar os “vícios” dos “gastadores” — seja a compor as finanças públicas arruinadas pela crise bancária nascida nos EUA em 2008, seja a reconstruir toda uma economia devastada por um vírus planetário nascido em Wuhan, na China.
A Europa, para eles, era, antes de tudo e no fim de tudo, o seu interesse próprio. A Europa, fazendo-se a vontade deles, acabava aqui e agora. Foram dois meses de tensão, de desespero de muitos, de epitáfios já prontos a servir. Mas, no fim, o trio Merkel, Macron, Ursula von der Leyen não quis deixar que a história acabasse assim e colocou em cima da mesa o regresso da UE às suas origens mais nobres. Nada está ainda assente, muitas resistências vão ainda ter de ser ultrapassadas, muitas lágrimas de raiva terão de ser engolidas, mas aquele trio tem muita força. E, se a ele juntarmos a Itália e a Espanha, temos o verdadeiro core business da UE alinhado em tudo fazer para acorrer a quem mais precisa, na hora mais negra dos mais desprotegidos povos europeus. Foi para isto que se fez a UE, para garantir aos povos europeus 70 anos de paz, de prosperidade e de solidariedade, dentro da diversidade. O que Ursula von der Leyen anunciou na quarta-feira no Parlamento Europeu foi muito mais do que um grandioso plano de reconstrução da economia de todo um continente: foi um grito a reunir contra os inimigos da Europa, os extremistas de direita e esquerda, os antidemocratas, os que já estavam prontos a precipitarem-se para os braços de Trump ou de Xi Jinping, os arautos do salve-se quem puder.
Porém, não basta apelar à solidariedade alheia e estender a mão para a receber: é preciso justificá-la, é preciso merecê-la, é preciso saber aproveitá-la e mostrar a quem deu que valeu a pena dar. Essa é a nossa parte. Porque, estranhamente ou talvez não (talvez não, porque metade dos portugueses não paga impostos sobre o rendimento), temos entre nós muita gente que acha que receber dinheiro dos outros é um direito adquirido. Ainda há dias, num desses fóruns matinais das rádios, onde o facilitismo intelectual dos ociosos anda à solta, um ouvinte apresentava a sua solução para a crise económica global (resultado, presumo, de uma noite passada em branco a quebrar os miolos): “Não tem nada que saber”, garantia ele, “desta vez, o FMI tem de despejar dinheiro a fundo perdido sobre os países!” Quem lhe soprará ao ouvido que o dinheiro do FMI é… dos países? Nestes tempos covid, aliás, é de ficar estarrecido ao ver como toda a gente, da esquerda à direita, se esmera num campeonato de ideias de onde injectar mais e mais dinheiro do Estado, de cuja conta final ninguém quer saber nem a proveniência, nem o montante, nem o modo de pagamento. Se um diz “empresta”, o outro diz “a fundo perdido”, se um diz “paga”, o outro diz “nacionaliza”, ao ponto de vermos o libérrimo Pires de Lima, que se indignava contra as “taxas e taxinhas” sobre o turismo lisboeta, a exigir agora que o Estado dê 500 euros a cada família portuguesa para gastarem este verão nos hotéis de Portugal. E com o argumento de que não custa nada, porque pode-se tirar das ajudas europeias.
Justamente. Ainda não tinham passado meia dúzia de horas sobre a apresentação da proposta da Comissão Europeia, ainda estávamos todos a digerir a notícia em que já poucos acreditavam — a de que a UE ia investir 750 mil milhões na recuperação da economia, dos quais dois terços a fundo perdido e o resto na inconfessável e tão desejada mutualização da dívida, e de que a Portugal, em primeiras contas, caberiam 15,5 mil milhões “dados” e 10,8 mil em crédito a taxas de juro “alemãs” —, e Jerónimo de Sousa, órfão de más notícias na frente europeia, tinha o supremo desplante de começar por as comentar assim: “Independentemente do carácter limitado dos montantes…” Como? Como foi que disse? “O carácter limitado dos montantes?” Mais do que os 13 mil milhões que o Governo estimou gastar com o combate à crise e falando só em dinheiro dado? Quanto seria necessário que os contribuintes europeus nos dessem — dessem! — para satisfazer Jerónimo de Sousa? Sim, porque adiante, e completando a frase, acrescentou ele: “É preciso saber quais as condicionantes e imposições que estão associadas, se estarão amarradas aos critérios da UE…” Bem, comecemos por esclarecer: os dinheiros dados não têm condições algumas; o dinheiro que podemos, se quisermos, pedir emprestado a taxas de juro iguais às dos países competitivos, esse obedece aos critérios definidos por Bruxelas para todos, os quais, e muito bem, privilegiam investimentos dirigidos ao digital e às políticas ambientais. Compreendo a desilusão e a desconfiança de Jerónimo de Sousa: trata-se da orientação política definida pelos 27 para o próximo Quadro Comunitário de Apoio e não do Programa Político do PCP, que não obteve vencimento em Bruxelas nem financiamento em Caracas. Tudo isto seria patético, se não fosse sério. Se não fosse enxovalhante morder a mão que dá de comer, até daria vontade de rir ouvir o eurodeputado do PCP João Ferreira afirmar, a propósito deste momento histórico, que “há um forte condicionamento de Portugal pela sua integração na UE”. Ó João Ferreira, só agora é que descobriu isso? Você, que pertence a um partido que está sempre a falar do “colectivo”, só agora é que descobriu que, quando se pertence a uma associação de países, manda a vontade comum e não apenas a nossa? E sabe que isso é vontade livre dos portugueses? E sabe que agora, com esta crise, só ainda não fomos à bancarrota e não temos exércitos de desempregados a vaguear pelas ruas porque o Estado pode arriscar-se a sustentar a economia com o dinheiro que sabe que vai receber dessa malfadada UE de que você é eurodeputado? E, já agora, como é que se sente e senta no Parlamento Europeu alguém que é contra a União Europeia? Pobres, sim; mal agradecidos, não. Há uma diferença entre reclamar justiça ou perder a vergonha.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Do blogue Estátua de Sal

sábado, 30 de maio de 2020

Para podermos respirar:


«” Não consigo respirar”. O grito, como é sabido, não é de nenhuma vítima da Covid-19, mas sim de George Floyd, o cidadão negro, afro-americano, de 46 anos, que foi executado barbaramente por um polícia em Minneapolis. A frase foi repetida dezenas de vezes, em estado de aflição, enquanto o polícia continuava a esmagar com o joelho imperturbável a garganta de Floyd. Ao contrário do que escreveu alguma imprensa, o polícia não se “ajoelhou no seu pescoço”. Asfixiou-o deliberadamente. Floyd não morreu por isso em nenhum “incidente”. Perante os apelos dos transeuntes para que o deixassem respirar e a passividade criminosa dos restantes agentes policiais, que recusaram prestar qualquer assistência a uma pessoa que estava a ser assassinada, George foi linchado por quem tem, supostamente, a missão de proteger os cidadãos.

“Não consigo respirar”. Foi também este o grito, repetido desesperadamente mais de uma dezena de vezes, por Eric Garner, cidadão negro que tinha 43 anos quando foi estrangulado ate à morte, durante mais de 15 segundos, em julho de 2014, por um agente da polícia de Nova Iorque, também ele um homem branco. O caso, seis anos antes numa outra cidade, e que terminou sem qualquer condenação do homicida, tem todas as afinidades possíveis com o de Minneapolis. E mostra como nada parece ter mudado para todos aqueles que não podem sentir-se seguros se a polícia estiver por perto.

Enquanto tantos se mobilizam, um pouco por todo o mundo, para combater um vírus que nos impede de respirar, para que haja ventiladores capazes de salvar vidas, há outras vidas e outros corpos que são tratados como se não tivessem direito a viver. Como se o poder pudesse dispor deles e eliminá-los.

A asfixia dos negros não vem, como se sabe, de agora. Estes episódios estão longe de ser acontecimentos isolados. Muito menos são tristes coincidências. São, de facto, a expressão da política do racismo estrutural, que é brutal nos Estados Unidos, mas não só. Estas histórias, que nos revoltam por dentro, existem porque foram conhecidas, porque alguém filmou e nós as testemunhámos. Imaginem agora quando não há ninguém a registar o que acontece, quando é no silêncio e na impunidade absoluta que estes assassinatos acontecem. Quantos não existem, todos os dias? Quanta violência racista é perpetrada sem que nunca ninguém seja condenado por isso? Sabemos bem, em Portugal também. É preciso lembrar Alfragide, por exemplo?

É por isso que me declaro solidário com quem manifesta a sua indignação e a sua repulsa, que são também minhas, contra esse racismo larvar que atira migrantes e negros e pobres para as periferias das cidades e dos empregos mal pagos, para as vias desvalorizadas do ensino e para os transportes cheios e expostos à doença, para as prisões e para os bairros com poucas condições. Para a violência estrutural às mãos das instituições.

Em Minneapolis, esta revolta é já um potente grito coletivo e multirracial que ocupou as ruas, com gente de várias comunidades e pertenças, com igrejas solidárias a abrirem as suas portas para abrigar os manifestantes durante os ataques de gás lacrimogênio da polícia, com comerciantes a anunciar o seu repúdio pelo que aconteceu, com gestos importantes como o de Joan Gabriel, presidente da Universidade de Minnesota, que anunciou, numa carta pública, o corte de todos os contratos com o Departamento de Polícia de Minneapolis e o cancelamento de qualquer pareceria para a segurança de concertos, palestras ou outros eventos daquela instituição.

Está visto, é certo, que vai ser preciso muito mais luta para que as coisas mudem. Hoje mesmo, Omar Jimenez, um repórter negro da CNN que tem coberto as manifestações naquela cidade, foi detido pela polícia em pleno direto televisivo. As imagens deixam qualquer um perplexo – a mim, pelo menos, deixaram-me boquiaberto. Depois de tudo o que se tem passado, Jimenez é levado pela polícia sem que se perceba porquê: “Por que estou preso?”, pergunta em direto. A polícia divulgou mais tarde a sua explicação: o repórter e a equipa haviam sido detidos por não se terem afastados quando receberam essa ordem. A câmara televisiva, caída no chão, continuou a transmitir as imagens em direto.

Os olhos do mundo estão em Minneapolis, porque Minneapolis é em muitos lugares do mundo. George Floyd é hoje o símbolo das vítimas deste vírus insuportável que torna as nossas sociedades irrespiráveis. O racismo mata, de muitas maneiras. E será só pela nossa luta sem tréguas e sem hesitações que poderá ser erradicado.»

Procissão das Velas:


Se não estivéssemos em confinamento derivado à pandemia do Covid19, hoje dia 30 de Maio como é habitual todos os anos, a Paróquia de Freamunde levava a efeito a Procissão das Velas.
Como este ano os Freamundenses – os cristãos – não podem desfrutar deste prazer de se incorporarem na Procissão ou assistir à mesma no seu trajecto, exibo um vídeo filmado no ano de 2011.
Desta maneira é um matar de saudades.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Há pessoas que por tudo e nada desabafam:


O que é que Freamunde me deu? Se Freamunde pudesse falar dizia o mesmo: e o que é que tu me deste? Vou personificar Freamunde para ele ter voz e responder a certas aleivosidades.

Eu sou milenar. Nasci dos montes e dos pedregulhos. Pelo tempo fora fui-me ajeitando. E consegui de uma Coutada passar a Aldeia. De Aldeia a Freguesia. De Freguesia a Vila e muito mais tarde a Cidade. Passei por muitas vicissitudes e nunca tentei envaidecer-me. De Vila teria muito a dizer por passar por um certo abandalhamento. Mas sempre me resignei.

Agora não posso ficar indiferente a críticas. Dizei-me de vossa justiça onde vos faltei com algo!

Por acaso não vos dei Vida! Educação! Cultura! Lazer! Civismo não é o quanto baste. Porque me sinto ofendida com a falta dele.

Agora como Cidade tenho muito a dizer.

Promoções para quê? Para ficar tudo na mesma ou pior? É ver a minha parte exterior. Uma miséria! Mas miséria maior é no meu interior. O meu coração sangra. A sujidade, os esgotos a céu aberto, os estacionamentos em cima dos passeios para peões, os contentores do lixo que em lugar de o pôr dentro deixam-no fora. Os monos, sejam colchões ou outros utensílios postos na via pública. Tudo isto é tratar-me bem? Sei que tenho obrigações para com vós.

Devia de vos dar mais lazer. 

Parques? Mas se tendes um e esse um não o estimais! Vias públicas? Para vós as deixar todas esburacadas! Espaço para os velhos passarem o seu tempo de lazer? Aqui tendes razão. Não os há. Não é por falta de eu mendigar.

Com tudo o que vos esclareço ainda perguntais. O que é que Freamunde me deu?