quarta-feira, 28 de junho de 2017

Falências políticas e financeiras:

O episódio do suicídio, que afinal nunca existiu, serviu para percecionar uma eventual mudança no comportamento do jornalismo português em relação às direitas de que, com raríssimas exceções, se fez porta-voz nos últimos seis ou sete anos.
Ao rever as imagens do atrapalhado Passos Coelho face às insistências dos jornalistas, que lhe pediam dados concretos sobre a notícia em causa, assistiu-se a algo de incomum ainda há algum tempo: é que o ainda líder laranja habituara-se a debitar bitaites para os telejornais sem que houvesse quem tratasse de lhe exigir fundamento ao que dava como certo. Por isso, baseado em rumores ou até como fruto da imaginação de um dos seus mais azougados colaboradores, achou por bem avançar como uma «novidade», que adivinhava capaz de fazer mossa ao governo na abertura de todos os telejornais.
Que chatice a de lhe estarem a estender microfones alguns jornalistas com sentido crítico e ousadia bastante para exigirem mais do que mera retórica eleitoralista. Foi quanto bastou para se ver Passos estendido ao comprido, obrigando-se à cena memorável de ter de se desdizer.
Doravante ele fica ciente de se conter na emissão de fake news, porque já não conta com a complacência acrítica de quem lhe costumava aparar todos os golpes. Façamos votos de que este pequeno exemplo seja o prenúncio de atitude diferente de uma classe ainda há pouco reunida em Congresso supostamente empenhado no incremento das boas práticas deontológicas.
Apesar das judites de sousas, das anas lourenços ou dos zésgomesferreiras, há, pois, esperança em que o jornalismo luso volte a estar á altura do praticado na época dos seus maiores vultos, aqueles que nem sequer a besta fascista impedia de espelharem a realidade por maiores voltas que se vissem obrigados para contornar a abjeta censura.
Do blogue (Ventos Semeados)
Quarta-feira, 28 de Junho de 2017

terça-feira, 27 de junho de 2017

SAIA AÍ UM PSICÓLOGO PRÓ PASSOS!

E com urgência! É que eu temo pelo seu futuro. Não político, porque desse estou-me completamente nas tintas, mas psicológico! Temo pelo Passos, mas temo mesmo. E isto é sério: ou o Estado lhe fornece já um psicólogo ou não há mesmo “Estado” que lhe valha.
Porque, na verdade, havendo para o Passos três tipos de “Estados”, por falta de apoio psicológico, ele já não se consegue reconhecer em nenhum. Senão vejamos: Primeiramente o Estado, o Estado propriamente dito, o tal Estado a que ele pertence, nem que seja como Conselheiro ou suposto líder da oposição, mas ao qual não pertence, nem se lembra de ter pertencido; depois há o chamado “Estado das coisas”, das quais demonstra não fazer a mínima ideia e, por fim, o seu “Estado”. E aqui é que está o verdadeiro “busílis” da questão!
Tornando-se um “aproveitador” de um boato que um Provedor lhe soltou ao ouvido, não requerendo a ajuda imediata de um psicólogo, ele disse saber de fonte segura que havia pessoas a suicidarem-se (depois na forma de tentativa apenas) porque o “Estado” não lhes garantia o apoio psicológico necessário. E que o “Estado” tinha falhado.
E não olhou para si mesmo, como que dizendo: Eu, Psicólogo? Eu não preciso, eu sempre levanto a cabeça e sempre sigo em frente…
Porque, no fundo, no emaranhado de laços que deverão ir lá pela sua cabeça, ele lá pensará e bem: Mas para que diabo serve um psicólogo, se ele só me manda erguer a cabeça e seguir em frente? Isso já eu faço, pensará ele…
Mas lá está, ele é como aqueles animais de raça asinina, que também erguem a cabeça, seguem em frente e coiso mas, com uma pequena diferença: enquanto estes, mesmo que com palas, em enfrentando uma parede arretam, o Passos não: o Passos vai contra ela! Porquê? Porque em vez de se tornar num “aproveitador” de um Provedor e sem conselheiros argutos ao dispor, que lhe dissessem que, em vez de ir em frente, podia virar à esquerda ou mesmo à direita à mão, ele deveria ter consigo, e sempre, isso sim, um Psicólogo!
Que até, em última análise, dada a precariedade da sua cabeça, por tantos nós entrelaçada, lhe poderia aconselhar uma baixa à Caixa de modo a evitar assim a tal tentada tentativa de esmurraço na parede.
Mas o seu “Estado” falhou, o Psicólogo não lhe enviou e contra a parede o estrepou!
Maldito este “Estado”, diz ele, mas englobando os três: o de todos, o das coisas e o dele! E o Estado desse Costa que tudo açambarcou e só o Provedor boateiro lhe deixou!
De modos que eu só tenho um conselho, um último conselho a dar-lhe: vá uns tempos para umas Caldas!
E “ele” há por aí muitas Caldas: As da Saúde, as do Gerês, as de Vizela, as das Taipas, isto só para falar aqui para norte porque, lá mais para o centro, tem umas famosas: as Caldas da Rainha!
Arranje, portanto, e de uma vez por todas, umas Caldas à medida, mas acompanhado de um psicólogo à séria,
A sério Dr. Passos, é importante que vá uns tempos para uma Caldas, mas…nunca se esqueça do respectivo acompanhamento psicológico!
Mas tudo isto à séria!
Do blogue (À Esquerda do Zero)

O político abutre:

terça-feira, junho 27, 2017




Há abutres, fundos abutres e, pelo que se vê, também há políticos abutres, políticos que em vez de se esforçarem fazendo as suas propostas preferem esperar que uma qualquer desgraça surja para se aproveitarem da situação. Já vimos isto com o PEC IV, pouco depois repetiu-se com a troika, no ano passado o abutre voltou a voar em círculos sobre o Terreiro do Paço, aguardando a vinda anunciada do diabo, agora foi novamente visto a sobrevoar Pedrógão Grande. Passos é um político abutre.
Não é a primeira vez que Passos exibe o perfil de um político que não perde a oportunidade de se alimentar com carne putrefata, uma boa parte do seu sucesso político tem sido feito à custa de crises financeiras e de processos judiciais. Chega ao poder com uma crise e mantém-se no poder durante quatro anos com o maior partido da oposição pressionado devido a um processo judicial, de que ele se soube aproveitar depois de dizer que não o faria.
O incêndio de Pedrogão Grande colocou Passos perante um dilema difícil, como aproveitar a desgraça sem deixar passar a imagem do abutre que se aproveita da morte? Passos começou com a pantomina do político responsável, mas a fome é má conselheira e os seus instintos mais primários foram atiçados pela fome desesperada de votos. Não se conteve, com o candidato autárquico do PSD de Pedrógão Grande usando as vestes de um santo provedor estava reunidas as condições para o seu voo circular sobre a desgraça.
Quando achou que o governo já se teria retirado foi em busca de desgraças e quando lhe disseram que várias pessoas se tinham suicidado ou tentado o suicídio não se conteve, não importa os princípios, os cuidados a ter, o cheiro a carne putrefata era tão forte que lhe toldou a lucidez, não resistiu à tentação.  E mesmo quando o assessor lhe segredou em direto que a morte não se confirmava Passos não largou o "manjar", não tinha morrido ninguém mas isso não importavam, tinham tentado o suicídio e estavam hospitalizados. Como qualquer abutre que se preza, se a vítima ainda estava viva ele estava ali para aguardar até que morresse.
Perante um país indignado Passos percebeu que tinha caído na sua própria armadilha, encomendou ao seu lacaio de Pedrógão que corresse para as televisões assumindo a culpa da má informação. O pobre diabo do provedor da Santa Casa que estava mais empenhado em ajudar Passos do que as vítimas dos incêndios, lá fez o "minha culpa, minha máxima culpa". Mas por mais que seja voluntarioso na ajuda à inesperada vítima dos incêndios, o pobre diabo não é responsável pelo comportamento de abutre do seu chefe. Restava a Passos aproveitar a apresentação de Seara como candidato a Odivelas, para se tentar retratar.
A emenda foi pior do que o soneto, tentou converter o seu comportamento miserável numa ajuda às vítimas dos incêndios, ninguém se tinha matado mas havia falta de apoio e graças á presença de um abutre nos céus de Pedrógão o governo lembrou-se das vítimas, pobre gente, o que seriam deles se não fosse Passos Coelho! Depois foi-se enterrando, depois de dar um raspanete ao jornalista que chegou atrasado ao encontro combinado lá explicou a sua tese de abutre.
Explicou que se um bombista cometesse um atentado o governo seria sempre o responsável. A sua teoria está explicada, perante uma desgraça o governo é sempre responsável e a ele cabe sempre o papel de abutre. Numa versão mais bondosa lá explicou que o Estado devia assumir a culpa e poupar as vítimas a processos judicias envolvendo as companhias de seguros. Isto é, sempre que ocorrer uma calamidade os banqueiros e seguros devem ser dispensados, para poupar os cidadãos o governo de assumir as culpas.
O país viu um Passos como nunca tinha visto ou não se teria apercebido de quem era, um político abutre sem grandes dotes inteletuais. É assim, os abutres não são conhecidos mais pela sua paciência e oportunismo do que pela sua inteligência. Mas na natureza os abutres são necessários e têm um importante papel a desempenhar, não é o caso deste nosso político abutre.

Do blogue (Jumento)

Quem mente uma vez, mente sempre:

(Por Estátua de Sal, 26/06/2017)
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Que Passos Coelho era o rei dos aldrabões já era conhecido. Nada de novo. Chegou ao poder em 2011 prometendo o mel aos portugueses, e criticando as medidas austeritárias do governo de Sócrates, e deu-lhes quatro anos de medidas de fel, ao lado das quais a austeridade de Sócrates era coisa de brincar.
Que não tem limites morais na sua voracidade pelo poder também já se sabia. Para ele vale tudo, mesmo que seja apoiar o Arquitecto Saraiva no lançamento de um livro de mexericos sórdidos sobre a vida de personagens públicas, como se propunha fazer, só desistindo à última hora por indicação dos seus conselheiros mais sensatos.
O que não sabíamos é que pudesse ir tão longe como hoje, usando a desgraça alheia dos que morreram, e dos que ele julgou terem sido vítimas colaterais da tragédia dos fogos para atacar o governo e fazer da mais rasca política que se viu nas últimas décadas.
Passos, veio falar em suicídios causados pela amargura causada a alguns pelo terror da tragédia. Para ele, estes suicídios seriam culpa do governo e revelariam a ineficácia funcional do mesmo governo. Nada mais falso. Não houve suicídios nenhuns. Até ver e que se saiba. O mais grave não é Passos ter mentido. O mais grave é, se tivessem existido suicídios, ele usá-los como arma de arremesso político, esquecendo o sofrimento das pessoas e o desespero que as teria levado a esse fatal e funesto acto de acabar com a vida.
Passos é um amoral, uma espécie de amiba ética, um calhau de insensibilidade. Para ele vale tudo para regressar ao poder, vendeu o país à troika, vendeu os velhos à amargura, vendeu os novos à emigração, e venderá o pai e a mãe se preciso for para ser de novo primeiro-ministro.
E já agora, deve dizer-se que, se suicídios houve, muitos ocorreram sim, durante a governação pafiosa. De muitos que perderam o emprego, a casa, a família, os filhos e toda a vida organizada que tinham e não aguentaram as agruras dessa nova situação de penúria.
Mentiroso, amoral e por fim, incompetente. Não fosse a sofreguidão do poder que o faz salivar com a desgraça alheia desde que a possa usar em benefício próprio, Passos teria verificado previamente a informação, antes de se arriscar à humilhação pública de ser desmentido por toda a gente e de ter que se retratar. Mas a avidez retirou-lhe o bom senso e a pressão da cáfila laranja, cada vez mais impaciente, atirou-o para a frente imprudentemente.
Passos que se retire e que se cale. Que faça votos de silêncio e se afaste para o Convento do Sacramento, fazendo companhia a Cavaco,  onde este lhe arranjará, certamente, uma secretária e um cilício para se auto-penitenciar.
É que, quando Passos fala, ou entra mosca ou sai asneira. Como o fogo levou as moscas e tudo o mais, já nem moscas entram, só sai asneira.

sábado, 24 de junho de 2017

O “VOYERISMO” e os “BITAITES”!

Enfim, no meu retorno à escrita, não pensava falar de coisas destas, tão arredias da minha forma de ser e pensar elas são. Mas, dadas as circunstâncias, apetece-me sobre elas algo dissertar, precisamente porque, não coincidindo com a minha maneira de ser e estar, elas, pelos vistos, têm de tal modo vindo a ganhar protagonismo no “mainstream”, redes sociais e comunicação social, que talvez valha a pena algum tempo com elas dispensar. E algumas palavras dizer!
Primeiramente, e por uma questão de verdade e sanidade, é preciso reconhecer que todos nós temos, bem no fundo da nossa essência, algo de “voyeristas”! E quem disser o contrário…isso mesmo! E todos temos também tendência para mandar “bitaites”! É da natureza humana!
Só que uns fazem um esforço, mesmo ocasionalmente cedendo, para disso não terem amarras, e outros cedem e fazem disso coisa de vida normal…Também é da natureza humana. Mas mal…
A questão pode-se colocar em várias vertentes, diria até que variadíssimas, mas vou-me ater apenas a uma ou duas.
Comecemos pela imprensa escrita. Eu todos os dias apenas leio, antes de me deitar, as capas dos jornais. Mas cedo a lê-las todas, inclusive as do Correio da Manhã e do “I”. Pelas do Desporto já só passo mesmo de soslaio. Mas, ao mesmo tempo, quando estou em casa, e tenho estado pouco, e nesse tempo em que não tenho estado nada tenho visto ou ouvido, cedo sempre à tentação de fazer o tal de “zapping”. Só que, e esta é a minha verdade, aí não cedo a ficar na TVI 24 quando passa a noite a falar de casos de polícia e ultrapasso a correr todos os restantes canais até chegar à Sportv. E, se aí nada de interessante ocorrer, desligo mesmo a TV. É assim, quer acreditem ou não!
Como me mantenho informado? Simples: tal como escrevi no meu Facebook, a melhor maneira de estar informado é nada ver ou ouvir e ler apenas coisas de pessoas que pensam e são independentes, inteligentes e formadas…Se assim estou informado? Totalmente! Como o que quero e, francamente, não gosto de “palha”! Esse alimento é para outros…
Há dias, numa reunião familiar a tocar o completo, relembrando a minha e nossa Graciete, em conversa amena sobre estes temas, diante de pessoas da Família , uns Professores de Direito, outros gente da Economia e outros formados na Vida, eu declarei, alto e bom som: “ Eu não sei se sou o único, mas devo ser dos poucos que se podem orgulhar de nunca ter cedido à tentação de ter ouvido qualquer escuta ou ter sequer lido quaisquer transcrições (ilegais) de todos esses processos mediáticos que, de há anos a esta parte, tanto têm sido propalados em toda a comunicação social. Uns mais privilegiadamente que outros, sem dúvida, mas todos. Nunca cedi a ouvir nem ler nada. Seja do “Apito Dourado”, seja da “Operação Marquês”, seja da do “ Ferro Velho”, seja dos “Emais”, seja do raio que o parta…disso nada sei e continuo sem saber! “
Todos algo já tinham lido ou ouvido! E quase todos formaram uma pequena opinião que fosse…nem que tal fosse ditado pela tal inércia…O que nunca me impediu de ter a “minha “ opinião!
Eu posso orgulhar-me que, nesse aspecto, nunca cedi. E porquê? Porque tudo aquilo foi obtido, cedido, entregue, adquirido, ou seja lá como tenha sido, de forma ILEGAL! E nisso nunca transigi!
Pecador? Sou com certeza e logo no início o admiti. Mas há limites. Como os há ou deveria haver no chamado “Jornalismo”.
Por exemplo: eu, que já vou fazer 64 anos no próximo mês, sou do tempo em que, não existindo ainda “redes sociais”, escolhíamos o Jornal para ler pela sua qualidade. Pela qualidade dos seus jornalistas, dos seus comentadores, dos seus colaboradores e pela qualidade literária que apresentavam. E tínhamos a Capital, o Diário de Lisboa, o Jornal do Fundão etc, e neles colaboravam todos os que de melhor havia nas Letras e nas Artes. A qualidade era a bitola!
E hoje? O que sucede hoje? Precisamente o contrário: a bitola, tanto nos jornais como, infelizmente, nas TV´s, é precisamente o contrário: quanto mais sórdido melhor. Quanto mais “vouyerista” melhor. E ultrapassa-se tudo em nome da concorrência e das audiências…e vale tudo… Até ceder na sua própria dignidade…Enfim…
Não, não vale tudo! Pelo menos para mim, e espero que para a maioria dos meus Amigos, não vale tudo.
A nossa Dignidade, a nossa Lucidez e a nossa Clarividência como Homens livres e conscientes do nosso dever enquanto tal, a isso não se podem permitir…
Pecadores, sim, agora agentes do retrocesso civilizacional? NUNCA!
E não falei de “incêndios”, essa coisa tão nova e recente…
Do blogue (À esquerda do zero)

O essencial e o marginal:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/06/2017)

AUTOR
                                 Miguel Sousa Tavares
1 Já se ouviram todos ou quase todos os especialistas, já se fizeram todas as perguntas, já se levantaram todas as questões e, embora não haja ainda respostas, já foram ensaiadas várias desculpas. Não temos, para já, certezas algumas: é cedo demais, como todos dizem, mas não sei se não será sempre cedo demais. Como de costume. Mas não me parece muito arriscado dizer, como disse logo o jornal “Público”: “O que falhou? Falhou tudo, como sempre falha”.
Pena que não tenhamos, como os ingleses, a tradição de nomear uma pessoa consensualmente respeitada, para, podendo dispor de todos os meios necessários e ter acesso a tudo o que requerer, dirigir uma comissão de inquérito que, num prazo adequado e improrrogável, apresentasse conclusões e recomendações obrigatoriamente acatadas pelo Governo e demais organismos públicos. Alguém que forçosamente ouvisse a opinião qualificada dos especialistas e técnicos mas cuja autoridade decisória decorreria de si mesmo e estaria acima da deles.
Tal pessoa começaria por indagar por que razão os laboriosos estudos levados a cabo sobre a prevenção e combate aos fogos jazem nas gavetas ministeriais, anos a fio, sem serem implementados, medida a medida e segundo um calendário de execução como que a troika impôs ao governo de então. Indagaria as razões da moleza da Assembleia da República na promoção do debate e votação das sete propostas de reforma florestal, que o Ministério da Agricultura e o BE apresentaram já há quatro meses, para que se começasse a actuar em algumas das medidas antes e não depois da época de incêndios. Indagaria também por que razão tendo o Governo Regional da Madeira, na sequência do imenso incêndio sobre o Funchal no Verão passado, pedido ao Governo de Lisboa um estudo sobre a possibilidade de utilização de meios aéreos no combate aos incêndios na ilha, tendo em conta a orografia da Madeira, esse estudo só agora tenha sido entregue, concluindo que sim mas que vão ser precisos mais 60 dias para um grupo de trabalho estabelecer os pormenores e organização dessa empreitada — ou seja, para depois da época de incêndios.
A seguir viriam as perguntas escaldantes: se não é possível extrair consequências, financeiras, civis, criminais, do escândalo dos sucessivos falhanços do SIRESP — um dos grandes negócios ruinosos levados a cabo pela gente de negócios do PSD, durante governos do PSD? Por que razão se quis acabar com o corpo de sapadores, diminuir o número de vigilantes e guardas florestais para poupar dinheiro (gastamos 78 milhões por ano com a prevenção e combate aos fogos, mas gastámos 5 mil milhões, até à data, com essa organização de malfeitores chamada BPN, 3 mil milhões com esse banco de vão de escada chamado Banif, ou 600 milhões com o tal SIRESP, que deixa as entidades envolvidas sem comunicações em situações de crise)? Por que razão o grosso do dinheiro gasto com os incêndios vai para o combate (onde estão os grandes negócios de compra e aluguer de material), e ficam migalhas para a prevenção — como se demasiada e eficaz prevenção estragasse o negócio de alguns? E, apesar de tudo, como explicar que, com dois mil bombeiros no terreno, GNR e forças militares, 30 aviões e helicópteros no ar, ajuda de Bruxelas, de Marrocos, da França, da Espanha, já sem trovoadas secas, downbursts no ar ou outras condições excepcionais, ao fim de cinco dias o incêndio ainda não tinha sido dominado? Por que razão tanto a ministra como o PM insistem tanto na colaboração tripartida das responsabilidades pela prevenção e combate ao fogos, recusando um comando único, coordenando e chefiando todas as entidades envolvidas? Não poderíamos ter um ministro só para os incêndios, que não tivesse de se ocupar também da polícia e das fronteiras, ou um comissário para os incêndios, cujo trabalho durante o ano inteiro seria só esse: ver como estava a prevenção, preparar o combate? A falta de um comando unificado, aliado às falhas de transmissões, não teve um papel determinante na dimensão da tragédia?
E, enfim, a mais escaldante e a mais urgente das perguntas: até quando serão mais importantes os interesses financeiros do sr. Pedro Queiroz Pereira ou do sr. Paulo Fernandes do que os interesses do país? Fomos até ao limite do absurdo, do criminoso, no crescimento da área de eucaliptos plantada ao longo das últimas décadas, num misto de ignorante irresponsabilidade com cínica cumplicidade. Em termos proporcionais, somos o país do mundo com maior área plantada e de uma espécie que nem sequer é endógena. Demos dinheiro e incentivos para que as populações abandonassem a agricultura e a pastorícia e os campos assim abandonados fossem ocupados pelas empresas de celuloses (significativamente, chegámos a ter um ministro da Agricultura que saiu directamente do Governo para a presidência da maior empresa de celuloses à época). E, juntamente com o eucalipto, ainda andámos a distribuir dinheiros europeus para a outra espécie predadora dos terrenos e altamente inflamável, que é o pinheiro-bravo — uma árvore que não serve rigorosamente para nada, a não ser para abastecer a indústria do papel. É urgente mudar drasticamente de política florestal: não basta o congelamento agora decretado até 2020 da área de eucaliptos. É preciso começar a diminuí-la —– com agravamentos fiscais, com regras que proíbam grandes áreas de povoamento contínuos, com a reversão de todas as autorizações concedidas em áreas de Reserva Agrícola ou Reserva Ecológica. E é preciso explicar aos pequenos proprietários que a aposta no crescimento rápido e lucro rápido que o eucalipto e o pinheiro bravo proporcionam, paga-se depois, às vezes perdendo tudo o resto.

Quanto às grandes empresas de celuloses, deixem-nas ameaçar à vontade: elas não têm para onde ir porque nenhum país do mundo lhes consentiria o que aqui lhes foi consentido. Elas destroem muito mais empregos do que aqueles que criam. Elas saem muito mais caras ao país do que os lucros que registam na balança comercial.

2 Durante mais de uma hora, na quarta-feira, a RTP, a TVI, a SIC, a Lusa (e talvez mais meios que não segui) deram como certa a queda de um avião de combate aos incêndios, apesar de não terem qualquer confirmação oficial, apenas uma pretensa notícia da Lusa que invocaria fonte (não identificada) da Protecção Civil. Mais: no posto de comando de Pedrógão, a única fonte oficial interrogada sobre o assunto, o secretário de Estado da Administração Interna, afirmou que a notícia estava a ser investigada com meios enviados ao local referenciado, mas que não era ainda possível confirmar a sua veracidade. Que fizeram as televisões? Em vez de tentarem também confirmá-la por outros meios ou esperar pela confirmação oficial, deram-se por satisfeitas com o que tinham, assumiram como indiscutível uma notícia não confirmada por autoridade ou testemunho presencial algum e, mesmo com a televisão espanhola já a desmentir a notícia, continuaram a insistir nela contra o “silêncio” das autoridades. E quando estas, enfim, falaram (depois de terem apurado o que sucedera, conforme deviam), para dizer que não tinha caído avião algum, os jornalistas revoltaram-se porque teriam sido levados ao engano pelo silêncio das autoridades! Autênticos editoriais feitos em directo reclamavam, como se de crime se tratasse, que nenhuma autoridade tivesse desmentido uma notícia… que nenhuma autoridade tinha dado ou confirmado — nunca tendo passando, pois, de um boato. Além da, desculpem-me, falta de profissionalismo demonstrado, a sensação que ficou para um espectador atento é que houve também uma grande frustração por não ser possível acrescentar tragédia à tragédia. Mas vi, com satisfação, que outros da minha geração de jornalistas (José Manuel Barata-Feyo, José Ferreira Fernandes), ficaram tão indignados com o que viram quanto eu. É verdade que já estamos fora de jogo ou quase, mas se o jogo agora é assim, ainda bem.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

Do blogue (Estátua de Sal)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Da Puerta de Alcalá para el mundo inteiro:

Um homem sentiu-se mal, perto do terraço do restaurante madrileno Ramsés, na Puerta de Alcalá, ontem. Havia muita gente nas ruas, apesar do início da madrugada. Chegou a ambulância e os enfermeiros inclinaram-se para o homem e, logo, deram um salto: ele tinha pacotes de plástico amarrados à volta do corpo. Bomba!!! Agentes da polícia municipal, que passavam por ali, conseguiram segurar os braços do homem, que não reagia, talvez porque a indisposição, que levou a ambulância à Plaza de la Independencia, fosse sincera.

Depois da descoberta do ataque terrorista iminente, chamou-se a brigada de minas e armadilhas, que logo fechou a circulação na praça e remeteu os clientes do Ramsés para o fundo do restaurante, local abrigado. Entre eles, eu. Desculpem, ainda não me apresentei, chamo-me Bond, Sebastião Bond. Na verdade, não é meu nome, é pseudónimo, nome de guerra ou de pena, como quiserem. Espero vender este artigo para o Diário de Notícias, de Lisboa. Vivo disso, à minha volta estão sempre a acontecer coisas extraordinárias. E a proximidade suscita o interesse dos jornais: certamente Lisboa vai querer saber o que se passou na madrugada de ontem em Madrid.

Acontecimento extraordinário é, por exemplo, um avião que não cai e as autoridades demorarem a reconhecer que não caiu. Quer dizer, um triângulo das Bermudas ainda mais espetacular. No último século, 50 navios e 20 aviões desapareceram no Caribe, mas eu refiro-me a um acontecimento ainda mais misterioso: um avião que deixa de existir ainda antes de ter existido. Chamariz que sou para acontecimentos assombrosos, o tal avião ainda me há de calhar. Entretanto, cá estava eu no fundo do restaurante Ramsés mas com boa vista para a Puerta de Alcalá, onde aconteciam coisas. Haveria de descobrir quão invulgares eram.

Desde logo, a monumental Puerta de Alcalá. Durante a Guerra Civil, na Madrid republicana, fez-se lá uma homenagem, com uma faixa "Viva a União Soviética" encimando três grandes fotos dos líderes soviéticos, Litvinov, Estaline e o marechal Voroshilov, penduradas nos arcos centrais. Finda a guerra, com a vitória de Franco, no sopé do monumento celebraram-se missas. Eu pensava nessas reviravoltas históricas, ao mesmo tempo que deitava um olhar para o terrorista no chão e os dois polícias municipais a mantê-lo de braços presos.

Comecei logo a alinhavar, no meu moleskine, a reportagem que haveria de enviar para o jornal que ia pagar-me a reportagem. Ainda pensei escrever um texto sobre os meandros psicológicos dos terroristas. Tão brutos nos atos e, depois, dá-lhes um chilique que alerta uma ambulância e esta estraga, ou pelo menos adia, a ida até às 77 virgens... Mas, refletindo melhor, considerei que o leitor português não está preparado para uma análise compassiva sobre terroristas. Quer se queira quer não, isto do jornalismo consiste muito em albardar o burro à vontade do dono.

Ficaram a perder os leitores. Há por aí um documentário sobre terroristas destinados a mártires em Raqqa, Síria, no começo da sublevação do Estado Islâmico. Um britânico convertido, estava excitado com a ideia, falava para a câmara ansiando pelo dia em que se faria explodir. No dia em que lhe anunciaram o glorioso destino, fosse por fraqueza de alma ou verdura de fé, foi-se abaixo das canetas. Como o coitado que eu via, de longe, na rua, de cócoras.

Sou um profissional, vivo disto de escrever e tinha de arranjar assunto. Lembrei-me, então. Não se hesita em abater uma útil mala solitária só porque se suspeita de explosivos. A polícia rebenta com tudo, couro e rodinhas. E, agora, um canalha de um assassino não levou logo com um tiro na testa! O que pouparia o trabalho dos polícias, obrigados a revezar-se para lhe tolher os movimentos. Arriscando até a vida da própria autoridade: quem nos dizia que o Daesh já não tinha inventado o botão detonador impulsionado pelo bater dos cílios? Pois ali estávamos, naquele compasso de espera, certamente ditado por ordens do governo...

Governo, é isso! Ah, isso, eu sabia que iria ter sucesso em Lisboa: noticiar em direto uma bagunça política em Madrid. E comecei a escrever: "A desastrosa gestão do ataque terrorista pode pôr fim à carreira política de Mariano Rajoy." Olhei à volta, eu era o único animado com alguma coisa. Os outros clientes, catrafiados no fundo do restaurante, deitavam olhares furibundos àquela espera toda. Escrevi: "Aluvião de críticas dos madrilenos contra Rajoy." E fui por aí adiante, em texto objetivo e seco (estive vai-não-vai para meter uma queda de avião na Puerta de Alcalá, mas reservei-a para outra ocasião). Hei de precisar do pseudónimo mais vezes. Entretanto, chegaram os cães que cheiram explosivos... Boa, mais um argumento. Escrevi no moleskine: "Governo espanhol expõe cães inocentes."

Foi então que levantei os olhos e reparei que os polícias municipais largaram o terrorista e os da brigada de minas puseram-se a mexer, primeiro com certo medo, depois à vontade, nos pacotes de dinamite. E deram-nos ordem para irmos para casa. Soube pela mulher de um polícia que os pacotes eram de dinheiro (180 mil euros, em notas de 100 e 500) e do homem nada se sabia, senão que um tipo que tem aquilo no corpo, a última coisa que queria era explodir-se...


Fiquei sem assunto, mas garanto-vos que o essencial que contei existe: a Puerta de Alcalá, há centenas de anos, e, ontem, um homem ter sido lá detido por levar 180 mil euros amarrados no corpo. Ah, outra coisa: e que do Rajoy muita gente não gosta, também suspeito, mas para eu o escrever num jornal prefiro dar o meu nome.

23 DE JUNHO DE 2017
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