domingo, 31 de maio de 2020

Ricos, pobres e mal agradecidos:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/05/2020)
Miguel Sousa Tavares
Numa sociedade decente, os pobres têm direito a esperar que os impostos sobre os ricos não os deixem cair na miséria nem no abandono: não é por acaso que os dois países mais atingidos pela pandemia, Estados Unidos e Brasil, são dois dos países mais desiguais do mundo, apesar de também serem dois dos países a quem a providência contemplou com maiores riquezas naturais. Mas quando uma sociedade tolera sem problemas que o luxo viva paredes meias com a favela ou que se morra de doença na rua porque os hospitais só tratam quem tiver seguro de saúde, essa sociedade até pode constituir países capazes de mandar homens à Lua ou inventar vacinas contra os vírus, mas jamais conseguirá explicar as estatísticas internas que envergonham qualquer país decente.
Mas numa sociedade decente, o Estado Social — que nós, europeus, devemos a Bismarck —, se, por um lado, tem por obrigação proteger os pobres, os doentes, os desfavorecidos, os desempregados, os indefesos, os velhos, tem, por outro lado, a obrigação de não estimular nem contemporizar com os que se acomodam à situação de assistidos pelos impostos dos outros, sem nada fazer para saírem dessa situação podendo fazê-lo. Porque, aí, o Estado não estará a defender os pobres, mas a perpetuar a sua pobreza, nem a proteger os indefesos, mas os ociosos.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
Este princípio transportámo-lo para a fundação da União Europeia, desde os seus alvores, desde a CEE, já lá vão décadas. Com os sucessivos alargamentos da UE, em particular ao sul e a leste, o princípio da solidariedade foi constantemente posto à prova, com altos e baixos, momentos de tensão e momentos de distensão. Nós, que entrámos antes da revoada dos países do leste, pertencemos ao número dos altamente beneficiados com os dinheiros europeus, cujos evidentes benefícios — na parte que soubemos aproveitar e não desperdiçar — só gente de má-fé pode negar. A entrada no espaço europeu permitiu-nos recuperar em anos décadas de atraso, financiando o desenvolvimento económico com capitais a que, de outro modo, não teríamos acesso. E a entrada no espaço do euro, se nos retirou a possibilidade de jogar com o factor cambial a favor das exportações, permitiu-nos, por outro lado, livrar-nos do pesadelo da inflacção e dos juros mortais e dar às nossas empresas acesso a um mercado altamente competitivo. Nem tudo foram vantagens, claro, mas este não é um jogo de ganhar apostando no vermelho e ganhar apostando no preto. Os ingleses estão a descobri-lo à sua custa: quiseram sair da UE porque estavam fartos das regras do clube, mas querem a todo o custo manter uma: o acesso ao mercado comum de 600 milhões de consumidores sem terem de pagar taxas, como país outsider.
O mesmo que os ingleses, querem os quatro países actualmente classificados como “forretas” (adjectivo bem mais adequado do que “frugais”): Áustria, Suécia, Dinamarca e Holanda. Querem que aqueles que “gastam o dinheiro em copos e mulheres”, nas inesquecíveis palavras do ex-ministro das Finanças holandês, se mantenham na Europa e no euro — o que lhes dá muito jeito enquanto consumidores e pouco dano lhes causa enquanto competidores, enfrentando taxas de juro bem mais elevadas, quer para empresas, quer para os Estados. Mas não querem, de forma alguma, ter de gastar um euro a mais a financiar os “vícios” dos “gastadores” — seja a compor as finanças públicas arruinadas pela crise bancária nascida nos EUA em 2008, seja a reconstruir toda uma economia devastada por um vírus planetário nascido em Wuhan, na China.
A Europa, para eles, era, antes de tudo e no fim de tudo, o seu interesse próprio. A Europa, fazendo-se a vontade deles, acabava aqui e agora. Foram dois meses de tensão, de desespero de muitos, de epitáfios já prontos a servir. Mas, no fim, o trio Merkel, Macron, Ursula von der Leyen não quis deixar que a história acabasse assim e colocou em cima da mesa o regresso da UE às suas origens mais nobres. Nada está ainda assente, muitas resistências vão ainda ter de ser ultrapassadas, muitas lágrimas de raiva terão de ser engolidas, mas aquele trio tem muita força. E, se a ele juntarmos a Itália e a Espanha, temos o verdadeiro core business da UE alinhado em tudo fazer para acorrer a quem mais precisa, na hora mais negra dos mais desprotegidos povos europeus. Foi para isto que se fez a UE, para garantir aos povos europeus 70 anos de paz, de prosperidade e de solidariedade, dentro da diversidade. O que Ursula von der Leyen anunciou na quarta-feira no Parlamento Europeu foi muito mais do que um grandioso plano de reconstrução da economia de todo um continente: foi um grito a reunir contra os inimigos da Europa, os extremistas de direita e esquerda, os antidemocratas, os que já estavam prontos a precipitarem-se para os braços de Trump ou de Xi Jinping, os arautos do salve-se quem puder.
Porém, não basta apelar à solidariedade alheia e estender a mão para a receber: é preciso justificá-la, é preciso merecê-la, é preciso saber aproveitá-la e mostrar a quem deu que valeu a pena dar. Essa é a nossa parte. Porque, estranhamente ou talvez não (talvez não, porque metade dos portugueses não paga impostos sobre o rendimento), temos entre nós muita gente que acha que receber dinheiro dos outros é um direito adquirido. Ainda há dias, num desses fóruns matinais das rádios, onde o facilitismo intelectual dos ociosos anda à solta, um ouvinte apresentava a sua solução para a crise económica global (resultado, presumo, de uma noite passada em branco a quebrar os miolos): “Não tem nada que saber”, garantia ele, “desta vez, o FMI tem de despejar dinheiro a fundo perdido sobre os países!” Quem lhe soprará ao ouvido que o dinheiro do FMI é… dos países? Nestes tempos covid, aliás, é de ficar estarrecido ao ver como toda a gente, da esquerda à direita, se esmera num campeonato de ideias de onde injectar mais e mais dinheiro do Estado, de cuja conta final ninguém quer saber nem a proveniência, nem o montante, nem o modo de pagamento. Se um diz “empresta”, o outro diz “a fundo perdido”, se um diz “paga”, o outro diz “nacionaliza”, ao ponto de vermos o libérrimo Pires de Lima, que se indignava contra as “taxas e taxinhas” sobre o turismo lisboeta, a exigir agora que o Estado dê 500 euros a cada família portuguesa para gastarem este verão nos hotéis de Portugal. E com o argumento de que não custa nada, porque pode-se tirar das ajudas europeias.
Justamente. Ainda não tinham passado meia dúzia de horas sobre a apresentação da proposta da Comissão Europeia, ainda estávamos todos a digerir a notícia em que já poucos acreditavam — a de que a UE ia investir 750 mil milhões na recuperação da economia, dos quais dois terços a fundo perdido e o resto na inconfessável e tão desejada mutualização da dívida, e de que a Portugal, em primeiras contas, caberiam 15,5 mil milhões “dados” e 10,8 mil em crédito a taxas de juro “alemãs” —, e Jerónimo de Sousa, órfão de más notícias na frente europeia, tinha o supremo desplante de começar por as comentar assim: “Independentemente do carácter limitado dos montantes…” Como? Como foi que disse? “O carácter limitado dos montantes?” Mais do que os 13 mil milhões que o Governo estimou gastar com o combate à crise e falando só em dinheiro dado? Quanto seria necessário que os contribuintes europeus nos dessem — dessem! — para satisfazer Jerónimo de Sousa? Sim, porque adiante, e completando a frase, acrescentou ele: “É preciso saber quais as condicionantes e imposições que estão associadas, se estarão amarradas aos critérios da UE…” Bem, comecemos por esclarecer: os dinheiros dados não têm condições algumas; o dinheiro que podemos, se quisermos, pedir emprestado a taxas de juro iguais às dos países competitivos, esse obedece aos critérios definidos por Bruxelas para todos, os quais, e muito bem, privilegiam investimentos dirigidos ao digital e às políticas ambientais. Compreendo a desilusão e a desconfiança de Jerónimo de Sousa: trata-se da orientação política definida pelos 27 para o próximo Quadro Comunitário de Apoio e não do Programa Político do PCP, que não obteve vencimento em Bruxelas nem financiamento em Caracas. Tudo isto seria patético, se não fosse sério. Se não fosse enxovalhante morder a mão que dá de comer, até daria vontade de rir ouvir o eurodeputado do PCP João Ferreira afirmar, a propósito deste momento histórico, que “há um forte condicionamento de Portugal pela sua integração na UE”. Ó João Ferreira, só agora é que descobriu isso? Você, que pertence a um partido que está sempre a falar do “colectivo”, só agora é que descobriu que, quando se pertence a uma associação de países, manda a vontade comum e não apenas a nossa? E sabe que isso é vontade livre dos portugueses? E sabe que agora, com esta crise, só ainda não fomos à bancarrota e não temos exércitos de desempregados a vaguear pelas ruas porque o Estado pode arriscar-se a sustentar a economia com o dinheiro que sabe que vai receber dessa malfadada UE de que você é eurodeputado? E, já agora, como é que se sente e senta no Parlamento Europeu alguém que é contra a União Europeia? Pobres, sim; mal agradecidos, não. Há uma diferença entre reclamar justiça ou perder a vergonha.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Do blogue Estátua de Sal

sábado, 30 de maio de 2020

Para podermos respirar:


«” Não consigo respirar”. O grito, como é sabido, não é de nenhuma vítima da Covid-19, mas sim de George Floyd, o cidadão negro, afro-americano, de 46 anos, que foi executado barbaramente por um polícia em Minneapolis. A frase foi repetida dezenas de vezes, em estado de aflição, enquanto o polícia continuava a esmagar com o joelho imperturbável a garganta de Floyd. Ao contrário do que escreveu alguma imprensa, o polícia não se “ajoelhou no seu pescoço”. Asfixiou-o deliberadamente. Floyd não morreu por isso em nenhum “incidente”. Perante os apelos dos transeuntes para que o deixassem respirar e a passividade criminosa dos restantes agentes policiais, que recusaram prestar qualquer assistência a uma pessoa que estava a ser assassinada, George foi linchado por quem tem, supostamente, a missão de proteger os cidadãos.

“Não consigo respirar”. Foi também este o grito, repetido desesperadamente mais de uma dezena de vezes, por Eric Garner, cidadão negro que tinha 43 anos quando foi estrangulado ate à morte, durante mais de 15 segundos, em julho de 2014, por um agente da polícia de Nova Iorque, também ele um homem branco. O caso, seis anos antes numa outra cidade, e que terminou sem qualquer condenação do homicida, tem todas as afinidades possíveis com o de Minneapolis. E mostra como nada parece ter mudado para todos aqueles que não podem sentir-se seguros se a polícia estiver por perto.

Enquanto tantos se mobilizam, um pouco por todo o mundo, para combater um vírus que nos impede de respirar, para que haja ventiladores capazes de salvar vidas, há outras vidas e outros corpos que são tratados como se não tivessem direito a viver. Como se o poder pudesse dispor deles e eliminá-los.

A asfixia dos negros não vem, como se sabe, de agora. Estes episódios estão longe de ser acontecimentos isolados. Muito menos são tristes coincidências. São, de facto, a expressão da política do racismo estrutural, que é brutal nos Estados Unidos, mas não só. Estas histórias, que nos revoltam por dentro, existem porque foram conhecidas, porque alguém filmou e nós as testemunhámos. Imaginem agora quando não há ninguém a registar o que acontece, quando é no silêncio e na impunidade absoluta que estes assassinatos acontecem. Quantos não existem, todos os dias? Quanta violência racista é perpetrada sem que nunca ninguém seja condenado por isso? Sabemos bem, em Portugal também. É preciso lembrar Alfragide, por exemplo?

É por isso que me declaro solidário com quem manifesta a sua indignação e a sua repulsa, que são também minhas, contra esse racismo larvar que atira migrantes e negros e pobres para as periferias das cidades e dos empregos mal pagos, para as vias desvalorizadas do ensino e para os transportes cheios e expostos à doença, para as prisões e para os bairros com poucas condições. Para a violência estrutural às mãos das instituições.

Em Minneapolis, esta revolta é já um potente grito coletivo e multirracial que ocupou as ruas, com gente de várias comunidades e pertenças, com igrejas solidárias a abrirem as suas portas para abrigar os manifestantes durante os ataques de gás lacrimogênio da polícia, com comerciantes a anunciar o seu repúdio pelo que aconteceu, com gestos importantes como o de Joan Gabriel, presidente da Universidade de Minnesota, que anunciou, numa carta pública, o corte de todos os contratos com o Departamento de Polícia de Minneapolis e o cancelamento de qualquer pareceria para a segurança de concertos, palestras ou outros eventos daquela instituição.

Está visto, é certo, que vai ser preciso muito mais luta para que as coisas mudem. Hoje mesmo, Omar Jimenez, um repórter negro da CNN que tem coberto as manifestações naquela cidade, foi detido pela polícia em pleno direto televisivo. As imagens deixam qualquer um perplexo – a mim, pelo menos, deixaram-me boquiaberto. Depois de tudo o que se tem passado, Jimenez é levado pela polícia sem que se perceba porquê: “Por que estou preso?”, pergunta em direto. A polícia divulgou mais tarde a sua explicação: o repórter e a equipa haviam sido detidos por não se terem afastados quando receberam essa ordem. A câmara televisiva, caída no chão, continuou a transmitir as imagens em direto.

Os olhos do mundo estão em Minneapolis, porque Minneapolis é em muitos lugares do mundo. George Floyd é hoje o símbolo das vítimas deste vírus insuportável que torna as nossas sociedades irrespiráveis. O racismo mata, de muitas maneiras. E será só pela nossa luta sem tréguas e sem hesitações que poderá ser erradicado.»

Procissão das Velas:


Se não estivéssemos em confinamento derivado à pandemia do Covid19, hoje dia 30 de Maio como é habitual todos os anos, a Paróquia de Freamunde levava a efeito a Procissão das Velas.
Como este ano os Freamundenses – os cristãos – não podem desfrutar deste prazer de se incorporarem na Procissão ou assistir à mesma no seu trajecto, exibo um vídeo filmado no ano de 2011.
Desta maneira é um matar de saudades.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Há pessoas que por tudo e nada desabafam:


O que é que Freamunde me deu? Se Freamunde pudesse falar dizia o mesmo: e o que é que tu me deste? Vou personificar Freamunde para ele ter voz e responder a certas aleivosidades.

Eu sou milenar. Nasci dos montes e dos pedregulhos. Pelo tempo fora fui-me ajeitando. E consegui de uma Coutada passar a Aldeia. De Aldeia a Freguesia. De Freguesia a Vila e muito mais tarde a Cidade. Passei por muitas vicissitudes e nunca tentei envaidecer-me. De Vila teria muito a dizer por passar por um certo abandalhamento. Mas sempre me resignei.

Agora não posso ficar indiferente a críticas. Dizei-me de vossa justiça onde vos faltei com algo!

Por acaso não vos dei Vida! Educação! Cultura! Lazer! Civismo não é o quanto baste. Porque me sinto ofendida com a falta dele.

Agora como Cidade tenho muito a dizer.

Promoções para quê? Para ficar tudo na mesma ou pior? É ver a minha parte exterior. Uma miséria! Mas miséria maior é no meu interior. O meu coração sangra. A sujidade, os esgotos a céu aberto, os estacionamentos em cima dos passeios para peões, os contentores do lixo que em lugar de o pôr dentro deixam-no fora. Os monos, sejam colchões ou outros utensílios postos na via pública. Tudo isto é tratar-me bem? Sei que tenho obrigações para com vós.

Devia de vos dar mais lazer. 

Parques? Mas se tendes um e esse um não o estimais! Vias públicas? Para vós as deixar todas esburacadas! Espaço para os velhos passarem o seu tempo de lazer? Aqui tendes razão. Não os há. Não é por falta de eu mendigar.

Com tudo o que vos esclareço ainda perguntais. O que é que Freamunde me deu?

Pensar na Ana Gomes:

"Não tenho pressa. As eleições são daqui a 8 meses, estou a pensar."


*_*

Ana Gomes está a pensar nas presidenciais. Em que pensará Ana Gomes quando pensa nas próximas presidenciais? Pensa que poderá ganhá-las? Pensa que não as poderá ganhar mas que isso não é importante, o importante é fingir que sim e saltar para o palco? Ou o seu pensamento limita-se ao gozo de nos deixar a pensar no que pensa? Enigmas de arrebimbomalho.

Onde não há enigma é no que se pode pensar de Ana Gomes candidata presidencial. Ver esse acto eleitoral transformado num circo com 4 cavaleiros do Apocalipse populista a disputarem os 4 primeiros lugares é desolador para os apaixonados pela cidade. Esta figura socialista que justifica aplausos incondicionais pela procura incessante de Justiça, seja onde for e doa a quem doer, pelos mesmíssimos critérios justifica crítica e até repulsa.

Não conheço caso algum onde uma denúncia de corrupção vocalizada por Ana Gomes tenha dado origem a alguma descoberta, sequer terá acertado num qualquer processo judicial transitado em julgado, conforme ao teor do seu alarmismo. Se existe, agradeço penhorado que me tragam essa informação para minha ilustração e eventual correcção. Se não existe, então as suas boas intenções podem – e devem – ir para o diabo que a carregue.

Ver um pulha, ou um bronco, a caluniar é triste. Ver quem se concebe como decente a usar a sua publicitada integridade para fazer o mesmo a cidadãos avulsos, inclusive a camaradas de partido que lhe deram poder político no passado quando ela o pediu e até rogou, é pior que triste, é vexante. Ana Gomes, no tanto que é e poderá ser, não honra nem defende o Estado de direito democrático. Isso, pelo menos, é certo a respeito do seu valor como candidata presidencial.

Não vale tudo contra aqueles para quem vale tudo.

POR VALUPI

Do blogue Aspirina B

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Sebastianas 2019. Procissão em Honra do Mártir S. Sebastião:

Ventura, aprendiz de feiticeiro:


"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

"O PEC IV chumbou porque não servia e não respondia a nenhum dos problemas importantes que Portugal tem à sua frente. Se ele tivesse sido aprovado no Parlamento, hoje a sua certidão de óbito já tinha sido passada por um PEC V e já íamos a caminho de um PEC VI", sustentou. Para Passos Coelho, a solução é "austeridade para o Estado" e quem lidera deve dar o exemplo, "porque isso tem um efeito multiplicador muito importante em toda a sociedade", o que só pode ser feito "mudando a liderança em Portugal".

"E os que estão abaixo desses, nos institutos públicos, nas fundações públicas, nos serviços do Estado perceberão que se o que está em cima na hierarquia é mais frugal, percebe que não pode andar a gastar o dinheiro do sacrifício dos cidadãos sem ter um assomo de consciência, nesse dia esses também vão gastar menos, vão poupar mais e vão fazer melhor com menos. E é isso que vale na nossa sociedade. Esse é o poder do exemplo", reforçou.

O presidente do PSD afirmou ainda que recusa ser "primeiro-ministro a qualquer preço" e aconselhou quem quiser "TGV, mais autoestradas, mais amiguismo e mais batota" a votar no PS de José Sócrates.

30_Abril_2011

O deputado do Chega, André Ventura, manifestou-se esta terça-feira "preocupado" e "desiludido" com a atuação do Governo face à crise do país, dizendo que o desemprego pode atingir 10% e que o Estado tem de cortar "despesa supérflua".
Num contexto de "enorme redução da receita fiscal, com aumento da despesa social", o deputado do Chega defendeu depois um caminho de "apoio robusto à economia e de corte nas despesas necessárias". "Temos de evitar mergulhar numa crise financeira", declarou, antes de avisar que não aceitará que o investimento público que o Governo se prepara para fazer "acabe nas malhas da burocracia e da corrupção".

Questionado sobre que despesas o Governo deve cortar na máquina do Estado, André Ventura destacou o futuro observatório contra a discriminação e contra o racismo "na área da ministra Mariana Vieira da Silva". Para André Ventura, "em Portugal, nesta altura, esse observatório não se justifica".

"Nas regiões autónomas, já identificámos vários organismos que podem ser extintos. O mesmo em relação a institutos públicos que têm uma atividade completamente dependente do Governo. Estamos a ter uma despesa muito grande com fundações, observatórios e institutos", acrescentou.

26_Maio_2020

*_*

O Chega nasceu no PSD. Não se trata de insulto, ainda menos difamação, mas de um facto. Ainda Ventura era militante laranja, e a estrela mediática que o partido tinha ido buscar ao esgoto a céu aberto para atacar os esquerdalhos em Loures, quando surgiu a intenção, o manifesto e a marca. O contexto era o da contestação celerada e acelerada a Rui Rio na tentativa de colocar no seu lugar um clone ou discípulo de Passos. E era também o da criação do Aliança por Santana Lopes; outra vedeta mediática, mas essa com história no partido e no Estado, que apostava na implosão do PSD procurando ficar com um dos restos.

Ventura tinha visto como era canja ter um ex-primeiro-ministro a promover e defender a sua retórica populista, racista, xenófoba. Do alto do poderio da Cofina, sentiu que canja seria capturar uma fatia da sua vastíssima audiência com uma receita que esta já conhecia de ginjeira, e que papava de manhã à noite: reduzir a actividade cognitiva à lógica sensacionalista; desumanizar bodes expiatórios ao sabor das crises e episódios sociais; diabolizar os políticos em geral, e os socialistas em especial, e os “socráticos” com fúria e êxtase; imitar Passos Coelho na irracionalidade fanática e demagógica das soluções agitadas. Assim fez e entrou no Parlamento à primeira, passando a ser temido pela direita decadente que o vê a imitar as suas fórmulas com muito maior eficácia manipuladora e violência moral.

Nada em Ventura é estranho ao rumo que a direita partidária tem seguido desde que deu um chuto nos cueiros a Luís Filipe Menezes em meados de 2008. Ferreira Leite sugeriu ter o telemóvel sob escuta em campanha para as legislativas de 2009 e manifestou conhecer o conteúdo da espionagem feita a Sócrates nesse mesmo ano. Cavaco lançou (ou não impediu, ou dela se fez cúmplice) uma conspiração com o mesmo argumento das escutas pelo Governo, para o mesmo efeito de manipulação eleitoral, a partir da Casa Civil. Passos defendeu que se poderiam prender políticos por razões estritamente políticas. É escusado dar mais exemplos dos milhentos espalhados pelos seus tenentes e arraia-miúda. Aquilo que o regime e a sociedade têm aceitado à direita partidária e governativa, consistindo no emporcalhamento e profanação do Estado de direito democrático, é exactamente o mesmo que Ventura faz. Este apenas aumentou a temperatura ao vulcão.

Alguns taralhoucos viram no despedimento de Ventura pela Cofina uma troca, ou cedência, pelo dinheiro que o Governo socialista vai meter em órgãos de comunicação social. Como se ao PS fosse doloroso ver um traste daquele calibre a fragmentar uma direita decadente e a radicalizá-la ainda mais, dessa forma tornando facílimo manter e consolidar nas próximas legislaturas a governação no centro-esquerda. A explicação para o fenómeno já parece encontrar grão para moer se olharmos para Belém. A exploração política dos incêndios e respectivos mortos e destruição em 2017, a oferta do 10 de Junho a um caluniador profissional, e a irresponsabilidade e pusilanimidade revelada no início da epidemia do coronavírus em Portugal, tudo isto e o resto expõe Marcelo como um Presidente da República onde a soberba ególatra é mais forte do que o sentido de Estado. A sua fragilidade deixou a oligarquia em pânico na rábula em que se embrulhou com Costa numa cena triste onde revelaram ambos a sua real mediocridade, na tal recente e inesquecível visita à Autoeuropa. De repente, Ventura aparecia às inteligências dos impérios mediáticos direitolas como sendo capaz não só de extinguir o CDS como inclusive de comer eleitorado significativo ao Marcelo, saindo das presidenciais com a perspectiva de competir com o PSD nas próximas legislativas.

A Cofina lançou e usou o Ventura até ao ponto em que o próprio se convenceu que já sabia mais do que os mestres. Os ataques chungosos a Marcelo e a sua demente colagem a Fátima, para além de exibirem um talento estratégico daninho, deixaram-no com o alvo marcado na testa – era o sinal que mostrava estar o seu oportunismo debochado em avançada metamorfose para se tornar imprestável, tóxico. A oligarquia começou a tratar do assunto.

Do blogue Aspirina B