sábado, 22 de setembro de 2018

PGR nomeada, jornais enxovalhados:

Por vezes os políticos querem dizer o que pensam ou o que querem fazer, mas não querem assinar o que fica dito. Então, o político faz saber ao jornalista a mensagem e cuida para que ela vá anónima, mas com aquele perfume de sugestão de que a mensagem é mesmo verdadeira. Isso não é necessariamente incorreto, logo que seja entendido como raro e não prática corrente. Da fonte (o político), exige-se que não minta; do mensageiro (o jornalista), que tente confrontar com outras fontes o que lhe foi dito. E sobretudo, de ambos, exige-se boa fé.
Há dias, e por causa do folhetim "a PGR fica ou não fica", escrevi sobre o pecado em que os jornais estavam a cair: o anómalo passara a ser comum. Cenários taxativos e cheios de pormenores enxameavam os quiosques e as conversas dos comentadores televisivos. Talvez porque um dos lados era mais forte - o dos adeptos da continuação de Joana Marques Vidal no cargo - as "notícias" sobre o "fica" ganharam a palma.
O DN, naturalmente, também escreveu sobre o assunto. Por exemplo, recapitulámos os cenários possíveis, uns que diziam isto e outros que diziam aquilo. Mas, apresentadas as hipóteses, nós rematámos: "Não sabemos." Não sabemos, ponto, dissemos logo no primeiro parágrafo. Não saber é, por vezes, um sinal de sabedoria. E para informar os leitores sobre o que havia para informar, nós contámos como se passara, de tentações a pressões, nas precedentes mudanças de PGR. Foi pouco? Sim, mas eram os factos disponíveis. Factos.
Entretanto, o país e os jornais eram invadidos com as opiniões de vária gente, e não só de políticos, sobre a virtude de uma ou de outra decisão. Alguns ousando adiantar que o desfecho seria este ou aquele. Tudo opiniões legítimas, mesmo as erradas e tolas. Legítimas, porque opiniões. Grave nesta história foram as invenções de factos que foram reproduzidas nos jornais. Jornalistas instrumentalizados por políticos? Jornalistas de má-fé? Jornalistas enganados por alguém que lhes garantira ter tido acesso ao sanctum sactorum onde tudo se decidia?... Volto à sabedoria: não sabemos.
Mas sei que acabamos de viver um dos momentos mais graves do jornalismo português: o falso alcandorado a título. Acordo à vista para manter a PGR!, disseram manchetes. E foram por ali fora... As sibilas, as pitonisas, as cassandras jubilosas (em Portugal, gostamos de puxar as brasa para o nosso desejo) adiantaram taxativamente, como um facto, o que não veio a acontecer. Dias depois, Joana Marques Vidal não foi reconduzida.
Terão falhado o deitar de cartas, a leitura das vísceras de pássaros, o posicionamento dos astros? Não, que os nossos jornais são modernos: foram "fontes autorizadas" a informá-los. E se uma "fonte autorizada" diz que "Joana Marques Vidal já disse a Marcelo que aceita ficar", e se a mesma fonte garante que a tal decisão da própria foi tomada depois do "apelo do chefe de Estado", como não publicar? Publicou-se. Azarinho: hoje, depois do que se decidiu ontem, Joana Marques Vidal, com a cara dela olhando a câmaras, disse: "Nunca a questão me foi colocada." Eu acredito nas pessoas quando elas o dizem publicamente e o que dizem é confirmado pelos factos.
Há dias, 2 de setembro, preocupado com a deriva trumpiana (à falta de factos comprovados, contentemo-nos com os factos alternativos) à solta nos jornais, escrevi: "O problema é quando essa anomalia legítima da informação - publicar, apesar de não haver testemunhas identificáveis - passa a ser o único costume." Indignei-me com os "porta-vozes sub-reptícios" que veiculavam estar tudo decidido, insinuando que o sabiam de "fonte autorizada". De tudo que escreviam, os jornalistas davam a entender que vinha de algum lado. Ora, o dali, neste caso, só podiam ser duas pessoas, as únicas que decidiriam, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa.
Dos dois, eu julgava saber que não era o que ambos pensavam. E ambos, do que diziam publicamente, sem nunca explicitar o que iam decidir, não coincidia com o que era veiculado em alguns jornais e televisões como já decidido. Do que eu julgava saber, nada escrevi. Exatamente porque eu "julgava saber", sim, mas não sabia. Exatamente porque aquilo que eu julgava saber poderia, até ao facto consumado, ser mudado por uma das muitas razões que movem as coisas políticas. Ficamos, eu e o DN, desobrigados de fazer o que outros precisam de fazer para se limpar: pedir contas ao embusteiro (ou mais do que um) que os tratou como porta-vozes sub-reptícios. E, sobretudo, perguntarem a si próprios se não os cansa serem moços de recado.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Apatia:

Ao dar um passeio a pé, o que tem sido habitual para mim, e ao passar à nova Rotunda do Bombeiro, ao ver uma ervas daninhas que ali crescem e florescem, estas chamaram-me à atenção e daí mais uma vez verifiquei o quão Freamunde é esquecido.
A Rotunda do Bombeiro não fica fora da área central de Freamunde. Aliás, ela mudou – agora um pouco abaixo – para dar lugar a uma nova faixa de rodagem em frente à futura Igreja do Divino Salvador. Como se vê não se constrói uma igreja num lugar recôndito.

Podem-me dizer agora os” prevaricadores” que chegada a hora a obra vai ser realizada. Só que entre o vai e vem há uma miséria a “céu aberto”. Mas não podemos ficar desiludidos que sobre isso somos useiros e vezeiros. Não é que mereçamos isso mas que contribuímos para isso contribuímos. Não seja mais pela apatia.

PS- Depois de ter o texto escrito verifiquei que já havia um a fazer crítica a este desleixo mas mesmo assim resolvi expô-lo. “Água mole em pedra dura tanto dá que até fura”.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Volto à carga e… com imagens:

Há dias, cerca de duas semanas, escrevi um pequeno texto sobre o abandono do rio do Parque de Lazer de Freamunde. De nada valeu. Tanto Junta de Freguesia como órgãos da Câmara que cuidam da limpeza do parque ou não tiveram conhecimento ou são cegos. Vou mais para a segunda sugestão.

Sabe-se que o parque, pelo menos aos fins-semana, é visitado e frequentado por um inúmero de pessoas. Quem o visita ou frequenta se for de fora de Freamunde deve dizer: que porcos ou desleixados. É o que me apetece dizer ao Presidente da Junta de Freguesia de Freamunde e Presidente da Câmara Municipal. Deixam lentamente morrer um ex-libris de Freamunde. Será que Freamunde tem em demasia ex-libris para deixar morrer?
Sabe-se também que é na época de verão que o parque é mais frequentado. Na de inverno pouca ou nenhuma ali vai. Portanto é nesta época em que nos encontramos que o parque devia esmerar pela limpeza do seu rio. Digo rio para não dizer com todo o parque.

Como disse no texto que escrevi há duas semanas que se houvesse perspicácia ou engenho o caudal que transporta a água até ao rio já estava limpo e com mais inclinação para a água não ficar ancorada entre um e outro. Por que não se limpa as plantas subaquáticas para estas não travar a corrente de água? Já referi que em Freamunde rareiam os ex-libris.
Por falar nisto vou referir parte de uma conversa que tive com um ilustre forasteiro mas que tem parte da sua vida dedicada a Freamunde. Até digo mais. Deve ter 50/50% de vivência entre Freamunde e a sua terra de origem.
Dizia ele: - Se em Freamunde aos Domingos fechasse a Igreja e acabasse o futebol ninguém saía à rua.
– Meditei e cheguei à conclusão que é uma realidade. Por isso senhores dos destinos de Freamunde pensem nisso. Acudam ao que deve ser acudido enquanto é tempo. Desmoronar é fácil. Difícil é construir ou manter.
Tenho dito.

domingo, 16 de setembro de 2018

Gostei do que vi:

Saí ao intervalo por indisposição, portanto a perder por uma bola zero. Mesmo assim gostei do futebol praticado tanto do S. C. Freamunde como do Rebordosa Atlético Clube – clube que fiz parte na sua apresentação em mil novecentos e sessenta e oito. Foi numa segunda-feira de Páscoa.

O senhor Domingos Barbosa, um Freamundense de alma e coração, natural de Rebordosa, foi dos primeiros directores do Rebordosa Atlético Clube, e por amor a um e outro clube, fez o convite para o S. C. Freamunde ali fazer o jogo de apresentação. Assim aconteceu. O S. C. Freamunde disputava o campeonato da 1ª divisão da Associação de Futebol do Porto.
Quanto ao S. C. Freamunde tem uma equipa jovem, pratica ou praticou um bom futebol, pena não ter uma ponta de lança “raçudo”, mas julgo que com o tempo isso vai acontecer.
Auguro um bom campeonato. Com isto não quero dizer que é para subir já este ano. Primeiro vamos estabilizar e depois pensar na subida. Sabemos o quanto foi difícil esta entrada. Mas com paciência lá vamos.
Um clube com oitenta e cinco tem as suas crises. Sou mais novo e sei o que são essas crises. Portanto paciência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Pelo contrário!

sábado, 15 de setembro de 2018

A regra infirma a excepção:


Na verdade, o processo "Marquês" nunca foi distribuído nem sorteado. A escolha do juiz, que deveria ter acontecido em 9 de setembro de 2014, não resultou de uma operação de distribuição que deveria ter sido por sorteio ou, como diz a lei, "realizada por meios electrónicos, os quais devem garantir aleatoriedade no resultado". Em conclusão: desde 9 de Setembro de 2014 que o processo "Marquês" não teve um juiz legal ou juiz natural. O Tribunal já comunicou também que nenhum juiz presidiu à dita "atribuição manual" e que tal intervenção terá ficado a cargo da escrivã de direito, Senhora Maria Teresa Santos. Espero que nos poupem ao debate sobre a responsabilidade da senhora escrivã, porque o que se passou com a denominada "atribuição manual" não foi uma falha, um descuido burocrático que se possa atribuir a um funcionário. Pelo contrário, o que se passou consistiu num ato intencional de escolha de um juiz, ludibriando a lei. Estamos para ver exatamente quem deu essas instruções, mas é importante que nada fique por dizer: o mais provável é que o processo tenha sido ilegalmente "avocado" e o principal suspeito é o Juiz Carlos Alexandre.


Sócrates

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As únicas pessoas a quem reconheço o direito a não mexerem uma palha na defesa pública do inocente cidadão Sócrates, inclusive o direito a julgarem-no moralmente na praça pública, são aquelas que se consideram lesadas com a “Operação Marquês” devido ao teor das suas relações privadas com Sócrates até então e as consequências que os actos do actual acusado vieram a ter para estes terceiros do círculo íntimo ou próximo (fosse política, pessoal e/ou socialmente). Há razões psicológicas que se sobrepõem à postura cívica dado estarmos perante acontecimentos traumáticos. Os restantes, se ficarem calados estarão a ser cúmplices de quem está a fazer deste processo uma homérica guerra política que implica a planeada e sistemática violação do Estado de direito, onde tal possa ser levado a cabo sem consequências para os responsáveis, de forma a montar um julgamento excepcional. Excepcional nisso de colectivamente se aceitar que Sócrates deva ser condenado antes de ser julgado, e julgado sem respeito absoluto pela Lei – assim obtendo o supremo troféu de impor o maior castigo possível a um estupendo e aterrorizador inimigo político e a quem ouse defendê-lo.

O Correio da Manhã, para usar aqui o arquivo mais extenso e fiel em Portugal a respeito da matéria, publicitou ao longo dos anos as suspeitas acusatórias maximalistas dos procuradores. Que acontece se juntarmos todas as capas produzidas pelo esgoto a céu aberto sobre a “Operação Marquês”? Acontece que não vamos encontrar uma única prova de corrupção. Ninguém sabe, no Ministério Público, como provar que uma certa quantidade de dinheiro na posse de Carlos Santos Silva tenha tido origem em actos governativos ilegais. Como não sabem, e como não podiam deixar de acusar Sócrates fosse do que fosse depois de terem posto a gigantesca máquina acusatória a funcionar, juntaram as teses todas e criaram um megaprocesso que, só para ser dilucidado em tribunal, já corresponde a uma forma de impor uma pena aos acusados mesmo que depois venham a ser ilibados parcial ou totalmente. Isto em si mesmo pode não ser uma violação do Estado de direito, embora tal dependa da interpretação que cada um faça desse edifício jurídico-político, mas quando se cola à evidência de termos tido um juiz de instrução que não se comportou como juiz dos direitos e garantias dos arguidos, antes como duplo e carrasco do MP, então a constatação de que o Estado de direito é neste processo uma fantochada tem de ser retirada por qualquer um que não abdique da sua decência como cidadão, como eleitor, como pagador de impostos, como mero anónimo que não admita ver a Justiça a ser usada para vinganças e perseguições políticas.

Aquando da condenação de Vara à pala do sucateiro, o próprio Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a pena era muito exagerada face ao suposto delito em causa (delito esse também sem provas directas). Porém, ele não estava escandalizado, sequer preocupado. O fenómeno nascia, explicou, da maior importância que esse tipo de crimes estava a ter na comunicação social, logo os juízes iam atrás do que aparecia na imprensa e julgavam de acordo com o sentimento popular. A sua placidez opinativa compreende-se sem dificuldade dado estar na berlinda um socialista, ainda por cima já tendo anos como alvo de calúnias por conta do seu passado maculado por suspeitas graves e pela sua amizade com Sócrates. Não sabemos o que diria se a vítima da justiça jornaleira fosse alguém da sua cor política, amigo ou familiar. O que sabemos é que Marcelo sabe perfeitamente bem que uma campanha de assassinato de carácter, de suspeições, de difamações e de calúnias pode ter, com alto grau de probabilidade, influência nos juízes na altura de usarem o seu arbítrio para carimbarem um dado cidadão como inocente ou culpado, com esta pena ou com aquela. À luz do que temos visto, e continuamos a ver, acontecer no processo que envolve Sócrates, só por milagre se fará justiça na Justiça onde a parte mais importante do seu futuro será decidido.

A regra que enche por estes dias a retórica dos justiceiros é a de que todos são iguais perante a lei, que ninguém está acima da lei. A “Operação Marquês” revelou que a Justiça, a Assembleia da República, o Governo e o Presidente da República se podem aliar numa passividade cúmplice com aqueles que fizeram da excepcionalidade deste caso uma regra conhecida de antanho: os mais fortes são a lei.





Do blogue (Aspirina B)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Joana Marques Vidal? Maria José Morgado? Vou ali e já venho. Deve haver alguém competente para o lugar e parece-me óbvio que nem uma nem outra o é:



Casos a arrastarem-se e arrastarem-se e arrastarem-se durante anos, incapacidade total para fixar e fazer cumprir prazos, sistemáticas fugas de informação e quebras do segredo de justiça, sistemas informáticos em que, pelos vistos, nem os responsáveis confiam, casos mediáticos em que o julgamento ocorre na praça pública ainda antes de haver acusação de facto -- estas, para mim, são algumas das características dominantes da era Joana Marques Vidal.

O meu ponto de vista é o de uma vulgar cidadã e, não obstante ter orientações naturais,
(ex: sou heterossexual, sou agnóstica, sou a favor da liberdade, da democracia, da igualdade de oportunidades, sou humanista, sou contra a exploração do homem pelo homem -- e, daqui por algum tempo, acrescentarei que também sou contra a exploração do homem pelos robots ou pela algoritmia decorrente da inteligência artificial -- etc.),
tento ser objectiva e imparcial na formulação das minhas opiniões. Por isso, não é porque o Marques Mendes, as Direitas-Unidas e sei lá quem mais defende que a Santa Mana Joana é a única alma à superfície da terra que pode desempenhar o cargo com competência que eu estou aqui a dizer que se vão catar.

Digo-o porque, do que conheço, o que há é uma mão cheia de argumentos para lhe dizer que adeusinho, bye-bye, que vá mas é fazer aquilo para que tem jeito. E se não souber o que é -- eu também não sei pelo que aqui não poderei deixar a dica -- pois que vá fazer testes psico-técnicos. Mas, se lhe der aquilo que é óbvio, que tem jeito é para o marketing auto-promocional, esqueça. Para esse peditório o país já deu. Já está santificada em vida sem nunca ter feito qualquer milagre. Que quer mais? Pense noutra, nessa não. Ou, se já não estiver para ir em busca do seu verdadeiro eu, pois que veja se o Costa muda a cena da idade da reforma e do diabo do factor da sustentabilidade e vá mas é curtir a vidinha.


Em alternativa à Sta Mana, há quem se lembre da Maria José Morgado. Outro susto. Falando sempre num registo encriptado, lançando insinuações contra incertos, como se tivesse muita sujeira escondida na manga e, a todo o momento, pudesse pôr a boca no trombone, dali nunca se ouviu nad que se pudesse aproveitar. Aridez total. Quem a oiça dirá que Portugal é um antro de corrupção, de sacanagem e de total ladroagem e que nada há a fazer pois, em cima disto, existe um polvo de interesses políticos, futebolísticos e, quiçá, religiosos, um gigantesco e sinistro polvo que tudo abafa, que tudo compra. E soluçoes para isto, ó Senhora Dona Magistrada? - dá vontade de lhe perguntar. Mas, se alguém lhe perguntar isto, ela certamente fará um daqueles seus sorrisos que insinuam secretas podridões e dará a entender que não valerá a pena sequer tentar. E, no meio daquelas afirmações redondas mas sempre atiradas com uma assertividade extraordinária, parece perceber-se-lhe a insinuação de que o que é preciso é uma justiça musculada, atalhar a eito, passar por cima dos direitos e liberdades individuais. E, inevitavelmente, somos levados a desconfiar de que naquele peito ginasticado pulsa um coração que, mesmo que de forma não confessa, é ainda um fiel devoto da pura e dura linha mrpp.

Por isso, por favor: a Maria José Morgado também não.

Mas não há crise, o povo é sereno: sendo Portugal um país de mentes brilhantes, algum magistrado capaz haverá de haver que consiga exercer a função de Procurador-Geral com denodo e competência, voltanto a devolver a confiança aos portugueses. Tenhamos fé.

Do blogue (Um jeito manso)

sábado, 8 de setembro de 2018

Nos idos do verão:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/09/2018)
MST5
(O Miguel vem em grande forma. O bronze da Meia Praia fez-lhe bem. Eucaliptos e pedófilos, a mesma corja, é o tema. Denominador comum entre ambas as pragas? O fogo do inferno: os infernos de fogo que os eucaliptos alimentam e onde merece ser incinerada a cáfila abusadora das crianças e jovens à sua guarda.
Comentário da Estátua, 08/09/2018) 

Das areias da Meia Praia, vi o fogo começar na Serra de Monchique. Já se tornou um hábito estar sempre a olhar para a serra com medo que um fogo comece. Porém, não me assustou muito, pois, apesar do calor intenso, estava vento sul e com vento sul não mexe uma palha lá em cima. Isso, mais a avalanche de meios terrestres e aéreos imediatamente lançados no ataque ao incêndio, logo elogiados pelo Presidente e que há meses nos vinham sendo cantados em ladainha pelo ministro Eduardo Cabrita como estando disponíveis até para os conhecidos incêndios de Natal, fazia prever que, no máximo de 24 horas o fogo estaria extinto. Mas, não: foram três dias seguidos sem vento desaproveitados, até que aquilo que todos os que conhecem a zona temiam que acontecesse, aconteceu: entrou o vento norte e tudo fugiu de controlo. Monchique ardeu até ao fim, durante oito dias e 26 mil hectares. Outra vez. Um habitual rigoroso inquérito vai apurar como é que tal foi possível e eu, que não percebo nada do assunto, não posso ajudar às conclusões. Excepto numa coisa: por favor, não concluam que não houve incompetência no comando.
Por favor, também não concluam que aquele braseiro demencial não foi tragicamente potenciado pela caixa de fósforos gigantesca em que transformaram a outrora deslumbrante Serra de Monchique. 74% da área florestal do concelho de Monchique são ocupados pelos queridos eucaliptos: lá em cima não corre um fio de água, não se avista um animal bravio, não se escuta um pássaro. Dentro de oito anos serão 84% de eucaliptal e voltará a arder tudo outra vez. É um jogo de roleta: se por acaso não arder, é fortuna garantida para quem os plantou; se arder, o prejuízo é todo dos contribuintes e o lucro é dos que fornecem os meios de combate aos incêndios. Em Maio passado, porém, o presidente da Câmara de Monchique, Rui André, mostrava-se tranquilo com a situação: as plantações de eucaliptos estavam “ordenadas e vigiadas”, os caminhos limpos e os aceiros feitos. “Já são muitos anos a apagar fogos!”, concluía ele, com um optimismo cínico que se viria a revelar mórbido e que num país onde a responsabilidade política não fosse uma palavra vã o deveria ter levado a demitir-se no dia seguinte ao fogo ter sido extinto.

2 Em Monchique, ardeu sobretudo o eucaliptal da Navigator/Soporcel. E, enquanto os eucaliptos alastravam o fogo à serra, destruíam casas e só por sorte e arte dos bombeiros não mataram ninguém, o seu dono passava férias em Ibiza, a bordo do seu iate, onde viria a morrer de ataque cardíaco. O mesmo Presidente Marcelo, que passou o Verão a lembrar e a homenagear as vítimas dos incêndios de 2017 e a preocupar-se com o incêndio de Monchique, apressou-se a lamentar a morte de um “grande industrial português”. E o jornal “Público” dedicou-lhe a capa e as primeiras quatro páginas, em homenagem ao “presidente do maior grupo industrial de base nacional” e “o homem que não se deixou enganar por Ricardo Salgado” (duas verdades inquestionáveis). Porém, nem uma linha para informar os leitores distraídos ou recordar aos outros que o tal “maior grupo industrial português”, além da Secil e daquela fábrica de cimento que é uma ferida terceiro-mundista na Serra da Arrábida, assenta basicamente na fileira predadora das celuloses — responsável pela infertilidade das terras, pelo despovoamento do interior, pela dimensão dos incêndios, pela poluição dos rios e pela destruição inacreditável da paisagem de Portugal a um ritmo avassalador. E cujas árvores, num processo já incontrolável, renascem das cinzas e espalham as suas sementes mesmo para onde ninguém as planta e ninguém as deseja. Não fosse um texto de elogio a Pedro Queiroz Pereira da autoria do engenheiro João Soares, um crónico defensor do eucaliptal, e nem se saberia a que actividade se dedicava aquele. Desse texto, aliás, retive uma passagem em que João Soares relata uma conversa que terá tido com Queiroz Pereira e em que este terá desabafado que quando abria um jornal e se via “acusado de crimes ambientais”, lhe dava “vontade de vender tudo e ir-me embora desta terra”. O problema está em que não há muitos países — aliás, nenhum país do primeiro mundo, que tenha, sequer em termos absolutos, a quantidade de eucaliptos que Portugal tem e consente. Talvez por isso, a Navigator/Soporcel procure outras paragens longe do primeiro mundo. Uma arrepiante reportagem da autoria de Sofia da Palma Rodrigues, curiosamente publicada no mesmo jornal “Público” no dia da morte de Pedro Queiroz Pereira, revelava como é que, ao abrigo de um programa lançado pelo G7 para desenvolver a agricultura tradicional em África, e através de um processo no mínimo nebuloso, a Navigator/Soporcel se apoderou de 356 mil hectares (três vezes a área que explora em Portugal) das terras agrícolas mais férteis das províncias de Manica e Zambézia, em Moçambique, para as forrar de eucaliptos, afastando delas os agricultores locais. Pois é, as coisas são como são. Não se consegue ter sol no eucaliptal e gente nos campos e chuva nos incêndios.

3  Em directo na rádio France-Inter, o ministro do Ambiente francês, Nicholas Hulot, demitiu-se sem aviso prévio, dizendo não conseguir mentir mais a si mesmo. Não, nem Macron consegue fazer cumprir em França as metas da Cimeira de Paris sobre as emissões de CO2: as pressões da indústria são mais fortes do que quaisquer promessas. Na Alemanha, uma comissão independente concluiu aquilo que qualquer condutor já sabia: que os números de consumo dos carros são notavelmente desinflacionados pelos construtores. Na Austrália, um dos países do mundo mais expostos às alterações climáticas, de ano para ano, o país vive incêndios dantescos, viu a Grande Barreira de Coral diminuir para metade e atravessa actualmente a maior seca de que há registos. Signatária do Acordo de Paris, a Austrália é o 4º maior produtor de carvão do mundo e o 16º maior poluente da atmosfera. Na terceira semana de Agosto, o primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, foi derrubado por um golpe interno do seu partido, quando ensaiou uma tímida reforma destinada a controlar a emissão de gazes com efeito de estufa, dando cumprimento aos Acordos de Paris. Por trás do golpe estavam as grandes empresas produtoras de carvão, de petróleo e de gás e a maioria da imprensa, dominada pelo império de Rupert Murdoch.
As lições a extrair daqui são simples e assustadoras. A indústria, as grandes empresas, nunca sacrificarão os lucros dos accionistas a causas que tenham que ver com o bem comum. Pouco lhes importam os acordos ou tratados que os governos assinem ou as leis que aprovem: elas têm os governantes nas mãos, sem precisarem sequer de chegar ao extremo de os corromperem; basta assustá-los com a deslocalização, com a perda de impostos, com as consequências económicas, reflectidas em eleições. Restaria a imprensa independente para actuar em nome do interesse dos cidadãos. Mas, para se manter independente, para subsistir, a imprensa precisa de leitores e de anunciantes. Desgraçadamente, porém, os leitores estão a fugir para as redes sociais (alimentadas, irresponsável ou deliberadamente, pelos próprios políticos), e os anunciantes são as mesmas grandes empresas, interessadas em que certas notícias não existam. Num futuro não muito longínquo, alguém contará como é que sucessivas e coincidentes mortes desaguaram numa tragédia global.
4  É provável que o arcebispo Vigano tenha razão na acusação que faz ao Papa Francisco de ter encoberto os abusos sexuais do cardeal americano McCarrick. Mas é provável também que ao pedir a renúncia do Papa, Vigano, ligado aos sectores mais conservadores da Igreja, não seja movido por boas, mas por más razões. E que Francisco se tenha calado porque percebeu que a dimensão do escândalo era de tal forma que toda a Igreja Católica poderia desabar se a verdade inteira fosse conhecida. Mas agora é tarde demais.
O que os novos escândalos da Pensilvânia e da Irlanda puseram a nu de forma cristalina é que durante décadas ou séculos — talvez desde sempre — os homens de Deus se dedicaram à pedofilia sobre as crianças e os jovens que lhes eram confiados, com total impunidade e conivência dos seus superiores. Que Satanás tomou conta do proclamado Reino de Deus e que todas as virtudes santas pregadas pelos seus pastores se traduziram na mais suja e cobarde hipocrisia muros adentro. Não há perdão algum, só nojo.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia