segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Rui Rio anda a poupar nas moscas:


























A semana começa com a greve desconvocada dos camionistas de matérias perigosas. Notícia positiva, que alivia as apreensões dos portugueses que condicionaram as deslocações pelo receio (viu-se que infundado!) de se verem forçados a encostarem à berma. Os açambarcadores ainda demorarão a reduzirem os riscos de acidentes para si e para os que moram nas suas proximidades, tendo em conta quanto tempo demorarão a gastar as indevidas reservas em bidões e jerricãs. Os que desejaram o caos para que o governo ficasse em xeque voltarão a transferir as melhores expetativas para os incendiários. E os camionistas podem, enfim, tratar do seu futuro a sério confiando mais nos dotes de Pedro Nuno Santos como negociador eficaz de interesses contraditórios do que no seu pardalão, definitivamente confrontado com os limites das suas golpadas. Provavelmente terão tido em abril a sua grande oportunidade, porque a Medway já veio anunciar a capacidade de transportar combustíveis por via ferroviária entre o Minho e o Algarve a partir de Sines, restringindo o recurso aos camiões nos pequenos trajetos entre os apeadeiros e os locais de consumo a exemplo do que já sucede entre Loulé o aeroporto de Faro.

Não se adivinhando o que possa ter estado subjacente a uma estratégia reivindicativa tão peculiar - embora os serviços secretos poderão ter dados que nos escapam e só transpiraram da missiva assinada pelo camionista a quem Marcelo pedira boleia meses atrás, tal qual no-lo revelou «Expresso»! - conclui-se que a reação do governo foi superlativa. Não houve arruaças, os postos de abastecimento puderam fornecer combustível a quase todos os clientes e o isolamento dos grevistas foi crescendo ao longo da semana.

Pelo contrário a oposição esteve patética com o Bloco a mostrar-se tão atarantado com a greve como os seus homólogos franceses, liderados por Mélanchon, a respeito dos coletes amarelos. Sendo evidente a conotação ultrarreacionária dos líderes de tais movimentos a iniciativa de promove-los a compagnon de route, se não mesmo a grandes heróis do proletariado, releva da mais absurda e irresponsável precipitação. Quanto ao PSD de Rui Rio é quase confrangedor falar, porque até quando quis atirar lama a António Costa, a propósito das férias durante os incêndios de Pedrógão Grande em Junho de 2017, errou totalmente o alvo, já que elas só aconteceram no mês seguinte ao dessa tragédia e não quando ela estava a ocorrer. Ao atual líder laranja ajusta-se na perfeição o ditado popular sobre quem costuma andar de boca aberta: ou entra mosca ou sai asneira. No seu caso parece que as moscas têm sido poupadas.

Publicada por jorge rocha à(s) 00:59


Do blogue Ventos Semeados

Ó Ana Sá Lopes, não te inibas. O que te impede de chamar ditador fascista ao Costa? (Mas quem é que ainda lê jornais?)

Tenho dificuldade em prestar atenção ao desmiolado comentariado nacional, pago para se excitar a propósito de tudo e de nada, e, ultimamente, com a mania de, através de editoriais em jornais, e com o PSD na lama, se armar em oposição do Governo. Não há pachorra. Temos um governo que governa, que se preocupa com que as contas não derrapem, que dá liberdade suficiente ao chamado “mercado” e liberdade total à livre iniciativa, que se apresentou com convicções e dignidade na Europa, passando a ser olhado com respeito e admiração, que restituiu o orgulho nacional, que pôs a economia a crescer, que está atento aos problemas, que é constituído por pessoas competentes e contidas, que também aprendem e se preparam, enfim, dir-se-ia um governo de luxo. E estas alminhas, sem mais que fazer, que fazem? Resolvem preencher os espaços de que dispõem para delirar.  Tudo bem. Não queiram é ser levados a sério, eles próprios e os jornais onde trabalham.

Mas então o Governo não pode ser criticado, dir-me-ão? Claro que pode. E deve. Em matéria de habitação, de leis agrícolas, de cedências aos parceiros esquerdistas e comunistas, por exemplo, muito haverá para dizer. Mas as críticas devem colar à realidade. Quando toda a gente está ultra-satisfeita com a gestão governamental da greve dos camionistas e desejando o seu fim, esta e outras alminhas – ou porque simpatizam com a extrema-esquerda ou porque representam a direita – insistem em que o que era bom era ter deixado a greve bloquear o país. Apesar de sabermos para quem isso seria bom, conviria que os jornais e os seus editoriais tivessem algum tino e equidistância.

Perante a possibilidade real de ficarem indisponíveis os combustíveis nas bombas, ambulâncias e hospitais e os alimentos nos supermercados, jornalistas espertos como a Ana Sá Lopes entendem, e dizem-no sem qualquer noção, ou a soldo, que o Governo não deveria ter tomado medida alguma. Alegadamente para não atentar contra o direito à greve. E, se tomou medidas, é porque Costa se armou em Margaret Thatcher na crise dos mineiros. Isto, para quem não o saiba, é uma patetice sem adjectivação.

É que, daí até chamar a Costa o Salvini ou o Orbán atlântico, ou Hitler daqui a uns dias, vai um saltinho. Triste imprensa, em que não há um único articulista que valha a pena ler. E, de facto, eu só os leio de vez em quando para me inteirar do seu estado de saúde. Tipo: “Deixa cá ver como este tem passado“. Até agora, não há melhoras. Reconheço apenas que há picos de febre e pequenas e temporárias acalmias.

 POR PENÉLOPE


Do blogue Aspirina B

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Após a jactância inicial o pardal virou patético!


Nos últimos dias apareceram cogitações nas redes sociais sobre a hipótese do pardal ter por trás o sinistro Steve Bannon cujo propósito desestabilizador das democracias europeias é bem conhecido. A demonstração fica por fazer mas, como dizem os italianos, se não é verdade, é bem esgalhado. Porque, de facto, existe uma estratégia das extremas-direitas internacionais, decididas a tornarem Portugal seu alvo potencial. O professor Boaventura Sousa Santos denunciou-o num artigo de referência na semana passada e não terá sido propriamente um acaso que neofascistas de vários países tenham escolhido o nosso país para se reunirem no sábado transato.


Ao quarto dia de greve pode-se dizer que as assombrações televisivas do pardal mudaram de tom: onde antes imperava a jactância de quem se julgava dono e senhor da situação, revela-se agora a patética impotência de quem sente a iminência de se ver atropelado por circunstâncias fora do seu controle. Nos piquetes a confissão de desalento e cansaço instala-se, as deserções crescem perante o receio de complicações judiciais, cobiça-se o acordo conseguido por colegas abrangidos por outros sindicatos e ouve-se Pedro Nuno Santos declarar que «o tempo da greve terminou!».

Como qualquer rio quase a secar teremos a arruaça desta tarde. O pardal tentará arregimentar o maior número de indefetíveis para o acompanharem à porta do ministério, que se manterá fechada como revelação da indiferença, que os seus derradeiros estertores suscitarão. E quantos grevistas arriscarão prosseguir na absurda luta a partir de amanhã?

Talvez alguns dos notórios comentadores das direitas televisivas (José Gomes Ferreira e outros que tal) voltem então a dar sinais de si depois de tão súbito eclipse, que até possibilitou o recurso a quem raramente vemos solicitados para tal função. Foi grande a expetativa de ser esta a derradeira possibilidade para atrapalhar o resultado eleitoral do Partido Socialista em outubro e o desiderato tende-os a frustrar clamorosamente. É claro que virão lamentar, vezes sem conta, os dividendos ganhos pelo governo com a derrota dos grevistas, mas não podem contar com lideranças credíveis no seu lado da trincheira para que possam sugerir alternativa credível a António Costa. Perante a possibilidade de uma grave crise para o país Assunção Cristas faz-se fotografar na praia. Rui Rio desapareceu e empurrou para frente dos microfones um atabalhoado David Justino e Catarina Martins deu passos em falso, que lhe sairão certamente caros. Sobra o Partido Comunista que, através da Fectrans, demonstrou a superioridade do sindicalismo sério e responsável, capaz de negociar e de conseguir resultados para os seus associados. Confirmou-se quem continua a ser o parceiro mais fiável (Mário Nogueira à parte!) para que prossiga o esforço coletivo que, face aos indicadores de crescimento económico ontem conhecidos, permita aos portugueses a efetiva melhoria de qualidade de vida nos anos vindouros.

Publicada por jorge rocha

No blogue Ventos Semeados

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Inteligência, competência, serenidade e sentido de Estado:



















Segundo dia da greve dos camionistas e as televisões ficam sem notícias, porque a requisição civil põe toda a classe profissional em movimento reduzindo a quase nada os já minguados piquetes de ontem. Contra o aventureirismo suicida dos pseudo-sindicatos o governo agiu eficientemente para devolver a normalidade ao país.

O que se tornou ensurdecedor foi o silêncio dos partidos da oposição, que não arriscam o erro cometido em maio quando convergiram na aprovação todo o tempo de serviço dos professores e viram-se seriamente penalizados nas eleições europeias. A única declaração de Rui Rio - a de propor a greve para depois das eleições - ainda agora está a ser interpretada para compreender-lhe verdadeiramente o esdrúxulo sentido, que todos estimam absurdo. O CDS aprovaria porventura a afirmação da autoridade do Estado perante a ameaça do caos social, mas só quando poderia ser ator e não espectador de tal situação. O Bloco arriscou uma posição idiota confundindo os grevistas com proletários integráveis na Revolução futura sem entender como o verdadeiro inimigo avança com agentes provocadores, tipo Pardal, quando sente perigados os seus interesses. E foi a tímida posição do PCP a mais sensata, chamando a atenção para o quanto a legislação laboral fica em xeque com estes pretextos, mas não deixando de denunciar o carácter equívoco da luta inorgânica, que lhes estão subjacentes.

Estes têm sido os dias em que António Costa melhor tem demonstrado como se governa com inteligência, competência, serenidade e sentido de Estado.

Publicada por jorge rocha

No blogue Ventos Semeados

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Agostos da vida - Os pides:


Estávamos em Agosto de 1974 e os agentes da polícia política PIDE/DGS (os “pides”), presos na sequência do 25 de Abril na cadeia penitenciária de Lisboa, haviam iniciado um novo motim. Era um movimento em tudo idêntico ao que tinham desencadeado no início do mês e que dera origem à  constituição de uma “comissão de inquérito”, composta por um representante de cada um dos três ramos das Forças Armadas, da qual eu era relator, enquanto oficial miliciano do Exército.

Tinha assumido essas funções na qualidade de membro da Comissão de Extinção da ex-Pide/DGS e LP. Para tal, havia sido colocado como assessor do general Galvão de Melo, membro da Junta de Salvação Nacional. Galvão de Melo, da Força Aérea, era um dos sete membros da Junta, que então dirigia o país, e, seguramente, a figura mais à direita dentro daquele órgão. Por uma singular ironia, competia-lhe a tutela da Comissão de Extinção da polícia política do anterior regime, tarefa que o não entusiasmava por aí além. E, por outra singular ironia e fruto de diversas circunstâncias, coube-me em rifa ser seu assessor.

Os pides consideravam então estar a ser vítimas de uma imensa “injustiça”, seriam totalmente infundadas as inúmeras acusações de torturas e atentados aos Direitos Humanos que sobre eles impendiam, a esmagadora maioria jurava nunca ter feito outra coisa que não fosse estar nas fronteiras a pôr carimbos nos passaportes. Uns anjos, em suma!

Descontentes com o prolongamento da sua detenção e respectivas condições, mobilizados por um qualquer pretexto conjuntural, os pides tomam alguns guardas da Penitenciária como reféns, abrem o “gradão”, a porta de ferro que lhes permite invadir a parte central da prisão, e anunciam que estão “à disposição” do general Galvão de Melo, que acabara de fazer uma polémica e ultraconservadora proclamação televisiva, que lhes terá ressuscitado a esperança de uma libertação rápida.

No auge desta nova crise, o chefe da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, comandante Conceição e Silva, foi de helicóptero ao Algarve, com o seu adjunto Alfredo Caldeira, para tentar obter orientações de Galvão de Melo. Na conversa, o general, enfadado por ver interrompida a sua estada no concurso hípico da Penina, terá deixado os seus interlocutores de mãos a abanar.

Estávamos assim, num domingo à tarde, reunidos no gabinete do director da Penitenciária, a discutir o que fazer a seguir.

Esgotadas algumas hipóteses de solução, o José Manuel Costa Neves, chefe de gabinete de Galvão de Melo, decide tomar o assunto em mãos: “Eu vou lá dentro falar com os pides. Quem é que quer vir comigo?”. A idade tem destas coisas e a precipitação é uma delas. Por isso, disse de imediato: “Eu vou contigo”. Arrependi-me no segundo seguinte, mas já era tarde: cinco minutos depois estava a seguir a figura alta e corajosa do então major (hoje general) Costa Neves e a entrar no meio de uma chusma de pides, que sabíamos que tinham armas retiradas aos guardas e desconhecíamos se tinham a intenção de também ficar connosco como reféns.

Enquanto o mar de pides se abria como as águas do mar Vermelho, para ambos podermos chegar ao centro da prisão, comigo numa taquicardia de tardio bom senso, recebo um leve toque num ombro e volto-me, sobressaltado. Dou de caras com o “Navalhas”*, um colega de escola primária em Vila Real, que eu não via há muito e desconhecia ter escolhido tão distinta opção profissional.

“'Tás porreiro? Então por aqui?”, saiu-me, num registo social, como se o estivesse a encontrar no Rossio, à porta da Suíça. Apertei-lhe a mão, quase caloroso, para me dares ares de confiança bem à vista do grupo, que tinha já cem olhos sobre mim, com o “Navalhas” a retorquir-me: “É verdade! Quem também cá está é o “Bilrau”*, mas não aderiu”. O “Bilrau” era também um antigo colega de liceu que, do mesmo modo, eu desconhecia ter enveredado pela prestigiante carreira de pide. E o meu convívio social-pidesco estendeu-se então, com a maior naturalidade, ao ausente “Bilrau”: “Ó 'Navalhas', dá um abraço meu ao 'Bilrau'… e tive imenso prazer em ver-te, pá!”.

Esta rápida sequência de vénias de cordialidade passou-se, aparentemente, sem que o Costa Neves nada notasse, entretido que estava já a lidar com os cabecilhas do motim e a transmitir ao selecto auditório as presumidas orientações de Galvão de Melo. Dez minutos depois, para meu imenso alívio, estávamos cá fora, sãos e salvos. Os pides acabaram por não se render na sequência da nossa esforçada diligência e só foram “convencidos”, horas mais tarde, pela chegada de um pelotão de “fuzos”, os Fuzileiros Navais que Conceição e Silva mandou vir do Alfeite.

Desde esse inesquecível mês de Agosto de 1974, nunca mais vi o “Navalhas” ou o “Bilrau”. Coitados, com o acordo de Schengen, até ficaram sem fronteiras para praticarem a sua nobre profissão. Eles que só punham carimbos em passaportes...

(Estes nomes podem não ser exatamente os reais, mas não aceitarei deixar estes últimos sobreviverem no texto, se acaso vierem a surgir em qualquer comentário’

Publicado por Francisco Seixas da Costa à(s) 11:30