Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/
Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Eu é que sou o presidente da Junta:


Na sua época dourada - que tantas saudades nos deixou por nunca mais se ter repetido! -, Herman José criou um sketch inesquecível, o do Presidente da Junta,  que se ajusta como uma luva a Marcelo Rebelo de Sousa nesta altura de incómoda azia suscitada pela provocação rasca de uma chegófila na Feira do Livro do Porto.
Desrespeitado, sentindo quão frágil é o estatuto de alto magistrado da Nação, que deixou menorizar quando se quis “presidente dos afetos”, Marcelo anda num afã a querer demonstrar ser ele quem mais manda. Por isso já não basta usar e abusar da figura de retórica em que fala do Presidente na terceira pessoa do singular como se fosse alguém que não ele, mas também repete, para quem o quer ouvir, ser ele quem decide sobre o futuro dos destinos dos portugueses. Acaso continue a sugerir aos descontentes para votarem noutros partidos, que não os da sua afeição, as sondagens continuam a dar a futura realidade como muito próxima da atual, ou seja com as esquerdas no seu conjunto a valerem mais vinte por cento que o conjunto das direitas.
Habilidoso na manipulação dos idiotas ou dos mais ingénuos pegou na Festa do Avante como oportuno saco de boxe, esquecendo-se daqueles dois anos seguidos, antes das presidenciais, em que veio à Quinta da Atalaia para embalar os comunistas com a suposta simpatia, que lhe mereceriam. Infelizmente sei de uns quantos, que se deixaram levar pela cantilena e escolheram votar nele tornando ainda mais ridícula a votação do pobre Edgar, então escolhido para inglório abate.
O problema para Marcelo é andar por estes dias a hipotecar votos, que já nem sequer só põem em causa o desejo de colher vitória maior do que a de Mário Soares, quando foi da sua reeleição. Agastando os comunistas e levando muitos socialistas a jurarem que nele nunca, quem sobrará para lhe poupar a ida á segunda volta? É que o mais certo é haver quem no PS, siga o exemplo de Pedro Nuno Santos e opte pela candidata bloquista - e se for Marisa Matias sabe-se bem quanto pela demonstrada simpatia não suscita a urticária de Catarina Martins! - sobretudo se os dois partidos encontrarem convergência bastante para aprovarem o próximo orçamento.
Aconteceria então a melhor das possibilidades: deixar o Aldrabão a lamber as feridas da sua insuficiente votação, obrigando Marcelo a disputar uma segunda volta, que lhe limite a insuportável jactância...

Do blogue Ventos Semeados

Publicada por 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Um fait divers à medida da silly season:


Já que a questão da suposta chantagem tem sido hiperexplorada pelos meios de comunicação  social durante este fim-de-semana olhemo-la mais de perto. Uma entrevista ao Expresso volta a ser utilizada até á exaustão para enfatizar aquilo que está longe de ter a importância anunciada pelos suspeitos do costume enquanto ansiosos cangalheiros deste governo.
Conhecida a calamitosa situação financeira do grupo Impresa não espanta que julguem ter encontrado nesta habilidade a forma de adiarem a anunciada falência: convidam um membro do governo para uma entrevista, que teria quase uma aparência institucional, mas ficam à coca de quanto dela possam retirar do contexto, ou gravem à parte, como forma de passarem os dias seguintes a anunciarem sucessivas réplicas do terramoto, que pensam ter suscitado.
Essa peca argúcia só dura enquanto ministros e secretários de Estado se prestarem às armadilhas: quando a elas se escusarem, deixam os autores sem outra solução, que não seja recorrerem aos bitaites assoprados do palácio de Belém.
Mas peguemos na suposta chantagem: questionado sobre o que sucederia se as esquerdas votarem contra o Orçamento, António Costa deu a resposta mais do que conhecida: sabendo-se que não aceitará recauchutagens do Bloco Central, ou os parceiros permitem que ele seja aprovado (com votos a favor ou abstenções) ou há crise política.
Claro que Catarina e Jerónimo fizeram o que as direitas pretendiam deles ouvir: condenações mais ou menos veementes e promessas de venderem cara a rendição. Mas ambos sabendo que o risco de repetirem o acontecido com o PEC4 pode ainda ter piores consequências do que as então sofridas. E se a CDU até ganhou um deputado, o Bloco perdeu metade dos dezasseis que tinha. Será que nas sedes dos comunistas e dos bloquistas haverá expetativa de ganharem mais algum parlamentar para além daqueles com que contam atualmente? E quererão contribuir para que o coiso da extrema-direita ganhe condições para se tornar mais audível?
Continuo otimista quanto ao(s) próximo(s) orçamento(s), que devem responder adequadamente à grave crise em que nos deixa a pandemia. E que  deveria merecer como prioritário objetivo de todas as esquerdas agirem de forma a que, extinto o partido do Chiquinho, idêntico destino seja dado ao do Aldrabão...
Do blogue Ventos Semeados
Publicada por 

domingo, 30 de agosto de 2020

Uma provocação rasca:


Se há quase quatro anos defendi que António Sampaio da Nóvoa se ajustaria mais competentemente à função de Presidente da República a demonstração ficou feita na lamentável cena passada na Feira do Livro do Porto em que Marcelo se deixou interpelar por aquilo que não pode ser designado por cidadã, porque para merecer este qualificativo há o requisito básico de não se ser rasca. Ao adotar um comportamento de excessiva proximidade com o povo, prestando-se ao exercício dos abraços e das selfies, Marcelo perdeu a imprescindível gravitas de que careceu naquele momento em que só lhe restava uma alternativa: escusar-se a dialogar com a sujeita, informando-a não estar a comportar-se para com quem tem o mais alto cargo da Nação com o respeito que lhe deve ser atribuído.
A cena veio esclarecer-nos quanto à forma como, doravante, a extrema-direita irá criar momentos de agitação e propaganda, multiplicando estes incidentes reles, que podem galvanizar o apoio da parte da população, que constitui o povoléu e se julga no direito de infringir todas as regras cívicas até agora estabelecidas. O Aldrabão, que cavalga na onda daqueles que Hillary Clinton designou muito justamente como deploráveis e levaram Trump à Casa Branca com os resultados conhecidos, procurará ser o challenger de Marcelo nas próximas presidenciais, ultrapassando os votos previsíveis depositados nas candidaturas do Bloco e do PCP, necessitando destas provocações como forma de o menorizar, de o levar porventura a uma segunda volta.
Daí que as esquerdas têm de se mostrar particularmente lúcidas nesta altura. A haver segunda volta nunca poderá passar pela repetição das que as suas réplicas francesas se viram obrigadas, quando tiveram de votar em Chirac para que vencesse ao pai Le Pen ou em Macron para que se repetisse o impedimento com a filha de tal fascista. E as televisões deveriam assumir um código de conduta, que passasse por não publicitar aquilo que merece ser remetido para a importância dos fait divers. Não dessem inaceitável importância ao episódio e não justificariam que sobre ele estivéssemos aqui a perorar.
Do blogue Ventos Semeados
Publicada por 

Rebuscando no passado 33:

Freamunde é cognominado como: Terra de Trabalho, Cultura e Paz. O Padre Maximino Alves, não sei em que ano, sei que Freamunde foi sempre pioneiro nessas três vertentes, fundou um colégio em Freamunde de Cima.

Depois Freamunde deixou-se ultrapassar. Ficamos só com o ensino obrigatório.

No final do século vinte e princípio de século vinte e um fomos abrangidos perlo ensino do primeiro ciclo e secundário. Custou.

Mas deu-se relevo a uma terra e comunidade que esteve sempre na linha da frente na Cultura. Assim se fez justiça a quem por vontade própria fundou um liceu, liceu esse, primeiro no concelho de Paços de Ferreira.

Por isso apraz-me trazer ao conhecimento dos Freamundenses o que fomos o que continuamos a ser e seremos no futuro.

CRÓNICA DE UMA CRISE ANUNCIADA!

Governo e partidos à sua esquerda, têm promovido desde julho, encontros e reuniões, por forma a conseguir consenso visando a aprovação na Assembleia da República (AR), do orçamento de estado para 2021(OE).

Estas reuniões, estas conversações, justificam-se com o facto de evitar o chumbo na (AR), o que a acontecer, implicaria a dissolução do parlamento e a marcação de eleições antecipadas.
Não sabemos muito bem o que se tem passado nas citadas reuniões técnicas ou políticas, como queiram chamar-lhe, mas sabemos que António Costa disse ao jornal expresso de 29 do corrente mês de agosto o seguinte:
“se não existir acordo para aprovar o (OE), para 2021, o país mergulhará numa crise política”.
Eu sou dos que ainda acreditam que o (OE), vai ser aprovado!
Se não for aprovado veja-se o que acontece:
- O Senhor Presidente da República (PR), vai perder a prerrogativa de dissolver o parlamento a partir do dia 9 do próximo mês de setembro (seis meses antes do final de mandato como manda a constituição).
- Quem vencer as eleições presidenciais em janeiro de 2021, só tomará posse em março do mesmo ano.
- Nos seis meses a partir de março, o Presidente eleito também não dispõe da chamada “bomba atómica”, não podendo por isso dissolver o parlamento e marcar eleições antecipadas.
Se tudo isto acontecer, Portugal poderá ficar cerca de um ano com um governo de gestão e um parlamento em agonia total.
António Costa disse também que bloco central e acordos com o PSD estão fora de questão, o que aperta ainda mais os níveis de negociação à esquerda.
A esquerda à esquerda do PS não pode ter apenas o objetivo de tudo pedir, sobretudo em tempos como os que vivemos. A fiabilidade da esquerda perante os seus eleitores, também se mede pela flexibilidade e responsabilidade, mormente em momentos como os que vivemos.
Na minha qualidade de simples, mas atento cidadão, faço um apelo à” jovem” Catarina e ao” grisalho” Jerónimo como eu, pedindo-lhes que mostrem o seu Portuguesismo e não contribuam para um revés histórico que pode vir a acontecer na nossa vida coletiva.
Os portugueses não lhe perdoariam!
Tenho esperança!
Depois de tudo o que precede, convém referir que todas as sondagens dão uma esmagadora vitória ao PS em próximas eleições legislativas, que caso não seja com maioria absoluta, nos atirarão para o impasse que acabamos de referir, tornando ainda mais dolorosa a situação que não queremos que aconteça.
Faria Costa
no Facebook

Há quem muito faça deixando a falar quem só critica:


Basta tomar por bitola o figurão a quem Marcelo encomendou um discurso num ano em que quis apequenar o Dia de Portugal, para saber que as direitas têm um ódio visceral a alguns socialistas por os saberem mais à esquerda dentro do seu partido. Pedro Nuno Santos é um deles, João Galamba é outro. Este último voltou a ser chamado à colação nas crónicas inseridas na última página do «Público» desta semana quando tal escrevinhador quis novamente associar o PS à corrupção e estando o titular do cargo de secretário de Estado de Energia em condições de fazer negócios suspeitos.
O Tavares em causa continua a querer repetir milhentas vezes uma mentira para ver se ela ganha aparência de verdade, sem nunca se preocupar com os escândalos tipo compra de submarinos ou venda do Pavilhão Atlântico que, provindo de gente sua aparentada, nunca o incomodaram. Representante daquele tipo de gente em tempos gozada por Ricardo Araújo Pereira quando tinha alguma piada como passando o tempo no fala, fala sem que os vejamos a fazer nada, merece o maior dos desprezos. Sobretudo, porque, pelo contrário, Galamba vai mostrando obra feita, sob a orientação do Ministro do Ambiente, que tem nele um imprescindível lugar-tenente.
Semanas atrás lançaram-se as bases para uma aposta muito séria no hidrogénio verde, que substituirá os hidrocarbonetos na economia do futuro próximo e muito contribuirá para solucionar os problemas levantados pelas alterações climáticas. Nessa altura gente mais do que suspeita, como Mira Amaral ou um Clemente Nunes sempre conhecido como lobista mal sucedido dos interesses de quem fabrica centrais nucleares, quiseram levantar um coro de protestos contra algo que a mera sensatez aconselha como incontornável opção estratégica do país. Claro que o figurão não poupou no que entendeu ser uma decisão em que Galamba assumira grande responsabilidade.
Não imaginamos o que virá de tal crítico sobre o leilão desta semana em que diversos lotes foram adjudicados para que os seus novos detentores venham-se ligar à rede elétrica nacional com fontes de produção renováveis a um preço tão baixo, que constituiu record absoluto europeu no valor por MW fornecido. Uma excelente notícia para o país, que poderá chegar a 2030 com quase metade do seu consumo garantido por fontes não poluentes, cumprindo um dos objetivos fundamentais com que se comprometeu internacionalmente. E para os consumidores isso significa, igualmente, uma boa notícia por se criarem condições substantivas para verem diminuída a fatura mensal com a eletricidade.
Impotentes na sua inconsequência, caberá aos detratores roerem-se de raiva por verem a realidade desajustar-se dos seus objetivos.
Do blogue Ventos Semeados
Publicada por 

sábado, 29 de agosto de 2020

Marcelo Rebelo de Sousa no seu melhor:

 

O pantomineiro de Belém:

Ontem na Feira do Livro do Porto, o Presidente da República Portuguesa, ao mesmo tempo o Chefe de Estado e o mais alto magistrado da Nação, professor catedrático na FDUL, onde até ensinou maioritariamente Direito Constitucional e/ou a actual Constituição da República Portuguesa, onde as suas funções constitucionais e os seus limites como órgão de soberania não podiam ser mais claros, quando interpelado por uma cidadã completamente fora de si ou já muito perto do Chega – quiçá até uma repórter do you tube -, que basicamente perguntava porque não tinha que comer, teve isto para responder: - “Porque os portugueses votaram neste Governo. Diga aos portugueses para votarem noutro…”

Como nem a múmia foi tão longe em discurso directo, presumo que mais uma vez quem visitou a Feira do Livro do Porto não foi o PR mas o pantomineiro de Belém a fazer de PR. Era bom que os portugueses pensassem nisso nas próximas presidenciais.

P.S. Igual só outro pantomineiro. O bastonário da Ordem dos médicos. Quando ainda há poucos meses - aquando do bebé que nasceu sem rosto numa clínica em Setúbal, depois de dezenas de queixas que já pendiam sobre o médico que realizava as ecografias - garantia aos portugueses que afinal a Ordem dos Médicos não pode realizar auditorias.

Repórter P

 POR ASPIRINAS

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

As Ordens Profissionais:

 (Carlos Pereira Martins, in Facebook, 27/08/2020)

As Ordens Profissionais actuam com poderes delegados pelo Parlamento, única e exclusivamente para “regular o exercício da Profissão”

Escrevo com muito conhecimento de causa.

Presidi durante quase uma década, à Comissão Executiva do Conselho Nacional das Ordens Profissionais, o chamado Conselho de Bastonários.
Já antes, na década anterior, tinha integrado o Conselho Nacional das Profissões Liberais, que antecedeu o Conselho Nacional das Ordens.

Conheço, pois, como as minhas mãos, a historia das últimas décadas de cada Ordem Profissional, as especificidades de cada uma das Profissões Reguladas e o quadro legislativo e normativo que as regula e lhes confere poderes delegados pela Assembleia da República, agora, através da nova Lei-Quadro das Ordens Profissionais.

Ser Bastonário, era, nesses tempos, uma distinção muito importante. Sempre, pessoas e profissionais da maior competência, pessoas integras e dispostas a exercer cargos e mandatos sempre pro bono, que os Estatutos impediam qualquer remuneração aos dirigentes e Bastonários. Movimento associativo na sua pureza.

Passaram “por mim” Bastonários como Pires de Lima, Germano de Sousa, o Enfermeiro Germano Couto, a Enfermeira Maria Augusta de Sousa, Maria Irene Silveira, Pedro Nunes, José Manuel Júdice, Rogério Alves, Marinho Pinto, José Manuel Silva, o Prof. Carlos Ribeiro, Maria de Jesus Serra Lopes e Castro Caldas nos Advogados e muitos outros.

Sempre, mas sempre mesmo, foi observada com todo o rigor uma regra simples mas essencial ao funcionamento e entendimento de todas as Ordens e Profissões naqueles fóruns comuns.
A regra que distinguia completamente as Ordens dos sindicatos de cada profissão e outra que impunha que ao Conselho apenas interessavam os pontos, aspectos e assuntos transversais a todas as Ordens e Profissões. Se assim não fosse, dadas as especificidades e diversidade de todas elas, não haveria entendimento e dialogo possível.

Por isso, vi com muito agrado a passagem como Bastonários de pessoas que vinham directamente do movimento sindical, dos sindicatos, como o Dr. Pedro Nunes nos Médicos e Maria Augusta de Sousa, nos Enfermeiros, para dar dois exemplos agora muito elucidativos.

E, nunca por nunca, qualquer destas pessoas, Bastonários, misturou os respectivos papeis. Uma vez Bastonários, foram sempre os assuntos e matérias relativos ao exercício das respectivas profissões, para os quais tinham poderes delegados pela Assembleia da República, que os norteou.

Vejo, pois, com grande perplexidade e enorme tristeza, pelo manifesto mal que causam a prazo ás respectivas Ordens e Profissões, as intervenções públicas de Bastonários recentemente eleitos, como no caso dos Enfermeiros e dos Médicos, a promiscuidade de actuação privilegiando a política pura e dura e a esfera sindical em detrimento das questões referentes ao exercício da profissão.

As Ordens Profissionais actuam com poderes delegados pelo Parlamento, única e exclusivamente para “regular o exercício da Profissão”, cada uma delas. Assim, sendo que uma Ordem ultrapasse ou desvirtue esses poderes delgados pela Assembleia da República, o Parlamento poderá a todo o momento retirar as competências a essa Ordem, que mais não é que uma associação publica.

NÃO É POIS ADMISSIVEL QUE UMA ORDEM OU UM SEU BASTONÁRIO apareça publicamente com uma capa que aparente não ser a figura institucional de Bastonário, a imiscuir-se na política pura e dura, encomendando pretensas auditorias, relatórios e pareceres ou mesmo nas questões sindicais da profissão ou a angariar fundos para questões que ultrapassam a sua função de regulador e verificador das competências dos profissionais para exercerem aquela e só aquela profissão específica. Uma vez empossado Bastonário, é-o a todo o momento e em todo o lado, não é possivel despir as competências e funções institucionais.

Confesso que, nos tempos mais recentes, tenho sentido uma enorme tristeza na constatação de que os pressupostos que enunciei para as Ordens e os Bastonários não são agora observados.

Lamentável, penso até que ilegal à luz da Lei Quadro das Ordens Profissionais. Desvirtuando-se e confundindo-se os papeis e actuações, haveria lugar, penso, a que fosse revista ou retirada, nesses casos, a delegação de Poderes atribuída pelo Parlamento.

A credibilidade e honorabilidade de um Bastonário, desses tempos idos, não se compadeciam com a mistura nas lutas políticas. Um Bastonário desses anos, entendia e cumpria que representava profissionais ideologicamente situados em todo o espectro politico. Por isso mesmo, deixavam a política aos Partidos e dessa forma adquiriam maior independência, credibilidade e maior poder negocial e representativo para as Ordens, para as respectivas Profissões Reguladas.

Do blogue Estátua de Sal

Campo Pequeno:

A esta hora eu devia estar na Praça de Toiros do Campo Pequeno para assistir a uma corrida - a das dinastias - a convite da Administração da Sociedade Gestora, feito através do doutor João Soares. Um imprevisto não me permitiu estar presente, mas quero aqui deixar expresso o agradecimento pelo convite, a mágoa por não estar presente. É como se estivesse ao lado do doutor João Soares. Aceitei o convite de assistir a este espetáculo antes de tudo, e porque tudo depende disso, por uma questão de defesa da liberdade.

A minha liberdade é de não perder a liberdade para o politicamente correto, para o gosto do momento.
A minha liberdade é a liberdade dos outros. A minha liberdade é a da liberdade dos que criticam as corridas de touros e a liberdade dos que entendem as corridas de touros como uma manifestação de cultura – a cultura funda-se na ancestralidade e na relatividade com que apreciamos o passado à luz do presente. Ao aceitar o convite para a corrida de toiros, eu não emito juízos de valor sobre a relação mais ou menos violenta, mais ou menos desigual, entre o homem e o animal, emito juízos de valor sobre a tolerância com que devemos julgar os outros.
Dir-me-ão amigos e amigas que muito prezo que o toiro não se pode defender da violência dos humanos. Pois não. Mas se os humanos não se podem defender da violência dos outros humanos, onde começa a nossa moral?
E, antes da moral - sempre relativa e conjuntural - , eu defendo o direito de discutir a moral, isto é, o que é o Bem e o Mal para além da moda, do tempo, da ideia dominante numa dada cultura ou num dado grupo.
O direito à diferença é a minha Liberdade!
Eu estaria, hoje fisicamente, no Campo Pequeno, ao lado de João Soares e outros amigos, a dizer o que aqui digo, impedido de lá estar: Quero liberdade para discutir diferenças. Estaria lá, nas bancadas, a lutar contra os intolerantes do racismo, das particularidades do outro, do outro que é gay, comunista, ateu, cigano, negro, emigrante, pobre.
Estaria no Campo Pequeno, e reafirmo o meu agradecimento aos gestores da sociedade e ao doutor João Soares, para afirmar, cara a cara aos intolerantes, que estou ali, numa bancada da velha praça, a rejeitar os racistas, os supremacistas, os bandos do Chega, dos nazis, dos Zeros.
Estava ali, estou ali, defendendo os espetáculos tauromáticos, entendendo-os como fenómenos de transição cultural, com um passado que nos fez diferentes dos nossos vizinhos espanhóis, por exemplo. Estou ali, como estarei no fim de semana na Feira do Livro, ou poderia estar, se assim entender, nas peregrinações aos Santuários, ou na Festa do Avante, ou na procissão dos barcos dos pescadores do Rio Tejo em Constância, muito perto da minha terra de nascimento, Vila Nova da Barquinha.
Tenho pena de não ter podido corresponder a este convite para a tourada do Campo Pequeno, mas aqui fica o que penso, dito cara a cara.
Sei que comigo estão os que defendem a liberdade dos que pensam diferente de mim. E que contra mim estarão os intolerantes, os supremacistas, os que têm medo do diferente, dos riscos de afrontarem o que lhes parece estranho porque vivem chegados e acagaçados.
Por fim, a tourada é um espetáculo não sujeito a crítica? Não, não é. Mas a primeira questão é que só numa leitura de primeiro impacto a tourada é um espetáculo. É mais do que isso. Como a matança ritual do porco, já agora. E a segunda é que devemos dar o tempo para que a sociedade assuma como anacrónico o que sendo-o, ainda não é entendido como tal. Eu hoje estou aqui.
Carlos Matos Gomes

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

As duas ou mais caras de um bastonário:

Surpreendeu-me a rapidez com que António Costa recebeu o bastonário da Ordem dos Médicos numa altura em que o seu tom baixava, transparecendo o incómodo por ter exorbitado os seus poderes ao anuir a uma auditoria ilegítima, sobretudo numa altura em que sabia estar em curso uma alteração legislativa sobre as competências desse tipo de instituições a quem o Estado vem delegando a aferição da qualidade e conhecimentos dos seus profissionais.
Quando António Costa dissera na entrevista quais eram essas competências, e as sublinhava com um ponto final, julguei que cessasse aí uma novela artificial alimentada pela SIC, pelo Expresso e pelos partidos mais à direita dos que nesse lado da realidade política se situam.
Interpretei o gesto como magnânima deferência para com quem tão mal se portara nos meses anteriores, sempre vendo motivos de crítica nas ações do governo, dando-lhe agora a oportunidade a um novo recomeço, mais assertivo e de acordo com a necessidade de unidade nacional nesta altura de efetiva crise política, económica, social e sanitária.
Aparentemente foi esse dissipar de divergências que resultou da conferência de imprensa dada no final do encontro de mais de três horas entre o bastonário e o primeiro-ministro e assim o transmitiu a generalidade da imprensa. Quando o bastonário vem agora escrever aos médicos inscritos na Ordem que uma coisa foi o que se conversou lá dentro e outra o que se disse cá fora, revela uma cobardia, afinal justificando as palavras apanhadas em off  a António Costa depois da entrevista ao «Expresso» e aproveitadas para criar um caso político, que se virou precisamente contra quem o quis utilizar.
Se Miguel Guimarães pensou o que depois escreveu, porque não o disse ali aos jornalistas, quando estava ao lado do primeiro-ministro? Porque deixou passar um dia e veio agora demonstrar fúteis os esforços empreendidos pelo governo para pacificar o relacionamento com a Ordem?
Se perspetivávamos a hipótese de deixarmos de ter o bastonário como bombo da festa das nossas reiteradas e justificadas críticas, ele veio-nos demonstrar o contrário. E que, como aqui já escrevi, o melhor é dar-lhe o tratamento aplicado à sua parceira dos enfermeiros: tendo sido ignorada pela tutela do setor quem é que ainda lhe liga?
Do blogue Ventos Semeados
Publicada por 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Aos racistas, xenófobos e afins:


A Tragédia no Lar 

Na Senzala, úmida, estreita,

Brilha a chama da candeia,

No sapé se esgueira o vento.

E a luz da fogueira ateia.


Junto ao fogo, uma africana,

Sentada, o filho embalando,

Vai lentamente cantando

Uma tirana indolente,

Repassada de aflição.

E o menino ri contente...

Mas treme e grita gelado,

Se nas palhas do telhado

Ruge o vento do sertão.


Se o canto pára um momento,

Chora a criança imprudente...

Mas continua a cantiga...

E ri sem ver o tormento

Daquele amargo cantar.

Ai! triste, que enxugas rindo

Os prantos que vão caindo

Do fundo, materno olhar,

E nas mãozinhas brilhantes

Agitas como diamantes

Os prantos do seu pensar ...

 

E voz como um soluço lacerante

Continua a cantar:


"Eu sou como a garça triste

"Que mora à beira do rio,

"As orvalhadas da noite

"Me fazem tremer de frio.


"Me fazem tremer de frio

"Como os juncos da lagoa;

"Feliz da araponga errante

"Que é livre, que livre voa.


"Que é livre, que livre voa

"Para as bandas do seu ninho,

"E nas braúnas à tarde

"Canta longe do caminho.


"Canta longe do caminho.

"Por onde o vaqueiro trilha,

"Se quer descansar as asas

"Tem a palmeira, a baunilha.


"Tem a palmeira, a baunilha,

"Tem o brejo, a lavadeira,

"Tem as campinas, as flores,

"Tem a relva, a trepadeira,


"Tem a relva, a trepadeira,

"Todas têm os seus amores,

"Eu não tenho mãe nem filhos,

"Nem irmão, nem lar, nem flores".

 

A cantiga cessou. . . Vinha da estrada

A trote largo, linda cavalhada

De estranho viajor,

Na porta da fazenda eles paravam,

Das mulas boleadas apeavam

E batiam na porta do senhor.

 

Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas,

Sorrisos sensuais, sinistro olhar,

Os bigodes retorcidos,

O cigarro a fumegar,

O rebenque prateado

Do pulso dependurado,

Largas chilenas luzidas,

Que vão tinindo no chão,

E as garruchas embebidas

No bordado cinturão.

 

A porta da fazenda foi aberta;

Entraram no salão.


Por que tremes mulher? A noite é calma,

Um bulício remoto agita a palma

Do vasto coqueiral.

Tem pérolas o rio, a noite lumes,

A mata sombras, o sertão perfumes,

Murmúrio o bananal.


Por que tremes, mulher? Que estranho crime,

Que remorso cruel assim te oprime

E te curva a cerviz?

O que nas dobras do vestido ocultas?

É um roubo talvez que aí sepultas?

É seu filho ... Infeliz! ...

 

Ser mãe é um crime, ter um filho - roubo!

Amá-lo uma loucura! Alma de lodo,

Para ti - não há luz.

Tens a noite no corpo, a noite na alma,

Pedra que a humanidade pisa calma,

— Cristo que verga à cruz!


Na hipérbole do ousado cataclisma

Um dia Deus morreu... fuzila um prisma

Do Calvário ao Tabor!

Viu-se então de Palmira os pétreos ossos,

De Babel o cadáver de destroços

Mais lívidos de horror.

 

Era o relampejar da liberdade

Nas nuvens do chorar da humanidade,

Ou sarça do Sinai,

— Relâmpagos que ferem de desmaios...

Revoluções, vós deles sois os raios,

Escravos, esperai! ...

 

..................................................................

 

Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas,
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Que o teu vestido bordado
Vem comigo, mas ... cuidado ...
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.
 
Não venhas tu que achas triste
Às vezes a própria festa.
Tu, grande, que nunca ouviste
Senão gemidos da orquestra
Por que despertar tu'alma,
Em sedas adormecida,
Esta excrescência da vida
Que ocultas com tanto esmero?
E o coração - tredo lodo,
Fezes d'ânfora doirada
Negra serpe, que enraivada,
Morde a cauda, morde o dorso
E sangra às vezes piedade,
E sangra às vezes remorso?...


Não venham esses que negam
A esmola ao leproso, ao pobre.
A luva branca do nobre
Oh! senhores, não mancheis...
Os pés lá pisam em lama,
Porém as frontes são puras
Mas vós nas faces impuras
Tendes lodo, e pus nos pés.
 
Porém vós, que no lixo do oceano
A pérola de luz ides buscar,
Mergulhadores deste pego insano
Da sociedade, deste tredo mar.
Vinde ver como rasgam-se as entranhas
De uma raça de novos Prometeus,
Ai! vamos ver guilhotinadas almas
Da senzala nos vivos mausoléus.


— Escrava, dá-me teu filho!
Senhores, ide-lo ver:
É forte, de uma raça bem provada,
Havemos tudo fazer.


Assim dizia o fazendeiro, rindo,
E agitava o chicote...
A mãe que ouvia
Imóvel, pasma, doida, sem razão!
À Virgem Santa pedia
Com prantos por oração;
E os olhos no ar erguia
Que a voz não podia, não.


— Dá-me teu filho! repetiu fremente
o senhor, de sobr'olho carregado.
— Impossível!...
— Que dizes, miserável?!
— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...
Inda há pouco o embalei, pobre inocente,
Que nem sequer pressente
Que ides...
— Sim, que o vou vender!
— Vender?!. . . Vender meu filho?!


Senhor, por piedade, não
Vós sois bom antes do peito
Me arranqueis o coração!
Por piedade, matai-me! Oh! É impossível
Que me roubem da vida o único bem!
Apenas sabe rir é tão pequeno!
Inda não sabe me chamar? Também
Senhor, vós tendes filhos... quem não tem?
 
Se alguém quisesse os vender
Havíeis muito chorar
Havíeis muito gemer,
Diríeis a rir — Perdão?!
Deixai meu filho... arrancai-me
Antes a alma e o coração!


— Cala-te miserável! Meus senhores,
O escravo podeis ver ...


E a mãe em pranto aos pés dos mercadores
Atirou-se a gemer.
— Senhores! basta a desgraça
De não ter pátria nem lar, -
De ter honra e ser vendida
De ter alma e nunca amar!


Deixai à noite que chora
Que espere ao menos a aurora,
Ao ramo seco uma flor;
Deixai o pássaro ao ninho,
Deixai à mãe o filhinho,
Deixai à desgraça o amor.
 
Meu filho é-me a sombra amiga
Neste deserto cruel!...
Flor de inocência e candura.
Favo de amor e de mel!


Seu riso é minha alvorada,
Sua lágrima doirada
Minha estrela, minha luz!
É da vida o único brilho
Meu filho! é mais... é meu filho
Deixai-mo em nome da Cruz!...
 
Porém nada comove homens de pedra,
Sepulcros onde é morto o coração.
A criança do berço ei-los arrancam
Que os bracinhos estende e chora em vão!


Mudou-se a cena. Já vistes
Bramir na mata o jaguar,
E no furor desmedido
Saltar, raivando atrevido.
O ramo, o tronco estalar,
Morder os cães que o morderam...
De vítima feita algoz,
Em sangue e horror envolvido
Terrível, bravo, feroz?


Assim a escrava da criança ao grito
Destemida saltou,
E a turba dos senhores aterrada
Ante ela recuou.


— Nem mais um passo, cobardes!
Nem mais um passo! ladrões!
Se os outros roubam as bolsas,
Vós roubais os corações! ...


Entram três negros possantes,
Brilham punhais traiçoeiros...
Rolam por terra os primeiros
Da morte nas contorções.
 
Um momento depois a cavalgada
Levava a trote largo pela estrada
A criança a chorar.

Na fazenda o azorrague então se ouvia

E aos golpes - uma doida respondia

Com frio gargalhar! ..


 Castro Alves