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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Campo Pequeno:

A esta hora eu devia estar na Praça de Toiros do Campo Pequeno para assistir a uma corrida - a das dinastias - a convite da Administração da Sociedade Gestora, feito através do doutor João Soares. Um imprevisto não me permitiu estar presente, mas quero aqui deixar expresso o agradecimento pelo convite, a mágoa por não estar presente. É como se estivesse ao lado do doutor João Soares. Aceitei o convite de assistir a este espetáculo antes de tudo, e porque tudo depende disso, por uma questão de defesa da liberdade.

A minha liberdade é de não perder a liberdade para o politicamente correto, para o gosto do momento.
A minha liberdade é a liberdade dos outros. A minha liberdade é a da liberdade dos que criticam as corridas de touros e a liberdade dos que entendem as corridas de touros como uma manifestação de cultura – a cultura funda-se na ancestralidade e na relatividade com que apreciamos o passado à luz do presente. Ao aceitar o convite para a corrida de toiros, eu não emito juízos de valor sobre a relação mais ou menos violenta, mais ou menos desigual, entre o homem e o animal, emito juízos de valor sobre a tolerância com que devemos julgar os outros.
Dir-me-ão amigos e amigas que muito prezo que o toiro não se pode defender da violência dos humanos. Pois não. Mas se os humanos não se podem defender da violência dos outros humanos, onde começa a nossa moral?
E, antes da moral - sempre relativa e conjuntural - , eu defendo o direito de discutir a moral, isto é, o que é o Bem e o Mal para além da moda, do tempo, da ideia dominante numa dada cultura ou num dado grupo.
O direito à diferença é a minha Liberdade!
Eu estaria, hoje fisicamente, no Campo Pequeno, ao lado de João Soares e outros amigos, a dizer o que aqui digo, impedido de lá estar: Quero liberdade para discutir diferenças. Estaria lá, nas bancadas, a lutar contra os intolerantes do racismo, das particularidades do outro, do outro que é gay, comunista, ateu, cigano, negro, emigrante, pobre.
Estaria no Campo Pequeno, e reafirmo o meu agradecimento aos gestores da sociedade e ao doutor João Soares, para afirmar, cara a cara aos intolerantes, que estou ali, numa bancada da velha praça, a rejeitar os racistas, os supremacistas, os bandos do Chega, dos nazis, dos Zeros.
Estava ali, estou ali, defendendo os espetáculos tauromáticos, entendendo-os como fenómenos de transição cultural, com um passado que nos fez diferentes dos nossos vizinhos espanhóis, por exemplo. Estou ali, como estarei no fim de semana na Feira do Livro, ou poderia estar, se assim entender, nas peregrinações aos Santuários, ou na Festa do Avante, ou na procissão dos barcos dos pescadores do Rio Tejo em Constância, muito perto da minha terra de nascimento, Vila Nova da Barquinha.
Tenho pena de não ter podido corresponder a este convite para a tourada do Campo Pequeno, mas aqui fica o que penso, dito cara a cara.
Sei que comigo estão os que defendem a liberdade dos que pensam diferente de mim. E que contra mim estarão os intolerantes, os supremacistas, os que têm medo do diferente, dos riscos de afrontarem o que lhes parece estranho porque vivem chegados e acagaçados.
Por fim, a tourada é um espetáculo não sujeito a crítica? Não, não é. Mas a primeira questão é que só numa leitura de primeiro impacto a tourada é um espetáculo. É mais do que isso. Como a matança ritual do porco, já agora. E a segunda é que devemos dar o tempo para que a sociedade assuma como anacrónico o que sendo-o, ainda não é entendido como tal. Eu hoje estou aqui.
Carlos Matos Gomes

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