Não falava em macroeconomia, não discutia modelos de desenvolvimento nem citava economistas. Mas havia uma coisa que ele percebia melhor do que muitos “especialistas” de hoje: um país que deixa de investir primeiro no seu próprio povo está condenado a tornar-se pobre, mesmo que os números da televisão digam o contrário.
Lembro-me perfeitamente de o ouvir dizer que quando um país começa a viver obcecado com o dinheiro que vem de fora — turismo, investimento estrangeiro, exportações a qualquer preço — acaba inevitavelmente por esquecer quem cá vive. E quando isso acontece, dizia ele, começa a corrida para baixo: salários mais baixos, direitos mais fracos, empregos mais precários e uma sociedade inteira treinada para aceitar viver cada vez pior.
Na altura muitos talvez achassem aquilo conversa de homem simples. Mas hoje basta olhar à nossa volta para perceber que o homem estava certo.
Portugal transformou-se num país onde trabalhar deixou de ser garantia de estabilidade. Trabalha-se mais, recebe-se menos proporcionalmente e vive-se permanentemente esmagado entre impostos, crédito, rendas absurdas e salários que parecem congelados no século passado. O mais perverso é que isto já nem sequer é apresentado como problema. É apresentado como inevitabilidade.
Disseram-nos durante décadas que tínhamos de ser “competitivos”. E o que significava essa competitividade? Significava sermos mais baratos. Mais baratos que os franceses, mais baratos que os alemães, mais baratos do que qualquer país que tivesse melhores salários e mais direitos. O truque estava em convencer-nos de que a nossa pobreza era uma virtude económica.
Pouco a pouco fomos destruindo aquilo que sustentava um país minimamente equilibrado:
abandonou-se produção nacional;
venderam-se sectores estratégicos;
destruiu-se agricultura;
deixou-se morrer indústria;
transformaram-se cidades em parques turísticos;
trocaram-se empregos qualificados por serviços mal pagos;
e criou-se uma economia onde servir passou a valer mais do que produzir.
Hoje um jovem altamente qualificado muitas vezes ganha pouco mais do que alguém ganhava há vinte anos, mas vive numa sociedade infinitamente mais cara. Casas impossíveis de comprar, rendas incomportáveis, combustível, alimentação e energia sempre a subir. Entretanto dizem-lhe para trabalhar mais horas, ser resiliente, flexível e competitivo. Traduzindo: aceitar calado.
O mais grave é que muitos dos que defendem este modelo falam como se o país existisse apenas para agradar aos mercados, aos investidores e às estatísticas europeias. O povo real desapareceu da equação. Dez milhões de portugueses deixaram de ser vistos como uma força económica interna para passarem a ser apenas mão-de-obra barata num território periférico da Europa.
E depois admiram-se:
da emigração;
do envelhecimento;
da quebra da natalidade;
do cansaço social;
da revolta silenciosa;
da desconfiança crescente nas instituições.
Como pode um país construir futuro quando os seus próprios cidadãos são tratados como custo e não como prioridade?
O meu pai dizia uma coisa muito simples: “Se o povo tiver dinheiro no bolso, o país mexe.” E tinha razão. Porque dez milhões de pessoas a consumir, a produzir, a viver com dignidade, criam economia real. Criam estabilidade. Criam mercado interno. Criam esperança. Mas para isso era preciso ter feito exactamente o contrário do que foi feito nas últimas décadas.
Escolheu-se a dependência em vez da soberania económica. Escolheu-se o lucro rápido em vez da construção de longo prazo. Escolheu-se o turismo em vez da produção. Escolheu-se mão-de-obra barata em vez de valorização salarial. Escolheu-se adaptar o povo à pobreza em vez de combater as causas dela.
E talvez a maior tragédia seja esta: o país habituou-se. Habituou-se a achar normal viver sempre abaixo daquilo que produz. Habituou-se à mediocridade como destino inevitável. Habituou-se a ouvir que pedir mais é irresponsabilidade.
Mas não, não é normal um povo trabalhar tanto e viver permanentemente aflito. Não é normal um país formar jovens para emigrar. Não é normal uma economia sobreviver à custa de baixos salários eternos. Não é normal que ter casa, filhos e estabilidade tenha voltado a parecer um luxo.
O meu pai não tinha estudos superiores. Mas percebeu cedo aquilo que muitos doutorados nunca quiseram admitir: nenhum país se salva quando deixa de colocar o seu próprio povo no centro da economia.

Sem comentários:
Enviar um comentário