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terça-feira, 29 de setembro de 2026

AFINAL, QUEM É QUE ESTÁ EM GUERRA?

Há uma coisa extraordinária nas guerras modernas: uns combatem, outros discursam e outros pagam.
E, nesta guerra, o cidadão europeu parece ter recebido uma missão estratégica particularmente importante: chegar à bomba de combustível, meter o cartão, pegar na pistola e ser ele o assaltado, fechar os olhos e contribuir para a geopolítica.
É a guerra por procuração transformada em débito directo.
Desde 2022, venderam-nos uma narrativa extraordinariamente simples para uma realidade extraordinariamente complexa: era preciso sancionar, cortar, proibir, substituir, financiar e armar. Tudo teria um preço, naturalmente, mas seria o preço necessário para enfraquecer a Rússia.
Passaram quatro anos.
Talvez esteja na altura de fazer aquela coisa inconveniente que estraga tantas narrativas políticas: olhar para a factura.
A própria Comissão Europeia reconhece que a UE reduziu a participação do gás russo nas suas importações de cerca de 45% para 12% em 2025. O petróleo russo passou de 27% das importações europeias no início de 2022 para cerca de 2%. O carvão russo foi eliminado. (Energy⁠)
Missão cumprida?
Depende da definição de missão.
Porque a energia que deixou de vir da Rússia não desapareceu por intervenção divina. Teve de ser substituída.
E aqui começa uma das grandes ironias desta epopeia.
A Europa reduziu drasticamente o gás russo transportado por gasoduto e lançou-se sobre o mercado mundial de LNG. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2022 as importações europeias de LNG aumentaram mais de 60%, cerca de 64 mil milhões de metros cúbicos. O problema é que a oferta mundial adicional nesse mesmo período foi de apenas cerca de 25 mil milhões. Resultado: a Europa passou a disputar no mercado internacional carregamentos anteriormente destinados à Ásia e a outros compradores, muitos deles a nos revender mais caro o que compraram eles à Rússia. (IEA⁠)
Não eliminámos a necessidade energética.
Mudámos o fornecedor, a rota, a logística e o preço.
É aquilo a que a política moderna chama independência.
E quem apareceu providencialmente do outro lado do Atlântico?
Os Estados Unidos.
A própria Comissão Europeia informa que, em 2025, a UE importou um recorde de 76 mil milhões de metros cúbicos de LNG norte-americano, no contexto de uma parceria energética UE-EUA enormemente reforçada depois do conflito militar na Ucrânia. (Energy⁠)
Que coincidência comercial extraordinariamente conveniente.
A Europa corta uma das suas principais relações energéticas terrestres, reduz brutalmente as compras à Rússia e aumenta a dependência de LNG transportado por navio.
E depois congratula-se por ter conquistado a sua “independência energética”.
É como vender a casa para deixar de dever dinheiro ao banco e celebrar a independência enquanto se assina o contrato de arrendamento.
A SANÇÃO É PARA QUEM?
A lógica anunciada era simples: tornar a energia russa economicamente tóxica, reduzir as receitas de Moscovo e aumentar o custo da guerra para a Rússia. E comprar mais caro aos EUA e a outros países que compram à Rússia.
Mas existe outra pergunta, bastante menos popular:
qual foi o custo para nós?
A Agência Internacional de Energia concluiu que a perda maciça do gás russo por gasoduto tornou estruturalmente mais frágil o mercado europeu e aumentou a dependência da flexibilidade do LNG. (IEA⁠)
E a própria Comissão admite hoje uma realidade ainda mais incómoda: mais de metade da energia consumida na União continua a provir de combustíveis fósseis importados; mais de 80% do gás e mais de 95% do petróleo são importados. Em 2025, a factura europeia de importação de produtos energéticos foi de 336,7 mil milhões de euros. (Energy⁠)
Portanto, conseguimos uma proeza digna de estudo.
Continuamos dependentes.
Só que agora estamos dependentes de outros.
Excelente.
E CHEGAMOS AO GASÓLEO
O automobilista europeu não precisa de estudar geopolítica.
Tem um pequeno seminário sobre relações internacionais instalado no posto de combustível.
Quando vê dois euros ou mais por litro, está perante uma aula prática.
E em Setembro de 2026 a situação tornou-se ainda mais caricata: os mercados europeus enfrentam novamente preços elevados da energia e a Comissão Europeia alerta para a vulnerabilidade decorrente da dependência das importações. A UE importa aproximadamente 80% do gás que consome. (Reuters⁠)
Entretanto, o mercado europeu do gasóleo está suficientemente dependente do exterior para Bruxelas estar preocupada com a possibilidade de os próprios Estados Unidos restringirem as suas exportações de diesel. A Reuters relata que a UE iniciou contactos de alto nível com Washington precisamente devido a essa possibilidade. (Reuters⁠)
Isto merece contemplação.
Primeiro reduzimos a dependência energética da Rússia em nome da segurança.
Depois aumentamos a dependência de outros fornecedores.
Depois um desses fornecedores pondera restringir as exportações.
E Bruxelas fica preocupada.
Independência energética europeia, versão 2026.
MAIS SANÇÕES!
Quando uma política produz custos inesperados, existem normalmente duas possibilidades.
A primeira é reconsiderá-la.
A segunda é anunciar mais da mesma política com uma conferência de imprensa maior.
A Europa parece fascinada pela segunda.
Mais sanções.
Mais armamento.
Mais financiamento.
Mais declarações solenes.
Mais reuniões extraordinárias.
Mais fotografias.
Mais discursos sobre autonomia estratégica.
E, evidentemente, mais uma ida do cidadão ao posto de combustível para financiar involuntariamente a experiência.
Entretanto, a Comissão já transformou em lei a eliminação gradual das importações de gás russo: o LNG russo deverá desaparecer até ao final de 2026 e o gás russo por gasoduto até, no máximo, 30 de Novembro de 2027. (Energy⁠)
Pode defender-se politicamente esta escolha.
O que não se deve fazer é fingir que ela é economicamente gratuita.
E OS ESTADOS UNIDOS?
Existe ainda o elefante gigantesco sentado no meio da sala europeia.
Na leitura geopolítica que defendo, Washington não é um espectador inocente que apareceu casualmente em Fevereiro de 2022. E mais tarde manda explodir o Northstream II
Os EUA têm interesses estratégicos próprios na Europa, na NATO, na relação da Europa com a Rússia, na indústria de defesa e, evidentemente, na energia.
Isso só per si explica o financiamento de mais de 5 mil milhões de Dollars no golpe de estado na Ucrânia em 2014 denominado por Euromaidam e automaticamente todas as decisões de Washington numa guerra por procuração contra o seu adversário Rússia.
Obrigando os seus vassalos europeus através da Igreja Universal do Reino dos Mirdia a aceitar a versão infantil segundo a qual a história começou em fevereiro de 2022 e tudo aquilo que aconteceu anteriormente deve ser apagado.
Há décadas de expansão da NATO, disputas sobre a arquitectura de segurança europeia, 2014, Crimeia, Donbass, Minsk, interesses russos, americanos, europeus e ucranianos.
A origem e responsabilidade pelo conflito são objecto de interpretações profundamente divergentes. O facto incontroverso é que a Rússia tomou a decisão de lançar a Operação Especial Militar simplificada por muitos como uma simples invasão, tudo em grande escala em 2022. Outra questão, diferente, é discutir o processo geopolítico que conduziu até ela e o papel desempenhado pelas várias potências.
É precisamente essa discussão que uma sociedade intelectualmente adulta deveria conseguir fazer.
A EUROPA DESCOBRIU A SOBERANIA — COM A FACTURA EM DÓLARES
O mais extraordinário é ouvir falar incessantemente de “autonomia estratégica europeia”.
Autonomia?
Militarmente dependemos profundamente dos Estados Unidos através da NATO.
Energeticamente substituímos uma parcela enorme da dependência russa por outros fornecedores, incluindo uma presença americana muito maior no LNG. Mas muito mais cara.
Politicamente acompanhámos Washington em sucessivos pacotes de sanções.
Industrialmente, a energia cara tornou-se uma preocupação permanente para sectores europeus intensivos em energia.
Mas somos soberanos porque Bruxelas publicou um regulamento a dizer que somos soberanos.
Magnífico.
Falta apenas convencer a física, a economia e a conta bancária.
QUEM ESTÁ, AFINAL, EM GUERRA?
A pergunta é deliberadamente provocatória.
Porque talvez seja necessário olhar menos para os discursos e mais para as consequências.
O cidadão russo está num país efectivamente em guerra. Em Guerra com 47 países, com a NATO, vassalos do seu adversário EUA, mas com procuração passada ao regime de Kiev que custou mais de 5 mil milhões de dólares essa procuração, mas valeu apena esse investimento, não sou eu que digo, foi Victoria Nuland que disse.
O cidadão ucraniano está num país devastado pela guerra e paga incomparavelmente o preço humano mais terrível deste conflito, que é com o seu sangue.
Mas o cidadão europeu, que não declarou guerra à Rússia, descobriu que também lhe cabe uma função:
pagar.
Paga energia.
Paga combustível.
Paga apoio financeiro.
Paga armamento através dos impostos.
Paga os efeitos económicos das decisões dos seus governos.
E, quando pergunta se todas essas decisões produziram exactamente os resultados prometidos, aparece imediatamente alguém para explicar que a solução é…
mais sanções.
Mais armamento.
Mais dinheiro.
E talvez seja essa a grande ironia europeia desta década.
Tentámos demonstrar que conseguimos viver sem a energia russa.
Descobrimos que continuamos a precisar de energia.
Tentámos demonstrar autonomia estratégica.
Descobrimos novos fornecedores dos quais dependemos.
Tentámos utilizar a economia como arma geopolítica.
E descobrimos que uma arma económica também tem recuo.
No fim, sobra a pergunta que nenhum slogan resolve:
se quatro anos depois continuamos a pagar energia cara, continuamos dependentes do exterior, continuamos a financiar uma guerra sem solução política à vista e continuamos a responder a cada consequência com uma nova dose da mesma estratégia, estamos realmente a conduzir a política, ou limitamo-nos a pagar por ela?
Mais sanções.
Mais armamento.
Mais dinheiro.
Slava Ukraini.
E não se esqueça de guardar o recibo quando abastecer.
É o comprovativo da nossa autonomia estratégica.
Autor:

João Ferreira  

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