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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O fim do petrodólar não é apenas uma manchete passageira nos cadernos de economia:

É o som ensurdecedor das fundações do império norte-americano a ruir em tempo real. Para compreenderes a magnitude sísmica do que está a acontecer hoje, tens de recuar aos anos setenta e olhar para a maior jogada de mestre, e também o maior sequestro global, da história da hegemonia ocidental: o pacto de 1974 entre Washington e Riade. Naquela época, os Estados Unidos tinham acabado de abandonar o padrão-ouro e a sua moeda corria o risco de virar pó. O que é que eles fizeram? Fecharam um acordo blindado com a família real saudita. Os americanos garantiam proteção militar absoluta ao reino e, em troca, a Arábia Saudita comprometia-se a vender o seu petróleo, o sangue que faz bater o coração de toda a economia mundial, exclusivamente em dólares. Foi uma jogada brutal. De um dia para o outro, se qualquer país do mundo quisesse acender uma luz, abastecer um camião ou operar uma fábrica, precisava de comprar dólares. Os Estados Unidos criaram uma procura artificial e infinita pela sua própria moeda de papel. Isso permitiu a Washington fazer algo que nenhuma outra nação pode fazer: imprimir triliões a partir do nada, financiar défices astronómicos, construir centenas de bases militares ao redor do globo e exportar a sua inflação para os países mais pobres. O mundo inteiro foi obrigado a financiar o conforto e a máquina de guerra do império, simplesmente porque precisava de comprar o ouro negro.

Mas a cartada que a Arábia Saudita está a dar agora é, sem qualquer margem para dúvidas, o xeque-mate que o establishment ocidental, na sua arrogância cega, nunca acreditou que aconteceria. Com a expiração dos prazos implícitos desse pacto de meio século, Riade olhou para o tabuleiro global e percebeu que o mundo unipolar está morto. A liderança saudita atual não tem qualquer interesse em afundar com o navio americano. Ao oficializar a sua entrada nos BRICS e ao abrir publicamente a porta para aceitar o Yuan chinês, a Rupia indiana e outras moedas locais no comércio de petróleo, a Arábia Saudita está a cortar o tubo de oxigénio financeiro que mantinha o império vivo. Não se trata apenas de uma diversificação de portefólio; trata-se de um realinhamento geopolítico brutal. Os sauditas estão a olhar diretamente nos olhos da Casa Branca e a dizer que a proteção militar de Washington já não é necessária, nem temida, e que o futuro do comércio asiático e eurasiático será feito com as regras de quem produz a riqueza real. Quando o maior exportador de petróleo do planeta aceita liquidar os seus barris fora do sistema financeiro ocidental, a mensagem enviada a todo o Sul Global é clara: a obrigatoriedade de se curvar perante a nota verde acabou de ser revogada.
E quais são as consequências materiais, práticas e devastadoras desta morte anunciada para o império? O colapso daquilo que os economistas chamam de "privilégio exorbitante". Durante décadas, os Estados Unidos nunca precisaram de se preocupar com as suas dívidas impagáveis, porque sabiam que o resto do mundo seria sempre forçado a comprar títulos do Tesouro americano para ter dólares suficientes para importar energia. No momento em que o petróleo passa a ser transacionado noutras moedas, essa procura artificial desmorona. Aqueles triliões de dólares impressos que circulavam pelo mundo vão começar a regressar a casa. O resultado interno para os americanos será uma inflação avassaladora e impossível de controlar, uma crise da dívida soberana e a perda dramática do poder de compra da sua população. O padrão de vida americano, que foi artificialmente sustentado pelo suor e pela submissão financeira do mundo em desenvolvimento, vai sofrer um abalo sísmico. A impressora de dinheiro do Banco Central americano (Fed) deixará de ser uma varinha mágica que financia o luxo imperial e passará a ser uma bomba-relógio inflacionária dentro das suas próprias fronteiras.
No teatro das operações geopolíticas e militares, o fim do monopólio do petrodólar significa a aniquilação absoluta da principal arma de destruição em massa de Washington: a chantagem das sanções. Até agora, o império usava o sistema SWIFT e o dólar como um garrote. Se um país se recusasse a obedecer às ordens da Casa Branca, era banido do sistema dólar e, consequentemente, não podia comprar petróleo, levando a sua economia à fome e ao colapso. Mas se agora uma nação pode comprar a energia saudita, russa ou iraniana usando as suas próprias moedas locais ou redes financeiras alternativas estruturadas pelos BRICS, as sanções americanas passam a valer tanto quanto papel higiénico. É o desarmamento financeiro dos Estados Unidos em praça pública. Sem o petrodólar, o império perde a capacidade de asfixiar os seus adversários, perde a capacidade de financiar a sua própria expansão militar infinita e é finalmente forçado a descer do pedestal para competir num mundo onde as regras do jogo já não são ditadas exclusivamente pelo idioma de Wall Street. A Nova Ordem Multipolar já não é uma teoria num papel; ela está a ser cimentada, barril a barril, perante o desespero paralisante do velho mundo.

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