quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quem não faz batota que jogue a primeira pedra:

Um mestre georgiano fez batota num torneio de xadrez. Entre duas jogadas, Gaioz Nigalidze foi à casa de banho e consultou o programa de xadrez do seu telemóvel. Fazer batota no xadrez deve ser comum, como em todos os jogos humanos. Alguma mezinha haverá que potencia a desumana memória dos grandes mestres. Já para não falar nos golpes baixos: o olhar maluco de Bobby Fischer atemorizou mais do que um adversário. Aliás, Nigalidze jogava contra Tigran Petrosian, bicampeão arménio, quando fingiu dores de barriga. Ora este Tigran Petrosian tem um homónimo, morto há 30 anos, ex-campeão mundial (e único xadrezista que ganhou um jogo a Fischer). Não é pressão batoteira usar um nome tão poderoso? Mas o truque do georgiano ilustra a chegada do xadrez à batota para lá do uso de drogas ou truques psicológicos. Há dias, soube-se das suspeitas dos organismos do ciclismo mundial sobre os minimotores nas bicicletas de corrida. Um bom programa de xadrez ganha a qualquer campeão, num desporto em que no mundo só 20 ficam ricos a praticá-lo. Logo, haverá mais casos iguais ao do batoteiro georgiano. Na sua última novela, O Xadrezista, o exilado Stefan Zweig conta a história do amador de xadrez que, preso pela Gestapo, memorizou grandes jogadas. Mais tarde, o ex-prisioneiro, porque só jogava por diversão, recusou uma vitória certa contra um campeão nazi. Mas só em literatura se joga por diversão. Duas semanas depois de O Xadrezista, Zweig suicidou-se.
Ferreira Fernandes
No DN de hoje

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