O Chega tentou até ao último momento vender uma derrota dos trabalhadores como vitória.
Tentou transformar um pacote laboral feito à medida dos patrões numa suposta “negociação pelos trabalhadores”.
Só que a ilusão não chegou... Até os mais burros perceberam o que se passava.
E foi por isso que a conversa das reformas desapareceu ontem como condição essencial e hoje voltou a aparecer como linha vermelha.
Quando o Chega achou que conseguia vender o pacote como “negociado”, as grandes condições começaram a ficar mais vagas, mais elásticas, mais negociáveis.
Quando percebeu que as pessoas estavam a ver o truque, voltou a precisar de uma bandeira populista grande, emocional, fácil de explicar num TikTok.
A reforma aos 65 anos serve para isso.
Ele sabe perfeitamente bem que isso não é grátis...baixar a idade normal da reforma para os 65 anos teria um custo enorme e exigiria financiamento. Ou se aumenta impostos, ou se corta nas reformas, ou se corta noutras áreas, ou se rebenta com a Segurança Social.
Mas ele não quer saber...
Se quisesse boas reformas para os portugueses, não andava a hostilizar a imigração que trabalha e ajuda a financiar a Segurança Social.
Em 2025, as pessoas estrangeiras representaram 14% do total das contribuições para a Segurança Social, mais de 4 mil milhões de euros, e deram ao sistema muito mais do que receberam em prestações.
O Chega quer este pacote laboral porque é um partido das elites.
Vimos isso na forma como ficaram com cara de frete, enquanto os trabalhadores e a bancada da esquerda aplaudiram o fim do pacote laboral.
O CHEGA quer mais poder para os patrões, mais flexibilidade, mais precariedade, mais trabalhadores assustados, mais economia de baixo valor, mais gente a viver para servir negócios baratos em vez de construir uma economia decente.
Mas tem um problema: precisa de fazer isto sem que a sua base perceba.
Por isso tinha duas hipóteses.
Se conseguisse vender o pacote como “negociado”, avançava.
Pegava em meia dúzia de migalhas, dizia que tinha defendido mães, turnos, idosos ou férias, fazia um vídeo com cara de vitória e deixava passar o essencial.
Se percebesse que a base estava a acordar e que podia perder votos, tinha de votar contra e ressuscitar uma condição populista forte.
Uma daquelas que dá primeira página, dá emoção, dá conversa de café e permite fingir que o Chega está do lado de quem trabalha.
Foi isso que aconteceu.
O Chega não votou contra porque de repente descobriu os trabalhadores.
Votou contra porque a máscara estava a escorregar.
O Chega está sempre do lado das elites nas leis e do lado dos eleitores nas encenações...
Nas leis, serve os de cima.
Nos vídeos, ataca os de baixo.
No Parlamento, protege o pior do sistema.
No TikTok, finge combater o sistema.
É este o truque.
Quando sente que os seus apoiantes estão distraídos, avança e chama vitória às migalhas que lhe dão.
Quando sente que os seus apoiantes estão a perceber, recua e atira uma medida populista enorme para cima da mesa.
Mas a pergunta continua a ser a mesma: se o Chega é tão defensor de quem trabalha, porque é que andou até ao último minuto a tentar encontrar uma forma de salvar o pacote laboral do PSD?
Porque toda a direita quer este pacote.
O PSD quer.
A IL quer.
O Chega quer.
A diferença é apenas o papel de cada um.
O PSD finge responsabilidade.
A IL chama exploração de liberdade económica.
O Chega finge indignação popular para não perder os votos de quem será esmagado por essa mesma exploração.
Desenganem-se os que acham que isto fica por aqui.
Agora vem o próximo acto.
O PSD vai tentar negociar outra vez com o Chega.
Vai fingir que cede em coisas com menos peso, mas emocionalmente fortes.
Vai aceitar “estudar”, “avaliar”, “corrigir”, “melhorar”, “proteger famílias”, “valorizar turnos”, “olhar para os idosos”.
E o Chega vai fingir que está a arrancar conquistas históricas.
O chumbo de hoje não prova que o Chega está do lado dos trabalhadores.
Prova apenas que a encenação ainda não estava suficientemente bem montada porque as pessoas estão a começar a acordar.
A peça não acabou.
Só saiu o primeiro acto...
O próximo vai ser com o CHEGA a comandar.

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