Nas últimas semanas assistimos a uma sucessão de declarações de líderes europeus defendendo a necessidade de diálogo, de negociações e de uma solução política para o conflito. A União Europeia continua a afirmar que deseja a paz, que pretende construir pontes diplomáticas e que procura manter canais de comunicação com Moscovo.
Contudo, ao mesmo tempo que fala de diálogo, continua a financiar, armar e apoiar um esforço militar que, cada vez mais, ultrapassa o simples conceito de defesa territorial e passa a atingir diretamente o coração da Federação Russa. Ora, é aqui que surge a questão que muitos cidadãos começam a colocar: como pode alguém enviar armas, tecnologia, apoio financeiro e inteligência militar para operações que atingem território russo e, simultaneamente, apresentar-se como mediador ou promotor do diálogo? A contradição é evidente.
Nenhum cidadão de bom senso acreditaria que um conflito pode ser resolvido através de gestos de escalada permanente acompanhados por discursos ocasionais sobre paz. A diplomacia exige credibilidade. E a credibilidade constrói-se através da coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. A narrativa dominante na Europa sustenta que o apoio militar à Ucrânia é necessário para que Kiev possa negociar a partir de uma posição de força.
Trata-se da conhecida teoria da "paz através da força". Mas existe uma pergunta que raramente é feita. E se Moscovo interpretar exatamente da mesma forma as suas próprias ações? E se a liderança russa concluir que também ela necessita de aumentar a pressão militar para chegar às futuras negociações numa posição mais favorável? Se ambas as partes acreditarem que precisam de escalar para negociar, o resultado previsível não é a paz. É a continuação da guerra.
Pior ainda. É a continuação da guerra com níveis de destruição cada vez mais elevados.
Ao longo dos últimos anos ouvimos repetidamente que determinadas linhas vermelhas nunca deveriam ser ultrapassadas. Depois foram ultrapassadas. Disseram-nos que certos sistemas de armas não seriam fornecidos. Foram. Disseram-nos que determinados alvos não deveriam ser atingidos. Acabaram por o ser. Cada nova etapa foi apresentada como necessária. Cada nova escalada foi apresentada como controlada. Mas a História ensina-nos que as guerras raramente permanecem dentro dos limites imaginados pelos estrategas.
A grande ilusão dos nossos tempos talvez seja a crença de que é possível gerir indefinidamente uma escalada sem que existam consequências imprevisíveis. Ora, quando ataques significativos atingem áreas próximas dos centros de decisão russos, é natural que Moscovo procure responder de forma proporcional ou até superior. Não porque seja desejável. Mas porque essa é a lógica brutal que governa praticamente todos os conflitos entre grandes potências.
Quem acompanha a História militar sabe que nenhuma potência nuclear aceita de forma passiva ataques que considere ameaçadores para a sua segurança estratégica. É precisamente por isso que muitos analistas têm alertado para o risco crescente de uma resposta russa particularmente dura contra infraestruturas críticas, centros de comando ou objetivos considerados estratégicos na Ucrânia. Ninguém sabe exatamente onde se encontra o limite. E é precisamente isso que deveria preocupar-nos.
Hoje fala-se com ligeireza sobre armas, mísseis, drones e operações de longo alcance. Como se fossem peças de um jogo geopolítico distante. Como se não existisse sempre a possibilidade de um erro de cálculo, de uma decisão impulsiva ou de uma reação que ultrapasse aquilo que qualquer das partes inicialmente pretendia.
Entretanto, a Europa continua a viver uma situação paradoxal. Por um lado, incentiva a resistência militar da Ucrânia. Por outro, afirma desejar negociações. Por um lado, aumenta despesas militares. Por outro, fala de paz. Por um lado, contribui para prolongar uma guerra de desgaste. Por outro, lamenta diariamente as consequências humanas dessa mesma guerra.
E é essa contradição que fragiliza a credibilidade do discurso europeu. Porque a paz não se constrói apenas através da força. Mas também não se constrói através da ilusão de que a força, por si só, acabará por produzir paz.
Mais cedo ou mais tarde, todos os conflitos terminam à mesa das negociações. A questão não é se haverá diálogo. A questão é quantos milhares de mortos, quantas cidades destruídas e quantos riscos de uma escalada internacional ainda terão de existir antes que os protagonistas decidam sentar-se verdadeiramente à mesa.
Talvez a maior hipocrisia do nosso tempo não esteja apenas em enviar bombas enquanto se fala de diálogo. Talvez esteja em continuar a acreditar que uma guerra pode aproximar-se da paz precisamente através dos mecanismos que todos os dias a alimentam.

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