Bastam 150 euros de RSI para uma família em situação de pobreza para surgir um debate nacional sobre mérito, dependência, responsabilidade individual e o colapso financeiro do Estado. Em Portugal existem actualmente cerca de 160 mil beneficiários do RSI. Destes, aproximadamente um terço são menores de idade. Ou seja, depois de retirarmos as crianças da equação, estamos a falar de pouco mais de 100 mil adultos num país com mais de 10 milhões de habitantes.
Mas isso raramente impede a indignação. Pelo contrário. Há quem fale do RSI como se metade da população estivesse pendurada na Segurança Social.
Curiosamente, a conversa muda quando o dinheiro público sobe alguns degraus na escala social.
A Cimeira da Indústria realizou-se em Braga no passado dia 26 de Maio. O próprio Observador apresentou o evento como o "grande debate da indústria em Portugal". A organização coube ao Observador e à Associação Empresarial do Minho, contando ainda com a parceria da PWC, da Tabaqueira, da Siemens, da Elior-Derichebourg, do BPI, do CaixaBank e da Universidade Católica.
Pelo palco passaram Luís Montenegro, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, representantes da Bosch, da Continental Mabor e algumas das mais poderosas estruturas empresariais do país. Um verdadeiro encontro da fina flor do poder económico e político nacional.
Também a Câmara Municipal de Braga, liderada pela coligação PSD/CDS-PP e PPM, marcou presença através do seu presidente, João Rodrigues, filho do proprietário da gasolineira Joaquim Barros Rodrigues & Filhos, empresa que foi cliente da Spinumviva de Luís Montenegro.
Até aqui, cada leitor tirará as suas conclusões.
O detalhe mais interessante surge depois. A Câmara Municipal de Braga, os Transportes Urbanos de Braga e a AGERE celebraram três contratos de ajuste directo com o Observador, no valor total de quase 60 mil euros.
Não para apoiar famílias carenciadas.
Não para apoiar desempregados.
Não para apoiar idosos.
Não para apoiar crianças.
Mas para apoiar um evento onde estavam representados bancos, consultoras multinacionais, grandes grupos industriais e empresas que, em conjunto, apresentam centenas de milhões de euros de lucros anuais.
E foi neste momento que aconteceu o milagre. A palavra "subsídio" desapareceu. Ninguém perguntou se estas entidades não conseguem financiar os seus próprios eventos. Ninguém exigiu saber se estavam dependentes do Estado. Ninguém sugeriu programas de reinserção no mercado livre. Ninguém escreveu artigos sobre a cultura da dependência.
Os mesmos quase 60 mil euros distribuídos através de três ajustes directos, que seriam considerados um escândalo nacional se fossem destinados a famílias pobres, transformaram-se, quase por magia, numa respeitável parceria institucional.
É fascinante observar como funciona a nossa indignação colectiva.
Quando o dinheiro público desce na hierarquia social chama-se assistencialismo.
Quando sobe chama-se investimento.
Quando chega aos pobres exige-se uma auditoria moral.
Quando chega aos poderosos basta uma fotografia de grupo e uma nota de imprensa.
Talvez o problema nunca tenha sido o dinheiro público.
Talvez o problema nunca tenha sido a dependência.
Talvez o problema tenha sido sempre quem recebe o subsídio, ou o investimento.

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