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terça-feira, 25 de março de 2025

O INTERROGADOR DE AUSCHWITZ:

Entrei num Continente e, entre as carnes e os utensílios de cozinha, lá estava o José, sentado, junto a uma montanha dos seus livros, disposto a oferecer autógrafos a quem os requisitasse.

Achei aquilo deprimente. Nunca tive grande simpatia por aquele homem mas toda aquela cena, sentado no meio de um hipermercado, a olhar para o chão, era pouco digna para um escritor.
Respeito e admiro quem consegue escrever, publicar e agarrar o leitor. São uma minoria de portugueses, num país que lê muito pouco e num mercado pequeníssimo. Aliás, o jornalista/escritor sempre foi a minha profissão de sonho. Durante muito tempo admirei o Sousa Tavares por conseguir reunir essas qualidades.
Contudo, o mesmo nunca aconteceu com o José Rodrigues dos Santos. É engracado falarmos de empatia, ou falta dela, com pessoas com quem nunca trocámos uma palavra. Imagino que seja o peso do estatuto de "figura pública" numa realidade em que, ir à televisão a um Big Brother, faz de um anónimo uma pessoa com interesse para os demais.
Eu cresci com o JRS na televisão pública e lembro-me, desde sempre, de o ver por lá. Consigo recuar na memória até à guerra do golfo e ver o bom do José, com um capacete que não lhe afagava as expressões, enquanto relatava a entrega "da democracia e liberdade" ao povo mártir do Kuwait. Eram outros tempos em que acreditávamos mais depressa no mundo dos bons e dos maus.
Nunca achei este rapaz bom jornalista e sempre me deu a ideia de querer ser ele, e não a notícia, o foco da intervencão. Já disse, e volto a repetir, que nada tenho contra a opinião de um jornalista, desde que perceba o momento em que não a deve dar. Anabela Neves, uma excelente jornalista, opina frequentemente na CNN, num espaco que existe para esse efeito. Manuela Moura Guedes, para dar o exemplo mais clássico, era famosa por opinar enquanto lia as notícias. São mundos que não se podem cruzar.
JRS, com o passar dos anos e o estatuto acumulado na RTP, cai várias vezes na rotina de opinar quando tem que ler, discutir quando tem que perguntar. Está com 60 anos, é funcionário público, deve ter uma boa receita da venda de livros e, provavelmente, quando se olha ao espelho já pensará: "digo o que me apetecer, ninguém manda em mim".
O problema é que, para além de prestar um péssimo servico ao jornalismo, fá-lo na televisão pública, pago (e muito bem) por todos nós e mancha, de certa forma, a confianca que deveríamos ter no profissionalismo da RTP.
Eu sou um admirador confesso da RTP mas ver gente como JRS ou João Adelino Faria, em períodos de campanhas, debates e entrevistas, é um verdadeiro súplicio.
O PCP já manifestou o que pensa da guerra da Ucrânia, do Putin, do Zelensky, das armas, do apoio financeiro e todo esse faroeste centenas de vezes. Aliás, nenhum outro partido foi tão escrutinado como o PCP nesse tema. Quem aqui chegasse de Marte e visse a entrevista a Paulo Raimundo pensaria que teria sido o PCP a invadir a Ucrânia.
E meus amigos, podemos gostar, compreender e aceitar, ou não, mas o que ninguém pode acusar o PCP é de falta de coerência. Há 3 anos que dizem o mesmo, curiosamente repetido por Marco Rubio na semana passada, que esta era uma guerra de proxy entre duas potências. Os ucranianos estão apenas a servir de carne para canhão em interesses maiores. Quando o PCP explicou que o partido comunista russo era oposicão a Putin ou que socialistas e comunistas tinham sido ilegalizados por Zelensky, ninguém quis saber. Agora, quando não bateram palmas na AR, todos perguntaram porquê?
Coerência. Coerência e mais coerência. Coisas que para muitos de nós deixaram de contar. O Chega consegue ter 3 posicões diferentes, no mesmo dia, numa votacão na AR e recebe 1 milhão de votos. Portanto...quem é que quer saber de coerância e valores, em 2025? A discussão generaliza-se em torno de quem rouba mais, de quem é mais corrupto e de quem consegue, melhor, aproveitar as teias de interesses. São estes que puxam os votos de maioria da populacão. Para pessoas como eu, que apreciam a integridade e a honestidade na defesa das ideias, mesmo que não concorde com todas, torna-se essencial que esta voz, a do PCP, se mantenha de alguma forma activa.
O que JRS tentou fazer na RTP, numa entrevista sobre as legislativas, foi calar o PCP. É essa parte que torna tudo isto mais grave. Já é discutível que uma entrevista de 10 minutos tenha algum valor para informacão e apresentacão de propostas mas, se o tempo for gasto na totalidade com um massacre sobre a Ucrânia, não há mesmo razão alguma para ali estar.
Paulo Raimundo, que para mim foi uma escolha errada para secretário-geral (já o escrevi várias vezes), se tivesse outra habilidade oratória teria acabado com aquela farsa ao segundo minuto. Mas mostrou-se, como em entrevistas/debates anteriores, muito verde para este circo.
Ainda assim, é absolutamente inaceitável que a RTP se preste a estes fretes e que um líder partidário seja convidado para falar sobre as legislativas e acabe, como se viu, durante 10 minutos a falar sobre a Ucrânia. Já agora, a minha indignacão seria a mesma se ali se sentasse o Ventura, a Mariana Mortágua ou outro qualquer. O problema, pelo menos para mim, é que estas coisas só acontecem ao PCP.
Um partido a quem todos juram a morte na eleicão seguinte e, repetidamente, desprezam a votacão, mas que, por alguma razão, nunca deixa de ser incómodo ao ponto de ter que levar com um jornalista enraivecido, na estacão pública de televisão, a impedir o democrático debate de ideias.
É de facto um caso único e um partido diferente,
Espero, por uma questão de decência da RTP (que não pode ficar colada à imagem de um mau profissional), que se retrate publicamente e peca desculpas por aquela caca às bruxas em direto.

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