“Assim se vê a força do PC!”, é um
estribilho conhecido de todos. A força do PC, depois das eleições de domingo, é
muito inferior à força que o PC tinha no parlamento antes da respetiva
dissolução, que o PC ajudou a consumar. Como resultado, cada vez menos se vê a
força do PC.
Ontem, na televisão, ouvi atentamente João Oliveira, um dos
quadros mais salientes na vida parlamentar dos comunistas, nos últimos 15 anos,
que não foi eleito como cabeça de lista do partido pelo distrito de Évora. Se
alguém me dissesse, no sábado, que os comunistas deixariam de estar
representados no alentejano círculo eleitoral de Évora eu “explicaria”, com
facilidade, a implausibilidade desse cenário.
É extraordinário como João Oliveira conseguiu, ao logo de toda a
entrevista, não fazer um mínimo de autocrítica sobre a atuação do partido, não
confessando um único erro, tático ou estratégico, que pudesse ter levado àquele
desfecho. É que o PCP nunca tem a menor culpa, o PCP está sempre correto, são
sempre os outros que, com a sua ação ou a força enganadora da ilusão que
induzem, contribuem para tudo o que sucede de mal ao partido, no estiolar
progressivo da sua capacidade de representação (“formal”, dirão, talvez) dos
“interesses do nosso povo”. E o PCP fala sempre em nome do “povo”, muito
embora, cada vez mais, esse mesmo povo tenda a fazer-se representar por outros
partidos, o que vai diluindo a legitimidade dos comunistas de se considerarem
os legítimos defensores desse mesmo povo.
Tudo o que é dito - com grande seriedade e óbvia genuinidade -
surge embrulhado num discurso previsível, repetitivo, entre um marxismo
primário e mecanicista e um populismo sempre autocongratulatório, ainda que
modesto, pelo trabalho político desenvolvido. Ao ouvir João Oliveira ontem, tal
como ao escutar o triste texto lido por Jerónimo de Sousa no domingo (num
auditório coreograficamente encenado só com jovens, algo inesperado para uma
força política que não nos habituou a esses artificialismos), fica-se com a
sensação de que, com maior ou menor imaginação semântica, os comunistas
continuam a dizer a mesma coisa, repetem quase sempre os mesmos chavões. No
passado, falava-se da “cassette”. Se estiverem atentos, verão que pouco mudou,
até na entoação das frases.
O PCP - partido pelo qual eu sinto uma eterna gratidão histórica pela sua abnegada luta contra a ditadura - permanece fechado numa narrativa monocórdica, feita da mistura de palavras saídas de um léxico fixo, como se arriscar uma qualquer evolução semântica pudesse fazer incorrer os seus responsáveis numa perigosa heresia doutrinária. Dir-se-á: mas o PCP está na vida política portuguesa há 100 anos e isso deve significar alguma coisa. Devo confessar que, ao ouvir o que o PCP hoje nos diz fico com a sensação de que, mais do que um partido antigo, estamos perante um partido irremediavelmente velho. E sinto alguma pena por isso.
By Francisco Seixas da Costa
Sem comentários:
Enviar um comentário