Era uma rapariga que tinha nascido num corpo de rapaz.
Chamava-se Rúben, mas todos os dias acordava na esperança de ser Rose, uma Rosa que resolveria o seu fundo sofrimento, a tristeza que lhe vinha de dentro, as humilhações.
2.
Sofria bullying na escola.
Era apertado, encurralado, achincalhado.
Todos os dias desde que se conhecia.
“Paneleiro”
“Maricas”
“Vai-te embora daqui!”
“Monstro de merda”
Todos os dias a levantar-se na ideia de juntar dinheiro para poder fazer uma operação e desaparecer dali para fora.
De procurar um lugar onde ninguém o conhecesse e onde pudesse recomeçar a sua vida do zero. Sem a pressão dos olhares de gozo, das cuspidelas, do horror que causava por tentar ser ele próprio.
2.
Pessoas que o conheciam melhor juraram nas redes sociais que em casa era a mesma coisa.
O pai já respondeu que não era verdade.
Que não havia discriminação entre as quatro paredes
(sabemos lá)
Rose tinha 15 anos.
E há uns dias, à hora de almoço, atirou-se de uma ponte em Vila Real.
Não aguentou mais.
Podia ser meu filho.
Podia ser seu filho.
Uma menina num corpo de menino.
Os gritos permanentemente na sua cabeça, a incompreensão e falta de empatia, a dificuldade de encontrar apoios para ser a que nele habitava, a impossibilidade de sair dali para fora, o terrível sofrimento de no dia a seguir, e no dia a seguir ao dia a seguir, continuar a ver aquelas pessoas que o faziam sentir-se como se fosse um anormal, um monstro que devia morrer.
3.
Já não está.
A Rose partiu.
Prefiro pensar que foi o Rúben que morreu para dar lugar à memória da Rose. Uma memória que é também um grito de revolta contra a discriminação de género, contra o atraso cultural, contra a bestialidade.
Um combate pela memória de alguém que sofreu o que muitos outros e outras sofrem.
Que não tenha morrido em vão o Rúben, que tenha morrido para não nos esquecermos que a Rose sobreviveu e é hoje uma estrela.
LO
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