terça-feira, 11 de julho de 2017

A demissão dos secretários de Estado e a hipocrisia político-mediática:

Os três secretários de Estado – da Internacionalização, dos Assuntos Fiscais e da Indústria – que ontem  pediram a demissão foram crucificados nos media há um ano quando aceitaram convites da GALP para assistirem à final do Euro 2016. Convites idênticos feitos pela Olivedesportos foram também aceites por  deputados do PSD e jornalistas,  e outras figuras públicas e mediáticas aceitaram convites idênticos.
Na altura caíu o Carmo e a Trindade porque os secretários de Estado não se demitiram. A falta cometida foi então considerada muito grave por jornalistas, políticos e comentadores. Eu própria  critiquei aqui a imprevidência ou ingenuidade dos governantes em causa.
Agora, passado um ano, sabendo que iam ser constituídos arguidos pelo Ministério Público, os secretários de Estado anteciparam-se e solicitaram  a sua constituição como arguidos para se poderem defender e consideraram, a meu ver bem, que se permanecessem no governo este seria contaminado pelo processo que corre contra eles.
Eis porém que alguns dos que  antes os criticaram vêm agora dizer que eles não deviam ter-se demitido porque ser arguido não é ser culpado,etc., etc., e que aceitar os convites não é assim coisa tão grave porque era uma prática corrente. Enfim, um discurso hipócrita e oportunista.
Rocha Andrade, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é agora elogiado pela sua competência e peso político, considerado quase imprescindível na elaboração do orçamento de Estado e na reforma do fisco. Até o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos,, Paulo Ralha, lamentou a sua demissão elogiando o trabalho que estava a ser feito, o que é coisa rara num sindicalista.
A direita parece ter ficado baralhada com a demissão dos secretários de Estado. Assunção Cristas quer mais e não largou a cassete da demissão dos ministros da Defesa e do MAI. Percebeu que tem nisto um bom “gancho” para segurar os media em torno da sua pessoa (que bem precisa na luta autárquica por Lisboa).
Mas o mais desconcertante foi ouvir o deputado do PSD Abreu Amorim a protestar porque não percebeu porque é que os secretários de Estado se demitiram agora, como quem diz que receia que as demissões retirem ao PSD a embalagem que  a tragédia de Pedrógão e o roubo de Tancos deram ao partido. Ninguém disse a Abreu Amorim para  perguntar ao Ministério Público porque é que demorou um ano  a constituí-os arguidos.
Imagine-se o que seria se os secretários de Estado permanecessem no governo na situação de arguidos. O que não diriam os comentadores e os jornalistas que agora acham que não era caso para isso. António Costa fez bem em aceitar a demissão e faz igualmente bem em deixar Cristas a falar para a cassette e Abreu Amorim com as suas dúvidas.
Na realidade, António Costa enfrenta duas crises para as quais tem de encontrar respostas: uma, real e concreta – a tragédia de Pedrógão e o roubo de Tancos – cuja resposta tem de ser dada na reposição dos bens perdidos pelos sobreviventes dos incêndios e no apuramento rigoroso do que aconteceu (alguém identifique um fio condutor na imensidade de dados que têm sido divulgados). No caso de Tancos, há que identificar  responsabilidades e clarificar o que compete ao governo e o que compete às hierarquias militares.
A outra é uma crise essencialmente política e mediática, criada para obtenção de dividendos no campo político e mediático para ocupação do espaço público por parte dos partidos políticos, dos comentadores e dos media, cada um competindo pela marcação da agenda política e da agenda mediática. Nada de novo, portanto: os partidos fazem oposição, os jornalistas fazem perguntas embora não queiram saber das respostas e os comentadores dão opiniões “á la minute” pois são pagos para ocuparem os espaços que lhes dão, tenham ou não algo de útil a dizer.
O papel do governo e do primeiro-ministro não é ceder às pressões mediáticas porque, como se está a ver, num primeiro momento os media pressionam para fazerem valer os seus pontos de vista mas se o governo ceder, no momento seguinte  criticam-no por ter cedido e não ter autoridade.
O País precisa que alguém mantenha a cabeça fria. Esse alguém é António Costa.
Do blogue (Vai e Vem)

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