terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A sangria do Estado de direito:

Na SIC, José Gomes Ferreira foi chamado para comentar o anúncio de que Sócrates vai processar o Estado português. Ou talvez o José Gomes Ferreira tenha decidido usar a SIC para comentar o anúncio de que Sócrates vai processar o Estado português. Em qualquer dos casos, e só há dois, podemos perguntar: porquê o Zé?; o que é que o habilita a comentar um assunto estritamente judicial?; sendo um suposto especialista em assuntos económicos, porquê vir dar palpites sobre complexas questões jurídicas?; o Direito passou a ser um ramo da Economia e ainda não fomos avisados?
Ouvindo o Zé a falar sobre o assunto, fica claro qual a lógica de ser ele a representar a posição do canal. Não se trata, pois, de difundir uma visão que contribua para um melhor entendimento público do que se passa algures na realidade, quer-se é aproveitar a oportunidade para difundir uma certa interpretação dessa mesma realidade. Nessa interpretação, o Zé veio repetir a sua cassete: Sócrates é o maior criminoso da História de Portugal, Alves dos Reis incluído, e não tem qualquer hipótese de escapar à guilhotina.
O aspecto mais interessante deste episódio, todavia, acontece logo no início e é da responsabilidade de Pedro Mourinho, aparentemente um jornalista a trabalhar como jornalista:
É legítima a queixa do antigo primeiro-ministro, e da forma como o fez, ou há aqui uma tentativa óbvia, também, de condicionar o Ministério Público?
Estamos perante uma matriosca de falácias:
– Por que razão, ou em que plano, não haveria de ser legítima a queixa anunciada, para mais tendo em conta que os factos e argumentos que a justificam são do conhecimento público e estão sustentados no Código Penal?
– Que tem a forma como tal processo foi anunciado (numa conferência de imprensa) a ver com qualquer aspecto da sua legitimidade?
– Como é que esse anúncio de uma acção legal pode pressionar o Ministério Público seja no que for?
– Pressionar o Ministério Público em que sentido, para fazer ou não fazer o quê?
– Quem é que no Ministério Público é pressionável por existirem cidadãos a tentarem obter na Justiça o reconhecimento do que julgam ser os seus direitos?
– O jornalista sabe de outros casos similares, em que o Ministério Público tenha sido pressionado por algum arguido?
– O jornalista considera que as conferências de imprensa são instrumentos genéricos de pressão sobre o Ministério Público?
Para além de ter servido uma pergunta que não passava de pretexto para um dos seus chefes despejar o seu balde de calúnias, Pedro Mourinho fez algo que temos constatado noutros jornalistas televisivos, dessa e de outras estações, que calhem estar na emissão quando há desenvolvimentos no Processo Marquês por via de declarações e acções de Sócrates. Eles fazem questão de introduzir elementos opinativos a respeito das “segundas intenções”, sempre pejorativas e contaminadas pelo contexto criminal, de qualquer coisa que Sócrates diga ou faça. Eles exibem-se não só verbalmente mas também corporalmente para os espectadores, zelando para que fique claro que partilham da opinião popular: estamos perante um criminoso e tudo o que ele diga e faça, mesmo que nos pareça correcto e justo, não passa de uma artimanha diabólica.
O fascinante desta questão, para lá da indecência e decadência reinantes, é a expressão por jornalistas na chamada “imprensa de referência” de uma ideia de profunda corrupção nos pilares do Estado, onde até os super-heróis Rosário Teixeira e Carlos Alexandre de alguma forma poderiam ficar tolhidos na sua acção e pensamento porque um fulano caído em desgraça esteve uma hora a falar em frente de jornalistas numa sala de hotel. Absurdo, certo? Nesse caso, a restante e solitária explicação é a de que faz todo o sentido – isto é, a diabolização de Sócrates continua a fazer todo o sentido, no início como no fim, até à última gota que for possível extrair.

 POR VALUPI em aspirina b

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