segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma troca de abraços em forma de carta:

O regulamento geral das prisões, em vigor desde o último Governo de Sócrates, e assinado de cruz pelo incumbente, tem destas coisas: as encomendas podem não chegar, a correspondência é lerda, e só hoje nos permite revelar a troca de cartas entre o recluso número 44 do Estabelecimento Prisional de Évora e o antigo presidente Mário Soares, o primeiro a visitá-lo, de surpresa, ao quarto dia de reclusão.José Sócrates foi detido a 21 de novembro, há 38 dias. Sem culpa formada e sem direito a entrevistas, está preso preventivamente por suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal. A justiça tem os seus tempos e há de falar. Até lá, temos uma singela troca de cartas. A de Sócrates, a 7 de dezembro, o dia de aniversário de Soares, a outra na véspera de Natal, quando este responde com palavras de encorajamento e a mesma estima com que o abraçou naquela manhã carregada de novembro.Eu estava lá e vi, a escrita permite-me a liberdade da imaginação: na cadeia de Évora, o parlatório é esconso e sombrio, mesas e cadeiras de plástico que em dias previstos no regulamento se hão de preencher de ansiedade e acanhamento - reclusos de um lado, as visitas do outro -, palavras e esperança sussurradas. A um canto, o velho leão da nossa democracia - cá fora, há de exclamar "infâmia!" e outras imprecações indignadas. No outro, um Sócrates surpreso, o mesmo homem que, vai fazer 10 anos em 20 de fevereiro, recolheu o voto de quase 2,6 milhões de portugueses. Apertam-se num longo e comovido abraço. E nem preciso de escutar-lhes a conversa, para ver que entre braços está a metade de nós que não suporta a ideia de mantermos aperreado na cadeia um daqueles em quem mais confiámos na nossa geração. A outra metade, essa, desconfia ou deseja que ele apodreça na enxovia prisional. E já ergue na praça o pelourinho justiceiro, esse instrumento de manipulação política, típica de estados falhados, mais a mais quando há eleições à vista. A cadeia de Évora é, também ela, a metáfora de um país dividido que se prepara para entrar num novo ano que todos desejamos novo e melhor. Assim seja!
29.12.2014 AFONSO CAMÕES
No JN

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