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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

SICários II:

 [continuação de SICários]

A 2 de Setembro de 2025, data do reinício do julgamento da Operação Marquês após as férias judiciais do ano passado, a SIC fez uma entrevista de 25 minutos a Manuela Moura Guedes: Manuela Moura Guedes acusa Supremo e MP de terem protegido Sócrates

Como se pode ler na página de promoção da peça, começando logo pelo título da mesma, e depois confirmar ouvindo a própria, MMG foi chamada para se poder voltar a publicitar e amplificar — na “imprensa de referência” — o seguinte:

Pinto Monteiro, mais a Procuradora-Adjunta Cândida Almeida, tentaram tudo e conseguiram para travar tudo o que dissesse respeito ao ex-Primeiro-Ministro.” — Difamação qualificada de magistrados do Ministério Público.

a decisão já estava tomada, de antemão, pelo Supremo.” — Acusação grave de pré-julgamento e prevaricação contra o Supremo Tribunal de Justiça.

Acho-o psicopata. Há quem diga sociopata; não é sociopata. Ele é mesmo psicopata, acho. Já perguntei a vários especialistas. É uma pessoa que tem problemas psiquiátricos.” — Violação do dever de respeito e injúria (art.º 181.º do Código Penal).

tinha a Procuradoria-Geral completamente controlada, parte do Supremo, da banca, as empresas e a comunicação social.” — Teoria da conspiração delirante.

os administradores [da Media Capital/PRISA] disseram-me que era sob pressão, isto um administrador que fazia parte… que era José Sócrates, que fazia pressão; havia empréstimos, havia negócios…” — Testemunho indireto sem identificação da fonte. Viola o princípio deontológico da verificação e da identificação das fontes sempre que possível.

A comunicação social estava praticamente toda dominada, tanto pelo Primeiro-Ministro, como pelo Governo” — Ataque delirante à classe profissional dos jornalistas e donos dos órgãos.

Só há duas razões para o Grupo IMPRESA (usando o poder de alcance da SIC e do Expresso) ter voltado a dar destaque máximo a esta juliana de calúnias, soberba, mentiras, rancor e delírios. É cassete que anda a ser repetida desde 2009, no início até metia o Rei de Espanha como mais um lacaio socrático. Dezasseis anos depois, não há mais do que duas intencionalidades possíveis quando se gasta meia hora de televisão em bloco noticioso para este número. São elas: (i) ou se está a fazer jornalismo, creditando-se a entrevistada com o mérito epistemológico de trazer informações relevantes para as autoridades judiciais, o sistema político e a sociedade civil em diferentes dimensões e problemáticas; (ii) ou não se trata disso, é outra cena.

Em sua defesa preambular, deve-se recordar que essa mesma cassete foi explorada por Presidentes da República, partidos políticos, procuradores, juízes, sindicatos de magistrados e a quase totalidade da comunicação social. O Face Oculta e a Operação Marquês são isso. A mesmíssima cassete. E não só a exploraram ao longo de anos e anos como continua a ter gasto pelos caluniadores profissionais. Mas isso não altera o seu conteúdo, só o confirma: é pulhice levada a um grau inaudito em 50 anos de regime democrático. Não há qualquer contabilidade dos milhões de horas e dos milhões de euros gastos pelo Estado e privados a tentarem inscrever esse embuste odioso e absurdo na História. Falharam, no plano documental e lógico, mas tiveram sucesso no plano cultural. A cultura da calúnia foi aceite como o modelo preferencial da estratégia política à direita. Como a comunicação social é dominada pela direita, e como a indústria da calúnia foi sempre um modelo de negócio logo desde a revolução tipográfica de Gutenberg, juntou-se a fome à vontade de comer.

Os carolas da IMPRESA responsáveis pela decisão de lançarem MMG em mais um episódio de degradação das instituições da República e de si própria foram, ao tempo, Bernardo Ferrão, Ricardo Costa e Francisco Balsemão, então ainda vivo. Fizeram-no intencionalmente, sabendo que a vítima se iria comportar como eles esperavam. Em cima disso, envolveram uma jornalista da casa na sórdida exposição de fragilidades graves no plano moral, cognitivo e de saúde de uma pessoa sem capacidade de autocrítica. Só que o mais grave consegue ser outra coisa. Esta: a 3 de Setembro de 2025 e seguintes, ninguém de ninguém se queixou, protestou, apelou face ao espectáculo da violação de todos os preceitos – todos! – do código deontológico dos jornalistas. Vale tudo para despachar mais um assassinato de carácter de Sócrates e terceiros, um deles que até nem se podia defender do ataque à sua honra e bom nome por já ter falecido. A normalidade mediática desde 2004.

Calhando esta senhora andar a dizer que o PS trafica droga para se financiar, que o papa Bento XVI também pressionou a TVI para acabar com o Jornal Nacional de Sexta-Feira e que Sócrates faz rituais satânicos onde bebe sangue de raparigas virgens, teria palco na SIC como personalidade importante para o público entender melhor o que se passa na realidade? De acordo com o critério seguido a 2 de Setembro de 2025, deveria ter. Na substância, são tão delirantes estas hipóteses como as que o vídeo regista e a SIC duplica por escrito. Com uma diferença relevante a favor destas aqui imaginadas, a de ainda não terem sido investigadas, enquanto aquelas que repete para gáudio de alimárias e canalhas foram espremidas até ao tutano na maior devassa alguma vez feita pela Justiça a um indivíduo e a dois Governos – portanto, também ao partido com sede no Largo do Rato.

Eis a tragédia: se o que MMG despeja fosse verdade, a consequência inevitável seria uma crise do próprio Estado de direito, dando-se o colapso das instituições judiciais e políticas da República; mas ao poder mentir de forma rancorosa e demente, em horário nobre num bloco noticioso, só para servir a agenda de um editorialismo sensacionalista, rapace e perverso, e depois ninguém se indignar, tal fenómeno ilumina o estado de corrupção do respeito próprio a que chegámos como comunidade.

Não admira que a defesa apaixonada do Estado de direito democrático seja um quixotismo de tão poucos.

por Valupi

Do blogue Aspirina B

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