Quem perde é a generalidade dos portugueses, com uma medicina para ricos e outra para pobres.
Quem se recorda da criação do SNS, sabe que uma parte do PS e todos os partidos à sua direita, especialmente entre os médicos, não gostaram do SNS gratuito e universal.
Desde que Cavaco Silva introduziu e integrou formalmente na base legislativa do SNS o setor privado, o assalto ao orçamento da Saúde e a sua parasitação pelos privados nunca mais parou, muitas vezes com a cumplicidade do PS.
Já poucos se lembram do então comentador Marcelo Rebelo de Sousa a afirmar que não era justo que ele, que podia pagar a sua saúde, beneficiasse da gratuitidade dos cuidados que o SNS dispensava a todos os portugueses. A ideologia é tramada!
Foi assim que sub-repticiamente chegámos aqui, com o país abúlico e os portugueses a deixarem-se vencer pela ansiedade e pelo medo.
A qualidade do SNS ainda não se degradou, mas a escassez da resposta e a dificuldade de acesso não param de agravar-se.
A aceleração da transferência de recursos para os privados e Misericórdias acentua-se. O governo persiste na execução de um programa escondido para o desmantelamento sistemático do Estado social, enquanto executa projetos megalómanos de armamento e amplia a submissão nacional a interesses alheios aos portugueses.
A revisão da Constituição, já acordada com o Chega, é o golpe final que se prepara para o ajuste de contas com o 25 de Abril. O PR é o único órgão que pode opor-se, mas o seu silêncio violento, perante os desmandos em curso, cria perplexidade e angústia.
Não é apenas o Estado social que está em perigo, é a própria democracia que se esvazia se o povo não acordar desta letargia que tem permitido o empobrecimento dos direitos, liberdades e garantias que a Constituição consagra.
Acredito que surja um sobressalto cívico para travar a deriva neoliberal do governo e a submissão à agenda das forças à sua direita, com as quais se confunde.

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