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terça-feira, 14 de abril de 2026

No seguimento do debate de ontem:

Há quem diga que com um populista com um claro dote para a televisão e para "inventar" tempo de antena, o meu irmão JPP iria ter dificuldades em fazer passar a sua mensagem, a de que Ventura mentia acerca do número de presos políticos antes e depois do 25 Abril. Mas o que ainda não vi comentar foram os aspectos técnicos do debate. Aqui ficam algumas das muitas coisas estranhas que se passaram:
1- Alguém viu o que JPP tinha na mesa de debate? A palmatória, a massa e montes de livros e documentação. A realização nunca mostrou um grande plano disso. E o que Ventura tinha na mesa? Não se viu? Eram provas do que dizia? Só mostrou uma ou duas fotos. Mas provar com documentação era uma das premissas do debate, não era? A realização ajudou nada.
2- Alguém viu o quadro com os números de presos políticos que JPP trouxe? Passou tão fugazmente que penso que JPP nem reparou que estava no ar porque nem o comentou... Entrou uns segundinhos e desapareceu. Mas não era esse o objectivo na origem do debate? Que JPP estivesse distraído com o palavreado e as interrupções de todas as frases que iniciava por parte de AV, é possível. Decerto que só no fim do debate terá reparado. CNN falha, novamente. Estranho.
3-O moderador João Póvoa Marinheiro, foi do pior que vi até hoje. Tendo dois pesos-pesados em frente, num debate sui-generis e que renderam à CNN uma boa audiência, nada fez para calar AV, deixando -o vociferar contra JPP por tudo e por nada. Estranho. Esclarecer, organizar e liderar nunca foi o que fez. E repararam quantas vezes o "moderador" se ouve , no meio daquela confusão toda, a tentar calar JPP? E quantas tentativas fez ele a tentar calar Ventura? Nenhuma que eu me lembre... Aliás, JPP chegou a notar isso.
4- Se tivesse havido silenciamento pontual dos microfones para se ouvir o que cada um dizia até poderem completar as respectivas ideias, o debate teria sido outro. Mais interessante, mais claro, mais instrutivo, historicamente falando, sobretudo mais revelador de quem dizia a verdade e de quem tentava branquear 48 anos de uma ditadura repressiva e castradora. Também tecnicamente, se permitiu o caos que V gosta de semear.
5- A voz cava de JPP a pedir a AV que se calasse para que conseguisse terminar a exposição das suas ideias - nunca o conseguiu, previsivelmente- apenas deixou que a voz de AV, mais aguda, se ouvisse melhor por cima da dele. E o "moderador" ajudou também, com a sua voz insistente misturada, totalmente perdido perante a metralhadora falante. Deliberadamente? Por vezes, pensei que sim. Hoje fui ver os clips da CNN e apenas aparece JPP a tentar calar AV, e não com as principais ideias, (algumas das) que apresentou e conseguiu passar: que quando AV defende a ditadura, está a atacar a democracia que lhe permitia estar ali. Que os factos fazem a História, não as interpretações falaciosas de AV ou a sua habilidade para cortar ideias. Que os cartazes de Ventura são anti-cristãos (Ventura não gostou desta...).
6- Falando de tortura, não ouvi falar do Tarrafal, dos jovens que tinham a vida interrompida para ir para a tropa, dos agentes da PIDE de facto não chegaram a ser julgados, da emigração, da pobreza, do analfabetismo, do isolamento. Algumas das falhas compreensíveis, mas evitáveis, se o ambiente tivesse sido verdadeiramente moderado.
7- Já agora, umas notas biográficas. O papel da Mulher e a violência que caía sobre elas. A minha mãe deixou de estudar no antigo 7º ano porque o pai não deixou. Sair de Lisboa para ir a Inglaterra para uma cirurgia com a minha mãe não teria sido possível sem a intervenção e autorização de um tio por afinidade- valia mais ele do uma mãe, apenas porque era homem, dizia a PIDE. A quantidade dos informadores da PIDE nas universidades era um pesadelo- 3 alunos à conversa era uma reunião- "circulem, meninas...". Pancadaria nos estudantes era diária. Há cerca de um mês, fui entrevistada pela Maria Flor Pedroso. A sua primeira pergunta foi "O que foi o 25 de Abril para si?". A minha resposta: Nada do que sou, do que fiz e do que farei teria existido. Não se admire portanto que JPP tenha dito que o 25 de Abril foi o dia mais feliz da sua vida. Para mim também foi uma época fabulosa, cheia de futuro.
Concluindo, este debate foi uma oportunidade de esclarecimento que poderia ter sido muito melhor aproveitada. Para Ventura, foi mais um tempo de antena precioso, ao seu estilo arruaceiro, mais uma vez promovido. Como se ele precisasse ou merecesse aparecer todos os dias na TV...

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