A posição anteontem expressa sobre a minha recusa em votar em Ana Gomes nas próximas eleições presidenciais pretextou algumas reações de camaradas socialistas, que estranharam o meu apoio a Marisa Matias. Como é possível que um militante socialista de há mais de trinta e cinco anos opte por votar na militante de outro partido?
Muito sinteticamente digo que considero mais grave a uma militante socialista sempre pôr-se em bicos dos pés quando se trata de criticar os governos do seu Partido como ela o fez, de forma populista, com os de José Sócrates e António Costa. Nessas alturas Ana Gomes sentiu que poderia colher benefícios de opiniões populistas contra o seu próprio partido e não teve o mínimo rebuço em formulá-las. E, em definitivo, se Groucho Marx nunca aceitaria pertencer a um clube que o aceitasse como sócio, eu nunca me situaria como apoiante de quem foi lançada e promovida por essa criatura esdrúxula chamada Francisco Assis. Homessa!
Não é de ânimo leve que apoio Marisa Matias. Há quase cinco anos lamentei que ela se apresentasse, retirando força à candidatura de Sampaio da Nóvoa, quando esta tinha o enorme potencial de unir toda a esquerda num combate com melhores hipóteses de vencer Marcelo. Mas, atendendo às circunstâncias, entendo-o como pecado menor, que justifica reticências, mas não impede um apoio justificado por a ver com potencial para ir muito além do universo do seu partido e representar a esquerda que não se verga aos valores do mercado e se dispõe a combater a pandemia social, que a sanitária apenas agravou.
Na apresentação de ontem, Marisa fez tudo bem: anunciou-se como republicana, laica e socialista, uma fórmula que remete para Mário Soares e em que a grande maioria dos socialistas se revê. Escolheu para cenário o Largo do Carmo com todo o simbolismo a ele inerente. Dispensou a presença dos dirigentes do seu partido numa clara afirmação de não se querer cingir a eles nos apoios. E, sobretudo, apresentou-se como candidata contra o medo, porque se este divide, a república une!
Que mais preciso para me sentir confortável na minha escolha?
Do blogue Ventos Semeados
Publicada por jorge rocha

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