Nos últimos anos, o processo de degradação do CDS tem sido rápido e evidente. Começou lentamente, na era pós-Paulo Portas, quando o país descobriu que o ex-líder de um partido supostamente centrista e de matriz democrata-cristã tinha transformado esta força partidária num centro de negócios, parecendo estar mais ao serviço de uma pequena elite de empresários das confederações patronais e da Mota-Engil do que propriamente ao serviço do povo português.
Aliás, vale a pena recordar que, após sair do Governo, Portas tornou-se Vice-Presidente da Confederação de Comércio e Indústria de Portugal e ainda Presidente de um dos Conselhos Estratégicos da Mota-Engil.
Com o acumular de escândalos ao longo dos anos, desde os €1,06 milhões em numerário levados à pressa da sede nacional do CDS-PP para depositar num balcão do BES até aos escândalos de corrupção envolvendo submarinos, ou mesmo a venda do Pavilhão Atlântico ao genro de Cavaco Silva, o CDS ficou irremediavelmente associado a vários dos maiores casos de corrupção do país nas últimas décadas.
Esse acumular de casos descredibilizou o partido, deixando-o numa deriva ideológica à procura do seu eleitorado. Assim, num dia, o partido encosta-se aos valores tradicionais da direita democrática. No dia seguinte, entrega-se às causas histéricas, sádicas e ditatoriais da extrema-direita. As campanhas de mentiras sobre a sexualização de crianças, mimetizando a extrema-direita torcionária de Bolsonaro, são o melhor exemplo deste desnorte do CDS.
O resultado é claro: com o surgimento do Chega, o antigo eleitorado ultra-conservador do CDS preferiu apostar no discurso de extrema-direita explícita e declarada de Ventura, em detrimento da defesa tímida que o CDS fez da extrema-direita durante vários anos (com especial incidência no programa homofóbico e na oposição à livre escolha da mulher no plano da saúde sexual e reprodutiva).
E foi assim que o CDS perdeu dois terços dos deputados que tinha no Parlamento.
Ao longo deste processo de degradação, houve uma figura do CDS que se manteve igual a si própria: Nuno Melo.
Não sendo propriamente célebre pelas suas qualidades intelectuais, o eurodeputado do CDS tem conseguido repetidamente superar-se, tendo entrado ultimamente numa espiral de notícias falsas que rivaliza apenas com o discurso de vigarista do líder do Chega. Aliás, se mostrarem os tweets de Melo e Ventura a várias pessoas, escondendo os autores de cada tweet, as pessoas já não saberão distinguir qual dos dois escreveu cada tweet, tamanhos são os disparates.
Nos últimos meses, Nuno Melo já mentiu sobre vários temas, com especial incidência sobre situações relacionadas com educação e crianças. Poderão consultar algumas dessas mentiras - e respectivas verificações de factos - no campo de fontes e referências desta publicação.
Recentemente, o eurodeputado do CDS voltou a repetir a propagação de mentiras, com uma história sobre uma suposta aula que foi interrompida para alunos assistirem a uma "palestra com associação sobre 67 tipos de sexualidade" e que falava ainda sobre "a atração sexual por objectos inanimados".
Questionado por várias pessoas sobre a fonte desta acusação, o dirigente do CDS recusa-se a dar mais informações, insiste na sua história e ainda insulta quem procura aferir os factos. A imagem desta publicação corresponde a uma troca de comentários nesse sentido, em que um interlocutor recorda a Melo que, na qualidade de funcionário público que aufere um salário de quase 9000 euros mensais, pagos com dinheiros públicos, Nuno Melo tem a responsabilidade de corroborar as acusações que faz.
As respostas de Melo revelam tudo o que há para saber sobre ele:
- Chama "tiranetes com tiques inquisitoriais" a pessoas que pedem esclarecimentos a políticos em cargos de poder.
- Insulta o interlocutor e diz-lhe que não tem cara de pessoa muito esforçada, o que é irónico, considerando as notícias que afirmam que Melo é o eurodeputado português que mais vezes faltou a votações do Parlamento Europeu.
- E ainda tem a distinta lata de sugerir que devemos agradecer-lhe por receber quase 9000 euros de salário no cargo de eurodeputado.
Com a inevitável reconfiguração da direita portuguesa, que precisa de encontrar novas estratégias para voltar ao poder, o arrastamento de PSD e CDS para a extrema-direita do Chega não augura nada de bom para a qualidade da democracia portuguesa.
Mas há um elemento positivo neste reenquadramento dos partidos no espectro político: muita da extrema-direita que se escondia de forma sonsa no CDS e no PSD começa agora a sair do armário. Agora, os inimigos da sociedade democrática plural e inclusiva começam a assumir-se sem grande timidez, e saber quem eles são é positivo.
Ainda assim, Nuno Melo não é um desses casos. Desde o discurso torcionário até à defesa do Vox - um partido abertamente apologista da ditadura de Franco -, há muito tempo que se sabia o que Nuno Melo é e ao que ele vem, ele agora só se sente mais à vontade para exprimi-lo.
Nuno Melo representa o Chega no C do CDS.
Fontes e referências:

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