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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A direita a devorar-se a si própria:


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Há uma protecção à figura institucional do Presidente da República que quase não carece de ser explicada por se compreender e aceitar intuitivamente. O regime precisa, a Assembleia da República necessita, os cidadãos esperam, que o garante do regular funcionamento das instituições democráticas mantenha a sua autoridade política e moral (não sendo o mesmo podem ser a mesma) num plano imaculadamente soberano. Por exemplo, do próprio Marcelo, então comentador, muitas vezes nos chegaram declarações com sorrisos de escárnio ao lembrar que Sócrates e o PS nada poderiam fazer contra os desvairados boicotes e ataques de Cavaco; pois quando os Governos e os partidos hostilizam o Presidente, acabam os primeiros por perder sempre o braço-de-ferro com o último. O povo está com a Presidência, advindo da eleição directa deste especialíssimo representante um poder único, plástico, críptico na arquitectura da República.

Será? Para mim, o episódio da “Inventona de Belém” marca a data em que tal complacência deixa de ser patriótica (ou decente, ou democrática, ou republicana, é escolher). O que se seguiu, o comportamento de Cavaco na noite da reeleição em que atacou os restantes candidatos após ter vencido, e o seu comício no discurso solene da tomada de posse, em que pré-anunciou o afundanço de Portugal na crise devastadora que promoveu sonsa e cinicamente, crise resultante do chumbo do PEC IV que até Merkel achou inacreditável não se ter evitado, confirmaram os idos do Verão de 2009. Um Presidente que não respeita o bem comum nem se dá ao respeito, um Presidente que prefere o interesse pessoal ao interesse nacional, não é apenas inepto para a função, acumula com ser um dos maiores perigos políticos e sociais para a comunidade.

É só por não termos imprensa, e a comunicação social estar na sua enorme maioria na mão da direita, que o episódio de Marcelo Rebelo de Sousa em despique verbal com uma popular, acima exposto, não provoca um escândalo para a História. Do princípio ao fim, incluindo as justificações aos jornalistas, vemos um sujeito amedrontado, impaciente, confuso e desleixado. Claro, o sujeito que preenche a figura institucional de Presidente da República pode, em variegadas circunstâncias, mostrar-se em público desleixado, confuso, impaciente e amedrontado sem que tal nos deva afligir dado concordarmos em ter um ser humano a desempenhar essas funções. Mas é preciso que a realidade em causa confirme essa bondade. No caso da Feira do Livro do Porto, a brutal realidade infirma-a e deixa-nos com um pavoroso diagnóstico entre mãos: o Professor de Direito esqueceu o dito, o católico não se lembra do Evangelho nem da catequese, o político odeia o Parlamento e o chefe de Estado não faz ideia de quando é que se aumentou o salário mínimo. Perante uma pessoa num estado mental exaltado, com um discurso provocatório e a passos demente, o “presidente dos afectos”, que fica tão bem nas fotografias popularuchas e populistas, colocou-se ao nível psicologicamente miserável de quem o acossava, primeiro, e depois deu por si afundado no vazio, ao nada encontrar para responder a quem lhe perguntou se conseguiria viver com 580 euros por mês e se aceitaria trocar de casa. Este vazio imprevistamente exposto no espaço público está saturado de outros vazios, é um vazio asfixiante e esmagador. Usar os mortos e a destruição dos fogos de 2017 para fazer brilharetes frente às câmaras e deixar os direitolas em êxtase com mais uma cabeça cortada na Hidra socialista é fácil num artista deste calibre, saber o que dizer a quem aponta um telemóvel e dispara rajadas de desigualdade de tudo e por tudo já não é matéria que se ensine no circuito das melhores famílias de Cascais.

Cavaco foi o líder da direita durante três décadas. Marcelo tem sido o líder da direita desde que entrou em Belém. Os decadentes estão em campanha para que Passos Coelho volte como líder da direita. E André Ventura, no seu deboche crescente, vai angariando pilha-galinhas, rufias, trafulhas e psicopatas para brincar aos líderes da direita posto que ele vem desde Loures a constatar que vale tudo nesse deserto de ideias e de ética onde montou a barraca. O que Marcelo mostrou, numa insólita tarde de final de Agosto, é que não há grandes diferenças entre estas quatro figuras. No essencial, nem conseguem viver com 580 euros por mês nem tencionam sujeitar os pobrezinhos ao incómodo de trocarem de casa com eles.

Do blogue Aspirina B

POR VALUPI 5 COMENTÁRIOS 


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