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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Os velhos fascistas continuam a saber dançar. Texto de Júlio Gago no FB:

Divagando, com a minha fisgada... Nos anos sessenta, entre 1965 e 1968, fui quatro anos consecutivos com o Teatro Experimental do Porto a Coimbra, ao Teatro Avenida, participando no Festival de Teatro do CITAC. Aliás, já desde 1959 que o TEP participava nesse Festival. Sempre reconheci a forma cordata e amiga com que fomos recebidos pelos estudantes, maioritariamente, já, de esquerda, e as ceias-debate que se seguiam no Mandarim. Alguns dos amigos, então estudantes da mais antiga Universidade portuguesa, ainda hoje são meus amigos e até, uns quantos no facebook. Penso que foi em 1967, quando o TEP lá levou O TEMPO E A IRA, de John Osborne, na encenação do Fernando Gusmão, e nos dirigíamos para o Mandarim, no final do espectáculo, um grupo de energúmenos, dirigidos por um tipo chamado José Miguel Júdice tentou provocar-nos, provocando, igualmente, os estudantes que nos acompanhavam e um professor, o Orlando Carvalho, um amigo de sempre, da Faculdade de Direito. Desses energúmenos, de extrema-direita, fascistas que contestavam Salazar pela direita, fazia parte um tal de Goulart Nogueira, salazarista convicto, que viria a dirigir o OTUC (Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra), mas que escrevia, em jornais, críticas de teatro e se emproava em poses de artista... No entanto, foi este tipo que acalmou o grupo de díscolos quando já estávamos para entrar em confronto. E, levou-os para outro local... Nós prosseguimos até ao Mandarim. Não me esqueci desse José Miguel Júdice, então leader dessa extrema-direita, que tinham as suas instituições coimbrãs, e seriam, dos poucos que furariam a greve académica aos exames, em 1969 a seguir à Crise. Com ele, entre outros, o Diogo Pacheco de Amorim (hoje ideólogo de um partido que dá pelo nome de Chega), que eu já conhecia do Porto... Conheci cada um!... Pois estes dois tipos, que após o 25 de Abril de 1974, integraram o ELP e o MDLP, organizações sinistras que fizeram atentados, com mortos, sobretudo na região Norte, diziam-se sucessores de outros fascistas ultra-direitistas de Coimbra, como de Caetano de Melo Beirão, António José de Brito, José Valle de Figueiredo, Lucas Pires (estes dois viriam a modificar os seus comportamentos) e outros. Mais tarde, contestariam o próprio Marcelo Caetano numa linha salazarista. Bruscamente, durante anos, passei a ver o tal Júdice, como se fosse um 'democrata", a perorar em órgãos da comunicação social, inclusive nas televisões, a ser Bastonário da Ordem dos Advogados, a ser do PSD, do qual se afastaria, a ser, também, apoiante do António Costa na candidatura deste à Câmara Municipal de Lisboa... Passou a ser um conhecido advogado de negócios, um jogador de um outro campo, um ganhador de dinheiros, um empresário de "sucesso"; sem nunca deixar de ser um fascista como surge, agora mais abertamente, numa televisão. Sim, este senhor que agora comenta, semanalmente, numa das televisões (não lhe faço publicidade), é, rigorosamente, o mesmo fascista de Coimbra do episódio que contei nesta nota. Depois, criou a Cidadela, etc., etc.
Na Europa, já o comentei por aqui, está um fascista norte-americano, Steve Bannon, a dar uma linha de seguimento aos diferentes fascistas europeus, de Salvini a Órban, de Marine Le Pen a tantos outros fascistas, tentando montar caminhos para as governanças, depois de ser o estratega que levou Trump ao poder nos Estados Unidos. E deu uma ajuda a Bolsonaro no Brasil, embora este, sendo mais burro, esteja a preparar quiçá a sua "saída"... E, certamente, com Portugal nos seus planos; e já com a sua acção encaminhada. Ora, eu sou dos que não tenho medo do gajo do Chega, que é um oportunista que diz uma coisa e no dia seguinte o seu contrário, e que, estou convencido, nunca chegará aos 10% do eleitorado. Mas, já não tenho essa opinião sobre o seu número 2, o tal Pacheco de Amorim, e muito menos sobre o dito José Miguel Júdice, mais velho do que eu oito dias. Este senhor está numa estratégia de ascenção, com táticas adequadas e um canal para a sua garganta, "novamente" fascista e descaradamente. Somente a reflectir efeitos sobre uma direita e um centro, que não sabem falar sobre a esquerda (belo artigo o de Pacheco Pereira, há dias, sobre a ignorância da direita e do centro sobre o que é o marxismo e a esquerda), e o poderão apoiar. Tenho mais medo da acção desses senhores Júdice e Pacheco de Amorim do que dos "chegas"... E do apoio de "anti-fascistas" de hoje. Hitler e Mussolini chegaram ao poder pela via eleitoral; e, eu, não sou ultra-democrata...A minha luta é contra esses díscolos... E, contra o Bannon... Precisaremos de ver mais longe... Obviamente.

13 h · Público

Carlos Matos Gomes está com Rui Figueiredo.

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