Divagando, com a minha fisgada...
Nos anos sessenta, entre 1965 e 1968, fui quatro anos consecutivos com o Teatro
Experimental do Porto a Coimbra, ao Teatro Avenida, participando no Festival de
Teatro do CITAC. Aliás, já desde 1959 que o TEP participava nesse Festival.
Sempre reconheci a forma cordata e amiga com que fomos recebidos pelos
estudantes, maioritariamente, já, de esquerda, e as ceias-debate que se seguiam
no Mandarim. Alguns dos amigos, então estudantes da mais antiga Universidade
portuguesa, ainda hoje são meus amigos e até, uns quantos no facebook. Penso
que foi em 1967, quando o TEP lá levou O TEMPO E A IRA, de John Osborne, na
encenação do Fernando Gusmão, e nos dirigíamos para o Mandarim, no final do
espectáculo, um grupo de energúmenos, dirigidos por um tipo chamado José Miguel
Júdice tentou provocar-nos, provocando, igualmente, os estudantes que nos
acompanhavam e um professor, o Orlando Carvalho, um amigo de sempre, da
Faculdade de Direito. Desses energúmenos, de extrema-direita, fascistas que
contestavam Salazar pela direita, fazia parte um tal de Goulart Nogueira,
salazarista convicto, que viria a dirigir o OTUC (Oficina de Teatro da
Universidade de Coimbra), mas que escrevia, em jornais, críticas de teatro e se
emproava em poses de artista... No entanto, foi este tipo que acalmou o grupo
de díscolos quando já estávamos para entrar em confronto. E, levou-os para
outro local... Nós prosseguimos até ao Mandarim. Não me esqueci desse José
Miguel Júdice, então leader dessa extrema-direita, que tinham as suas
instituições coimbrãs, e seriam, dos poucos que furariam a greve académica aos
exames, em 1969 a seguir à Crise. Com ele, entre outros, o Diogo Pacheco de
Amorim (hoje ideólogo de um partido que dá pelo nome de Chega), que eu já
conhecia do Porto... Conheci cada um!... Pois estes dois tipos, que após o 25
de Abril de 1974, integraram o ELP e o MDLP, organizações sinistras que fizeram
atentados, com mortos, sobretudo na região Norte, diziam-se sucessores de
outros fascistas ultra-direitistas de Coimbra, como de Caetano de Melo Beirão,
António José de Brito, José Valle de Figueiredo, Lucas Pires (estes dois viriam
a modificar os seus comportamentos) e outros. Mais tarde, contestariam o
próprio Marcelo Caetano numa linha salazarista. Bruscamente, durante anos,
passei a ver o tal Júdice, como se fosse um 'democrata", a perorar em
órgãos da comunicação social, inclusive nas televisões, a ser Bastonário da
Ordem dos Advogados, a ser do PSD, do qual se afastaria, a ser, também,
apoiante do António Costa na candidatura deste à Câmara Municipal de Lisboa...
Passou a ser um conhecido advogado de negócios, um jogador de um outro campo,
um ganhador de dinheiros, um empresário de "sucesso"; sem nunca
deixar de ser um fascista como surge, agora mais abertamente, numa televisão.
Sim, este senhor que agora comenta, semanalmente, numa das televisões (não lhe
faço publicidade), é, rigorosamente, o mesmo fascista de Coimbra do episódio
que contei nesta nota. Depois, criou a Cidadela, etc., etc.
Na Europa, já o comentei por
aqui, está um fascista norte-americano, Steve Bannon, a dar uma linha de
seguimento aos diferentes fascistas europeus, de Salvini a Órban, de Marine Le
Pen a tantos outros fascistas, tentando montar caminhos para as governanças,
depois de ser o estratega que levou Trump ao poder nos Estados Unidos. E deu
uma ajuda a Bolsonaro no Brasil, embora este, sendo mais burro, esteja a
preparar quiçá a sua "saída"... E, certamente, com Portugal nos seus
planos; e já com a sua acção encaminhada. Ora, eu sou dos que não tenho medo do
gajo do Chega, que é um oportunista que diz uma coisa e no dia seguinte o seu
contrário, e que, estou convencido, nunca chegará aos 10% do eleitorado. Mas,
já não tenho essa opinião sobre o seu número 2, o tal Pacheco de Amorim, e
muito menos sobre o dito José Miguel Júdice, mais velho do que eu oito dias.
Este senhor está numa estratégia de ascenção, com táticas adequadas e um canal
para a sua garganta, "novamente" fascista e descaradamente. Somente a
reflectir efeitos sobre uma direita e um centro, que não sabem falar sobre a
esquerda (belo artigo o de Pacheco Pereira, há dias, sobre a ignorância da
direita e do centro sobre o que é o marxismo e a esquerda), e o poderão apoiar.
Tenho mais medo da acção desses senhores Júdice e Pacheco de Amorim do que dos
"chegas"... E do apoio de "anti-fascistas" de hoje. Hitler
e Mussolini chegaram ao poder pela via eleitoral; e, eu, não sou
ultra-democrata...A minha luta é contra esses díscolos... E, contra o Bannon...
Precisaremos de ver mais longe... Obviamente.
13 h · Público
Carlos Matos Gomes está com Rui
Figueiredo.

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