Sim! Com a determinação do Estado
de Emergência acabou o Ponto de Encontro. Há tempos escrevi dois textos sobre
esses pontos de encontros e que se davam nos velórios de funerais. Ali
encontravam-se amigos e durante a espera da despedida do falecida/o
comentava-se um pouco de tudo. De Futebol, de Política, do quotidiano e algo
mais.
Agora com todos remetidos à sua
casa só na internet através do Facebook é que alguns aproveitam para dar parte
da sua existência.
Deixou-se de ouvir as opiniões
seguidas de discussões que as obras no Centro da Cidade estão atrasadas, que as
Festas Sebastianas vão ser de arromba, o S. C. Freamunde não vai descer de
divisão, que a limpeza da Cidade está pela rua da amargura, os buracos na via
pública são de mais. Que o Governo só desgoverna. Que a Justiça é injusta.
Tudo isto era passado no Café das
Sebastianas. Ali, digo ali, porque agora o Café encontra-se encerrado.
Falava-se de tudo além de uma suecada ao vota fora. Que fulano jogava mal, ele
é que era bom, chegando ao ponto de por vezes os ânimos estarem mais exaltados.
Todos tem certezas e conselhos,
mas se estes fossem eficazes não eram dados, mas vendidos. Era uma forma de
negócio.
Há os que tem a sua opinião, mas de um momento
para o outro modifica-a conforme o interlocutor em questão. São os que andam ao
sabor do vento.
E estes fazem-me lembrar a Fábula
“O velho, o menino e o burro” que passo a contar:
“O burrico vinha trotando pela estrada. De um
lado vinha o velho, puxando o cabresto. Do outro vinha o menino, contente, que
o dia estava fresquinho e o sol brilhava no céu.
Sentados no barranco estavam dois
homens. Quando viram o burro, o velho e o menino, disse um para o outro:
– Veja só, compadre! Que
despropósito! Em vez do velho estar montado no burro, vem a pé a puxar por ele!
O velho e o menino olharam um
para o outro. Assim que viraram a primeira curva, o velho parou o burro e
montou-o. O menino segurou o cabresto e lá se foram os três, muito satisfeitos.
Até que perto da ponte havia uma casa com uma mulher a janela.
– Olha só, Maria, vem ver isto! O
velho no bem-bom, montado no burro, e o pobre do menino a andar pé!
O velho e o menino olharam de
novo um para o outro. Assim que saíram do alcance da vista da mulher, o velho
desceu do burro e sentou o menino na sela. E foram andando um pouco
ressabiados, o velho puxando o burro pelo cabresto, pensando no que o povo
podia dizer.
Logo, logo, passaram a uma porta
onde estavam paradas uma velha e uma menina.
– Mas que absurdo, pessoal! Um
velho que nem se aguenta nas pernas a andar a pé, e a criança, bem
sem-vergonha, escanchado no burro!
Os dois se olharam e nem
esperaram. O velho mais que depressa montou na garupa do burro e lá se foram os
três. Dali a pouco encontraram um padre que vinha pela estrada mais o
sacristão:
– Olha só, que pecado, onde é que
já se viu? O pobre do burro, coitadinho, carregando dois preguiçosos! Mas isso
é coisa que se faça?
O velho e o menino, desanimados,
desmontaram e nem discutiram, saíram carregando o burro. Mas nem assim o povo
sossegou! Cada vez que passavam por alguém, era só risada!
– Olha só os dois burros
carregando o terceiro!
Quando chegaram em casa, o velho
se sentou cansado, se assoprando:
– Bem feito! — ele dizia. — Bem
feito!
– Bem feito o quê, vô?
– Bem feito para nós. Que a gente
já faz muito de pensar pela própria cabeça, e ainda quer pensar pela cabeça dos
outros. Agora eu sei por que é que meu pai dizia:
– Quem quer agradar a todos a si
próprio não faz bem! Pois só faz papel de burro e não agrada a ninguém!”
Assim nestes dias não se pode
discordar verbalmente porque estamos remetidos ao nosso lar. Mas que já tenho
saudades de um bate-papo numa roda de amigos lá isso tenho e, de um aperto de
mão dado com fraternidade.
Mas enquanto isso vou-me
dedicando a escrever uns textos para dar cabo das vinte e quatro horas diárias
e da cabeça de quem tem a pachorra para me ler.
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