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domingo, 22 de março de 2020

Veio o sossego acabou a maledicência:


Sim! Com a determinação do Estado de Emergência acabou o Ponto de Encontro. Há tempos escrevi dois textos sobre esses pontos de encontros e que se davam nos velórios de funerais. Ali encontravam-se amigos e durante a espera da despedida do falecida/o comentava-se um pouco de tudo. De Futebol, de Política, do quotidiano e algo mais.

Agora com todos remetidos à sua casa só na internet através do Facebook é que alguns aproveitam para dar parte da sua existência.

Deixou-se de ouvir as opiniões seguidas de discussões que as obras no Centro da Cidade estão atrasadas, que as Festas Sebastianas vão ser de arromba, o S. C. Freamunde não vai descer de divisão, que a limpeza da Cidade está pela rua da amargura, os buracos na via pública são de mais. Que o Governo só desgoverna. Que a Justiça é injusta.

Tudo isto era passado no Café das Sebastianas. Ali, digo ali, porque agora o Café encontra-se encerrado. Falava-se de tudo além de uma suecada ao vota fora. Que fulano jogava mal, ele é que era bom, chegando ao ponto de por vezes os ânimos estarem mais exaltados.

Todos tem certezas e conselhos, mas se estes fossem eficazes não eram dados, mas vendidos. Era uma forma de negócio.

 Há os que tem a sua opinião, mas de um momento para o outro modifica-a conforme o interlocutor em questão. São os que andam ao sabor do vento.

E estes fazem-me lembrar a Fábula “O velho, o menino e o burro” que passo a contar:

 “O burrico vinha trotando pela estrada. De um lado vinha o velho, puxando o cabresto. Do outro vinha o menino, contente, que o dia estava fresquinho e o sol brilhava no céu.

Sentados no barranco estavam dois homens. Quando viram o burro, o velho e o menino, disse um para o outro:

– Veja só, compadre! Que despropósito! Em vez do velho estar montado no burro, vem a pé a puxar por ele!

O velho e o menino olharam um para o outro. Assim que viraram a primeira curva, o velho parou o burro e montou-o. O menino segurou o cabresto e lá se foram os três, muito satisfeitos. Até que perto da ponte havia uma casa com uma mulher a janela.

– Olha só, Maria, vem ver isto! O velho no bem-bom, montado no burro, e o pobre do menino a andar pé!

O velho e o menino olharam de novo um para o outro. Assim que saíram do alcance da vista da mulher, o velho desceu do burro e sentou o menino na sela. E foram andando um pouco ressabiados, o velho puxando o burro pelo cabresto, pensando no que o povo podia dizer.

Logo, logo, passaram a uma porta onde estavam paradas uma velha e uma menina.

– Mas que absurdo, pessoal! Um velho que nem se aguenta nas pernas a andar a pé, e a criança, bem sem-vergonha, escanchado no burro!

Os dois se olharam e nem esperaram. O velho mais que depressa montou na garupa do burro e lá se foram os três. Dali a pouco encontraram um padre que vinha pela estrada mais o sacristão:

– Olha só, que pecado, onde é que já se viu? O pobre do burro, coitadinho, carregando dois preguiçosos! Mas isso é coisa que se faça?

O velho e o menino, desanimados, desmontaram e nem discutiram, saíram carregando o burro. Mas nem assim o povo sossegou! Cada vez que passavam por alguém, era só risada!
– Olha só os dois burros carregando o terceiro!

Quando chegaram em casa, o velho se sentou cansado, se assoprando:

– Bem feito! — ele dizia. — Bem feito!

– Bem feito o quê, vô?

– Bem feito para nós. Que a gente já faz muito de pensar pela própria cabeça, e ainda quer pensar pela cabeça dos outros. Agora eu sei por que é que meu pai dizia:

– Quem quer agradar a todos a si próprio não faz bem! Pois só faz papel de burro e não agrada a ninguém!”

Assim nestes dias não se pode discordar verbalmente porque estamos remetidos ao nosso lar. Mas que já tenho saudades de um bate-papo numa roda de amigos lá isso tenho e, de um aperto de mão dado com fraternidade.

Mas enquanto isso vou-me dedicando a escrever uns textos para dar cabo das vinte e quatro horas diárias e da cabeça de quem tem a pachorra para me ler.

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