Passámos o primeiro domingo em
estado de emergência e as inquietações podem moderar-se com a constatação de só
termos a epidemia a crescer em progressão aritmética, e não exponencial, o que
prefigura a possibilidade de o nosso saldo final de infetados e vítimas mortais
não equiparar-se ao verificado por quase toda a Europa. Tanto mais que, quer em
Espanha, quer em Itália - mesmo ainda correspondendo a números assustadores -,
a curva parece finalmente achatar-se, tendendo para a almejada inflexão. Mas, a
serem verdadeiras as imagens de gente a passear-se por marginais de algumas
cidades, ostensivamente a desrespeitarem as regras impostas pelas
circunstâncias, temos de reconhecer que a inépcia mental ganha em algumas
cabeças uma perigosidade acima da do próprio vírus.
Nas redes sociais há quem levante
uma questão pertinente: podemos imaginar o molho de brócolos em que nos
veríamos se não tivéssemos António Costa como primeiro-ministro? Se fosse
Passos Coelho a liderar o combate à ameaça com o velho preconceito neoliberal
de ser judiciosa a ideia de «menos Estado, melhor Estado»? Ou mesmo Rui Rio,
que nos tem brindado nos meses anteriores e subsequentes á da sua confirmação
como presidente do PSD, com inauditas contradições com o que aparentemente
algum dia terá defendido, apenas movido pela lógica do bota-abaixo? Se com um
governo a tática pode colher sucesso, ainda que reduzido, junto dos
cristalizados antissocialistas, ela de nada serviria com um vírus contra o qual
pagaríamos avultados custos com tais ambiguidades.
Há, porém, algo que, de
além-Pirenéus, está a sobrar como inesperada consequência desta crise: o de
figurões em tempos aparentados aos socialistas andarem agora a descobrir as
virtudes do Estado e os malefícios dos mercados. Emmanuel Macron, que tanto
ajudou François Hollande a quase destruir o PS francês, veio agora dizer com
falsa candura que “será preciso amanhã tirar lições do momento que
atravessamos, interrogar o modelo de desenvolvimento em que há décadas o nosso
mundo se envolveu e que agora mostra as suas falhas à luz do dia, questionando
também as fraquezas das nossas democracias.”
O espanto não fica por aqui: o
antigo quadro do Banco Rothschild não se limita a criticar o capitalismo
selvagem também reconhecendo que “há bens e serviços que devem ser colocados
fora das leis do mercado”. Jesus, que
sabemos ter dado a visão a cegos e curado leprosos, dificilmente conseguiria
tal milagre: a conversão de um tão dedicado paladino da financeirização das
economias à bondade das receitas socialistas.
No mesmo sentido pronunciou-se
Jacques Attali, que foi conselheiro de Mitterrand e depois flirtou com a
presidência de Sarkozy. Numa entrevista afirma ter colhido da História a lição
de só evoluirmos decisivamente, enquanto Humanidade, quando vivemos a
experiência do medo. Por isso pressupõe virem aí tempos de virar costas a uma
sociedade baseada no egoísmo e no lucro, privilegiando a empatia e o altruísmo.
Não é que estas confissões de fé
dos arrependidos da decadente social-democracia nos devam comover. Pelo
contrário até podem significar que, perante a perspetiva de se tornarem
imperiosos os valores do socialismo democrático, os paladinos da sua contenção
em proveito dos que defendem os interesses dos mercados, venham propor novas
versões recauchutadas da falaciosa Terceira Via. Na tal lógica de parecendo
mudar alguma coisa, deixarem tudo na mesma...
Publicada por jorge rocha
Do blogue Ventos Semeados

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