Numa entrevista a Jürgen
Habermas, porventura o filósofo vivo mais influente do Ocidente, o
entrevistador perguntou o que pensava da decadência da figura do intelectual
comprometido, que teve um papel de relevo na formação da opinião pública
ocidental nos anos 60 e 70 do século XX. Habermas respondeu que a deterioração
das estruturas do que podemos designar por esfera pública foi determinante para
essa decadência.
De facto, os intelectuais
comprometidos com o progresso (entendido em termos civilizacionais) não podem
existir onde já não há público para receber os seus argumentos e pensamentos.
Onde a terra por cultivar foi calcinada, onde foi lançado ácido vendido como
adubo.
O grande inimigo do intelectual
comprometido é a fragilidade da esfera pública, da sociedade enquanto ator
político coletivo. O intelectual comprometido só sobrevive enquanto espécie
viável num meio com certos pressupostos culturais e sociais, num meio que se
interessa por política, pela polis, num meio propício ao conflito das ideias.
Hoje em dia já não existe esse meio com tradição intelectual que remontava à
Grécia. A sociedade das tecnologias da informação, da globalização, do
neoliberalismo, destruiu-o, como as alterações climáticas destruíram o ambiente
provocando alterações que inviabilizaram a vida de certas espécies.
A atual sociedade da informação
implantada a partir do Ocidente é a sociedade do vazio. A sociedade da palmilha
do telemóvel com um ser atrelado.
O efeito fragmentador da Internet
deslocou o papel dos meios de comunicação tradicionais, pelo menos entre as
novas gerações. Mas a desintegração dos laços sociais já começara antes de
surgirem as tendências atomizadoras das novas sociedades. A desintegração da
esfera da intervenção pública iniciara-se com o que podemos designar pela
mercantilização da atenção, isto é, pelo negócio de atrair consumidores a
mercados específicos de ilusão de que cada um é livre de escolher e irresponsável
pelas suas escolhas. Um mundo de que o supermercado é o paradigma.
Os Estados Unidos, com o domínio
exclusivo da televisão privada, são um exemplo chocante da atomização e da
destruição de laços que permitem a defesa de uma sociedade contra os seus
predadores, os falsos profetas de que basta obedecer para ser feliz e aceder a
tudo.
Os novos meios de comunicação, as
redes e a publicidade subliminar, intensificaram o efeito corruptor de elos de
ligação entre indivíduos, de que a alteração de designações é um exemplo, de
trabalhadores para colaboradores, de consumidor e utente em vez de cidadão, de
uberização, do empresário a título individual, da “estrela”, do “famoso”.
O individuo, indefeso, está à
mercê de uma modalidade da mais insidiosa forma de mercantilização, cujo
objetivo é desviar a atenção dos cidadãos da exploração económica e levá-los a
aceitarem serem desarmados das suas defesas. A título de exemplo, os dados dos
clientes são roubados sem o seu conhecimento para melhor serem manipulados
enquanto consumidores e enquanto cidadãos, como acabamos de saber pelos
escândalos do Facebook Cambridge Analytica.
Neste processo de perversidade
política, o intelectual comprometido é visto como uma ameaça pelo sistema de
destruição de laços e de cilindragem das opiniões públicas organizadas para
obter produtos normalizados e padronizados. As vacarias e os aviários são os
modelos a reproduzir para enquadrar política e socialmente os humanos, e
substituem os sindicatos, as comissões, as associações políticas, as
assembleias (exceto as de acionistas). A comunicação de massas serve esse
objetivo.
Lenine deixou a interrogação: Que
fazer? O intelectual comprometido deve procurar respostas para encontrar o que
é necessário fazer e esse é que é o busílis da questão A grande questão do
intelectual é perguntar o que é preciso fazer. Ora o sistema de domínio atual –
o neoliberalismo – sabe o que é necessário fazer para manter e aprofundar o seu
domínio. Não necessita de intelectuais, necessita de bonecos de ventríloquo –
os comentadores avençados e domesticados.
A grande manobra, a grande
revolução a que assistimos desde os anos 80 e que é designada por
neoliberalismo ou globalização, que conduziu à financiarização da economia e à
judicialização da política, foi e está a ser levada a cabo através da captura
dos meios de manipulação de massas. A revolução neoliberal conquistou a partir
de dentro os instrumentos de comunicação, expulsando os intelectuais
comprometidos, acusados de falta de isenção, de neutralidade, de marxismo, de
militância, e promovendo os seus altifalantes (egos falantes) à categoria de
missionários. São estes “meninos de Deus” que surgem nos ecrãs e no espaço da
opinião pública e que substituíram os agentes de uma reflexão útil e
utilitária.
Na medida em que o sistema de
domínio, e é disso que se trata nos meios de comunicação e nas redes sociais,
pretende definir quais são as condições de adaptação das teorias gerais da
sobredeterminância do individualismo às particularidades de uma sociedade
concreta, assim vai atribuindo diferentes papéis aos seus instrumentos na
orquestra de vendedores com lugar cativo nos meios de comunicação.
E assim ganham a vida tipos como
Paulo Portas, Marques Mendes, José Gomes Ferreira, Fátima Bonifácio, Rogeiro,
Fernandes, Rodrigues dos Santos e tantos outros saídos na sua maioria do ninho
de serpente de “O Observador”, que fornece “comentadores” ao domicílio como a
Uber fornece táxis e refeições de fast food. Esses títeres com formas de patos
ou de robertos que abrem e fecham a boca manipulados pela mão do dono e falam
pela sua voz saída das entranhas circulam pelas cadeiras das redações e pelos
ecrãs das televisões, sempre os mesmos, caninamente fidelizados.
Os movimentos de compra e venda
de meios de comunicação, de troca de peões nas estações de televisão fazem
parte da estratégia de Steve Bannon, o papa da extrema-direita americana, que
depois do sucesso na eleição de Trump anunciou a transferência para a Europa, a
fim de organizar uma nova operação política, capaz de unir os partidos
populistas do continente europeu. Para atingir esse objetivo criou The Movement
(O Movimento) e estamos a assistir aqui em Portugal à promoção dos seus
mercenários, substituindo os intelectuais que antigamente intervinham no espaço
público.
O que, em boa parte, os meios de
comunicação social nos apresentam hoje nos seus ecrãs são gangsters, dêem-lhe o
nome que quiserem!

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