As medidas que os governos
europeus estão a tomar para lutarem contra as opiniões públicas em pânico real
ou deliberadamente induzido quanto aos perigos das hordas bárbaras armadas com
o coronavírus Codiv-19 são uma adaptação da velha tática da terra queimada.
O governo português aderiu a essa
modalidade de resposta a uma ameaça. Aplaudimos, mas haverá uma conta a pagar.
Convém ter consciência de que a conta não será paga em banhos de sol e cervejas
nas praias de Carcavelos, ou do Algarve, nem em rolos de papel higiénico, já
agora!
Parece terem sido os chineses
(sempre os chineses) os primeiros a utilizar a prática de queimar as colheitas
para negar ao inimigo fontes de alimento. Em Portugal a prática foi utilizada
durante as invasões napoleónicas, por exemplo, e as tropas de Napoleão já
haviam imposto a mesma resposta aos russos na desastrosa invasão que tentaram.
Os russos tiveram de repetir a destruição dos seus bens de sobrevivência na II
GM, para dificultar a invasão nazi da União Soviética. Hitler tinha lido a
campanha de Napoleão, com pouco proveito, aliás. Dois loucos com os mesmos
truques. Mas já os gauleses de Vercingetroix
a utilizaram contra os romanos. Nada de novo. Sendo certo que a prática
da terra queimada tem merecido historicamente a resistência dos povos, sendo
imposta pela força.
A novidade desta repetição a
propósito do Covid 19 é o apoio dos povos! No caso dos europeus a explicação
deve residir na ideia da bondade e capacidade dos Estados de bem-estar do
pós-II Guerra tratarem deles e lhes pagarem os bens queimados. Não estou seguro
dessa bondade e capacidade, que até um troca-tintas como um Ventura, que andou
a vender um programa político de desmantelamento dos serviços públicos –
incluindo o de saúde e de previdência social – agora parece apoiar. Ficamos a
saber que o coronavírus não ataca os aldrabões!
Alguns governos europeus
decretaram medidas do tipo: Fecha-se tudo! Mesmo à custa de destruir o aparelho
produtivo, para negar alimento ao Codiv-19. A sociedade, tal como os povos
historicamente sujeitos às políticas de terra queimada viverão das reservas até
ser possível e depois sucumbirão, não ao inimigo que causou a automutilação,
mas à tática utilizada para o afugentar.
Estamos no mundo da ilusão e da
demagogia. Populismo em estado puro.
O Codiv 19 merece uma política de
terra queimada? Que devastações já provocou o dito nos territórios e povos por
onde passou? Quem atacou? O que destruiu? Com que outras hordas de inimigos é
comparável?
Há estudos já disponíveis sobre a
sua mortalidade, velocidade de propagação, grupos de risco. O que sabemos sobre
o Covid 19 exige que seja decretada e imposta a política de terra queimada e os
sacrifícios que por ela fatalmente pagaremos?
Em termos de decisões militares,
a da terra queimada é a mais desesperada. Em termos políticos parece ser a mais
fácil de tomar para responder ao pânico dos populistas e demagogos.
Uma entrevista na RTP 3 ao tal
deputado Ventura para quem toda a fossa é alimento, é esclarecedora: para ele o
decreto da terra queimada já vem atrasado. O governo já devia ter colocado os
portugueses a comer e a beber por conta do Estado há muito. Desde a primeira
notícia do aparecimento do bárbaro Covid 19 na China que se estava mesmo a ver
que isto ia dar no desastre em que vivemos (mas vivemos em situação de
calamidade, ou de pânico?). Para quem defende o fim dos serviços públicos
essenciais, saúde, educação, segurança social a afirmação é apenas mais uma
prova de canalhice de um capaz (um capado) de tudo, até de ir espalhar vírus
desde maternidades a lares de idosos.
Há dias os portugueses discutiam
a necessidade democrática de um referendo para não ser considerado crime o
auxílio a uma morte digna a quem está sujeito a um sofrimento intolerável – a
descriminalizar a eutanásia e não a torna-la obrigatória –, agora aceitamos com
normalidade e até aplauso uma política de terra queimada e até damos voz a um
irresponsável troca tintas comentadeiro de futebol que critica o atraso das
queimadas das colheitas e das reservas de um país!
No Jornal Tornado
13 Março, 2020
Carlos de Matos Gomes
Por opção do autor, este artigo
respeita o AO90


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