A actual crise de saúde por causa
do coronavírus gera mortes directas mas também pode causar mortes e doenças
indirectas ao diminuir os recursos terapêuticos para doentes presentes e
futuros de outras patologias, os quais ficarão privados da assistência adequada,
uns, e que serão vítimas do crescimento das falhas aleatórias e limitações
sistémicas, outros. Tal é não só inevitável como acaba por ser bondoso face à
escala do perigo que nos ameaça: uma infecção potencialmente letal que progride
de modo fulminante, ameaçando interromper a produção e serviços em todos os
países de todos os continentes, e quase ao mesmo tempo. Ter uma reacção de
pânico corresponde, neste caso, à manifestação de se estar lúcido. A essência
da vida em comunidade está ameaçada, qualquer outro ser humano é uma potencial
ameaça para cada um de nós e para os nossos mais próximos.
Há muitas e radicais diferenças,
mas também alguns paralelos, com a crise económica de 2008. Então, quem estava
no topo da pirâmide social sabia que iria ter uma qualquer diminuição do
património, menos dinheiro e quiçá menos propriedades e bens. Uma privação de
riqueza que poderia ser fonte de muita angústia e pesar durante alguns anos mas
que em nada ameaçava a segurança e a qualidade da vida quotidiana. Para os
ricos, para a classe média alta, as casas continuariam confortáveis e giras, os
carros luxuosos, os médicos do melhor, os putos a passarem os dias nas escolas
e universidades de elite, as férias se não ali então aqui, os trapos sempre
estilosos e ostensivos. Era logo abaixo que começava a crise crítica, a qual
implicava abdicar daquilo que fazia com que a vidinha fosse remediada e sempre
no arame. A classe média e média baixa passava a contar tostões como o pé
descalço, a fazer a mala e partir, mergulhadas num poço sem fundo de problemas
de finanças, de saúde e de tragédias relacionais. Ainda hoje ninguém fez o
cálculo em doenças e mortes que se possam explicar com a decisão tomada pela
Assembleia da República no dia 23 de Março de 2011. Nem se fará, pois esse dia
uniu direita e esquerda numa escolha irracional cuja única lógica foi a da
política da terra queimada, um suicídio partidário que entregou o País a um
grupo de fanáticos que fizeram uma campanha eleitoral mentirosa e que
governaram com cegueira e ódio. Porém, nessa crise a produção estava apenas
economicamente condicionada, localmente mas não internacionalmente, e os
serviços continuavam ao dispor, embora com acesso mais dificultado pela
“austeridade salvífica”. Já na crise do coronavírus, em poucas semanas podemos
ficar sem acesso aos cuidados e recursos mais variados, num efeito acumulado
resultante do fecho de locais de utilidade pública, do fecho de locais de
trabalho por doença de funcionários, proprietários ou utilizadores e do
açambarcamento de produtos vitais pelos fenómenos do medo e do egoísmo.
Inicia-se uma cascata de alarme que provoca transtornos graves na população
como um colectivo, um ecossistema sociológico com rupturas funcionais, e
transtornos graves a nível individual, enquanto entidades psicológicas sujeitas
a disfunções patológicas em quadros de pressão social. Somando todos os seus
prejuízos, ainda assim a Grande Recessão de 2008-2012 não tem comparação com o
grau e tipologia da actual ameaça.
Todavia, há lições à disposição vindas
de qualquer crise recente ou de antanho, é ler Tucídides. No caso português,
convém recordar que algumas vozes, raríssimas, alertaram para as consequências
de se colocar o poder pelo poder à frente do interesse nacional, do bem comum,
do cívico e concreto amor ao próximo: Um texto escrito nas vésperas da golpada
que nos arruinou. O texto é cristalino acerca da dinâmica política que estava à
vista de todos e que, mesmo assim, não impediu o desastre colectivo. Em 2020,
estamos numa simetria onde a lógica que nos pode salvar comunitariamente é
exactamente a oposta: acelerar e radicalizar em vez de adiar e atenuar. Isto
porque o vírus tem na velocidade da sua propagação a raiz mesma do seu fim.
Quebrando-se a transmissão, a ameaça desaparece em poucas semanas ou dias.
Nisso, é incomensuravelmente mais controlável do que uma Depressão ou Recessão
globais. Claro, diz quem sabe, o vírus ele próprio já se inscreveu no nosso
futuro e dias com mais segurança e recursos virão para lidar com ele pelas
décadas fora. Com esse e com os outros que inevitavelmente vão aparecer. Por
agora, o momento é o de ir buscar o melhor de nós e juntarmo-nos a quem faça o
mesmo para mútua protecção. Estamos em guerra.
Do blogue Aspirina B
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