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sexta-feira, 13 de março de 2020

Estado de guerra:


A actual crise de saúde por causa do coronavírus gera mortes directas mas também pode causar mortes e doenças indirectas ao diminuir os recursos terapêuticos para doentes presentes e futuros de outras patologias, os quais ficarão privados da assistência adequada, uns, e que serão vítimas do crescimento das falhas aleatórias e limitações sistémicas, outros. Tal é não só inevitável como acaba por ser bondoso face à escala do perigo que nos ameaça: uma infecção potencialmente letal que progride de modo fulminante, ameaçando interromper a produção e serviços em todos os países de todos os continentes, e quase ao mesmo tempo. Ter uma reacção de pânico corresponde, neste caso, à manifestação de se estar lúcido. A essência da vida em comunidade está ameaçada, qualquer outro ser humano é uma potencial ameaça para cada um de nós e para os nossos mais próximos.

Há muitas e radicais diferenças, mas também alguns paralelos, com a crise económica de 2008. Então, quem estava no topo da pirâmide social sabia que iria ter uma qualquer diminuição do património, menos dinheiro e quiçá menos propriedades e bens. Uma privação de riqueza que poderia ser fonte de muita angústia e pesar durante alguns anos mas que em nada ameaçava a segurança e a qualidade da vida quotidiana. Para os ricos, para a classe média alta, as casas continuariam confortáveis e giras, os carros luxuosos, os médicos do melhor, os putos a passarem os dias nas escolas e universidades de elite, as férias se não ali então aqui, os trapos sempre estilosos e ostensivos. Era logo abaixo que começava a crise crítica, a qual implicava abdicar daquilo que fazia com que a vidinha fosse remediada e sempre no arame. A classe média e média baixa passava a contar tostões como o pé descalço, a fazer a mala e partir, mergulhadas num poço sem fundo de problemas de finanças, de saúde e de tragédias relacionais. Ainda hoje ninguém fez o cálculo em doenças e mortes que se possam explicar com a decisão tomada pela Assembleia da República no dia 23 de Março de 2011. Nem se fará, pois esse dia uniu direita e esquerda numa escolha irracional cuja única lógica foi a da política da terra queimada, um suicídio partidário que entregou o País a um grupo de fanáticos que fizeram uma campanha eleitoral mentirosa e que governaram com cegueira e ódio. Porém, nessa crise a produção estava apenas economicamente condicionada, localmente mas não internacionalmente, e os serviços continuavam ao dispor, embora com acesso mais dificultado pela “austeridade salvífica”. Já na crise do coronavírus, em poucas semanas podemos ficar sem acesso aos cuidados e recursos mais variados, num efeito acumulado resultante do fecho de locais de utilidade pública, do fecho de locais de trabalho por doença de funcionários, proprietários ou utilizadores e do açambarcamento de produtos vitais pelos fenómenos do medo e do egoísmo. Inicia-se uma cascata de alarme que provoca transtornos graves na população como um colectivo, um ecossistema sociológico com rupturas funcionais, e transtornos graves a nível individual, enquanto entidades psicológicas sujeitas a disfunções patológicas em quadros de pressão social. Somando todos os seus prejuízos, ainda assim a Grande Recessão de 2008-2012 não tem comparação com o grau e tipologia da actual ameaça.

Todavia, há lições à disposição vindas de qualquer crise recente ou de antanho, é ler Tucídides. No caso português, convém recordar que algumas vozes, raríssimas, alertaram para as consequências de se colocar o poder pelo poder à frente do interesse nacional, do bem comum, do cívico e concreto amor ao próximo: Um texto escrito nas vésperas da golpada que nos arruinou. O texto é cristalino acerca da dinâmica política que estava à vista de todos e que, mesmo assim, não impediu o desastre colectivo. Em 2020, estamos numa simetria onde a lógica que nos pode salvar comunitariamente é exactamente a oposta: acelerar e radicalizar em vez de adiar e atenuar. Isto porque o vírus tem na velocidade da sua propagação a raiz mesma do seu fim. Quebrando-se a transmissão, a ameaça desaparece em poucas semanas ou dias. Nisso, é incomensuravelmente mais controlável do que uma Depressão ou Recessão globais. Claro, diz quem sabe, o vírus ele próprio já se inscreveu no nosso futuro e dias com mais segurança e recursos virão para lidar com ele pelas décadas fora. Com esse e com os outros que inevitavelmente vão aparecer. Por agora, o momento é o de ir buscar o melhor de nós e juntarmo-nos a quem faça o mesmo para mútua protecção. Estamos em guerra.

Do blogue Aspirina B


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