Os Deuses da Sanita e o
coronavirus.
Escrevo romances também como
tentativa de entender os meus semelhantes. Julgo ter alcançado algumas
conclusões. Uma delas é a de que, humanos e terrenos, somos semelhantes.
Colocados perante situações limites os humanos reagem de forma semelhante,
independentemente da cultura, da civilização, de toda a herança que os seus
grupos lhes foram deixando ao longo de milénios. As situações de pânico são um
revelador de semelhanças. Àrrasca, borramo-nos!
Em 2017 publiquei o romance “A
Última Viuva de África”, onde abordava a independência do ex-Congo Belga e a
terrível guerra que se seguiu, nomeadamente a rebelião dos simba, o povo das
crianças assassinas, drogadas e embriagadas numa cerimónia designada por dawa e
que foram dirigidas por um feiticeiro chamado Ngali.
A personagem principal desse
romance chegara a Stanleyville (atual Kisangani) para fazer uma reportagem
sobre os últimos dias da comunidade belga e teve a oportunidade de assistir à
ocupação da cidade pelos simbas e depois a sua libertação pelos mercenários de
Mike Hoare (que faleceu há pouco). Viveu esses dias terríveis no Hotel Vitória.
Segundo ele, a personagem do narrador:
“Tive a sorte de Alexis Mikkelides, o
comerciante grego, me colocar sob a proteção do único homem que dominava os
chefes dos simba, lhes infundia terror e a quem não se atreviam a contrariar, o
feiticeiro Ngali que, por sua vez, temia e respeitava o grego, porque este
realizara diante dele um truque em que comera um escorpião e sobrevivera, a
suprema prova da invulnerabilidade, só ao alcance dos deuses da floresta do
Congo. Alexis Mikkelides passara a ser considerado como alguém que possui
imana, um seguro de vida tão respeitado no centro de África como a coroa de um
rei ou a auréola de um santo na Europa.
Enquanto os simba matavam e
aterrorizavam, o feiticeiro Ngali dava-me lições de história e de vida. A
primeira vez que me apareceu vinha nu e permaneceu durante longos momentos
diante de mim, de pé, a baloiçar os testículos à minha frente. Procurava
vingar-se dos brancos, humilhando-os. Falou com cólera para injuriar todos os
europeus, tratando-os sempre por “filhos de cão”. Alexis Mikkelides
aconselhara-me a ser paciente e a não o contrariar. Ngali pertencia ao grupo
dos rejeitados da floresta, os que perdem a tribo. Começava todas as nossas
conversas com uma ordem: “Senta-te branco e escuta-me! Ouve o que digo!”
Depois da cena da nudez, passou a
surgir enrolado em panos de cores fortes, que faziam dele uma gigantesca
lanterna chinesa. Trazia um bastão esculpido, representando sempre um animal
diferente. Acenava e falava com ele como um ventríloquo faz com os bonecos seus
duplos: “Os grandes feiticeiros devem convencer os grandes homens a possuir
grandes totens, que os mantenham no poder, como uma guarda pessoal.” Ngali
possuía totens para todos os gostos dos chefes dos simba. Explicou-me que os
grandes chefes são os que mostraram a paciência e a solenidade hierárquica de
um grande monte de lixo, recebem com a sua majestade as queixas e os insultos
como se fossem imundices e excrementos despejados aos seus pés.
Depois de ouvir Ngali (de ler o
que o narrador sobre ele escreveu), comecei a ver os chefes, os sacerdotes e os
políticos da História com outros olhos (hoje, como autor e cidadão, não consigo
deixar de ver Trump, nu, em cima de um monte de lixo, por detrás do Ngali).
“O chefe deve separar-se de si
através dos seus dejectos. Somos todos excrementos!” Palavras de Ngali.
Tentei interceder pelos europeus
que viviam aterrorizados, sob ameaça constante dos simba. Ngali respondeu-me que
os deuses dos brancos só tratavam de alimentar as bocas dos brancos. Deviam ser
deitados ao rio! Os antepassados dos simba, os manes, não eram obrigados a
serem justos com os brancos. Ngali desapareceu da minha vida na véspera do dia
24 de novembro de 1964, em que acordei com o ruído de aviões sobre Stanleyville
Ngali, o feiticeiro simba que
protegera Miguel Barros (o narrador) em Stanleyville, apresentara-lhe
Njambi-Kalunga, o deus desconhecido, uma divindade sem sexo que habita nos
homens e deu vida ao fogo, que os cristãos e os islâmicos, e os seus herdeiros
os assimilados negros, substituíram por um deus homem, um deus herói, um deus
de guerra. Não há muitas variedades de deuses. Os homens dotaram-nos todos com
as mesmas habilidades.
A que propósito vem esta história
retirada de A Última Viúva de África? Trump é com certeza a mais exuberante
imagem de um Deus sobre um monte de excrementos, mas aqueles meus semelhantes
que vejo nas fotografias e nas reportagens a carregar montes de papel higiénico
são com certeza os seus adoradores e podiam ser simbas das florestas do Congo!
Num momento de pânico, de uma
peste, o povo do império dominante escolhe para seu Deus uma figura que surge
como um monstro gordo, na sala oval da Casa Branca, com a solenidade
hierárquica de um grande monte de lixo, que recebe com a sua majestade gelatinosa
as queixas e os insultos como se fossem imundices e excrementos despejados aos
seus pés. E o povo arrasta rolos de papel higiénico. Somos simbas. Ou índios
jivaros. Apenas andamos vestidos e as nossas azagaias são mais mortíferas.
Somos todos semelhantes aos
Simbas, adoramos um Njambi-Kalunga sentado num monte de lixo e excrementos e
levamos-lhe rolos de papel higiénico para nos livrar dos perigos.
Das florestas do Congo às
prateleiras do supermercado e à sala oval da Casa Branca a distância é curta.
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