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sexta-feira, 13 de março de 2020

Somos todos semelhantes perante a peste e o pânico. Do Deus dos excrementos dos Simba a Trump:


Os Deuses da Sanita e o coronavirus.
Escrevo romances também como tentativa de entender os meus semelhantes. Julgo ter alcançado algumas conclusões. Uma delas é a de que, humanos e terrenos, somos semelhantes. Colocados perante situações limites os humanos reagem de forma semelhante, independentemente da cultura, da civilização, de toda a herança que os seus grupos lhes foram deixando ao longo de milénios. As situações de pânico são um revelador de semelhanças. Àrrasca, borramo-nos!

Em 2017 publiquei o romance “A Última Viuva de África”, onde abordava a independência do ex-Congo Belga e a terrível guerra que se seguiu, nomeadamente a rebelião dos simba, o povo das crianças assassinas, drogadas e embriagadas numa cerimónia designada por dawa e que foram dirigidas por um feiticeiro chamado Ngali.
A personagem principal desse romance chegara a Stanleyville (atual Kisangani) para fazer uma reportagem sobre os últimos dias da comunidade belga e teve a oportunidade de assistir à ocupação da cidade pelos simbas e depois a sua libertação pelos mercenários de Mike Hoare (que faleceu há pouco). Viveu esses dias terríveis no Hotel Vitória. Segundo ele, a personagem do narrador:

 “Tive a sorte de Alexis Mikkelides, o comerciante grego, me colocar sob a proteção do único homem que dominava os chefes dos simba, lhes infundia terror e a quem não se atreviam a contrariar, o feiticeiro Ngali que, por sua vez, temia e respeitava o grego, porque este realizara diante dele um truque em que comera um escorpião e sobrevivera, a suprema prova da invulnerabilidade, só ao alcance dos deuses da floresta do Congo. Alexis Mikkelides passara a ser considerado como alguém que possui imana, um seguro de vida tão respeitado no centro de África como a coroa de um rei ou a auréola de um santo na Europa.
Enquanto os simba matavam e aterrorizavam, o feiticeiro Ngali dava-me lições de história e de vida. A primeira vez que me apareceu vinha nu e permaneceu durante longos momentos diante de mim, de pé, a baloiçar os testículos à minha frente. Procurava vingar-se dos brancos, humilhando-os. Falou com cólera para injuriar todos os europeus, tratando-os sempre por “filhos de cão”. Alexis Mikkelides aconselhara-me a ser paciente e a não o contrariar. Ngali pertencia ao grupo dos rejeitados da floresta, os que perdem a tribo. Começava todas as nossas conversas com uma ordem: “Senta-te branco e escuta-me! Ouve o que digo!”

Depois da cena da nudez, passou a surgir enrolado em panos de cores fortes, que faziam dele uma gigantesca lanterna chinesa. Trazia um bastão esculpido, representando sempre um animal diferente. Acenava e falava com ele como um ventríloquo faz com os bonecos seus duplos: “Os grandes feiticeiros devem convencer os grandes homens a possuir grandes totens, que os mantenham no poder, como uma guarda pessoal.” Ngali possuía totens para todos os gostos dos chefes dos simba. Explicou-me que os grandes chefes são os que mostraram a paciência e a solenidade hierárquica de um grande monte de lixo, recebem com a sua majestade as queixas e os insultos como se fossem imundices e excrementos despejados aos seus pés.
Depois de ouvir Ngali (de ler o que o narrador sobre ele escreveu), comecei a ver os chefes, os sacerdotes e os políticos da História com outros olhos (hoje, como autor e cidadão, não consigo deixar de ver Trump, nu, em cima de um monte de lixo, por detrás do Ngali).
“O chefe deve separar-se de si através dos seus dejectos. Somos todos excrementos!” Palavras de Ngali.
Tentei interceder pelos europeus que viviam aterrorizados, sob ameaça constante dos simba. Ngali respondeu-me que os deuses dos brancos só tratavam de alimentar as bocas dos brancos. Deviam ser deitados ao rio! Os antepassados dos simba, os manes, não eram obrigados a serem justos com os brancos. Ngali desapareceu da minha vida na véspera do dia 24 de novembro de 1964, em que acordei com o ruído de aviões sobre Stanleyville
Ngali, o feiticeiro simba que protegera Miguel Barros (o narrador) em Stanleyville, apresentara-lhe Njambi-Kalunga, o deus desconhecido, uma divindade sem sexo que habita nos homens e deu vida ao fogo, que os cristãos e os islâmicos, e os seus herdeiros os assimilados negros, substituíram por um deus homem, um deus herói, um deus de guerra. Não há muitas variedades de deuses. Os homens dotaram-nos todos com as mesmas habilidades.

A que propósito vem esta história retirada de A Última Viúva de África? Trump é com certeza a mais exuberante imagem de um Deus sobre um monte de excrementos, mas aqueles meus semelhantes que vejo nas fotografias e nas reportagens a carregar montes de papel higiénico são com certeza os seus adoradores e podiam ser simbas das florestas do Congo!
Num momento de pânico, de uma peste, o povo do império dominante escolhe para seu Deus uma figura que surge como um monstro gordo, na sala oval da Casa Branca, com a solenidade hierárquica de um grande monte de lixo, que recebe com a sua majestade gelatinosa as queixas e os insultos como se fossem imundices e excrementos despejados aos seus pés. E o povo arrasta rolos de papel higiénico. Somos simbas. Ou índios jivaros. Apenas andamos vestidos e as nossas azagaias são mais mortíferas. 
Somos todos semelhantes aos Simbas, adoramos um Njambi-Kalunga sentado num monte de lixo e excrementos e levamos-lhe rolos de papel higiénico para nos livrar dos perigos.
Das florestas do Congo às prateleiras do supermercado e à sala oval da Casa Branca a distância é curta.

Carlos Matos Gomes

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