"Escrever sobre o Ricardo é um aborrecimento medonho. O Ricardo é letrado, lúcido, brilhante, amável e mais uma data de características que o afastam do português médio, do humorista português médio e do participante da “Quadratura do Círculo” médio. Para cúmulo, o raio do tipo tem graça, o que não tem graça nenhuma para quem se oferece a analisar impiedosamente os seus trabalhos.
Por sorte – sorte do presente texto, que isto não vai lá movido a elogios – o Ricardo possui um defeito: convenceu-se, não imagino porquê, de que é de esquerda. Claro que não é.»
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Corria o ano de 2007 quando o PNR colocou no Marquês de Pombal um cartaz onde defendia a expulsão de estrangeiros e o fim da imigração, em nome do “nacionalismo”. Os Gato Fedorento surpreenderam mediática, social e politicamente – mas também culturalmente – o País ao colocarem ao seu lado um cartaz que parodiava a mensagem do PNR; no que ficou como a primeira crítica política através do humor usando exactamente o mesmo veículo semiótico da entidade visada (que eu conheça). O exercício criativo dos Gato foi apenas dirigido àquelas ideias do cartaz em causa e não a outras do PNR, ainda menos à legitimidade cívica da pessoa protagonista na imagem ou das pessoas terceiras que apoiassem as propostas do PNR. Poderia ter sido um corriqueiro número cómico a ter sido gravado para a televisão ou Internet, situação em que talvez tivesse passado sem qualquer reacção notável e memorável. Ao optarem pela réplica exacta do meio e códigos de comunicação, o impacto foi muito superior porque o efeito político do humor atingiu o grau máximo da caricatura social e seu efeito corrosivo e iconoclasta. De imediato surgiram ameaças à integridade física dos próprios e de familiares seus, tendo a PSP montado um qualquer tipo de segurança ao Ricardo Araújo Pereira (pelo menos) até se considerar extinto o clima de vingança. Cínicos podem ver na decisão de afrontar a extrema-direita apenas uma manobra de promoção da marca Gato Fedorento, usando um tipo de ataque que iria recolher apoio e simpatia na enorme maioria da população dada a quase marginalidade e entranhado desprestígio do PNR e sua agenda política ao tempo. Já os apaixonados pela cidade ficaram profundamente agradecidos com a inteligência e coragem demonstradas, ficando a admirar ainda mais quem usava os seus dons artísticos para defender a comunidade da violência desumana propagandeada sob a alçada da democracia e do Estado de direito. Dez anos e tal depois, esse Gato Fedorento que nos encantava, desopilava e orgulhava trocou de cartaz.
O Ricardo é agora principalmente conhecido por ser a estrela e locomotiva do Governo Sombra, um programa que reúne três (quatro?) personalidades unidas na sua perseguição política ao PS. O José Diogo Quintela foi para o esgoto a céu aberto sacar uns cobres a alimentar o clima de ódio e perseguição política ao PS. O Tiago Dores ingressou recentemente no Observador onde faz coro na madraça para a perseguição política ao PS. Resta o Miguel Góis, que aparenta ser apenas publicitário mas que, calhando imitar os colegas, tem muito por onde escolher se a intenção for a de ganhar dinheirinho do bom na perseguição política ao PS. Obviamente, não há problema algum em existir quem queira aumentar a sua riqueza, ou garantir a sobrevivência, através da perseguição política ao PS. É um estilo de vida tão meritório como o daquelas pessoas que vendem suplementos de cálcio aos velhinhos ou que prometem curas milagrosas pela módica quantia de 10% do rendimento mensal (mas pode sempre dar-se mais, eles fazem o sacrifício de aceitar o acréscimo de fé e o milagre chega garantidamente mais cedo). É tudo legal, parece. O problema reside apenas nos meios pelos quais se atingem os fins, esse primado incontornável da decência onde se aceitam limites impostos pelo respeito da liberdade alheia e pela obediência à consciência própria. Ora, constatámos nos últimos anos que a decência como valor limite foi apagado do vocabulário destes felinos malcheirosos, agora estrelas de uma facção política que domina a comunicação social. Uma facção que perdeu qualquer prurido ou receio em cultivar formas de violência moral, policial e judicial que até há uma ou duas décadas foram estranhas na Europa e em Portugal.
Quando se vê a maior figura viva do humor nacional a seguir ao Herman José, e superior a ele em influência para quem nasceu a partir dos anos 80, a usar registos de escutas e interrogatórios a cidadãos inocentes (porque ainda não condenados por nada de nada) – divulgadas através de crimes cometidos por magistrados, ou agentes da Justiça, e por crimes cometidos por jornalistas e seus accionistas – para acrescentar à violência dessa exposição ilícita da privacidade e da fragilidade a violência da difamação, da calúnia e do achincalhamento, então já não estamos perante um exercício de comédia ou sátira, ainda menos de “crítica ao poder” ou “luta contra os corruptos”. O espectáculo assim servido, e cobrado, é um linchamento. Trata-se de um assassinato simbólico que serve pulsões de vingança e de ameaça. E tem um efeito cognitivo com vastas consequências políticas: o texto da Constituição, a noção de Estado de direito democrático, a arquitectura da soberania, e os princípios das liberdade e garantias individuais desaparecem do discurso mediático substituídos pela lei do mais forte. Ter o Ricardo a fazer justiça pelas suas próprias indecências, mergulhado no rancor nascido de ser um espoliado do BES, deixa um influentíssimo exemplo social cuja natureza é deletéria e vexante para a integridade da comunidade.
No primeiro episódio de Gente Que Não Sabe Estar, a humilhação de cidadãos envolvidos em processos judiciais foi o prato forte. Esse à-vontade, essa impante impunidade cívica e moral, permite antecipar que o Ricardo adoraria poder levar as suas câmaras para dentro das prisões e continuar a castigar os detidos com o seu “humor”. Vê-los a fazer chichi e cocó, a meter o dedo no nariz, a ouvirem bocas dos outros presidiários, de preferência homoeróticas para a gargalhada ser mais alta. E largar por cima dessas captações politicamente totalitárias, em nome do interesse do público, as suas piadinhas e piadolas em nome da liberdade de expressão do seu ódio. E talvez fosse menino para aceitar, em parceria com o Correio da Manhã, correr a Grei com Vara e Sócrates dentro de uma jaula para mostrar ao bom povo o que são os tais corruptos de que tanto se fala. Tamanha desumanização daqueles reduzidos apenas ao estatuto de inimigos, diabolizados para serem tratados como indignos de qualquer direito constitucional ou mínima protecção moral, tinham de merecer o desvairado aplauso dos colegas de tortura. Foi o que fez o Alberto Gonçalves, dizendo, por uma vez, a mais pura das verdades. O Ricardo Araújo Pereira já não é de esquerda. Mas também não é de direita, pois ser de direita não obriga ninguém a ser pulha. Será antes alguma coisa que, mais dia menos dia, também receberá os elogios do PNR. Afinal, Sócrates consegue fazer os mais miseráveis parceiros de cama na matilha que o persegue e dele se alimenta.
Do blogue Aspirina B
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