sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A quadratura de Sócrates:

(Por Estátua de Sal, 13/10/2017)
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(Dedico este texto ao comentador habitual deste blog, José Neves. Ele sabe bem porquê..  🙂 )
A novidade da Quadratura do Círculo de hoje, foi a forma sibilina como se pretendeu – para já muito ao de leve -, colar António Costa e membros do actual Governo, e até o PCP, ao caso Marquês: não há como não soubessem o que Sócrates andava a fazer, havia tantos indícios anteriores do “mau carácter” de Sócrates – diz o Pacheco -, que a presunção de inocência não deve impedir que se discuta o caso, como se tudo de que é acusado fosse verdade e não tenha que ser provado. A falta de lisura de Pacheco é gravíssima em alguém que se quer fazer passar por impoluto justiceiro e paladino da ética e da justiça.
Ele que tanto privou com Oliveira e Costa, Cavaco, Duarte Lima, com Miguel Macedo, com o irrevogável Portas, o homem dos submarinos que nunca foi devidamente investigado pela Justiça,  nunca deu por nada que indiciasse o “mau carácter” destes personagens? Só com Sócrates é que ele conseguiu antever indícios de mau comportamento moral e cívico? Onde andavas Pacheco, quando a escritura da Casa da coelha de Cavaco desapareceu? Não achaste estranho? Onde andavas Pacheco quando o caso dos submarinos foi arquivado tendo sido provada a existência de corruptores na Alemanha e de corrompidos em Portugal? Onde andavas Pacheco quando o Oliveira e Costa, do alto do BPN, distribuía milhões pelos amigos do PSD e pela máfia laranja que o cercava?
E depois vem o Xavier falar dos milhões que circularam entre um determinado grupo dos arguidos acusados. Ó Xavier serias capaz de explicar todos os milhões que durante uma década circularam pelas tuas contas, e da tua família, se fossem passadas a pente fino? Garantes que tudo é limpo, legal e transparente? E as contas do teu patrono e amigo Belmiro de Azevedo? É um empresário “impoluto”, nunca pagou comissões a ninguém, nunca ganhou nenhum negócio “por baixo da mesa”? Talvez os herdeiros do banqueiro Pinto de Magalhães, que se viram espoliados de grande parte da sua fortuna, tenham alguma coisa a dizer sobre os métodos e o carácter desse tão aclamado empresário nortenho.
Como se só o Dr. Ricardo Salgado e Sócrates, a ser verdade aquilo de que os acusam, fossem a demonstração exemplar e única das más práticas do capitalismo, Ó Xavier, ó cínico e vendido comentador: em capitalismo, é raro haver grandes negócios que não sejam atribuídos e adjudicados sem que se mande um obséquio qualquer a  quem politicamente os decide e adjudica. As multinacionais e os seus gestores de topo, quando aterram num determinado país, têm já o perfil completo de quem vai decidir nas suas áreas de negócio, e até de quanto isso lhes vai custar. As escolas de gestão de topo discutem isto, ainda que de uma forma informal, e escrevem sebentas onde eufemisticamente falam em “práticas de estratégia negocial”.
Jorge Coelho, o mais equilibrado dos três, e que, honra lhe seja feita, assumiu ser amigo de Sócrates há mais de 35 anos, tentou colocar o problema da acusação a Sócrates na esfera do politicamente correcto: “à justiça o que é da justiça”, e “deixemos a justiça funcionar”, ainda que tenha avançado que as acusações em apreço “não se enquadram bem com o Sócrates que ele conheceu”. Contudo, Coelho, alinhou com os restantes tentando passar a ideia de que, a serem verdade os factos da acusação, eles são uma excepção, um caso isolado do capitalismo português. Ó amigo Coelhones, também tu és um sonso. Tu que foste director-geral da Mota-Engil, juras mesmo que nunca pagaste “luvas” e comissões a ninguém para ganhares um negócio? Juras que a Mota-Engil nunca foi beneficiada num concurso por um “amigo conveniente” bem colocado no processo decisório? Pois olha, não acredito, porque se tal fosse verdade, a Mota-Engil já tinha falido e, pelo contrário, está mais próspera que nunca. Até contratou o Portas, para fazer aquilo de que é acusado Sócrates nas suas relações com o Grupo Lena.
Em suma, para estes três, o capitalismo funciona conduzido por virgens puras e púdicas, sendo a meretriz o camarada Sócrates e o proxeneta o Dr. Salgado. Pois muito bem. Se algum dia o Dr. Salgado abrir a boca – por necessidade de se defender -, garanto-vos que nesse dia não restará nada mais que areia suja a embrulhar a honorabilidade de muitos daqueles que hoje mais atiram pedras aos arguidos. Empresários, juízes, jornalistas, comentadores e deputados, todos sem excepção.
Como diz o texto bíblico: somos todos feitos do mesmo barro, e devia haver decoro – que não há -, em atirar a primeira pedra. É que, por vezes, a pedra faz ricochete. Aguardemos, pois, os próximos capítulos desta ópera bufa em que se transformou o país.

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