segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Malhas que a Impresa tece:

Após a entrevista a João Araújo, a SIC Notícias colocou no ar Ricardo Costa e José Gomes Ferreira para a comentarem sob a batuta da Clara de Sousa. O mano Costa é o director-geral de informação do grupo Impresa, cargo que acumula com a autoconvicção de ser o cromo com mais neurónios em toda a comunicação social portuguesa e arredores. José Gomes Ferreira é um dos mais notáveis profissionais da calúnia actualmente em actividade. Clara de Sousa é Clara de Sousa, provavelmente uma vítima.
O Zé aproveitou a ocasião para declarar, sem qualquer contraditório, o seguinte:
– As notícias que referem alegados indícios de corrupção efectuada por Ricardo Salgado e Sócrates criaram na sociedade uma divisão (leia-se: duas metades) entre aqueles que acham que se está a perseguir Sócrates por razões políticas e os outros que não dão importância especial ao caso. Pergunta: há mais alguém a alucinar desta maneira no Hemisfério Norte ou estamos perante um caso isolado e, portanto, não significativo?
– Os indícios de foro judicial podem ser verdadeiros ou falsos, fortes ou fracos. No caso de os indícios serem verdadeiros e fortes, então passam automaticamente ao estatuto de provas e devem gerar as reacções condenatórias adequadas por parte da população e quem a representa mediaticamente. Pergunta: o Zé é mesmo o que aparenta ser ou há um Zé secreto que anda a escrever uma biografia onde explica que tudo isto se deve a um trauma de infância por causa de um brinquedo roubado e ao infortúnio de não ter nascido rico?
– A partir dos indícios relativos à suposta corrupção que gerou o suposto envio de 17 milhões de euros de uma pessoa para outra passando por uma terceira, é obrigatório concluir que há um período onde essa tenha sido a prática generalizada. Exemplos desse despautério que chegaram ao conhecimento do Zé: “o interromper de uma OPA que tinha sido feita a partir do Norte, de uma família de empresários que estavam fora desta maneira de fazer negócios“; “depois uma venda de uma Vivo“; “depois uma compra de uma Oi“; “um primeiro-ministro que lançou o maior número de contratos do Estado, com tantos milhares de milhões de euros de valor, em rodovias, em saúde, em escolas, por aí fora, se não houve honorabilidade neste caso o que será dos outros“; “só me lembro de coisas como a aprovação dos RERT“; “lembro-me de coisas como a atribuição de concessões de barragens aos grandes operadores“. Pergunta: as centenas, se não forem milhares, de indivíduos envolvidos num qualquer grau de responsabilidade e conhecimento interno nesses casos aludidos pelo Zé, entre membros do Governo, funcionários do Estado, equipas dos privados, mais advogados e escritórios de advogados, também sacaram a sua parte na roubalheira ou Sócrates e Salgado trataram do assunto a mielas e por telepatia, não demorando muito até que esses dois génios do crime bazem do país para irem gozar as centenas de milhões (cálculo rasteiro) que estão à sua espera ninguém sabe onde apesar de a bófia já ter vasculhado tudo e mais alguma coisa nas suas contas, computadores, telemóveis e papelada e ainda nas contas, computadores, telemóveis e papelada de amigos e familiares?
– Não há interesse no Parlamento pela criação legal da delação premiada (que o Zé quer que se passe a chamar “colaboração premiada”, et pour cause + c’est tout un programme), porque isso iria permitir descobrir mais crimes e mais criminosos do tal período em que a corrupção apareceu em Portugal pela primeira e última vez. Pergunta: o Zé não seria capaz de nos informar com mais detalhe acerca daqueles que no PSD, CDS, BE e PCP querem proteger os ladrões do PS?
Este vendaval de insinuações, difamações e retintas calúnias em modo sonso e aldrabão, sensacionalista e hipócrita, cínico e manipulador, teve da parte do mano Costa o mais eloquente apoio através do silêncio. Só que apoiar o Zé era curto para esta vedeta da “imprensa de referência”, pelo que fez questão de nos dizer outras duas coisitas: (i) que não tinha medo de Carlos Alexandre e de Rosário Teixeira como tantos outros (mas quem?), tinha era “respeito” (o tipo de respeito, ficamos a imaginar, que um bacano de prancha de surf debaixo do braço igualmente sente ao contemplar as ondas da Nazaré durante uns minutos antes de voltar para o carro sem sequer ter molhado os pezinhos), e que (ii) era desta que Sócrates ia ser apanhado, pois graças ao último depoimento do Bataglia já dava para entalar o cabrão. Ou seja, o mano Costa falou como se tivesse tido acesso às declarações prestadas às autoridades e à restante documentação coligida, acrescentado-lhe uma avaliação de perito em direito penal. Percebe-se o entusiasmo, pois no Expresso e na SIC há uma campanha em curso para reclamar os louros da captura da besta via “Panama Papers”, no que rivalizam com o esgoto a céu aberto para o título de órgão oficial da judicialização da política portuguesa.
Em relação ao sórdido espectáculo, tenho só uma curiosidade: haverá alguém a estudar academicamente esta época da comunicação social e o regime de poderes fácticos que defende e promove?
 POR VALUPI EM ASPIRINA B

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