sábado, 25 de fevereiro de 2017

A noiva, o corno e a alcoviteira:

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Sempre fomos um país de originalidades e propenso aos folhetins de escárnio e mal-dizer. Desde Gil Vicente, pelo menos, que o género faz sucesso em terras lusitanas, sendo tal sucesso tanto maior quanto mais escandaloso e apimentado for o enredo.
Vem isto a propósito da novela que perpassa em toda a comunicação social acerca da mensagens trocadas entre António Domingues, ex-presidente da CGD, e o ministro das finanças, Mário Centeno. A direita explora até à náusea o tema, arma-se em flibusteira da verdade, ela que tem o maior currículo de vigarice encartada e de escola de trampolinice.
Como em todos os namoros, Centeno terá trocado com Domingues emails e SMS, tentando acordar no que deveria ser o dote do enlace e lavrar, em conformidade,  um documento pré-nupcial. A noiva fazia o que podia para cair nas boas-graças do disputado pretendente, almejando consumar o desejado nó, e tentando satisfazer-lhe as exigências. Mas, como todas as noivas, tinha as suas limitações. O pai da noiva, Costa de seu nome, lá ia abrindo os cordões à bolsa, aceitou tudo, menos uma das condições avançadas pelo pretendente, a saber que este não tivesse que revelar à populaça o dote próprio com que ele mesmo se apresentava para a união. E Centeno, como todas as noivas, tentou ultrapassar o confronto, tentando que uma, ou ambas as partes, fossem menos irredutíveis na sua disputa.
Como sabemos, não conseguiu.  O pretendente Domingues, sentiu-se corneado e bateu com a porta. A história podia ter acabado aqui. Mas não. Como alguém disse, de forma lapidar, a dor de corno é a maior dor do mundo, e origina acções de vingança e malvadez. Uma das formas modernas da vingança do corno é publicar no Youtube, para gáudio da devassa pública e humilhação da outra parte, filmes de cenas íntimas ocorridas antes de selado o desencontro do par. Não tendo havido sexo, no caso em apreço, restavam a Domingues as mensagens de telemóvel usando-as de forma sonsa e furtiva, de modo a ocultar o seu despeito.
E é nesse processo de sonsice e de ocultação do despeito que o papel da alcoviteira, neste caso o também sonso Lobo Xavier vem a terreiro, prestando-se a um papel de mensageiro do mexerico e da intriga, e fazendo chegar as mensagens trocadas ao maioral da urbe, de seu nome Marcelo. Julga Xavier que assim reforça a sua importância pública. E isto porque supostamente sabe coisas que a populaça não sabe. Ataca a noiva e o pai da noiva, não em nome próprio – porque também é sonso -, mas em nome do corno de quem é uma espécie de trombeteiro, para que a indignidade do dito cujo, revelando mensagens privadas, não venha ao de cima.
Meus caros, este é o folhetim que vai entretendo o país nos dias de hoje. Se os maus fígados do corno e a ausência de escrúpulos da alcoviteira são mais que evidentes, o que também fica claro é que a noiva não se deve deixar seduzir por luzidias promessas de felicidade e deve ser mais exigente e escolher melhor os pretendentes. E sobretudo deve descartá-los sem tergiversar mal fique claro que são conflituosos e avarentos, não tentando mudá-los apaziguando-lhes os defeitos e os vícios.
Nesse contexto, meu caro Mário Centeno, deixo-lhe por isso um verso de Rimbaud, que espero lhe sirva de lição: Par délicatesse j‘ai perdu ma vie.
Por Estátua de Sal 

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