quarta-feira, 20 de julho de 2016

O mal foi ter secado o fontanário do Agrelo:

Muitos ao ler este título devem ficar admirados. E perguntam. Que mal teve em secar o fontanário? Vou explicar. Há muitos anos quem vinha a primeira vez a Freamunde, fosse para trabalhar ou outra actividade qualquer, incluindo o futebol, era ali levado a beber água do Agrêlo, pois corria a lenda, que quem bebesse daquela água nunca mais sentia desejos de sair de Freamunde.

Grandes nomes na arte da marcenaria, por isso muitas vezes refiro que o móvel foi inventado e construído nesta terra, onde destaco o entalhador Sr. Guedes, com o curso da Belas-Artes, na cultura, homens como Leopoldo Saraiva e Fernando Santos, ambos deram muito ao Teatro de Freamunde, no desporto o expoente máximo que foi no S. C. Freamunde Joaquim Santana, só saiu daqui de viver para ser sepultado no cemitério do Sport Lisboa e Benfica.

Tudo se fazia por amor a esta terra. As dificuldades eram tremendas e imensas. Mas não se regateavam esforços. Parece que era obra de Deus ou como se diz: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

João Taipa. O campo é o do Carvalhal 
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Nesse tempo Freamunde fazia jus ao seu bairrismo. Na cultura dávamos e ainda damos lições às freguesias circundantes. Não é por acaso que constantemente somos solicitados para ir a vários locais, seja a representar teatro, coros ou grupos vocais. Também somos convidados para mostrar em feiras o nosso artesanato. Aliás, todos anos se faz em Freamunde a Feira de Artesanato na primeira ou segunda semana de Junho. Somos réis na indústria do mobiliário. Não fosse como disse atrás os inventores do móvel.

No desporto, principalmente no futebol, éramos a nível regional a par com o Amarante F. C. os clubes mais poderosos do Vale, hoje denominado por Tâmega e Sousa. É neste ponto - futebol - que me vou alongar um pouco mais.
Alongar porque nessa altura o S. C. Freamunde era um clube amador onde os seus atletas quase que pagavam para jogar. Amadores como eram era depois do horário laboral quando os dias eram grandes que se reuniam para treinar. No período de Inverno os treinos eram à tarde e as empresas empregadoras é que suportavam o tempo despendido pelos seus trabalhadores/atletas.

Aliás, foi a Fábrica de Móveis de Albino de Matos Pereira & Barros - Fábrica Grande -, hoje desaparecida, na pessoa de um dos seus sócios, Padre Castro, que fundou o S. C. Freamunde. Começou com os Onze Vermelhos e sucedeu o Glorioso S. C. Freamunde. Já lá vão oitenta e três anos.
Era o futebol puro. Começou-se com jogos amigáveis. Uma equipa convidava outra para ir à sua terra para um prélio. Ia a freguesia em peso assistir. A pé que naquele tempo o motor quase que não existia. E bicicletas a pedal rareavam. Todos a pé, incluindo os jogadores, com os sacos de serapilheira às costas onde transportavam os parcos equipamentos, a maioria remendados, mesmo assim quando entravam em campo sentiam alguma vaidade por fazer parte da equipa. Era o que acontecia com o S. C. Freamunde. Não havia quem lhe ganhasse. De jogos amigáveis passou-se a jogos associativos.

Entrou-se no campeonato na última divisão. Em pouco tempo começou a adquirir a simpatia dos adversários. Pela sua postura em campo e pelo bom futebol praticado. Nessa altura havia uma equipa que a nível mundial caía no bom agrado do futebol europeu. Nuns jogos amigáveis feitos na Europa despertaram a cobiça dos clubes europeus. Essa equipa era o Clube Atlético de S. Lourenzo de Almagro, da Argentina, sabe-se hoje que é o clube preferido do Papa Francisco. Devido ao bom futebol praticado pelo S. C. Freamunde havia quem lhe chamasse o S. Lourenzo de Almagro.

Do campo da Feira, local de divertimento da ganapada, saía bom jogadores para a equipa júnior do S. C. Freamunde. Aos Domingos - naquele tempo trabalhava-se de segunda a sábado - a catraiada, catraiada como quem diz, rapagões dos doze aos dezasseis anos, ali mostravam os seus dotes futebolisticos. Aparecia ali para dar uma vista de olhos o treinador dos juniores do S. C. Freamunde, Zeaca Mirra, também jogador da equipa principal, para se inteirar de quem havia de convidar para fazer parte da equipa júnior do S. C. Freamunde.

Os jovens eram escolhidos e não regateavam esforços para conseguir um lugar no onze. Não olhavam às condições. Chuteiras em mau estado. Em lugar de pitons eram de travessas. Os calçoes em fraco estado, assim como as camisolas com remendos. Principalmente as do Guarda-redes. Eu que o diga. As meias tinha-se de pegar em dois pares para colmatar os calcanhares que estavam rotos. Quem passou por isso sabe ao que refiro.

Nos jogos, a maioria eram efectuados no Inverno, não havia fatos de treinos para os suplentes. Passavam um frio de rachar e há chuva quando chovia. Não havia banco de suplentes. Quando os jogos terminavam o duche era de água fria.

Ainda tenho na memória, era menino e moço, quando os treinos estavam a terminar o João Taipa um dos melhores avançados de todos o tempo do S. C. Freamunde pedia a um ganapo para se deslocar a casa de seus pais e trazer um regador com água quente para tomar banho. A casa de João Taipa ficava distante do Campo do Carvalhal uns quinhentos metros e era de família com posses.

Com estas dificuldades todas o bairrismo e o amor à camisola era enorme. E não era só dos jogadores naturais de Freamunde. Naquele tempo, como disse, o S. C. Freamunde era o clube mais afamado, portanto havia muitos jovens das redondezas e de concelhos limítrofes que aqui começaram a dar os primeiros pontapés na bola como associados. Mesmo esses, que não ficaram aqui a residir, eram levados a beber água do fontanário do Agrêlo e nunca mais daqui saíam. Também nesse tempo os clubes tinham o direito de admissão.

Hoje tudo é diferente. Vêm jogar para as camadas jovens, como se diz hoje, e exigem transporte para a vinda e ida para casa. Depois de inscritos tem o equipamento de graça e do melhor que há além do fato de treino.

Passam a seniores e se a carreira é mediana andam no clube e não exigem nada. Se a carreira for melhor e começarem a sobressaírem começam a exigir tudo e mais alguma coisa. Alguns até cospem no prato em que comem.

Não se lembram de compensar quem tanto fez por eles. Outros chegam ao ponto de assinar por mais dois anos estando em fim de contrato e dizem que é para compensar o clube. Mas quando lhes aparece um clube de divisão superior e o clube de origem por atraso de dois meses de ordenado, por dificuldades financeiras, reivindicam a saída a custo zero. O que faz o vil metal. 

Os tempos mudaram para o futebol. Já não se vê o amor à camisola ou à entidade empregadora que só tem canseiras e dissabores. 
Mas costuma-se dizer que depois da bonança vem a tempestade e vice-versa. Espero que para esses a tempestade esteja ao pé da esquina.

Depois vão ver que não se deve cuspir no prato em que se come.

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