sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma ministra para a história:

Só quem ache normal que nunca tivesse existido em Portugal um ministro negro não se terá emocionado ao ver ontem Francisca van Dunem tomar posse.

Num país no qual uma importante parte da população é negra, a renitente invisibilidade desta em cargos de representação política e de primeira linha mediática não pode ser considerada "natural". A não ser que se considere que essas pessoas têm "naturalmente" menos capacidades - como, pelos vistos, se considera que as mulheres têm "naturalmente" menos capacidades do que os homens e daí, apesar de estarem em maioria em universidades e doutoramentos, é "natural" que quando se forma um governo seja "tão difícil" encontrá-las "competentes". E se chegue mesmo a dizer que fazer um governo paritário "só por causa da igualdade" implicaria "abdicar do critério da competência".

Grande parte destas coisas que se dizem para justificar a invisibilidade e a exclusão de mulheres e outros grupos discriminados são, em muitos casos sem que quem as diz tenha disso consciência (para tal teria de pensar um bocado no assunto), simplesmente insultuosas. Mas estar imerso no insulto, mesmo como objeto dele, retira-nos às vezes a capacidade de perceber o quanto ele nos pesa. Daí que ontem me tenha surpreendido a comoção com que vi Van Dunem, com quem nunca na vida falei, a avançar, de forma que me pareceu particularmente altiva (imperial, apetece dizer), para a declaração e a assinatura. Tive a noção de estar a assistir a um momento histórico - quase tão importante, à nossa dimensão, como o foi a eleição de Obama nos EUA. E creio que também Van Dunem o sentiu - assim interpretei a maneira como, de olhos levantados, recitou a frase ritual.


E se assim o senti, suponho que os negros portugueses - essa categoria constitucionalmente interdita, já que a lei fundamental proíbe a anotação ou a contabilidade nessa matéria - o terão sentido também. Mas, li ontem várias vezes e vindo de várias vozes, falar na cor de Van Dunem é errado e reforça a discriminação: o que interessa é a qualificação para o cargo. O mesmo foi dito em relação aos secretários de Estado Ana Sofia Antunes e Carlos Miguel, ela cega e ele de ascendência cigana. Percebo a preocupação, mas não CONCORDO. Sim, deveria ser natural e normal ver negros no governo, como deficientes e ciganos; deveria ser normal termos muitas mulheres nos executivos. Mas não tem sido; não é. Daí que faça sentido relevar quando sucede; daí que seja tristemente inevitável contar o número de mulheres. Sabendo distinguir entre a absoluta grosseria de um Correio da Manhã que titula "Costa chama cega e cigano para governo", reduzindo as pessoas a uma classificação puramente discriminatória e até chocarreira, e os jornais que fizeram jornalismo. E fazer jornalismo é dizer, proclamar, festejar isto: ontem fez-se história. E foi muito bom.

Fernanda Câncio
No DN

Sem comentários:

Enviar um comentário