sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Obrigado, TVI:

A TVI elaborou a lista dos 30 portugueses com mais poder em Portugal. Sérgio Figueiredo, ao promover a iniciativa, realçou que o poder não é discutido cá pela terrinha, daí o mérito e urgência da análise que iríamos finalmente poder fazer a respeito de tão magna questão. Acontece que depois o que saiu foi uma lista onde até a Cristina Ferreira, o Toni Carreira, o Ronaldo, o Mourinho, o Jorge Mendes e o Horta Osório têm lugar. A que se acrescenta um mistério: na redacção da TVI sabe-se que o poder de uns artistas de variedades e do pontapé na bola, mais o de um estrangeirado, é superior ao da Cofina ou do mero CM. De facto, o Sérgio tem razão. Existem em Portugal sérias dificuldades cognitivas na abordagem deste assunto, mesmo quando tratado por um grupo de cromos na matéria como devem ser os jornalistas da TVI.

Pois a montanha pariu um cavalo de raça. A conversa ocorrida entre João Cravinho e José Miguel Júdice, onde discutem a escolha, é imperdível. Cravinho passou o tempo todo a dizer ao José Alberto Carvalho que a lista devia entrar numa outra lista, a lista das coisas mais ridículas do ano de 2015, pelo menos, tamanha a grandeza dos disparates. Júdice aproveitou para deixar aquela que será a melhor explicação até agora conhecida no espaço público para o fenómeno de perversão da Justiça a que estamos a assistir. Dando como exemplo a disfunção de Carlos Alexandre, que deixou de se comportar como juiz dos direitos e garantias e passou a assumir o papel de super-polícia, fez o diagnóstico sistémico da reacção corporativa que está a unir as magistraturas do ministério público e a judicial numa aliança que gera um desequilíbrio cujo resultado não é a melhoria da Justiça mas antes o culto do magistrado justiceiro.

Esta interpretação, para além da sua razoabilidade e verosimilhança, permite abordar o problema sem necessidade de recorrer a teorias da conspiração, sejam corporativas ou partidárias. Permite até colocar a questão técnica relativa às condições psicológicas daqueles a quem se entrega tanto poder. Por exemplo, o Carlos Alexandre poderá ser alguém impecavelmente íntegro do ponto de vista legal e moral e ainda um exemplo sobre-humano de entrega ao TRABALHO. Todavia, basta que ele se arrogue a liberdade de abdicar da defesa dos arguidos até ao limite da Lei para já merecer o afastamento compulsivo. Onde é que estes tópicos se discutem? À porta fechada, lá nas catacumbas ou casamatas do edifício judicial, daí a relevância das palavras de Júdice. Se não me falha a memória, desde a última vez que estive a estudar o assunto na Wikipédia, a Justiça ainda é um dos pilares da vida comunitária e dos regimes democráticos, pelo que, se calhar, às tantas, vai na volta, até será algo sobre o qual os cidadãos deverão ter o melhor e mais exaustivo conhecimento que for possível obter.

Estamos perante 24 minutos de programa. O que dá à volta de 10 minutos para as declarações de Júdice. Nada mau. É que podia ser pior.

3 SETEMBRO 2015

ÀS 18:40 POR VALUPI  EM ASPIRINA B

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