Quando era pequeno estava sempre desejoso de fazer anos. Compreendia
que só se podia fazer uma vez no ano. Mas o que querem! Queria fazer mais que
uma vez. Não era pelas prendas que recebia. Nessa altura não havia bugigangas
como hoje há. Era pelo facto que nesse dia recebia como prenda uma malga de
café e um trigo de quatro cantos. Que pitéu! Estava habituado a todos os dias
me deslocar à Cantina Escolar para ali tomar uma malga de leite pó, malga essa,
que levava de casa assim como a broa esfarelada e um pouco de açúcar. Portanto o chamar de pitéu à malga de café e ao trigo de quatro cantos.
Tempos de miséria. Não dávamos por isso porque a regra era geral. Só mais tarde é que nos apercebemos. As condições socioeconómicas começaram a melhorar. À mesa de qualquer casa já entrava outros artigos alimentícios. Os ordenados eram melhores.
Tempos de miséria. Não dávamos por isso porque a regra era geral. Só mais tarde é que nos apercebemos. As condições socioeconómicas começaram a melhorar. À mesa de qualquer casa já entrava outros artigos alimentícios. Os ordenados eram melhores.
Depois com o vinte e cinco de Abril as coisas ainda melhoraram mais. Os
aniversariantes começaram a receber melhores prendas. A malga de café com o
trigo de quatro cantos já não fazia parte dos aniversários dos mais pobres como
eu. Agora eram bugigangas e mais bugigangas. Só que tudo tem um princípio e um
fim. E como nos crimes em que o criminoso volta sempre ao local do crime também
a pobreza está a voltar aos lares dos portugueses.
Receio que a partir de agora nem uma malga de café e um trigo de quatro cantos volte a entrar na casa dos mais necessitados em dia de aniversário. Por isso a minha não alegria por mais um aniversário. Outrora sentia uma alegria imensa. Tinha pressa em me tornar adulto e mais tarde homem. Depois veio a fase em que não me importava de ficar sempre na mesma idade ou que me tirassem alguns anos. Quem não pensa assim como eu? O homem torna-se num animal insatisfeito.
Receio que a partir de agora nem uma malga de café e um trigo de quatro cantos volte a entrar na casa dos mais necessitados em dia de aniversário. Por isso a minha não alegria por mais um aniversário. Outrora sentia uma alegria imensa. Tinha pressa em me tornar adulto e mais tarde homem. Depois veio a fase em que não me importava de ficar sempre na mesma idade ou que me tirassem alguns anos. Quem não pensa assim como eu? O homem torna-se num animal insatisfeito.
Até dou de conselho que o governo nos devia roubar anos. Assim como nos
rouba noutras regalias conquistadas com muito suor porque não nos roubar nos
anos? Não o faz porque os anos não rendem euros!
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