A chuva caía miudinha e teimava em não desaparecer. De guarda-chuva
aberto João seguia o seu trajecto e entre o dedo indicador e médio levava preso
um cigarro que a compassos levava à boca para dar uma “travaça”. Depois disso
expelia o fumo. Era com prazer que fazia umas rodinhas que à frente dos seus
olhos iam desaparecendo. Continuava a caminhar assim como a chuva miudinha
continuava a cair. Ainda faltava um bom par de quilómetros para chegar ao
destino. Tinha saído numa paragem de autocarro na Areosa que a Auto Viação
Pacense usa para deixar os seus clientes.
Assim, entre este local e o Hospital de S. João, são os tais bons pares
de quilómetros, que têm de ser feitos a penates. É que a Auto Viação Pacense não
faz carreira até ao Hospital de S. João. Também não fazia mal porque a consulta
de Pneumologia ainda demorava umas horas.
De vez em quando tirava o
guarda-chuva de cobrir a sua cabeça para ver se a chuva miudinha já tinha
amainado. Mas nada disso. Continuava pouca como pouco continuava o cigarro
entre o dedo indicador e médio. Até a cinza teimava em despegar do cigarro. Ou
já não era cigarro? Mas sim uma pirisca!
O caminho encurtava. O Hospital de S. João já era avistado. O que era
preciso era dar início a outro cigarro. Assim o caminho era mais fácil de
percorrer. Parecia que tinha o efeito do doping. Bem. Não podia dizer isso
porque em toda a sua vida não se dopou. Quando o podiam ter dopado foi quando
era jogador de futebol do Sport Clube de Freamunde. Mas nem isso. O Sport Clube
de Freamunde não tinha dinheiro para pagar aos seus jogadores que fará para
comprar essa mistela. Não! Essa ideia estava fora de questão. O cigarro além de
matar o vício servia como companheiro de viagem e nunca como doping para dar
mais resistência. Até porque a distância era um par de quilómetros e já estavam
a ser ultrapassados.
Continuava a chuva miudinha a cair e o guarda-chuva aberto para
colmatar essa dádiva da mãe Natureza. Mas neste dia e hora remediava-se bem sem
essa dádiva. Agora o cigarro era outro. E como os outros não ardia como nos dias
sem chuva e o fumo saía compassado - era aos poucos e descontinuo. Sabia pela
distância que faltava que era o último até à consulta médica. E… por isso à que
levar este até ao final. Nem que para isso sentisse uma queimadela entre o dedo
indicador e médio. Não era a primeira e não seria a última.
Entrou no hospital. O gabinete em que o seu médico dava consulta ficava
uns andares acima da superfície da terra. Quase sempre os elevadores para o
público estavam avariados. Avariados ou fora de serviço! Julgo que fora de
serviço para economizar electricidade. Parece que estava a ver quando ali
chegasse custar-lhe respirar. Era assim todas as vezes que acontecia. Não foi
por fumar demais. Quase sempre tinha tudo cronometrado. Isto fazia-lhe lembrar
os cães quando dão umas voltas à árvore e só depois é que alçam a perna para
dar a respectiva mija. Olha do que se foi lembrar e que comparação! Mas é
assim. O homem e os animais irracionais, principalmente os cães, têm este
hábito.
Com estes pensamentos chegou junto do gabinete médico. Estava já ali
muita gente à espera da consulta. Tinha de aguardar. Enquanto esperava começou
a meditar nas horas que ia estar à espera. Deviam estar umas trinta pessoas à
espera da consulta. Começou a fazer cálculos. Regra geral eram dez minutos de
consulta. Dez minutos, vezes trinta, dá trezentos minutos. Reduzindo os minutos
a horas dá cinco horas. Como era possível aguentar cinco horas sem fumar! Se
estivesse ao ar livre pelo menos dava cabo de três cigarros por hora. Outra vez
a lembrança do cão. Este que não combata os seus hábitos vá que não vá. Agora
um ser racional tem que ser mais forte que o vício.
Chegou a sua vez de ser atendido. O médico olhou para a sua fisionomia
e disse: pelo que vejo o vício do cigarro mantém-se? É verdade senhor doutor.
Mas enquanto esperava pela consulta estive a meditar e a partir de hoje e esta
hora não mais vai entrar um cigarro na minha boca. O homem tem de ser mais
forte que o vício. Se assim não for o homem é um escravo. E… para escravo já
fui tempo bastante.
Depois de o médico ter feito uma auscultação aos pulmões e tórax disse:
O seu caso continua grave. Se não deixar de fumar não respondo pela sua vida.
Senhor doutor já disse que não entra mais um cigarro na minha boca. O médico
deu por terminada a consulta sem antes dar um cumprimento de mão e dizer: olhe
para o que me está dizer. Na próxima consulta quero ver a veracidade das suas
palavras.
Saiu do gabinete médico. Depressa chegou fora do hospital. A chuva
continuava a cair miudinha. Fez-se ao caminho a pé até à Areosa. Depressa ali
chegou. Sem cansaço e ofegante. Agora não levava nenhum cigarro entre o dedo
indicador e médio. Seria que o efeito já estava a ter resultados! De certeza
que sim.
Só a chuva continuava a cair miudinha e teimava em não desaparecer. Por
isso o guarda-chuva aberto. Agora para proteger mais o corpo do que o cigarro
ou pirisca. Estes, já o eram.

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