quinta-feira, 6 de junho de 2013

Um Nome. Freamunde: (4)

            Albino de Mato

Indústria
"Notícias, há-as da produção de mel e cera, aliás como em todo o Portugal como referia Duarte Nunes de Leão ao escrever que dele era tanta "a cópia" que bastava a população e ainda se exportava.
Nos finais do Sec. XVI já não seria tanta a produção dada a tendência de incluir o açúcar na produção de alimentos, particularmente na doçaria de que a região era rica. E ainda é.
Quanto a cera era de longa data essencial à iluminação. Cera e cirios produzidos em todos os ovados e honrados pela festa da Senhora das Candeias pelo dois de Fevereiro.
Outra produção importante para a economia era a do linho de que se "faziam as delgadas e finas linhas e de maior alvura que há em todo o universo" exagerava um tanto Duarte Nunes de Leão. A qualidade dos linhos era tal que muito dele se exportava, através dos mercadores do Porto que aqui os procuravam com regularidade. Com a produção do linho, a arte de fiar e tecer impunha-se em todas as aldeias.
O quadro completava-se com a exploração dos moinhos de água, os fornos, alguns colectivos, tal como os lagares para a feitura do vinho e uma ou outra saboaria.
Uma referência à arte de tanoaria que nas zonas do litoral andava a par com a produção de conservas de peixe em sal e que na nossa região se destinava ao armazenamento de vinhos e a produção de louça doméstica vária para líquidos.
Tanoeiro havia-os em todas as aldeias. Nem todos seriam grandes artistas se atentarmos que se chegou a obrigar os artistas a marcarem as suas obras por forma a que se distinguissem os bons dos maus.












A arte de tecer
Destaque para a descrição que o Dr, João de Barros faz do imenso trabalho de mulheres entre Douro e Minho: "incansáveis tecedeiras e fiandeiras em que andam continuamente ocupadas." Tecedeiras e fiandeiras também da lã produto igualmente essencial à satisfação das necessidades domésticas. Tal como os ferreiros aos quais se pedia o fabrico de utensílios agrícolas e ferramentas domésticas, as mais diversas foices, foicinhas e enxadas, as facas, as tesouras, as esporas, as ferraduras, os candeeiros e as fechaduras das portas.












O Ferreiro e a sua forja
Igual função exercia os oleiros da região. Mesteres e profissões de artistas locais cujo prestigio não cessou de crescer desde os finais do sec. XV, a par com uma aturada fiscalização a que eram sujeitos por parte das autoridades concelhias. Muitos deles organizados em torno de associações profissionais ou integrando confrarias e irmandades as quais emprestavam algum brilho por ocasião da respectiva festividade anual.
Os produtos nem todos eram destinados ao comércio local. Os chamados "mesteres dos mantimentos de vender," encarregavam-se de os colocar na feira. Eram os padeiros, os carniceiros, os azeiteiros, os vendedores de lenha e demais regateiros e regatões quem de terra em terra procedia a respectiva distribuição. A distribuição era aliás um problema a que as autoridades regionais sempre estiveram atentas. A compra e venda de produtos permitia-lhes cobrar taxas. A passagem de mercadorias também. Do melhor ou pior abastecimento dependia também a acalmia das populações. O movimento seria por tal forma intenso que o próprio Frei Luis de Sousa diz que «toda a terra de Entre o Douro e Minho era feira contínua de comprar e vender e embarcar e mercadejar. Espaço económico para negócios. Espaço para convívio e festa. Espaço ainda para "arrecadar sisas e mais imposto».












Feira quinzenal em que noutros tempos os talhantes eram apelidados de carniceiros

O assunto de rendimentos para o estado, havia passado a Comendas que em si mais não eram que os sinais financeiros e económicos com que as famílias nobres ostentavam as suas riquezas. Tiradas aos rendimentos de Igreja, com autorização Papal dada a D. Manuel em 1496, são forma de pagamento de serviços prestados ao reino, sem que o tesouro e a Fazenda tivessem com isso quaisquer encargos.
Toda a região, de Freamunde a Penamaior, Frazão a Sanfins, foram Comendas da Ordem do Cristo. Passaram a Casa do Infantado e a reditos de outros nobres sejam eles Barbosas, Ferreiras, Botelhos ou Carvalhos.
Em todo o trabalho, a terra e a subordinação social eram o sistema. Como teia de relacionamento económico e social. Sistema que se reserva a propriedade primordial da terra para o rei e, através dele para os grandes senhorios deles dependentes. Por isso sistema de exploração de terra em que se dissociam trabalho e propriedade. Quem trabalha e não é proprietário e quem é proprietário e não trabalha a terra. A Casa do Infantado pertencia por inerência, às "jurisdições" e "Ouvidorias" dos povos. São os séculos de estagnação e dependência que só terminaram em 1836 com a criação do concelho de Pacos de Ferreira.
Durante todos estes séculos, só Freamunde parece destacar-se pelo dinamismo criado à volta das suas feiras. Dinamismo que lhe traz a criação de algumas unidades fabris. Todas pequenas no seu início artesanal, mas com destaque para a tamancaria e respectivos acessórios, para a latoaria, a fiação caseira e sobretudo o ferro forjado. Irradiando a partir dos centros feirantes, um comércio fixo a retalho enche-se de tudo e atrai a Freamunde gente das freguesias vizinhas. Mercadorias trazidas de todo o lado pelos Almocreves, homens sérios que por aqui passavam carregados com tudo, a caminho de Azurara. Com eles, as noticias, as inovações e a ventilação de ideias, algumas delas bem aproveitadas pelas gentes de Freamunde.












Almocreve a verificar a ferradura do cavalo

Por volta de 1940, novos voos, desta vez em torno da indústria do mobiliário. Não que se não produzisse antes toda uma gama de móveis domésticos, simples bancos, mesas de cozinha e cadeiras. Mas porque se criou a Fabrica Grande. Ali na rua do Comércio, estruturou-se em moldes modernos o que Albino Matos semeara desde os inícios do século. Excepcional pedagogo e inovador, começara por construir material escolar auxiliar para o ensino primário do país.












Vista aérea da (Fábrica Grande) Albino de Matos Pereira & Barros Lda.

Com êxito excepcional, desde as carteiras, os quadros, as caixas métricas, colecções de sólidos e formas geométricas, aos contadores. Em 1926 eram já duas as fábricas de material escolar a dar emprego em Freamunde e sobretudo a ensinarem a arte de bem trabalhar a madeira. A de Albino de Matos, sucessores Lda. e a Pereiras Barros e Ca. Ltd. 










Saída de operários da (Fábrica Grande)

De ambas se fez uma só fábrica, "dotada com todos os maquinismos necessários e com instalações que comportassem 600 ou mais operários, a fim de desenvolver extraordinariamente a nossa indústria e, construindo grandes séries de carteiras e demais mobiliário, poder baratear de tal maneira o artigo da nossa indústria, que jamais alguém pudesse concorrer connosco não só em qualidade, como também em preço."












Carteiras Escolares. Eram as usadas no meu tempo de escola

Por esse tempo o lema era: "Temos imitadores, mas não temos concorrentes."
E não tinham mesmo, até pelo empenho dado à formação profissional do maior empregador da região. Autêntica fábrica-escola, por ela passaram os pioneiros da indústria do móvel do concelho e da região.












Caixa métrica

Em 1945, na Fabrica Grande trabalhavam para cima de 500 operários, já bem especializados em todas as fases da produção. Este aspecto é relevante. Ali se trabalhava o vidro, os estofos, a colchoaria, a serralharia, a fundição, a pintura e o desenho de móveis.











Mesa operatória
Do mobiliário escolar, passou-se ao mobiliário doméstico, ao mobiliário hoteleiro, de escritório e hospitalar. De tudo se fez e bem de tudo se aprendeu nesta fábrica. Na década de sessenta, viu-se reduzida por grande incêndio, um primeiro sobressalto a que a conjuntura económica posterior acrescentou outros mais e mais difíceis de transpor. 


















Muitos dos operários que postaram para a fotografia. Ano de 1932

Mas não morreu e bem merecia um outro estatuto social e cultural, não só pelo seu património indesmentível como principalmente pelo seu imenso espólio que guarda ainda, autêntica tentação para que dela se volte a fazer escola-museu, integrada na região que bem precisa saber onde, como e porquê se tornou a capital do móvel.
Actualmente a freguesia cresceu e soube diversificar como poucas as suas iniciativas industriais, dos têxteis, das confecções, a indústria metalomecânica até aos produtos afins e acessórios dos tratamentos médicos e de uso hospitalar."
Continua

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