terça-feira, 4 de junho de 2013

Um Nome. Freamunde: (2)

Povoamento
"Toda a área compreendida entre o Douro e o Minho, dizem-no as fontes clássicas, era habitada por um povo de etnias aparentadas, denominado como Galaicos. Estrabão diz que no início se chamavam Lusitanos e que só a partir da ocupação romana se chamaram Galaicos, o que quererá mais dizer que a ocupação romana se limitou a integrar todos estes povoados na Lusitânia. Aqui então, a partir do Sec. V a.C. e até metade do Sec. II a.C., processa-se uma notável concentração de povoados com características comuns e que vulgarmente são conhecidos como cultura castreja. Aqui convergiram dois caminhos de povos, um deles pelo Norte e vindo do centro europeu, outro pelo Sul e vindo da área do Mediterrâneo. Ambas influências são detectáveis em formas resultantes da aculturação nesta região.
Nas colinas e montes que rodeiam e demarcam os campos de exploração agrícola, na Idade do Ferro, instalaram-se os Castros ou por outro dizer, pequenas comunidades organizadas em famílias extensas, ligadas entre si por fortes laços de consanguinidade.
Tinham origem continental estas pequenas comunidades, as quais traziam consigo uma nova civilização. Quando, bastante mais tarde, os Romanos aqui chegaram, foram estas povoações que encontraram e delas fizeram alguns relatos escritos, pelos quais podemos conhecer, bem como pelo espólio encontrado. Em certos Castros de maior dimensão e importância, a romanização trouxe-lhes o ordenamento proto-urbano, uma poderosa montagem de muralhas e alguns edifícios públicos. Não é ilógico pensar que tudo isso exigia já uma unidade organizativa à qual terá presidido uma figura militar bem representada pela estátua tutelar do Guerreiro de Sanfins.
Guerreiro de Sanfins
Essa unidade organizativa estender-se-ia aos castros vizinhos, aliás estrategicamente organizados em primeiras linhas defensivas de povoamentos dependentes. Vasta área que englobava Negrelos, Lustosa e o próprio Monte Córdova e seguramente os núcleos castrejos documentados nas actuais áreas de Raimonda, Freamunde, Ferreira, Paços, Frazão, Penamaior, Meixomil, Eiriz, Lamoso, Codeços e para a vertente de Santo Tirso, o Castro do Padrão. Esta fase terá terminado pelos meados do Sec. I d.C. Em Freamunde, o Castro dos Mortórios, repartido com a vizinha freguesia de São João de Covas, apresenta ainda alguns vestígios, poucos, que a destruição foi quase total. Restam indícios do sistema defensivo. Aí se encontrou em tempos uma ponta de punhal em bronze, actualmente depositada no Museu do Seminário Maior do Porto.
A presença romana terminou por desprezar este "habitat" demasiado guerreiro e agressivo, obrigando, ou atraindo núcleos populacionais para uma agricultura mais rentável e sistemática nas terras baixas e férteis. Os núcleos documentados passaram para Paços, Seroa, Frazão, Penamaior, Eiriz, Carvalhosa e Meixomil e Freamunde. São tempos de forte aculturação, de introdução de novas técnicas de cultivo e de profundo ordenamento jurídico da propriedade e afinal, duma nova cultura em sentido global. Os vínculos administrativos e económicos passam pela terra, e através dela para quem a possui em direito.
O aparelho do Estado, supra e regional, fazia-se representar por funcionários, prefeitos e seus legados móveis, fundamentalmente para questões de justiça, pois que para questões de impostos, aparecia o procurador. Mas no geral, o aparelho não se faria sentir com intensidade numa zona como esta, relativamente marginal aos principais interesses romanos. Desta forma, o autogoverno vigiado ao longe pela guarnição militar no couto mineiro de três Minas (V. Pouca de Aguiar), parece ter sido a forma administrativa vigente.
Os Suevos
A presença dos povos Suevos encontrou-se com formas de cultura que lhe eram inferiores. É sabido que, como no geral, respeitaram a situação encontrada, nos campos jurídico e administrativos (que aliás lhes eram desconhecidos), cedo se tornaram "amigos." Instalam-se junto a Braga, guardando seus tesouros e oficinas monetárias. O seu reinado na região, e sobretudo, o primeiro reino Católico. Surge pela primeira vez na história Ocidental uma aliança perfeita entre Igreja e Estado. Com eles o impulso de S. Martinho de Dume, e acima de tudo, a organização paroquial que enquadra as populações da região. O centro eclesiástico mais influente estava em Meinedo (Lousada). A organização religiosa das populações deveu-se à profunda acção evangelizadora de São Martinho de Dume que certamente fundou ou reestruturou muitas paróquias da região, entregando-se à protecção do seu homónimo São Martinho de Tours. Os núcleos paroquiais de S. Martinho (Freamunde de Cima) e Frazão, serão disso testemunho.
No aspecto administrativo, atidas a si próprias, as populações atravessaram séculos de relativa autonomia, à volta da sua paróquia e da sua igreja que era um lugar para tudo. Protegia de abusos normais numa sociedade em formação, organizava reuniões onde se discutiam todos os assuntos locais, era o mercado e até o lugar de divertimento. Sobrevivem no entanto, os esquemas administrativos e políticos das antigas cividades, territórios e conventos e a algumas das suas formas administrativas e judiciais se recorria em tempo de crise para assuntos de importância político-administrativa. Sempre no entanto, em contexto de autonomia regional. O centro político-administrativo do território envolvente estaria em Entre-os-Rios: o território chamava-se de Anégia.
Esta tendência ao autogoverno, acentuou-se com o abandono dos principais detentores de poderes (principais Bispos e detentores de terras) à aproximação dos muçulmanos. Os núcleos populacionais resumem a sua vida ao arcaísmo familiar da aldeia. As tradições e costumes locais são a lei.
Esta situação prolongou-se até às ocupações das terras envolventes por parte dos asturianos que procuraram com êxito, restaurar a autoridade eclesiástica necessariamente por sua iniciativa e com controlo na região. Não se terão preocupado tanto com a restauração de um poder civil administrativo e político coerente. E é de novo pela mão de fundações eclesiásticas que se inicia novo período de prosperidade, via melhor aproveitamento de terras cultiváveis da área do actual Concelho. Terras férteis e logo cobiçadas, que iam desde os vales do Tâmega ao Ferreira. À disputa pela posse das terras nesta área, acorrem as grandes famílias de entre o Minho, ricos homens e ordens monásticas e militares.
Desenha-se um novo quadro político-administrativo: A chamada então Terra de Sousa. É uma demarcação regional, de índole defensiva e autonómica em relação ao islão e ao domínio do reino de Leão. Grandes famílias nobres principalmente a dos Sousas oriunda da região de Baião e a dos Maias, todas elas por incumbências ou usurpação obtém direitos sobre terras e gentes, que transformam em "honras" de que usam e abusam, demonstrando a sua riqueza na construção dos seus Paços e na fundação de igrejas e mosteiros de família.
Neste sistema se enquadram as terras das actuais freguesias de Carvalhosa, Eiriz, Sanfins, Codeços, Lamoso e Raimonda. Era uma zona de altitude, preferida para habitação destas famílias nobres. As suas propriedades são objecto das inquirições de 1220. Os inquiridores começaram pelas terras de Portela, Carvalhosa, Lustosa, S.Feliz, Eiriz e Santa Cruz. Passaram de seguida a Lousada, Felgueiras e Aguiar de Sousa. Deixaram no entanto, claramente expresso que as terras referidas na primeira fase do inquérito, pertenciam ao Termo de Ferreira enquanto que as da zona sul do actual concelho, se chamavam do Termo de Aguiar de Sousa, com certo castelar defensivo em Paredes.
O objectivo desta divisão aparece claro à luz da intenção dupla de recuperar o que restava da privatização operada pelas grandes famílias senhoriais e era recuperável para os direitos e administração régia e também de enfraquecer a anterior hegemonia que exerciam em todo o Termo de Sousa. Aos nobres deixava-se o domínio das terras altas e pobres. À coroa régia, as terras baixas e férteis do Ferreira. Faltou força para tal incumbência. Novamente enfraquecido o poder central ao tempo de Sancho II (1223-1248), as grandes famílias se apoderaram das terras a sul. Servem-se de aliados poderosos: as fundações monásticas que perseguem o mesmo objectivo.
Tudo isto a exigir novas Inquirições que não tardaram, logo que se estabeleceu o poder central com Afonso III (1248-1279).
Neste segundo exame à face das terras, a área aparece dividida em dois Julgados, a cada um dos quais preside um juiz como representante da coroa: o Julgado de Refojos, com Seroa, Penamaior e Frazão, e o Julgado de Aguiar de Sousa com os restantes.
Ao Julgado de Aguiar de Sousa, passam a pertencer o anterior Termo de Aguiar e o Couto de Ferreira de que Freamunde fazia parte. Uma vasta zona. Também variada e de pleno interesse económico, com propriedade, vila nobre e régia e cujo centro preponderante era justamente Paços de Ferreira.
Os dois Julgados tomam o rio Ferreira por fronteira natural.
Nessas Inquirições, realizadas nas terras de Freamunde, entre Maio e Outubro de 1258, Martim Anes na qualidade de prelado da freguesia, jura que a terra era de herdadores e que os habitantes escolhiam o pároco para o apresentarem à confirmação do Bispo do Porto."
Continua

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