Nem a extraordinária beleza da mulher de Mateus convenceu Gaspar
Pelo caminho encontraste uma mulher formosa, mas faminta, que já
abandonara o estábulo e queria regressar a casa. Era a mulher de Mateus.
Pediu-te comida que tu recusaste e ela, em desespero, disse-te que te oferecia
o corpo em troca de mantimentos que lhe permitissem chegar a casa sem
problemas.
Foi então que tu lhe disseste.
- Não quero o teu corpo. Eu sou gay! Mas leva lá um bezerro para o
caminho, porque és uma mulher generosa e pertences ao melhor povo do mundo.
A mulher de Mateus arrojou-se aos teus pés em vénias agradecidas e
seguiu o seu caminho.
Quando chegou a casa, contou ao marido:
- Mateus, Mateus, encontrei no caminho o Rei Gaspar que foi levar incenso a Jesus e me ofereceu
um bezerro para o caminho. Foi ele que me salvou a vida.
Foi assim, por uma má interpretação, que Mateus anos mais tarde
escreveu que eras Rei e não Gay ( o erro
só viria a ser detectado, séculos mais tarde, por quatro Gatos Fedorentos mas, em vez de o
divulgarem ao mundo, resolveram fazer um humorístico anúncio publicitário para
a TMN. Assim ficaram na posse do segredo e de umas boas massas).
Como não tens emenda, demoraste muito tempo a cá chegar. Não os dois
mil anos que a História do Tempo conta, porque isso é muito relativo, mas umas
décadas. Até chegares à Europa vieste sempre muito descontraído mas, uma vez ultrapassados os
Urales e já com a Ibéria à vista, pensaste que era melhor começares a fazer
amigos. Na altura, por culpa de Mateus, mas também de um tal Braga de Macedo,
bobo da corte de Herodes, já todos por cá pensavam que tu eras Rei e assim te
tratavam. Convidaram-te a ficar uns anos em Bruxelas para aprenderes os
costumes europeus e poderes ser um bom governante das terras que te iriam ser
oferecidas por Herodes, entretanto já instalado no palácio de Belém.
Por essa altura foste informado que a Ibéria já não era aquela amálgama
de países que Herodes te dera a conhecer e estava reduzida a dois. Perguntaram
se preferias Belém ou a Moncloa e tu, olhando para o mapa, foste rápido a
decidir. Este aqui tem uma bela vista para o mar é para lá que eu vou. Além
disso é lá que está Herodes e eu preciso de ter
uma conversinha com ele.
Ainda estavas tu a planear a data de partida, quando te chega a
Bruxelas a notícia de que Herodes tinha
oferecido o governo de Tugalândia a um coelho que trazia sempre atado ao pelo
um tufo de relva. De imediato percebeste de quem se tratava e ficaste furioso,
mas logo um porco em cadeira de rodas, acompanhado de uma vaca te acalmou.
- Não desesperes,Gaspar! Irás reinar a Tugalândia, desde que sigas
escrupulosamente as nossas orientações. Não te amofines com o coelho que está
no poder e cuja história nós já conhecemos. O animal viveu uns tempos com a Alice do País das
Maravilhas, está um bocado alucinado e só lhe interessa o título. Quem vai
mandar na Tugalândia és tu, embora seja ele a ter o título. Mais tarde, se te
portares bem, a gente dá um pontapé no cú daquele coelho que anda sempre
enrolado num monte de relva e tu ostentarás também o título de primeiro
ministro da Tugalândia.
E o Herodes, aceita?
O Herodes aceita tudo. Só precisamos de um bocado do pó com que
adormeceste aquela malta do presépio para lhe dar à noite com um chazinho e o
gajo fica ali a dormir durante cinco anos até nós fazermos o trabalhinho. Os
tugas até vão pensar que aquele é o palácio da Bela Adormecida.
(Continua)

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