«(…) A esmola. O próprio vocábulo hoje incomoda. Tem travos de
aviltamento, atraso e rebaixo. No século XXI, há quem queira voltar à prática
infamante da esmola! As saudades da Idade-Média tardam ao esconjuro. Mas o
lastro da miséria não é aura que eleve aos céus. É chumbo que arrasta para as
regiões inferiores, onde, segundo as mitologias, se arde. (…) No país em que eu
nasci, quem mandava eram os ricos que encarregavam das tarefas sujas uns
professores de Coimbra e uns militares que por sua vez comandavam legiões de
desgraçados. Durante gerações, houve pessoas, em número mínimo, que beneficiaram
duma vida remansosa dentro dum circuito fechado e protegido. A sua
insensibilidade social era completa. Nem se apercebiam de que em volta havia
pobre gente maltratada, humilhada, presa, espancada. Se lhe chegassem rumores
(através das criadas, por exemplo) considerariam que era natural. O imperfeito
mundo funcionava assim mesmo, éramos «um país pobre», resignassem-se. E até
encontravam uma especificidade nacional justificativa do nosso fascismo
doméstico. Era desumano? Paciência. Havia oratórios, terços, missas, e em
calhando cilícios e bodos aos pobres. A desumanidade redimia-se nos ritos.
De repente (surpresa para eles) caiu-lhes uma revolução em cima,
transtornou-lhes os planos, estremeceu-lhes as carreiras, desmarcou-lhes as
festas. O que se chama, na sabedoria popular «uma patada no formigueiro». Nunca
perdoaram esses momentos – fugazes - de perturbação das pequenas vidas. Não
tardariam, eles e seus descendentes, a ser repostos nos lugares de antes (em
circunstâncias e conluios que não importa agora rever) mas num quadro jurídico
e institucional diverso: a democracia. Essa incomodidade áspera, própria de
intelectuais irrealistas, operários transviados e outros lunáticos, mostrava-se
demasiado imponente para se derrubar de golpe? Dissimulasse-se. Corroesse-se
por dentro. Desviassem-se os recursos do Estado. Praticasse-se uma permanente
cleptofilia. E, dentada a dentada, sangria a sangria, desgaste a desgaste,
chegou o momento que julgaram oportuno para rasgarem as fantasias e voltarem
aos plenos poderes de antes, a coberto dos seus criados. A vingança serve-se
fria. Há um nome francês que se usa no caso: «revanche».
(…)
Quando por todo o lado se apregoa – com grande favor jornalístico – a
ideia de que o Engº Zulmiro não deve pagar o mesmo nos transportes que um
reformado pobre, quando se dispõem contrapartidas distintas, conforme os
escalões, nos cuidados de saúde, quando se estabelecem diferenças de tratamento
ao sabor dos rendimentos declarados não é a justiça que estão a praticar. Muito
ao contrário. É a normalização e a institucionalização das desigualdades. É um
desenho do mundo em que a pobreza (a dos outros) se aceita como fatalidade. A
restauração do despenhado mundo dos pobres, como eu o conheci.
Os ricos já têm o poder económico neste país. Asseguraram, através dos
seus valetes, o poder político; ainda querem mais: exercer o poder pessoal,
sobre as vidas de cada um, usando, ou sendo transmissários, do instrumento da
esmola. É a imposição da desigualdade como ordem natural das coisas, como uma
grelha implacável cravada na sociedade portuguesa. A esmola, neste quadro, faz
lembrar o cajado do guardador de rebanhos. Pobres para serem mandados,
distribuídos, orquestrados, mordidos, concentrados, castigados, benzidos. E
isso é bem diferente de praticar a caridade, nas falhas e interstícios do
chamado Estado social. Não há aqui expressão de amor ao próximo. Não se trata
dos casos (meritórios) em que se descarregam consciências, sem que uma mão
saiba o que faz a outra. É, ao contrário, uma fórmula institucional de
violência. Esse mal, sistémico e obsidiante, não se deixa compensar com os
maquinismos do bem-fazer de uma indústria caridosa. Por um lado fabricam-se
pobres, através dum sistema social iníquo. Por outro lado, esmolam-se os pobres
que se criaram. É repulsivo? É, sim, e estão em campo as mesmas famílias
(descendentes ou afins) praticantes dos bodos dos tempos do fascismo.»
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