"Já várias vezes escrevi sobre este assunto: na política, como no resto,
a violência tem o poder de se impor, de forma despótica, sobre todos os
argumentos e sobre todas as outras formas de luta. Ela impõe-se pela sua
irracionalidade e pelo seu poder mediático. Ela impõe-se porque replica, na
contestação, os códigos do poder do mais forte.
Depois de ter participado numa manifestação pacífica, passei o fim de
tarde de ontem, em São Bento, a gritar com os poucos (e eram mesmo poucos) que
arremessavam objetos contra a polícia. Tentando explicar-lhes, sem sucesso, que
esse era o favor que faziam a quem julgavam que estavam a combater. Fi-lo,
desesperado com o que via, porque sabia duas coisas: que aqueles gestos dariam
ao governo a desculpa que faltava para reprimir a contestação e que ofuscariam
uma excelente greve geral, que deixou claro o isolamento em que o governo se
encontra. Mas, acima de tudo, por uma razão: tenho, em relação à violência, uma
objeção de princípio. Considero-me um pacifista no sentido mais radical do
termo.
Quando, às 17.30, me apercebi que nada pararia uma minoria de idiotas,
abandonei o local. Muitos decidiram ficar, mantendo a devida distância dos
desordeiros, sem que, como vimos mais tarde, isso os livrasse de ser vítimas da
violência policial. Era certa a injustiça: a enorme coragem que tantos
trabalhadores portugueses mostraram, ao correr o risco de fazer greve (muitos
deles precários e em risco de perderem o emprego) e ao perder um dia de salário
que tanta falta lhes faria, seria esmagada pelas imagens de violência que sempre
têm a preferência dos media.
Dito isto, há que deixar claras uma contradição e uma mentira do ministro
da Administração Interna.
Disse o ministro que as provocações - que existiram - eram obra de
"meia dúzia de profissionais da desordem". Se eram meia dúzia
(facilmente identificável depois de uma hora e meia de tensão), porque
assistimos a uma carga policial indiscriminada, que varreu, com uma violência
inusitada e arbitrária, tudo o que estava à frente? Porque foram agredidos
centenas de manifestantes pacíficos, só porque estavam no caminho, naquilo que,
segundo a Associação Sindical da PSP foi a "maior carga policial desde
1990"? Conheço várias pessoas que, como a esmagadora maioria dos que ali
estavam, não participaram em qualquer desacato. Não tendo sequer resistido a
qualquer ordem policial foram, segundo os seus próprios relatos, espancadas
pelas forças que deveriam garantir a sua segurança. Como é possível que tenham
sido detidas dezenas de pessoas no Cais do Sodré e noutros locais da cidade,
sem que nada tivessem feito a não ser fugir de uma horda de polícias em fúria e
aparentemente com rédea solta para bater em tudo o que mexesse? Entre os
detidos e os agredidos estava muita gente que, estando tão longe de São Bento,
nem sequer tinha estado na manifestação ou sabia o que se passava. Como é
possível que dezenas e dezenas de pessoas tenham sido detidas em Monsanto e na
Boa Hora sem sequer lhes tenha sido permitido qualquer contacto com advogados,
como se o País estivesse em Estado de Sítio e a lei da República tivesse sido
abolida?
Quando a polícia espancou gente pacífica
em vários locais da cidade, estava a garantir a ordem pública ou a contribuir
para a desordem? Estava a garantir a integridade física dos cidadãos ou a pô-la
em causa? Estava a garantir o cumprimento da lei ou a violá-la? Estava a
reprimir os "profissionais da desordem" ou a espalhar a desordem pela
cidade? O comportamento inaceitável de meia dúzia pode justificar um
comportamento arbitrário das forças de segurança, que não poupa ninguém a
quilómetros de distância da própria manifestação.
Não, o comportamento de alguns desordeiros não pode, num Estado de
Direito, permitir que a polícia se comporte, ela própria, como desordeira. O
crime de uns não permite um comportamento criminoso das forças policiais.
O ministro da Administração Interna garantiu que, ao contrário do que
foi escrito em vários órgãos de informação, não havia agentes infiltrados na
manifestação, a promover os desacatos para excitar os mais excitáveis e
justificar esta intervenção. Fico-me por aqui: sei o que vi antes de me vir
embora. E os agentes infiltrados começam a ser cada vez mais fáceis de
identificar. Já uma vez o ministro desmentiu uma notícia semelhante que depois
ficou provada. Espero que outros tenham conseguido recolher imagens que mostrem
alguns dos que, no meio da multidão, vão semeando a confusão.
No dia 15 de Setembro elogiei o comportamento das forças policiais.
Quando querem evitar o confronto sabem bem como o fazer. Isolando os
provocadores e garantindo o direito à manifestação da maioria pacífica. Quando
as ordens parecem ser diferentes é fácil contribuir para a violência. Foi o que
aconteceu ontem. Uns tantos idiotas de cara tapada e as ordens certas vindas de
cima chegam para garantir que uma greve geral com mais adesão do que o esperado
pelo governo morra nos telejornais.
Escrito tudo isto, volto ao que é importante: a greve geral de ontem
foi uma das maiores da nossa história. E nem os que procuram nas manifestações
a excitação que outros encontram nas claques de futebol conseguem esconder
isso. E nem a violência indiscriminada que o ministro da Administração Interna
mandou espalhar por meia cidade de Lisboa o pode fazer ignorar. Nas televisões,
foi a brutalidade de uns e de outros que ganhou. Mas o dia de ontem foi bem
mais do que isso: foi uma prova de coragem. Os portugueses estão de parabéns."
PS - O vídeo é um acrescento do administrador do blogue
PS - O vídeo é um acrescento do administrador do blogue


Sem comentários:
Enviar um comentário