Aproveitei este texto de Nicolau Santos para o publicar no meu blogue.
De coisas assim vale a pena falar, embora me cause um certo mal-estar, ao
saber destas situações. Mais a mais é um testemunho de quem com a idade do
menino – o meu caso – não conhecia o paladar de uma bolacha porque nesse tempo
era um artigo de luxo.
Hoje serve como mata-fome. Sabemos que uma
grande parte das crianças portuguesas é disso que se valem para no recreio das
escolas enganarem o estômago. Que realidade tão vil.
Aqui vai o meu reconhecimento a Nicolau Santos pela forma como aborda
certos assuntos da vida quotidiana dos portugueses. Que nunca os dedos lhe doam.
Acredite, se acaso me lê, aqui vai o meu obrigado.
“Supermercado do centro comercial das Amoreiras, fim da tarde de
terça-feira. Uma jovem mãe, acompanhada do filho com seis anos, está a pagar
algumas compras que fez: leite, manteiga, fiambre, detergentes e mais alguns
produtos.
Quando chega ao fim, a empregada da caixa revela: são 84 euros. A mãe
tem um sobressalto, olha para o dinheiro que traz na mão e diz: vou ter de
deixar algumas coisas. Só tenho 70 euros.
Começa a pôr de lado vários produtos e vai perguntando à empregada da
caixa se já chega. Não, ainda não. Ainda falta. Mais uma coisa. Outra. Ainda é
preciso mais? É. Então este pacote de bolachas também fica.
Aí o menino agarra na manga do casaco da mãe e fala: Mamã, as bolachas
não, as bolachas não. São as que eu levo para a escola. A mãe, meio
envergonhada até porque a fila por trás dela começava a engrossar, responde:
tem de ser, meu filho. E o menino de lágrima no canto do olho a insistir: mamã,
as bolachas não. As bolachas não.
O momento embaraçoso é quebrado pela senhora atrás da jovem mãe. Quanto
são as bolachas, pergunta à empregada da caixa. Ponha na minha conta. O menino
sorriu. Mas foi um sorriso muito envergonhado. A mãe agradeceu ainda mais
envergonhada. A pobreza de quem nunca pensou que um dia ia ser pobre enche de
vergonha e pudor os que a sofrem.
Tenho a certeza que o ministro Vítor Gaspar não conhece este menino, o
que seria obviamente muito improvável. Mas desconfio que o ministro Vítor
Gaspar não conhece nenhuns meninos que estejam a passar pela mesma situação. Ou
se conhece considera que esse é o preço a pagar pelo famoso ajustamento. É isso
que é muito preocupante.”

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