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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SICários III:

A jornalista que entrevistou Manuela Moura Guedes a 2 de Setembro de 2025 (Ana Patrícia Carvalho? peço correcção se estiver enganado) é, em simultâneo, a pessoa menos e mais responsável pelo resultado final desse episódio. A menos, porque não foi ela a decidir do convite a MMG, talvez até não concordasse com a escolha (mas isso é aqui indiferente), e porque também não foi ela a decidir que o editorialismo pago por Balsemão seria há décadas uma cagada facciosa. A mais, porque foi ela que fez a entrevista, conduzindo a entrevistada e, o que aqui é crucial, decidindo como lidar com cada uma das declarações de MMG. Para além desta primeira dimensão profissional, a jornalista tentou também comunicar com a intimidade falante que se exibia em sofrimento à sua frente, procurando ir além da camada inerente a ser uma personalidade pública. Esse cuidado, que começa por parecer empático e bondoso, igualmente responsabiliza negativamente a jornalista por causa do resto que não assumiu. Finalmente, a jornalista é responsável por querer trabalhar para quem tem os critérios editoriais do Grupo IMPRESA. Isto, como dizia o outro, está tudo ligado.

Vejamos:

– A jornalista permitiu que MMG formulasse acusações factuais graves — como a de que Sócrates pressionou a administração da TVI para fazer cessar o Jornal Nacional de Sexta-feira — sem as submeter a qualquer escrutínio, sem confrontar a entrevistada com os factos processuais que contrariam essa narrativa.

– A jornalista, em vez de contextualizar ou questionar a solidez das afirmações de MMG, deixou-a proferir acusações sem provas (sobre magistrados, sobre o Supremo, sobre Sócrates) sem as confrontar com a ausência de qualquer decisão judicial que as sustente.

– O depoimento de MMG era manifestamente opinativo e emocional, baseado em percepções pessoais e em testemunhos indiretos não identificados. A jornalista não assinalou em momento algum que se tratava de alegações não verificadas e de uma narrativa subjetiva, dando-lhes o mesmo tratamento que se daria a factos apurados.

– A jornalista não interrompeu nem questionou MMG quando esta afirmou que Sócrates “utiliza todos os meios que a lei lhe faculta para ir protelando e atrasando o julgamento” e que “não quer ser julgado” — juízos que antecipam uma culpa e que invertem o sentido da presunção de inocência, fazendo do exercício legítimo de defesa um indício de culpabilidade. A jornalista deveria ter recordado que o arguido tem o direito de se defender e de usar os meios processuais ao seu alcance, sem que isso possa ser interpretado como prova de culpa.

– A jornalista não exigiu a MMG que identificasse a fonte da afirmação mais grave que fez — a de que Sócrates pressionou a TVI/PRISA. MMG refere-se a “um administrador que fazia parte, um administrador português”, sem nome, sem cargo, sem data, sem contexto. A jornalista não questionou a credibilidade, a identidade ou a existência dessa fonte, aceitando passivamente um testemunho indireto e anónimo como base para uma acusação pública gravíssima.

– A jornalista permitiu que MMG classificasse Sócrates como “psicopata”, “maluco”, “uma pessoa que tem problemas psiquiátricos” — diagnósticos clínicos sem qualquer suporte, proferidos com o claro intuito de humilhar e desqualificar.

– A jornalista sabia, ou devia saber, que MMG tinha um historial de sofrimento emocional associado a este tema — tanto mais que MMG o confessou durante a própria entrevista: “Sofri muito. E se continuar a falar sobre isto, sou capaz de começar a correr uma lágrima, porque é uma coisa que eu não consigo ultrapassar.” Em vez de proteger a entrevistada — desviando o tema, oferecendo uma pausa, ou mesmo interrompendo a entrevista —, a jornalista insistiu, perguntando “Tem um trauma com José Sócrates?” e “E mais. Deve ter muita coisa para lhe perguntar.” Transformou uma fragilidade mental evidente em espetáculo mediático, violando o dever de atender às condições de autocontrolo e dignidade da pessoa envolvida.

– A jornalista não assumiu, em momento algum, a responsabilidade pela desinformação que a entrevista veiculou — nomeadamente a de que “a decisão já estava tomada, de antemão, pelo Supremo” ou a de que “Pinto Monteiro e Cândida Almeida tentaram tudo para travar” investigações sobre Sócrates. Não introduziu qualquer nota de contexto que assinalasse que estas são alegações não provadas. Ao não o fazer, a jornalista tornou-se cúmplice da difusão de informação falsa e não promoveu a retificação que o código deontológico impõe.

– A entrevista serviu um propósito claro: reeditar, em vésperas do reinício do julgamento da Operação Marquês, uma narrativa que há 16 anos MMG veicula contra Sócrates. A jornalista não exerceu qualquer distanciamento crítico em relação a essa narrativa, limitando-se a funcionar como altifalante das acusações da entrevistada. Esse alinhamento acrítico compromete a independência da jornalista e a integridade profissional do meio de comunicação, que deveria ter tratado o assunto com o distanciamento e a verificação que o código deontológico exige.

O que está acima é mera aplicação do Código Deontológico do Jornalista, suportado e enquadrado pelo Estatuto do Jornalista. Se alguém tiver chegado à leitura desta parte do texto e soltar um “Mas coisas dessas estão sempre a acontecer na televisão, pá!”, a resposta é “Pois estão, mano, precisamente!”. O que já não se vê com frequência, se é que alguma vez se viu, foi a reacção da jornalista face à violência insana que MMG despejava. Em dois momentos, tentou que MMG humanizasse Sócrates, reconhecendo nele “resiliência”, primeiro, e depois dizendo-o “sozinho” e “vítima dos prazos”, o que só atiçou ainda mais o ódio na entrevistada. Este apelo genuíno da jornalista à sanidade e mera decência de quem estava à sua frente acaba por ser mais uma mancha deontológica — não pelo falhanço na sua eficácia, mas por ser um recurso emocional desesperado numa situação que pedia coragem implacável. A coragem de recusar ser cúmplice em mais um linchamento de um seu concidadão chamado José Sócrates.

Claro, esperar essa galhardia profissional de quem começa a entrevista a dizer que o esgoto a céu aberto do Jornal de Sexta-Feira de MMG foi o que permitiu o triunfo de se ter o bandido a ser julgado em tribunal não é possível sequer a meio neurónio. Os 10 euros que tenho no bolso em como ela, e todos os colegas de redacção da SIC, especialmente os directores do Grupo, jantaram e dormiram muita bem nessa noite.

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Do blogue Aspirina B

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