Mas nos últimos dias o André Ventura despejou tantas pérolas que, se eu tentasse apanhá-las todas, isto não era um texto, era uma enciclopédia. Por isso vou ficar-me só pelas dos últimos dias. Só pelos últimos dias, reparem bem, porque se fosse a semana inteira, precisavam de trazer merenda para ler isto até ao fim.
Primeiro, a coragem. Andou outra vez a armar-se em corajoso. O destemido. O que enfrenta tudo. Pois deixem-me apresentar-vos o bravo guerreiro, é um senhor que não sai à rua sem uma parede de seguranças à volta, que não entra num café nem numa mercearia sozinho como qualquer um de nós. Anda blindado, cercado, a fingir que há um exército de inimigos em cada esquina. Corajoso? Isto é um homem que conhece Portugal pela janela do carro e no conforto de todas as mordomias que explora do tal sistema que diz combater. Coragem, meu caro, é o padeiro às cinco da manhã, é a caixa do supermercado oito horas de pé, é o emigrante que se foi embora ganhar a vida. Coragem não é precisar de escolta para ir comprar pão.
Segundo, as "verdades". E aqui a coisa é séria, porque não sou eu que o digo. Um estudo da Universidade da Beira Interior concluiu que o Ventura foi, sozinho, responsável por 82% de toda a desinformação das últimas presidenciais. Oitenta e dois por cento. E não é só a UBI, são vários observatórios de comunicação, é o Polígrafo com uma lista de mentiras dele do tamanho de uma lista telefónica, são até entidades internacionais que já apontaram Portugal como um dos casos a vigiar, e sempre com o mesmo nome no centro do furacão. De cada dez mentiras que circulam, mais de oito têm a mesma assinatura. O homem não é político, é uma fábrica. Se a mentira pagasse imposto, o Ventura sozinho punha as contas do país no verde.
Terceiro, a "liberdade". Este senhor grita "liberdade" o dia todo, mas lidera um partido que funciona com uma cabeça só, a dele. É como aquelas casas onde só manda um e mais ninguém abre a boca. Quem discorda do chefe, bate com a porta ou é posto na rua. Liberdade, na casa do Ventura, é como o Wi-Fi dos vizinhos, vê-se, mas não se apanha.
Mas agora a joia da coroa, a parte que mostra ao vivo o dois pesos e duas medidas desta gente. Ainda não há um ano, o menino-prodígio do Ventura em Oeiras, o Pedro Frazão, pegou no telemóvel, fez a sua melhor cara de escandalizado, apontou para um poste com um cartaz do adversário e proclamou: "Hoje Oeiras acordou com esta pouca vergonha aqui". Pouca vergonha! Um cartaz num poste! Chamou-lhe ilegalidade, má-fé, quase um crime contra a nação. Faltou pedir prisão preventiva para o cartaz.
Pois guardem essa cena. Porque uns meses depois, o que faz o líder supremo? Vai para a rua, e cola, com as próprias mãozinhas, autocolantes num sinal de trânsito. E filma. E publica. Todo orgulhoso, como quem descobriu a pólvora. Ou seja, quando é o adversário, é "pouca vergonha". Quando é o chefe, é "campanha genial". A régua, no Chega, muda de tamanho conforme a mão que a segura. E fico curioso, será que o Frazão também acha "pouca vergonha" o que o patrão foi fazer? Aguardo, sentado, o vídeo de indignação do Frazão contra o Frazão. Mas duvido que saia, que a coragem, nesta gente, pede sempre licença ao chefe primeiro.
E já agora, uma palavrinha sobre os famosos videozinhos dele. Aquilo é de uma infantilidade atroz. Um homem que se quer primeiro-ministro a fazer vídeos a colar papelinhos em postes, com uma seriedade de miúdo de escola primária a mostrar o desenho à professora. É ridículo. É de bibelô de feira, daqueles que se compram a três euros e se partem no caminho para casa.
E agora o mais importante, e falo a sério. Nestes dias, o Ventura publicou o vídeo de um assalto a um cabeleireiro, com uma legenda a dizer que "os portugueses não podem ser obrigados a viver com esta nova realidade". Nova. Reparem na palavra. Como se o crime tivesse nascido ontem, com ele. Pois deixem-me dizer uma verdade simples, o crime não é novo. Houve assaltos nos anos 80, nos anos 90, houve sempre. E digo-vos mais, se o Ventura fosse primeiro-ministro, aquele assalto tinha acontecido na mesma. Porque não há, em lado nenhum do mundo, um país sem crime. O crime combate-se com mais polícia e mais justiça, a sério, não com um vídeo e uma legenda a fingir que se descobriu o problema e tentando dar a entender que só existe crime porque são outros que governam, isto é só ridículo e uma explicação para totós, mais um atestado de estupidez passado aos portugueses com a assinatura do boneco Ventura.
Mas o Ventura não quer combater o crime. Ele precisa do crime, como o vampiro precisa de sangue. Se o crime acabasse amanhã, ele ficava sem discurso, sem palco, sem negócio. Por isso é que não vos mostra o crime para o resolver. Mostra-vo-lo para vos assustar, e depois vender-se como o salvador. É a vigarice mais velha do mundo, primeiro mete-se o medo, depois vende-se o remédio.
E é por isso que eu nunca farei o que esta gente faz. Nunca me vão ver a agarrar num crime terrível e a atirar a culpa ao presidente da câmara do sítio onde aconteceu, como eles fazem, exceto, curiosamente, quando o autarca é do próprio Chega, aí já ninguém tem culpa de nada. Um presidente de câmara não é responsável pelo crime de um criminoso, tal como o Ventura, fosse primeiro-ministro, não seria responsável por cada assalto do país. Isto qualquer pessoa de bom senso percebe. Mas o bom senso, nesta gente, anda tão em falta como a coragem e a verdade.
Resumindo a personagem, um corajoso com seguranças, um campeão da verdade que é campeão nacional da mentira, um apaixonado pela liberdade que não deixa ninguém ao lado ter opinião, e um combatente do crime que precisa do crime para viver. Se isto fosse uma novela, ninguém acreditava. Mas é a vida real.
Pensem pela vossa própria cabeça. Sempre. Que no Chega, essa vaga já está preenchida, e é sempre a mesma.
Ricardo Lima

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