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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

RÚSSIA TEM O DIREITO DE DEFENDER AS RAZÕES DA SUA HISTÓRIA:

Se o Ocidente captura navios russos, a Rússia pode capturar navios ocidentais
Uma notícia aparentemente limitada - neste caso, a intenção da Rússia responder à apreensão de navios comerciais russos com a apreensão de navios europeus - revela algo muito maior sobre o mundo em que estamos a entrar.
A declaração de Putin, feita ontem, foi clara: se países europeus avançarem com a apreensão de embarcações comerciais russas, Moscovo responderá “na mesma moeda”, onde considerar necessário. Para a Rússia as ações ocidentais são “pirataria” e “roubo”. A reação do ocidente foi imediata: “Putin ameaça a Europa.”
Mas talvez devêssemos começar por outra pergunta: O que levou Putin a anunciar essa resposta? Porque uma análise que começa pela ameaça russa e apaga tudo aquilo que a antecedeu não é uma análise completa. É apenas a continuação de uma narrativa.
A questão não começou nos navios
A chamada "shadow fleet" tornou-se um dos instrumentos utilizados pelo Ocidente para pressionar o comércio russo de petróleo e outros produtos sujeitos a sanções. Nos últimos meses, aumentaram as operações contra navios que os governos ocidentais consideram ligados a esse circuito. A Ucrânia também intensificou ataques contra embarcações associadas à chamada frota-sombra.
O Ocidente apresenta essas operações como aplicação de sanções. Moscovo apresenta-as como apreensão ilegal de bens russos. E é aqui que começa o problema. Porque, independentemente da designação jurídica que cada lado utiliza, existe uma realidade política que não pode ser apagada: quando um Estado começa a utilizar a força para impedir ou apreender o comércio marítimo do adversário, o outro Estado pode considerar que entrou em vigor uma nova regra de confronto.
E Putin acaba de dizer precisamente isso: se essa regra vale para a Rússia, valerá também para quem a aplica contra a Rússia. “Na mesma moeda”.
É uma frase que incomoda o ocidente. Mas é precisamente por isso que deve ser analisada. E também não aceito que se transforme automaticamente toda a ação ocidental em “aplicação legítima das sanções” e toda a eventual resposta russa em “pirataria”. Porque então já não estamos a discutir regras. Estamos a discutir quem tem força suficiente para impor a sua interpretação das regras. E esse é um problema muito maior.
Se Londres, Roma, Paris ou qualquer outro Estado entendem que têm legitimidade para abordar ou deter um navio ligado ao comércio russo, Moscovo pode responder: “Então também nós temos o direito de atingir os vossos interesses marítimos.”
A partir daí, instala-se a lógica da reciprocidade. E a reciprocidade, quando aplicada à navegação comercial, pode incendiar uma parte essencial da economia mundial.
Mas por que razão a Rússia chegou aqui? É impossível compreender esta atitude se começarmos a história em 24 de fevereiro de 2022. A Rússia não acordou nesse dia e descobriu subitamente que tinha um problema com o Ocidente. Há histórias anteriores:
- Há as garantias políticas dadas aos dirigentes soviéticos no final da Guerra Fria sobre a expansão da NATO.
- Há a transformação radical da Rússia depois do desaparecimento da União Soviética.
- Há a tentativa, durante os primeiros anos de Putin, de estabelecer uma relação cooperativa com o Ocidente.
- Há a própria possibilidade então admitida de uma aproximação à NATO.
- Há a criação do Conselho NATO-Rússia.
- Há a expansão posterior da Aliança.
- Há o conflito do Donbass.
- Há Minsk.
- Há as declarações posteriores de dirigentes ocidentais sobre o papel que Minsk desempenhou no ganho de tempo para o reforço militar ucraniano.
- Há as negociações de 2022.
- Há o fracasso da diplomacia.
E depois vêm as sanções, o congelamento de ativos, a guerra económica e, agora, a disputa cada vez mais direta sobre os navios.
Não é preciso aceitar a interpretação de Moscovo de todos estes acontecimentos para reconhecer uma coisa: a Rússia construiu uma memória política de promessas quebradas, compromissos abandonados e regras aplicadas seletivamente. E um país que chega a essa conclusão passa inevitavelmente a procurar mecanismos de resposta.
A Rússia não é a União Soviética
Há outra coisa que o Ocidente parece ter dificuldade em compreender. A União Soviética desapareceu. O Pacto de Varsóvia desapareceu. A economia soviética desapareceu. O Partido Comunista deixou de dirigir o Estado. A Rússia mudou radicalmente a sua estrutura económica, política e ideológica. E, durante algum tempo, Moscovo chegou mesmo a imaginar uma aproximação profunda ao Ocidente.
Putin admitiu em 2000 que não excluía uma futura integração russa na NATO. O então secretário-geral da Aliança, George Robertson, confirmou que essa possibilidade era discutida, embora não estivesse formalmente na agenda. Em 2002, NATO e Rússia criaram o Conselho NATO-Rússia. Havia, portanto, uma alternativa histórica.
A Rússia podia ter sido integrada numa nova arquitectura de segurança europeia.
Mas essa oportunidade foi desaparecendo. E hoje temos exatamente o contrário: Rússia e Ocidente cada vez mais próximos de uma confrontação direta. E o resultado foi uma Rússia empurrada para a Ásia
É impossível ignorar a consequência estratégica. Ao afastar a Rússia, o Ocidente contribuiu para aproximá-la da China, da Índia e de outras potências do chamado Sul Global. Não significa que Pequim e Moscovo tenham os mesmos interesses em tudo. Não têm. Mas a pressão ocidental criou incentivos poderosos para que Moscovo diversificasse comércio, moeda, energia, tecnologia e relações diplomáticas. E o mundo que daí resulta é muito diferente daquele que existiria se a Rússia tivesse sido integrada numa arquitetura de segurança comum com a Europa e os Estados Unidos.
- Talvez a China continuasse a ser a segunda economia mundial. - Talvez chegasse à primeira posição. Mas a sua ascensão teria ocorrido num contexto estratégico diferente.
- Talvez Washington tivesse encontrado maior capacidade para dialogar simultaneamente com Moscovo e Pequim.
- Talvez a relação entre Rússia, Índia e China tivesse assumido outra configuração.
- Talvez o Médio Oriente tivesse sido diferente.
- Talvez as intervenções militares ocidentais tivessem encontrado mais resistência dentro de uma estrutura de segurança comum.
- E talvez a Ucrânia pudesse ter desempenhado o papel de ponte entre a Europa e a Rússia em vez de se transformar numa das principais linhas de fractura do planeta.
Não podemos provar esses “talvez”. Mas podemos reconhecer que essas alternativas existiram.
E agora há Taiwan
É aqui que a questão dos navios ultrapassa definitivamente a Rússia. O mundo está a assistir a uma crescente militarização do problema de Taiwan. Esta semana, Taiwan realizou exercícios que simularam bloqueios, ataques e interrupções de comunicações, enquanto a China continua a exercer pressão militar em torno da ilha.
Não significa que uma guerra seja inevitável. Mas seria irresponsável ignorar a possibilidade. E se a China decidir, um dia, que chegou o momento de resolver definitivamente a questão de Taiwan - que mundo encontrará? Um mundo em que Rússia, China, Irão e uma parte significativa do Sul Global já aprenderam a funcionar fora dos mecanismos económicos dominados pelo Ocidente? Ou um mundo em que ainda será possível negociar?
Essa é uma questão que deveria preocupar muito mais os governos ocidentais. Porque cada sanção, cada bloqueio, cada apreensão e cada acto de retaliação contribui para uma transformação estrutural: o mundo está a deixar de ser economicamente integrado e politicamente dominado por um único centro. E isso pode não ser necessariamente mau. Mas pode ser extremamente perigoso se a transição for feita através da confrontação.
O perigo da lógica “vocês fazem, nós fazemos”
É aqui que volto aos navios. A Rússia diz: “Se vocês apreendem os nossos navios, nós apreendemos os vossos.”. O Ocidente responde: “Isso é pirataria.”. Moscovo responde: “E o que vocês fizeram?” E assim se destrói uma regra fundamental das relações internacionais: a ideia de que existem limites que todos devem respeitar.
Porque se cada lado considera legítimo fazer ao outro aquilo que condena quando é feito contra si, a lei internacional transforma-se progressivamente numa arma política e deixa de funcionar como limite à política de poder.
Hoje são navios. Amanhã podem ser cargas. Depois podem ser portos. Depois seguros marítimos. Depois rotas comerciais. E finalmente países inteiros podem começar a organizar o seu comércio não em função da eficiência económica, mas em função de quem é amigo e quem é inimigo. Foi assim que se construíram os blocos. E é precisamente essa lógica que deveríamos estar a tentar superar.
A Rússia tem o direito de defender a sua história
Defender o direito da Rússia de apresentar a sua interpretação histórica não significa defender tudo o que a Rússia fez. Significa reconhecer-lhe aquilo que também reconhecemos a qualquer outro Estado: o direito de explicar as suas razões, os seus receios, as suas memórias e os seus interesses. E significa igualmente exigir que o Ocidente faça aquilo que tantas vezes exige dos outros: olhar para os seus próprios actos.
Não existe diplomacia quando uma parte é permanentemente transformada em culpada e a outra em juiz. Não existe equilíbrio quando as regras são universais apenas para alguns. E não existe paz quando cada nova medida de pressão produz uma nova retaliação.
Talvez ainda haja tempo
A ameaça da Rússia deveria ser encarada com seriedade. Não porque a Rússia tenha de ser tratada como uma potência acima do direito. Mas precisamente porque uma potência nuclear que anuncia uma política de reciprocidade perante apreensões de navios não pode ser tratada apenas como mais uma notícia do dia.
O Ocidente deveria perguntar-se se quer realmente continuar a subir esta escada. Porque pode chegar um momento em que ninguém consiga descer sem perder a face. E talvez a verdadeira pergunta não seja: “Pode a Rússia apreender navios ocidentais?” A pergunta deveria ser: “Queremos chegar ao mundo em que Rússia, Europa, Estados Unidos e China passam a considerar normal apreender os navios uns dos outros?”
Se a resposta for não, então ainda existe uma alternativa. Diplomacia. Mas diplomacia verdadeira exige uma coisa que parece cada vez mais rara: reconhecer que a história não começa quando nós decidimos começar a contá-la. E talvez seja essa a maior razão para a Rússia ter o direito de defender as razões da sua história: não para que lhe seja dada razão em tudo, mas para que o mundo possa finalmente ouvir a totalidade da história antes de decidir quem tem razão.

João Gomes

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